quinta-feira, 14 de outubro de 2010

"SOU FEIA MAS TÔ NA MODA" APOSTA NA COSMÉTICA DA FOME


ORGULHO DE SER POBRE - Documentário trabalha o mito da "periferia legal" num discurso "engajado".

Ivana Bentes, anos atrás, fez até um texto interessante criticando o mito da "periferia legal", mas cometeu o erro de não creditar o documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denise Garcia, nessa abordagem estereotipada do povo da periferia.

Grande erro, porque o documentário, lançado há cinco anos, ao falar sobre o "funk carioca", está fatalmente abordando uma visão estereotipada do povo pobre.

É uma visão ao mesmo tempo paternalista, etnocêntrica, elitista. A visão da "periferia legal", do "orgulho de ser pobre", da "cosmética da fome", da glamurização da miséria, mesmo dentro de uma roupagem "engajada" e supostamente batalhadora.

O único mérito do documentário, na verdade, não é mostrar o "verdadeiro valor" das funqueiras ali apresentadas, mas apenas na habilidade discursiva de Denise Garcia, que trabalhou um tema ligado à mass culture como se fosse um "ativismo sócio-cultural". Denise também goza de uma reputação positiva dentro dos meios intelectuais.

Portanto, o documentário convence não pela sua intenção em valorizar o "funk", que aliás não tem valor algum e nenhuma serventia cultural nem artística, mas tão somente de criar uma narrativa intelectualizante, que pega todos de surpresa.

Denise não chega a ser cínica como Paulo César Araújo, apesar da campanha discursiva do "funk carioca" e do "brega de raiz" ser praticamente a mesma, apostando na desculpa do "preconceito" para fazer prevalecer tais tendências, e apesar dos funqueiros em geral serem netos mais "atrevidos" do vovô Waldick Soriano.

É porque Denise Garcia não tem o cinismo panfletário de Araújo, ela age em boa-fé como Hermano Vianna, por exemplo. É sua visão etnocêntrica e seu método acadêmico de trabalhar um documentário que se tornam o diferencial de Sou Feia Mas Tô Na Moda.

O documentário junta linguagem da História das Mentalidades (abordagem histórica que privilegia personagens anônimos ou humildes) com a narrativa do new journalism (reportagem com linguagem literária), o que traveste seu real propósito, que é o de fazer uma mera propaganda do "funk carioca".

Portanto, o documentário não é para ser levado a sério. Uma de suas maiores estrelas, Tati Quebra-Barraco, já não consegue fazer um novo hit, e, neste caso, o propósito maior, comum a Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo, não se realizou, que é o de promover a reabilitação de ídolos brega-popularescos (sejam os bregas da geração Waldick/Odair/Amado, sejam os/as MC's, DJs e dançarinas de "funk carioca").

Apenas se expôs o "mau gosto" na tentativa de fazê-lo palatável. A intelectualidade, aparentemente, adorou o documentário de Denise Garcia.

Mas, no fundo, apenas adorou a narrativa feita pelo filme, mas ninguém saiu do cinema para ir ao "baile funk" como quem vai a um festival de Bossa Nova.

Apenas saíram do cinema prometendo não mais falar mal do "funk carioca". E decidiram mudar completamente de assunto.