terça-feira, 12 de outubro de 2010

MPB AUTÊNTICA PARA CRIANÇAS


SALTIMBANCOS - Embora inspirada numa peça italiana que por sua vez se baseou num conto dos irmãos Grimm, a adaptação por Chico Buarque esbanja brasilidade.

Num contexto de crise de valores, a chamada "música infantil" vive uma situação delicada, sobretudo quando tendências grotescas do brega-popularesco, como o porno-pagode e o "funk carioca", são expostos à criançada sob o consentimento irresponsável de certos pais e mães.

Sabemos que o comercialismo da chamada "música infantil", na verdade uma música de adultos gravada por crianças, lançado pelo fenômeno Turma do Balão Mágico e depois pelo Trem da Alegria - com a ressalva de alguns antigos ídolos mirins, como Jairzinho Oliveira e Patrícia Marx, hoje integrarem a MPB autêntica, com repertórios autorais - , mas agravado pelo Xou da Xuxa, complicou bastante a formação da criançada nos anos 80.

Se a minha geração - sou nascido em 1971 - não é de todo perfeita, mas pelo menos tinha Vila Sésamo como formação midiática, imagine quem nasceu no Brasil depois de 1978, entregue, salvo honrosas exceções, ao comercialismo furioso de Xuxa que apresentou a música brega-popularesca para as crianças.

Eu, pessoalmente, não consumi música infantil. A música que eu ouvia era do rádio que meus pais ouviam. Escutei MPB autêntica e peguei até Wilson Simonal, sobretudo "Meu Limão, Meu Limoeiro". Ivan Lins, Gilberto Gil (sobretudo "Refazenda"), Chico Buarque (sobretudo "Meu Caro Amigo") e o então novato Djavan ("Flor de Liz"), além de Renato Teixeira na voz de Elis Regina ("Romaria"), Caetano Veloso, Gal Costa, etc.

Quando cheguei a conhecer os Saltimbancos e "O Circo", música de Sidney Miller gravada por Nara Leão, já tinha entre sete e nove anos. Com o fim do AI-5, artistas de MPB autêntica começaram a se preocupar com a formação educacional das crianças, através da música.

Chico Buarque adaptou Saltimbancos de uma peça italiana que por sua vez se inspirou num conto dos irmãos Grimm. E a peça, nas mãos de Chico, ganhou uma linguagem bem brasileira. O amigo de Chico, Vinícius de Moraes, fez Arca de Noé, outro disco infantil de MPB.

E, no underground, temos como destaque a niteroiense Bia Bedran e o grupo paulista Rumo (que chegou a ser tocado na Fluminense FM), este integrante do cenário da casa Lira Paulistana, que teve Arrigo Barnabé e o falecido Itamar Assumpção como principais ativistas.

A MPB para crianças segue a mesma psicologia educativa de Vila Sésamo, este uma boa adaptação do estadunidense Sesame Street. Tanto na versão de 1972-1975 à qual assisti na minha infância, quanto à versão atual que vejo sempre quando posso.

Era uma intelectualidade boa, que não sofria a tentação da cafonice "provocativa", que por sinal era claramente difundida pelo PiG naqueles anos de chumbo. Era um projeto de ensinar as crianças a ter valores sociais positivos, a cultivar o conhecimento crítico e abrangente, a contemplar a beleza da vida, da arte, a usar o divertimento como meio de crescimento humano.

Pena que a MPB autêntica para crianças não se tornou dominante. Por culpa de muitos pais que se submeteram ao ritmo neurótico do mercado de trabalho, no fim dos anos 80. A maioria das crianças foi entregue a babás e domésticas mais infantis que seus tutelados, e isso provocou uma má formação, criando jovens abastados que hoje só vão para noitadas (vício cultivado já nas festinhas infantis organizadas pelos pais todos os sábados e alguns domingos e feriados) e curtem todo o lixo brega-popularesco, do mais rasteiro "funk" ao mais pretensioso "sertanejo universitário".

O projeto MPB nas Escolas poderá ser uma luz no fim do túnel. Não porque vai deixar de cortejar o brega-popularesco, que estará presente no seu programa de ensino. Mas porque vai abrir as mentes dos alunos que, estes sim, farão uma comparação com a MPB autêntica do passado e o império brega-popularesco que eles ouvem nas rádios, e inevitavelmente escolherão aquilo que é melhor e lhes dá mais prazer, que é a MPB autêntica, por sua força artística genuína, sua sinceridade e sua criatividade, em oposição ao superficialismo tendencioso dos ídolos brega-popularescos.

A FARSA DA "MÚSICA INFANTIL" DE XUXA E SIMILARES



Lamentáveis anos 80 em que a politicagem brasileira moldou as bases do entretenimento popularesco que impediram com que a redemocratização fugisse do controle das elites.

O machismo brecou o avanço das conquistas femininas.

A direita evitou que a redemocratização promovesse a curto prazo uma neo-janguização da sociedade brasileira.

A mídia criou uma ideologia popularesca que domesticasse o povo pobre.

A intelectualidade era tomada de pelegos fisiologistas que mantiveram as mesmas lições tecnocráticas dos tempos da ditadura, e que, por outro lado, procuravam atrapalhar o quanto podiam nas pesquisas sociais de diversas matizes.

Para a criançada, afastavam-se as lições de Vila Sésamo e a fantasia lobatiana do Sítio do Picapau Amarelo, para empurrar os infantes à Fantástica Fábrica de Chocolates do Xou da Xuxa.

Woompa-woompa-woompa-dee-doo! A gaúcha de corpão sedutor vinha antecipar a adolescência para a criançada promovendo o consumismo vazio em vez de ensinar valores sociais relevantes.

A criançada era exposta à sensualidade precipitada. Não que as crianças não tivessem sensações de sexualidade. Tem, sim. Eu mesmo me lembro que tinha, nos anos 7o. Mas, por ela ser delicada e em formação, a exploração da mesma pela mídia se torna muito perigosa.

Afinal, Xuxa preparou a criançada para coisas piores. Preparou para o fenômeno pornográfico do É O Tchan, também exposto para quem era criança nos anos 90. E, na década seguinte, para coisas mais grotescas ainda, como o "funk carioca".

Mas, para quem era criança entre 1986 e 1990, Xuxa já fez seus estragos. Criou uma multidão de marmanjos e moçoilas que, atualmente, exibem sua burrice, arrogância e alienação de forma tão hipócrita, esquizofrênica mas convicta, que os fazem se achar "inteligentes" por nada.

Essa geração, em sua maioria, consome música brega-popularesca, não se dispõe a ler livros, frequenta de forma obsessiva as noitadas, não tem uma visão coerente do mundo, e só embarcam em qualquer causa vanguardista por puro oportunismo.

Com isso, se fazem de esquerdistas, mas expressam valores de direita.

Se fazem de humanistas, mas expressam valores fascistas.

Usam uma retórica cheia de clichês libertários e altruístas, mas adotam posturas sociais autoritárias e egoístas.

São pessoas alegres e espirituosas, quando todo mundo concorda com elas.

Mas, quando alguém discorda, essas pessoas reagem com fúria e sarcasmo violento, às vezes com chantagens ou represálias.

Se acham diferentes, mas são sempre iguais em sua mesmice orquestrada pela grande mídia.

Se acham alternativos, mas sentem obsessão doentia para o mundo do "só sucesso".

Se enchem de gírias, de tatuagens, de roupas arrojadas, cabelos pintados etcetera, para disfarçar as personalidades retrógradas que são.

Nem todo mundo tornou-se como eles. Houve crianças nos anos 80 que eram desviadas pelos pais da influência nociva do Xou da Xuxa.

A própria Xuxa só tardiamente tentou "se corrigir", só porque sua filha nasceu.

Aí tentou fazer programas "educativos", que não deram certo.

De repente, foi um ícone popularesco que primeiro se desgastou, num efeito dominó que deve atingir ídolos posteriores. Mas que a Rede Globo tenta salvar.

Isso depois que os estragos foram feitos.

A criançada dos anos 80, em sua maioria, não teve infância.

Teve uma adolescência antecipada que, até agora, continua, já na condição de retardada.

As festinhas infantis de todo sábado se converteram na obsessão pelas boates.

Festas que perdem a graça de tão rotineiras.

Mas esse pessoal respira mesmice. Procura o prazer que foge deles. Procura o sentido da vida, sem sentir.

E quando a desilusão vem e seus acessos de raiva passam, os "filhos" do Xou da Xuxa, hoje, só encontram o tédio e a depressão. A companhia que eles quiseram ter por trás das emoções baratas.

EUGÊNIO ARANTES RAGGI NA REVISTA VEJA



O que faz um professor reacionário, sócio não-assumido do Partido da Imprensa Golpista, com discurso igualzinho ao dos pitbulls de Veja, quando interesses corporativos estão em jogo.

Um cara desses que esculhamba o socialismo e qualquer política de esquerda, agora falar macio em relação ao petismo.

Pois o professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, espécie de Joaquim Silvério dos Reis da blogosfera progressista, defensor dos mesmos "artistas de sucesso" que aparecem no Domingão do Faustão e usuário do portal Globo Esporte.Com - talvez uma forma dele transmitir aos amigos do PiG o que os progressistas andam pensando - , aparece aqui numa provável capa de Veja a respeito de sua postura aparentemente dúbia.

É lamentável. Sabemos que um direitista como Eugênio Raggi deveria se assumir como tal, em vez de tirar onda de esquerdista, porque isso só lhe trará problemas sérios no futuro.