segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O CONSERVADORISMO POLÍTICO AINDA RESISTE


MARINA SILVA (ao lado de José Serra) - A terceira via eleitoral, integrante de um partido que, de repente, se simpatizou com o PSDB.

A "onda verde" de Marina Silva, que conquistou 18 milhões de votos, surpreendeu aqueles que viam como certa a vitória petista já no primeiro turno.

É certo que a polarização entre o PT e o PSDB ameaçava transformar a política brasileira num bipartidarismo mal-disfarçado, mas a verdade é que a hipótese do segundo turno pegou de surpresa até para aqueles que julgavam José Serra um "cachorro morto", quando ele, na verdade, era apenas um "leão ferido".

De fato, ele apareceu em desvantagem, mas Dilma também não conseguiu a sonhada vantagem para evitar o segundo turno eleitoral. Os escândalos dos dois lados, o de Verônica Serra (filha do tucano) e Erenice Guerra (sucessora de Dilma na pasta da Casa Civil), banalizaram a disputa e entediaram o eleitorado.

Mas o que se vê também é que a sociedade conservadora ainda conta com um eleitorado forte. É o eleitorado que se diz despolitizado, mas vota com os conservadores. São os adeptos da tecnocracia busóloga, do entretenimento brega-popularesco, da liberação das drogas, do "rock farofa", das taxas de matrícula nas universidades públicas, da supremacia da burocracia intelectual, do machismo pós-moderno, todos eles se fingindo esquerdistas ou se julgando acima de quaisquer ideologias. Mas, na hora do aperto, correm para o lado dos conservadores. Isso vale tanto para Jaime Lerner quanto para Marcelo Madureira, tanto para Fernando Gabeira quanto para Pedro Alexandre Sanches, só para dizer exemplos.

Valores conservadores diversos, mas reciclados e adaptados, como a intervenção "amorosa" do machismo na emancipação da mulher, quando as mulheres dotadas de inteligência e personalidade marcante se casam quase sempre com homens dotados de força física ou poder econômico, são adotados.

A própria base direitista do governo petista - formada pelo PMDB, PR, PP e mesmo por direitistas enrustidos inseridos no PSB, PDT e PTB (apesar deste ter passado a apoiar a chapa tucana recentemente) - também dá o tom da base conservadora que faz o Brasil recorrer ao mesmo vício que vemos há 200 anos: de querer modernizar-se nas bases apodrecidas do atraso, das ordens dominantes vigentes, como foi o caso do Primeiro Império erguido sob as bases do Brasil colonial, ou mesmo a redemocratização de 1985 orquestrada pelas mesmas forças civis que lutaram pela queda de João Goulart e sustentaram a ditadura militar.

A própria situação política está complexa. O PT respaldado pelo PMDB, PRB e PP. O PSDB respaldado pelo PV, PPS e PTB. E Marina Silva atraindo desde os conservadores enrustidos que têm medo de votar em Serra, até os esquerdistas desiludidos que não confiavam no perfil de Dilma Rousseff, que na prática tomou emprestado o carisma do presidente Lula.

Com tudo isso, temos mais um mês de campanha eleitoral. As alianças se costurarão. O Brasil conservador e retrógrado, que defende um país asséptico onde os criminosos passionais são menos criminosos que os pacíficos agricultores sem-terra, os ônibus têm pintura uniformizada, o povo pobre só pode se expressar pela cafonice cultural e só as popozudas é que podem ficar solteiras, esse Brasil defendido por militares de extrema-direita, tecnocratas, economistas neoliberais e ideólogos da "moral e dos bons costumes", terá que agir para sobreviver.

Esse Brasil conservador e retrógrado, que aprendeu a se comportar como um camaleão desde os primórdios da Era Lula, promovendo seus valores, preceitos e procedimentos como se fossem "acima das ideologias", pode continuar seu teatrinho pseudo-esquerdista ou pseudo-ecumênico.

As forças retrógradas que querem um Brasil conformista, tecnocrático mas socialmente excludente (a "inclusão social" que defendem limita o povo ao consumo e ao entretenimento, sem dar-lhe real qualidade de vida), podem mais uma vez posarem de "modernas", com seus argumentos confusos, apelativos, persuasivos ou mesmo ofensivos.

Convém ficarmos de olhos bem abertos contra essas raposas com pele de ovelhas que se aproveitarão dos novos contextos da corrida eleitoral.

NÃO MINTA, NÃO, EUGÊNIO RAGGI!!




Você não é esquerdista, Eugênio Raggi! Nem de centro-esquerda, nem de centro. Você é de direita, seu estilo reacionário diz muito bem disso!!

Lembra daquelas mensagens agressivas que você dirigiu contra mim, no fórum Samba & Choro, reproduzidas com detalhes neste blog?

Você só faltou chamar Che Guevara de carne podre, tamanha a sua ojeriza anti-socialista, postura que você expressou com muita clareza, não é?

Não me venha dizer que votou em Dilma, só para agradar seus amiguinhos. Você votou em Serra, mas isso poderia lhe afastar das rodas dos botequins de Belo Horizonte, né?

Como também não adianta falar mal da Rede Globo, que tanto divulga seus idolozinhos do pagode mauricinho, dando a eles todo o seu espaço.

Você fala a língua do PiG e luta por ele fazendo tocaia na trincheira adversária.

Você bajula Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif e outros como um Joaquim Silvério dos Reis da blogosfera progressista. Mas, no fundo, você trabalha contra todos eles.

Mas depois corre feliz para os fóruns do Globo Esporte fazendo o dever de casa em favor do Galvão Bueno.

Mentir é coisa feia, você escreve como se fosse um colunista de Veja metido a pesquisador cultural. Parece o Reinaldo Azevedo querendo imitar (mal) o Tinhorão! Quer ser progressista assim? Impossível!

Seus textinhos esquentadinhos, mas longos e tediosos de se ler de tão pesados e confusos, seu claro reacionarismo, na verdade, mostram que você é um DEMOTUCANO de carterinha.

O problema é que talvez você queira agradar alguns amigos que possam lhe conceder alguma vantagem. Ou será que você arrumou bico numa assessoria petista, em troca de alguns trocados a mais?

Não dá para ser progressista com uma personalidade tão reacionária, "professor". De que adianta ser um destacado professor mineiro na Internet se não aprende a maior lição de todas, a lição da humildade, porque sua fama de arrogante já repercute muito mal contra você. E não é só de minha parte, não. Muita gente já fala, ironizando: "Xi, lá vem o professor...".

Sabemos que, na hora H, você vai trair seus amigos progressistas e virar reaça de vez. Este filme já vimos muitas vezes, há muito tempo. Você diz atacar o PiG, mas faz o jogo dele. Você diz "esquerdista", mas se comporta como um direitista paranóico.

Pare de mentir, Eugênio Arantes Raggi, porque você está dando mau exemplo para seus alunos.

Está na cara que você fala a língua de José Serra e ACM Neto, dos irmãos Marinho, da turma vejista e de Otávio Frias Filho. E, sobretudo, você fala a língua do Instituto Millenium, no fundo o seu instituto favorito. Você é da pátria demotucana. Mentira tem perna curta, viu?

O MEDO DA EXPLOSÃO DE UMA REVOLTA POPULAR



Por que a defesa tão convicta de intelectuais às tendências caricatas, apátridas e domesticadas da "cultura" brega-popularesca?

Por que essa verdadeira cosmética da fome, que envolve até mesmo a suposta "militância" do "funk carioca" e do tecnobrega, não é contestada totalmente pela nossa intelligentzia?

É porque até eles estão com medo.

Medo de uma revolta popular sem precedentes acontecer no país.

Medo de várias revoltas, como as do tempo do Império, eclodirem nas várias partes do Brasil.

Por isso revolta boa, para essa intelectualidade, é só aquela ocorrida à distância, seja nos Andes ou em Israel, seja na Indonésia ou em Davos.

Embora a revolta popular, no Brasil, possa ser canalizada pela lei e pela representatividade parlamentar, o povo tem que ficar quieto no seu "rebolation", "pancadão" e "tecnomelody".

O povo pobre que vá se divertir na micareta, nas vaquejadas, no "baile funk", nas "aparelhagens", ou até mesmo na "plateia global" do Domingão do Faustão.

O povo não se manifeste. Espere os outros fazerem por eles.

O povo vá ler imprensa populista, ver telejornais policialescos, cultuar popozudas, se ocupar no futebol.

E, quando fizer música, que não faça mais sambas autênticos nem baiões de verdade, nem qualquer outro ritmo de raiz nacional.

A antiga música popular está trancafiada nos museus, por conta da burocracia intelectualóide.

Pode deixar que o antropólogo de plantão, o sociólogo de temporada, o crítico musical da hora, vão dizer, das quatro paredes de seus condomínios, o que deve ser a cultura do povo pobre.

Veem a periferia nos documentários da TV paga, associam com os movimentos étnicos que viram em suas viagens em Londres e Nova York, e traçam sua visão de "cultura popular" a partir disso.

O povo é proibido de se manifestar.

Só pode se manifestar remexendo o traseirinho, rindo feito idiota.

O povo é proibido de fazer música de qualidade.

Só pode fazer música ruim, e, só depois de se enriquecer com tantas porcarias gravadas, é que ele terá algum lugarzinho no quarto de empregada dos medalhões da MPB.

A intelectualidade etnocêntrica acha que o povo é meio criança, meio animal selvagem.

Acham que o povo não está maduro para se expressar por si só.

Ou que o povo é selvagem demais para se expressar dentro das normas de civilidade.

A intelectualidade medrosa faz jogo de cena.

A intelectualidade medrosa tenta esconder seus preconceitos.

E prefere acusar os outros de preconceituosos.

Mas é essa intelectualidade que, preconceituosa, quer calar o povo.

E quer que que as manifestações sócio-políticas se restrinjam à política partidária no Legislativo.

A representatividade política, em si, não é errada. O errado é limitar o processo de lutas populares à atuação dos parlamentares.

Mas a intelectualidade, medrosa, quer que se limite a isso.

Tem medo de que exploda uma nova insurreição popular que tire o sono dos condôminos dos Jardins, do Morumbi, do Leblon e da Barra da Tijuca.

A intelectualidade etnocêntrica teme o povo culturalmente forte, não com seu pancadãozinho nem com seu tecnobreguinha aceito por cientistas sociais, mas com tambores, violas, sanfonas e outros instrumentos, com melodias e ritmos de verdade.

Teme que o povo, desse modo, também possa reivindicar mais coisas, mobilizar-se com mais força.

Aí a intelectualidade medrosa solta o alarme: deixa o povo com seu tecnobrega, seu "pancadão", seu "rebolation". "A maioria gosta", "É melhor assim", dizem, apavorados.

Afinal, isso movimenta um mercado já estabilizado. E a intelectualidade têm que fazer média com porteiros, faxineiros e empregadas.

Qualquer crítica e a plebe invade universidades, condomínios, bares e fecha avenidas, ruas, coloca barricadas, paralisa rodovias.

Mas, assim, a "maravilhosa" intelectualidade etnocêntrica, com seus totens vivos perambulando as cátedras acadêmicas ou bancadas de seminários, mostra seus preconceitos elitistas.

Sim, logo eles que se julgam "sem preconceitos", são os que mais têm preconceitos.

Mas Millôr Fernandes não é ouvido. Ele escreve para Veja. E é irmão de Hélio Fernandes, que herdou a Tribuna da Imprensa das mãos do temível Carlos Lacerda.

O ceticismo de Millôr com essa ideia de "preconceitos" e "sem preconceitos" o pôs à margem.

Legal é creditar o "rebolation" e o "tchan" como se fossem caleidoscópios concretisto-tropicalista-performático-bolivarianos.

Legal é fechar nossos olhos quando os tecnobregas aparecem felizes no Domingão do Faustão.

Legal é achar que os domesticados ídolos popularescos, expressão do mito da "periferia feliz", são audazes revoltosos das classes populares.

Afinal, lembremos, manifestações populares mesmo só "são boas" lá longe, na Cordilheira dos Andes, no Haiti, no Oriente Médio, África e outras plagas.

No Brasil, deixemos que o povo pobre só se manifeste rebolando, fazendo música ruim e rindo que nem pangaré em surtos histéricos.

Para o bem da manutenção das elites etnocêntricas.

Para o bem da burocracia político-partidária.

Para o bem do mercado e do circo midiático.

O povo continua sofrendo, mas prevalece a "paz sem voz" que a ninguém assusta. Mas que continua incomodando muita gente. Exceto as elites e a intelectualidade dona da visibilidade.