sábado, 18 de setembro de 2010

PROCURADORA QUER CALAR CARTA CAPITAL



A procuradora eleitoral Sandra Cureau moveu uma intimação contra a revista Carta Capital a pretexto da publicidade do governo federal publicada pelo semanário. O episódio não foi difundido pela mídia conservadora, afinal Carta Capital não é de sua laia. Mas a mídia golpista deve estar comemorando a perseguição contra uma concorrente tão incômoda aos privilegiados do poder político-midiático.

A madame Cureau quer averiguar a "influência eleitoral" da publicidade do governo federal na revista Carta Capital, nos mesmos moldes do que Carlos Lacerda, há 55 anos atrás, havia feito contra Samuel Wainer, acusado de ter recebido investimento do Banco do Brasil para seu jornal Última Hora.

É muito estranho por que essa denúncia envolve justamente Carta Capital. Conforme escreveu Brizola Neto, no seu blog Tijolaço, se a medida fosse adotada "em relação à Veja ou Folha de S.Paulo, por exemplo, todos os jornais estariam escrevendo editoriais, o instituto Millenium já teria convocado o Reinaldo Azevedo e o Jabor para bradarem contra censura e o totalitarismo no país e a Sociedade Interamericana de Imprensa alardearia o fato além das nossas fronteiras".

Mas a implicância com Carta Capital, cujo editor Mino Carta é um dos poucos jornalistas que fazem bom jornalismo sem depender de diploma (afinal, ele é de uma geração pioneira que unia produção de notícias com profissionalismo e compromissos éticos), chega até mesmo a contradizer com a situação durante o período FHC, quando justamente Carta Capital "pecava" por não fazer publicidade do Governo Federal.

Ou seja, a revista é perseguida numa época pelo que não foi feito, e hoje é perseguida pelo que foi feito. Pura implicância, se sabermos que outros veículos da grande mídia brasileira também fazem publicidade do Governo Federal, até mesmo a Rede Globo.

Paulo Henrique Amorim desafia a procuradora perguntando sobre o desconhecimento dela da publicidade que Veja, Folha, Estadão, Isto É e Época fizeram do governo paulista de José Serra.

A pressão da grande mídia e da chapa demotucana à Presidência da República indica o circo de baixarias do jogo político conservador. Não quer reconhecer o declínio de José Serra civilizada e pacientemente (afinal, ainda não estamos em 03 de outubro, a derrota tucana não foi oficialmente anunciada e o PiG já perdeu a cabeça completamente) e quis derrubar a ministra da Casa Civil. O que mostra a incapacidade dos demotucanos em discutir propostas e manter o jogo eleitoral na esportiva, mesmo estando em desvantagem.

E, insatisfeitos, usam o Legislativo para derrotar um atuante periódico semanal e silenciam-se sobre o caso. A mídia golpista, assim, mostra-se plenamente grotesca e anti-profissional. E, sobretudo, anti-democrática.

TELEVISÃO, 60 ANOS: UM DOENTE EM ESTADO GRAVE



Hoje a televisão brasileira faz 60 anos.

Era visto como uma loucura o projeto de Assis Chateaubriand criar uma emissora de televisão no Brasil. O mercado não aceitava, acreditava ser um mero delírio.

Mas a televisão foi instalada. A duras penas.

Veio padre Mojica abençoar as transmissões e sua programação, aos trancos e barrancos, se iniciava, transmitida em poucas horas, no horário nobre.

Programação 24 horas? Nem pensar. As limitações técnicas eram enormes, tanto que os erros de performance na dramaturgia e na publicidade eram grandes.

Mas, sem dúvida alguma, era uma televisão bem mais inteligente que hoje, apesar das facilidades do acesso à informação.

Os Diários Associados eram (e ainda são) um grupo empresarial conservador, mas em outros tempos até o conservadorismo direitista era mais decente.

O jornalismo de O Cruzeiro fazia suas picaretagens, mas até tais picaretagens eram bem feitas. David Nasser fazia arte com suas mentiras descaradas. Até o Amigo da Onça tinha medo dele.

Vieram outras emissoras de televisão, depois da TV Tupi paulista. A carioca TV Tupi era um ano mais nova. A TV Paulista surgiu em 1952, para depois morrer aos 14 anos de idade, engolida pelas Organizações Globo. E a TV Itapoan, dando um tempero de dendê na façanha dos Associados, surgiu em 1960.

Veio também a TV Excelsior em 1963, com seu projeto arrojado, a cara daquele projeto progressista e país, vigente desde a Era Kubitschek, mas abordado com a ditadura militar.

A TV Record, surgida em 1953, atingiu o auge com seus programas musicais na década de 60, entre 1965 e 1968, além dos seus festivais, incluindo o Festival da Canção de 1967, que rendeu documentário recente.

A televisão tinha excelentes musicais, quiz shows com perguntas sobre História e Filosofia, teleteatros, novelas mexicanas risíveis mas divertidas, transmissões de filmes enlatados e desenhos animados. E já produzia um seriado de excelente qualidade, o Vigilante Rodoviário, hoje uma preciosidade cult que ainda precisa recuperar vários episódios e lançar tudo em DVD de grande tiragem.

Eram outros tempos. Até Sérgio Porto, meio tímido, encarava (?!) de costas a televisão, mas dava conta do seu recado. Chico Anysio e seus personagens começavam a interagir na hoje tosca edição de videoteipe, a partir de 1960, mas a técnica era um avanço para aquela época. Jô Soares era um comediante promissor. E a turma que fazia humorismo no rádio também aproveitou para dar as caras na telinha.

A televisão era um luxo e tinha apenas poucos felizardos, que chegavam a alugar suas casas para que seus vizinhos assistissem à "caixinha" de imagens. Mas a transmissão frequentemente falhava e era em cores preto e branco. Uma das medidas era botar esponja de aço na antena para a transmissão não dar tantos problemas.

A televisão era feita ao vivo, até 1960. Veio o videoteipe, a partir de então, como dito acima. A qualidade da televisão era tosca, mas decente, inteligente. Mas, lamentavelmente, os estoques de sua programação sofreram incêndios, destruindo a maior parte do seu acervo. Por exemplo, não temos mais os primeiros programas apresentados por Wilson Simonal. E os registros da atuação de Leila Diniz nas novelas simplesmente desapareceram.

Veio a televisão a cores em 1972, com a transmissão da Festa da Uva, em Porto Alegre. Mas a maioria dos aparelhos usados pelo povo era em preto e branco. A televisão se popularizou, mas o golpe militar fez declinar sua qualidade. Com o AI-5, a televisão partiu rumo à cafonização. Que foi seguida como que por cartilha pela TV Tupi agonizante, pela TV Record enfraquecida e pela TV Bandeirantes em busca de sobrevivência. E, depois, por uma TV Studios que moldaria o comportamento domesticado do povo, tendência depois reforçada e "requintada" (ou requentada?) pela Rede Globo de Televisão.

Aliás, enquanto a TV Excelsior era destruída pela ditadura militar, a Rede Globo, lançada com a ajudinha da Time-Life, crescia e deturpava o projeto da TV Excelsior à mentalidade direitista, tal qual o sórdido Pimenta Neves fez com o projeto de Cláudio Abramo no jornal Folha da Tarde.

A televisão dos anos 50-60 tornou-se passado. Hoje impera a mentalidade viciada da televisão popularesca, supostamente "popular" e supostamente "moderna", com o espetáculo cínico da vulgaridade. Afinal, é a "ditabranda" do mau gosto. E ainda há gente feliz com esse circo da imbecilização brasileira.

GOLPE DE 1964 ATINGE TARDIAMENTE A BUSOLOGIA CARIOCA



Resíduos da ditadura militar estão em toda parte. Isso é fato. Até hoje, as feridas que o Brasil sofreu durante o período militar (1964-1985) não foram em todo resolvidas, e, em certos casos, se agrava seriamente.

É notório, por exemplo, que existe uma postura golpista, defendida abertamente pela chamada mídia gorda (grupos Abril, Globo, Estadão e Folha), e de forma sutil pela mídia fofa (Bandeirantes, Isto É, Diários Associados). Mas mesmo o entretenimento brega-popularesco também têm sua facção golpista, com pessoas como Olavo Bruno, Francielly Siqueira, Eugênio Raggi e até vários "anônimos" ou "heterônimos" defendendo os "sucessos do povão" (na verdade claramente patrocinados pelos grandes donos do poder político e econômico) com unhas e dentes, como verdadeiros "cães de guarda" das oligarquias que dominam o país.

Mas o golpismo existe mesmo até na busologia, e poucos conhecem o lado sombrio, bastante sombrio, do transporte coletivo de Curitiba.

Para começar, o arquiteto Jaime Lerner se formou na mesma UFPR que teve como reitor o temível Flávio Suplicy de Lacerda, que foi ministro da Educação no governo de Castelo Branco e que manifestou seu desejo de privatizar o ensino superior, além de criar uma entidade estudantil que, substituindo a UNE, seria na verdade manobrada pela ditadura militar. A gestão do ministro Suplicy de Lacerda provocou a revolta estudantil, em episódios que hoje se tornaram históricos, entre 1966 e 1968.

Jaime Lerner era filiado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e foi prefeito "biônico" de Curitiba, quando implantou seu padrão de transporte coletivo que hoje o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, impõe à cidade. "Biônico" era o apelido do qual os políticos nomeados pelo regime militar eram conhecidos. Era um sarro com o seriado O Homem de Seis Milhões de Dólares, em exibição na TV nos anos 70, cujo enredo girava em torno de um homem-biônico.

O projeto de Lerner, com todas as alegações que os tecnocratas do transporte carioca hoje fazem - "limpeza visual", "mais disciplina (sic) no transporte", "organização por serviço de linhas" etc - , é, com surpreendente exatidão, a mais fiel tradução, aplicada ao sistema de ônibus, do projeto político, econômico e técnico da ditadura militar.

DIVERSIDADE VISUAL É DEMOCRACIA, ATÉ NA HORA DA ACUSAÇÃO GOLPISTA

Também a própria ditadura militar usava um discurso "bonito", "moralista". Assim como os tecnocratas do transporte coletivo acusam a diversidade visual dos ônibus de "poluição visual", os defensores da ditadura militar chamavam a democracia autêntica de "desordem".

É exatamente isso que você leu no parágrafo acima.

Da mesma forma que o livre direito do povo de se expressar, de ter uma visão independente mas sempre vinculada à sua experiência concreta do cotidiano, a seus problemas e desafios, é visto pelas elites golpistas como se fosse "baderna", "bagunça" e "desordem", as elites golpistas do transporte coletivo chamam o direito da livre concepção visual das empresas de ônibus, expressão de sua autonomia operacional, de "poluição visual".

Daí a "necessidade", defendida pelos tecnocratas do transporte coletivo, em botar verdadeiras FARDAS nos ônibus.

Isso irá confundir seriamente os passageiros, porque assim como diferentes empresas de ônibus passarão a ter a mesma estampa, uma mesma empresa de ônibus pode ter mais de um desenho. Sendo mais claro: a delimitação da pintura por áreas de bairros ou tipo de ônibus (como micros e articulados) fará com que diferentes empresas que atuem numa mesma zona com o mesmo tipo de ônibus tenham pintura igual, enquanto uma só empresa que opere com tipos de ônibus diferentes vai ter mais de uma pintura.

Voltaram os fantasmas da ditadura militar, aquele moralismo tecnocrata, confiante de uma "eficácia absoluta" e de um "rigor administrativo" que, na realidade, são impraticáveis, tanto que o próprio modelo de transporte adotado por Jaime Lerner sofre um terrível desgaste na sua cidade de origem, o que anda tirando o sono das autoridades e tecnocratas paranaenses, que têm que esconder a sujeira debaixo do tapete enquanto mostram um "transporte de conto de fábulas" nos eventos internacionais e nacionais sobre transporte coletivo.

A tecnocracia sempre aposta numa falsa democracia, numa "democracia de gabinete", em que pretensos especialistas julgam a "vontade popular" no isolamento das quatro paredes de seus escritórios. Isso não vale somente para José Serra, o derrotado da hora, mas também para Jaime Lerner e Pedro Alexandre Sanches, que veem o interesse público olhando para seus umbigos. Por enquanto eles são vistos como "deuses" pela plateia deslumbrada, como o próprio Serra foi endeusado durante anos, desde os primeiros tempos da anistia até o decorrer da redemocratização.

Mas muita coisa ainda vai ocorrer para que essa "democracia de gabinete" mostre seu sentido verdadeiro, anti-popular, de arquitetos, sociólogos, antropólogos sem vivência social concreta. Afinal, julgar o povo através das quatro paredes dos escritórios mostrará seus novos equívocos.

Afinal, foi derrubada a "democracia de caserna" dos generais do regime militar, e agora começa a cair a "democracia de escritório" do PSDB e da mídia associada, e daqui a pouco a "democracia de gabinete" de arquitetos urbanos, sociólogos e antropólogos etnocêntricos e críticos musicais que vivem no mundo da Lua (ou de Londres e Nova York), que só veem o povo de longe, vai ruir.

O padrão "curitibano" de transporte coletivo ainda vai experimentar muitos desastres. Infelizmente é preciso que tais erros aconteçam. Dificilmente esse padrão prevalecerá por mais de 10 anos. Em 2016, o modelo de transporte baseado na concentração de poder das Secretarias de Transporte, na padronização visual e na ditadura dos "consórcios", estará em frangalhos.

PREFEITO QUERIA FAZER SEU "DIA DA PAZ" E SÓ DEU GUERRA


CONSCIÊNCIA PESADA - Até no semblante o prefeito carioca Eduardo Paes demonstrou falta de tranquilidade.

Ontem, 17 de setembro, foi o Dia Internacional da Paz.

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, quis fazer o seu "Dia do Paes".

Só que, com sua medida arbitrária de lançar a já decadente uniformização visual dos ônibus cariocas, ele provocou guerra da maior parte dos busólogos.

Até na cerimônia de lançamento da infeliz medida Paes demonstrou estar com a consciência pesada, e são grandes os riscos dele não conseguir se reeleger nas campanhas de 2012, com os sérios transtornos que a padronização visual causará para o povo.

Afinal, esses transtornos NÃO TÊM PREÇO. São coisas que nem o Bilhete Único vai resolver. Afinal, o Bilhete Único não vai pagar os enterros dos doentes pobres que morrerem depois de pegarem os ônibus errados. Bilhete Único não paga transtorno algum.

O transporte carioca ficará desgovernado. E Sérgio Cabral quer ver os ônibus fluminenses todos desgovernados. A Turismo Trans1000 fará escola, desta vez com suas fardinhas especializadas.

18 DE SETEMBRO: O VERDADEIRO DIA DO ROCK



COMENTÁRIO DESTE BLOG: O dia do falecimento de Jimi Hendrix, pelo que ele significou para a História do Rock, deveria ser considerado Dia do Rock, e não aquela data onde muita gente que nada tinha a ver com rock se apresentou num evento jovem filantrópico de 1985. Pois 18 de setembro de 1970 é que nos faz refletir e pensar sobre o legado do rock clássico através do magistral guitarrista.

Eu escrevi este texto em 2001, para a seção "Pelos Porões do Rock" que eu tinha no portal Rocknet, comandado por Luiz Antônio Mello.

18 de setembro: O verdadeiro dia do rock

Alexandre Figueiredo - Pelos Porões do Rock - Rocknet - 18.09.2001

Oficialmente, a mídia instituiu o dia 13 de julho de 1985 como o "Dia Mundial do Rock". Nele, um evento de grande repercussão e incluindo um grande número de artistas foi realizado: o Live Aid, promovido pela MTV Americana em associação com o músico inglês Bob Geldof e os responsáveis pelo projeto USA for Africa.

Somente nos últimos seis anos a mídia brasileira e suas emissoras de rádio comerciais passaram a divulgar a data, havendo toda uma badalação em torno da mesma. Falava-se num "gigantesco evento filantrópico, capaz de unir a longevidade do rock à sua função de transformação social". No entanto, alguns detalhes mostram que o Live Aid esteve muito longe de ser "o evento do rock", sendo apenas mais um daqueles pretextos para a confusão entre pop e rock.

Em primeiro lugar, o evento teve de tudo. Desde bandas de heavy metal até mega-astros do pop, passando por aqueles "farofeiros" que pensam fazer rock, alguns fazendo até dance music. Madonna e George Michael participaram do Live Aid e só os ignorantes, para os quais toda música "jovem e moderna" é considerada "rock", podem classificá-los como "roqueiros". E olha que o Brasil começa a entrar nessa era confusa em relação aos nomes nacionais, vide alguns oportunistas que fazem funk ou forró e se acham os "maiores ícones do rock brazuca".

Segundo, há dúvidas se o dinheiro arrecadado pelo Live Aid de fato chegou aos míseros etíopes, alvo da ação filantrópica. Mesmo que não tenha havido extravio por parte de sócios menos confiáveis do megaprojeto, é sabido que muitos alimentos, roupas e até dinheiro que chegam nos países africanos em guerra - a Etiópia não é exceção à regra - são confiscados pelos soldados que dominam a área.

Discussões à parte, o evento de 13 de julho, que no Brasil coincide com o "dia oficial da música sertaneja" (e aqui não se sabe se é à autêntica música sertaneja ou ao breganejo de asfalto que se dirige tal efeméride) pouco tem a ver com a real importância do rock. Foi mais um pretexto sensacionalista para promover o gênero como um filão a enriquecer a indústria. O rock, sendo tratado pelos executivos através da exacerbação dos estereótipos (valores deturpados) e clichês (valores autênticos, porém banalizados), favorece o lucro das empresas e o fortalecimento do mesmo capitalismo que o rock autêntico, na sua condição de movimento underground, luta para combater.

Na verdade, histeria semelhante ao 13 de julho o Brasil viveu a partir do dia 13 de maio de 1888. Lembrando que o rock surgiu a partir do blues negro, a comparação faz muito sentido. Naquele 13 de maio, a história registra a assinatura da Lei Áurea, que acabava com o sistema de escravidão dos negros. O documento foi assinado pela filha do imperador Dom Pedro II, a Princesa Isabel. Anunciado como um ato humanitário, tempos depois se soube que a Princesa assinou o decreto por pressões da Inglaterra, que, longe de ser um país humanitário na época e considerada potência do capitalismo cerca de 40 anos antes da ascensão dos EUA, julgava o sistema escravista como um empecilho para a modernização capitalista. Vale lembrar que, nos primeiros estágios da Revolução Industrial, a situação não era muito diferente da escravidão, com pessoas ganhando baixos salários, sendo mal-tratadas pelos patrões, não tendo sequer assistência à saúde e mesmo mulheres e crianças eram sujeitos ao trabalho cruel, com as mesmas vicissitudes dos operários em geral, incluindo mortes, feridas e mutilação de membros nos acidentes de trabalho.

O movimento negro brasileiro, nos últimos anos, declarou o não reconhecimento do 13 de maio como dia da luta pela libertação dos negros, porque, a partir desta data, os negros foram simplesmente soltos dos engenhos, mas raros foram aqueles que conseguiram uma vida próxima da dignidade. Tanto que o 13 de maio de 1888 pode ter sido o "marco zero" da favelização do país, uma vez que os negros, sem trabalho nem moradia, invadiram morros ou terrenos ociosos para construir residências rudimentares, grosseiras, já que a miséria e a baixa escolaridade não permitiam construir uma casa melhor.

Como alternativa à data, o movimento negro escolheu o dia 20 de novembro de 1797 como data para lembrar a luta social dos negros. Nesse dia, o líder dos escravos, Zumbi dos Palmares, foi morto. Sua importância na luta dos negros foi enorme, uma vez que, mesmo diante das limitações impostas pelos senhores de engenho aos escravos, Zumbi, que era rei de uma tribo na África, criou uma das maiores comunidades de escravos no Brasil, o Quilombo dos Palmares, com organização social e política admiráveis. Vale lembrar que era manobra dos traficantes de escravos separar negros de uma mesma tribo e juntar negros de tribos diferentes para dificultar a comunicação e a articulação social. Mas em Palmares, Zumbi estabeleceu o entrosamento de seu povo e por pouco não abalou as estruturas escravistas.

18 DE SETEMBRO DEVERIA SER O DIA DO ROCK
Com base no raciocínio apresentado, propomos o dia 18 de setembro de 1970 como o "Dia Mundial do Rock", uma vez que o acontecimento trágico dessa data nos faz refletir a respeito do rock como música. A escolha da data despreza qualquer critério de gosto musical pessoal e aponta para um artista que contribuiu decididamente para a evolução musical do rock.

Poderiam ser escolhidos Bob Dylan, Beatles, The Who etc., nomes que revolucionaram o rock à sua forma, mas Jimi Hendrix, sem desmerecer os demais, levou a ousadia às últimas consequências. Seu talento de tocar guitarra foi tal que obrigou os fabricantes de guitarra a fazer modificações técnicas no instrumento, tal a rara performance de Jimi, até hoje inigualada. Hendrix, tal como os demais clássicos do rock, fez o gênero se sobressair como cultura, comportamento e filosofia, muito acima da suposta "atitude rock" que faz deslumbrar (ou será que faz rir?) os conservadores e oportunistas.

Por que Jimi Hendrix foi tão relevante para o rock? O que faz sua contribuição artística ser tão importante para o gênero?

Simples. Despindo Hendrix daqueles mitos preconceituosos, nota-se que ele foi um músico superior, autocrítico, criativo e exigente. Um músico sóbrio, que não consumiu drogas pesadas, apenas alucinógenos, como muitos músicos consumiam, e os costumeiros cigarros e bebidas alcoólicas. Mas isso não intervinha negativamente na arte e no talento do músico.

Hendrix surpreendeu o mundo porque, de um discreto e silencioso músico de estúdio de artistas da música negra, se tornou um dos mais completos e complexos músicos de rock de todos os tempos. Dono de uma agilidade guitarrística comum, capaz de transitar com veloz desenvoltura da guitarra-base à guitarra-solo, capaz de tocar uma guitarra ora como se fosse um violão, ora dando solos que nenhum outro guitarrista conseguiu imitar com maestria, Hendrix também era ótimo cantor e excelente compositor, e tinha humildade e autocrítica, tanto que, se vivo estivesse, ele teria estado mais próximo do progressivo e do jazz rock.

A música de Jimi Hendrix era uma síntese entre soul, folk rock, acid rock, blues, jazz e rhythm & blues, além de ter sido um prenúncio para o heavy metal. Negro, Hendrix esteve acima da música negra e deu vitalidade ao rock britânico uma vez que, convidado pelo empresário Chaz Chandler, já um ex-baixista dos Animals em 1966, iniciou seu trabalho de líder de banda com o Jimi Hendrix Experience. Este ano Hendrix completaria 40 anos de carreira profissional (começou em 1961, com apenas 18 anos), e 34 anos de carreira autônoma que transformou radicalmente o rock e a técnica de tocar guitarra.

Hendrix foi um dos pioneiros a direcionar a microfonia, um efeito incômodo de agudo, a um recurso artístico. Sua técnica guitarrística, além do fato do músico norte-americano ter utilizado vários tipos de guitarra ao longo da vida. Nas gravações de estúdio, Hendrix gravava várias guitarras, dando a cada uma delas uma riqueza melódica e uma agilidade incomparáveis. Jimi chegou até a ser baixista em algumas gravações de estúdo, quando Noel Redding rompeu relações com ele e o J. H. Experience acabou sendo desfeito.

Jimi tinha até vergonha de cometer atos como aquele que ficou marcado em sua vida, o de incendiar a guitarra uma vez. A verdade dos fatos era que o ato tido como "piromaníaco" foi cometido apenas uma vez, em 1967, e por decisão de Chandler, que queria forjar um mito "selvagem" para o guitarrista que queria apenas fazer sua música. Tanto que, antes do ato, Hendrix estava apreensivo e hesitante, por ele não haveria aquele espetáculo todo que só pôs lenha na fogueira dos moralistas.

Enfim, a curta trajetória de Hendrix, de 1961 a 1970, se tornou relevante para o rock, porque contribuiu decisivamente para sua afirmação como música, como cultura. Enquanto muitos pensam no rock mediante outros critérios que não a música, o que é extremamente fácil e banal, o correto seria pensar o rock como música e substância, aliando a forma de fazer canção com a honestidade e espontaneidade que os melhores roqueiros, a partir de Hendrix, devem ter e manter. Porque o que mantém o rock vivo não são escândalos nem sensacionalismo, não são plumas nem paetês, e nem mesmo a "modernidade" a todo preço que sucumbem a um ecletismo vazio e dispersivo.

O que mantém o rock vivo é a música que Chuck Berry, Little Richard e Bill Haley esboçaram, que Bob Dylan e Beatles desenvolveram e que Jimi Hendrix fez ampliar os horizontes. Daí o dia 18 de setembro de 1970 ser o verdadeiro dia do rock, o dia que nos leva a pensar nos rumos do rock antes e depois de Hendrix.

HÁ 40 ANOS, JIMI HENDRIX SE FOI



Jimi Hendrix nos deixou há 40 anos atrás.

Grande músico, excelente compositor e até talentoso cantor, Jimi teve uma brevíssima carreira, que no entanto produziu uma riqueza artística que provocou um enorme impacto no cenário da música, fazendo com que outros guitarristas de rock, mesmo muito talentosos, fundissem a cuca diante das ousadias do jovem mestre.

Jimi foi um guitarrista de soul music, lá pelos meados dos anos 60. Gravou com Little Richard, Isley Brothers, Ike & Tina Turner, e tantos outros. Era um jovem discreto, embora afeito a performances que chamavam a atenção, ainda que não sejam exibicionistas. Little Richard não gostava de competir, em performances, com seu guitarrista de apoio. Mas, por incrível que pareça, Hendrix não era exibicionista, ele apenas vibrava com o som da guitarra que tocava. Hendrix fazia o que gostava, senão não teria sido o importante músico que foi e continua sendo para nossa lembrança.

Pois o talento de Jimi Hendrix com sua Fender Stratocaster (marca que ele mais usou e que um dia pretendo comprar para eu ensaiar guitarra) fascinou o baixista do grupo inglês The Animals, Chaz Chandler, que tão logo virou seu empresário e levou o músico mulato de Seattle para Londres, apresentando-o a dois músicos que formaram com ele a "Experiência", ou seja, The Jimi Hendrix Experience: o baixista Noel Redding e o baterista Mitch Mitchell, ambos recentemente falecidos.

A brevíssima discografia de Jimi Hendrix, seja com esta banda, seja com a posterior, Band of Gypsies, revela uma riqueza musical que combinava melodia, barulho, efeitos de estúdio, sons eletrificados, com uma mistura estilística de blues, soul, rock psicodélico, folk, que em certos aspectos antecipava o hard rock ou mesmo o heavy metal, fazendo Jimi Hendrix se tornar o patrono do rock pesado.

Jimi Hendrix também causou polêmica com suas performances, embora a famosa cena da guitarra incendiando seja tão somente uma sugestão de Chaz e que Jimi a princípio recusou-se a realizar.

Hendrix usava drogas, como a maior parte dos jovens dos anos 60 usava. Mas sua morte se deu por ingestão de remédios para dormir, aliada à demora no socorro médico. Mas a mídia sensacionalista fez invencionices a respeito da tragédia de Hendrix, como se ele fosse um maluco insano e psicopata.

Pois Jimi Hendrix era lúcido, autocrítico, e nos últimos meses de vida a coisa que ele mais fazia era gravar no seu estúdio Electric Lady suas inúmeras músicas, covers e outros ensaios guitarrísticos. Deixou um grande material que ao longo do tempo resultou em vários discos póstumos.

Até hoje o talento de Jimi Hendrix não foi superado. Sua agilidade guitarrística afetou até mesmo a indústria de fabricação de guitarras, que teve que adaptar-se tecnologicamente para os avanços sonoros e técnicos provocados pelo guitarrista. Hendrix ia da guitarra rítmica aos solos sem escalas, e sua habilidade sonora é até hoje admirável.

E, nos tempos de mediocridade musical sendo defendida até por cientistas sociais, a trajetória de Jimi Hendrix é fundamental para relembrarmos não só o talento dele, mas todo o cenário da música jovem (e não apenas rock) naqueles idos de 1967-1970, onde o prestígio do cantor ou do conjunto musical se valia mais pela música (e que música!) do que pelo marketing.