quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"PATOLINO" E SUA REAÇÃO BURGUESA À CULTURA POPULAR



Eu mandei mensagens para as versões Twitter dos periódicos esquerdistas, criticando a abordagem favorável ao brega-popularesco, tão conhecida nos textos daqui. De repente, recebi uma notícia de um tal de Patolino, que descobrimos ser Eduardo Sander, autor do chamado Blog do Patolino - http://www.patolino.blog-se.com.br - dizendo coisas como: "Não adianta combater, porque a maioria gosta. Só mesmo uma coreiadonortização do país para mudar as coisas".

Ainda não verifiquei bem a postura real de Sander, mas a presença dele entre os seguidores do Twitter da Caros Amigos e a inclusão do bâner do blog de Paulo Henrique Amorim o fazem, senão um simpatizante, mas um leitor (ou espião?) da mídia de esquerda.

Agora, o comentário dele foi incoerente e, certamente, equiparável a uma dondoca da alta burguesia, que diz que o povo não merece qualidade de vida porque gosta de viver na miséria. Além do mais, se ele diz ser um crítico da grande mídia, então ele deveria lavar a boca com sabão - daqueles de cor laranja, para lavar roupa, que têm um gosto horrível - porque ele também não deveria criticar as Organizações Globo nem o Grupo Abril nem o Grupo Folha, porque também "a maioria do povo gosta". E que só mesmo uma hugochavização do país para combater esses poderosos veículos da grande mídia.

Escrevi isso para o Twitter dele e ele não reagiu. Quem deve, teme.

COMO A "GALERA IRADA" COMENTARIA O FURACÃO IGOR



Domingo passado, o portal G1 assim noticiava o furacão Igor, que então estava a 1800 km das Antilhas, tendo aumentado sua intensidade:

"O furacão Igor ganhou força neste domingo (12), alcançando a categoria 4 na escala Saffir-Simpson, de cinco níveis, com ventos de até 215 km/h, anunciou o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC), com sede em Miami".

Agora, vejamos como o jovem "médio", viciado em noitadas e que se encontra fácil, fácil em comunidades tipo "Eu Odeio Acordar Cedo" no Orkut, comentaria o furacão Igor:

"Furacão Igor? Kra, entaum ele eh a nova sensassaum do axé. Na moral, mermão tá ligado? O Igor eh d q banda? Já tá tocando no Caribe, mermo? Com Ivete nos States, o axé vai pra tudo que eh lugar. Naum vj a hora dele lançar o sucessor do rebolation. Vai ser show de bola, galera. U-huuuu!!!".

NO BREGA-POPULARESCO, O POVO NÃO É LIVRE


CALCINHA PRETA NO DOMINGÃO DO FAUSTÃO - Para não sair da memória de certos "caros amigos".

A mídia esquerdista, ao cair no canto da sereia dos intelectuais etnocêntricos, perde a bússola histórica das críticas internacionais à indústria do entretenimento e do espetáculo, há mais de 80 anos na pauta de debates calorosos entre cientistas sociais e comunicólogos.

Em vez da crítica se estender ao Brasil, nossa intelectualidade prefere fazer um discurso meramente descritivo e apologético. Desperdiça sua missão de exercer uma consciência crítica no nosso país, tal qual fizeram os professores da Escola de Frankfurt, pensadores como Guy Debord e Jean Baudrillard e, atualmente, Umberto Eco e Noam Chomsky.

Em vez de se espelhar da consciência crítica desses pensadores, preferem narrar a festa brega-popularesca da maneira mais deslumbrada, tapeando seus relatos apologéticos com toda uma gororoba discursiva que, no Brasil pouco inclinado à leitura, rende aplausos das inúmeras focas de circo que constituem os setores acomodados da opinião pública.

Acham que a mediocridade musical brasileira, na sua qualidade duvidosa e discutível, é resultado da "livre intuição" do povo brasileiro. Só que essa pretensa unanimidade que se apoia nas retóricas que pouco antes envolviam o "funk carioca" e hoje envolvem o tecnobrega, mais parece resultar de uma orientação corporativista do que de uma natural solidariedade com as classes pobres.

Afinal, o discurso é sempre o mesmo, as apologias sempre as mesmas. A mesma desculpa de "vítimas do preconceito", "discriminação social" e a mesma desinformação que afirma que as tendências brega-popularescas "não estão" na grande mídia. Mas estão, e a prova está em rede nacional para que ninguém tenha a menor dúvida, com o Domingão do Faustão invadindo a maioria dos lares brasileiros, a cores para todo o Brasil, sob o testemunho de milhões de brasileiros.

Por isso, é impossível que meia-dúzia de intelectuais consiga ser convincente ao dizer que o tecnobrega não aparece na grande mídia, enquanto o mesmo estilo brega-popularesco do Pará tem presença escancarada no palco de um dos programas mais vistos da televisão brasileira. Afinal, em quem vamos acreditar, na verdade dos fatos ou na suposta generosidade do discurso intelectual?

A preocupação que nós, deste blog, temos com a degradação sofrida pela cultura brasileira é cada vez mais crescente, na medida em que existe um grande abismo entre o desenvolvimento político e econômico e a mediocridade viciada no âmbito sócio-cultural. Como é que o nosso país vai crescer, enquanto a domesticação cultural não só é ignorada como problema como é apoiada por uma intelectualidade que parece estar fora de órbita, mas que tem um discurso "positivo" o suficiente para arrancar aplausos de quem não sabe a diferença entre 6 e 9.

Essa intelectualidade, no entanto, não entende de povo. Fala das periferias do Brasil com o mesmo distanciamento empírico de quem vê as populações pobres da África e América Central pela televisão. Muitos desses críticos musicais, sociólogos e antropólogos passaram o tempo todo ouvindo reggae nos seus biombos diante da máquina de escrever, ou, quando muito, viajavam para Londres, Paris e Nova York, mas, na última hora, foram designados, não se sabe por que força das circunstâncias, para analisar a cultura popular brasileira, aquilo que eles não vivenciaram de concreto.

Não tendo real conhecimento de causa, essa intelectualidade, no entanto, gostou da brincadeira, e passou a "estudar" as periferias brasileiras com o olhar etnocêntrico de quem não enxerga os dramas do povo pobre e não consegue ver as peculiaridades que diferem o povo da Bahia do povo da Jamaica, por exemplo. Vê a periferia de forma espetacularizada, e, mesmo que fale em "diversidade cultural" e narre as diferenças entre os vários povos, na prática tratam o povo da periferia como se fosse uma mesma massa alegremente empurrada para o circo do entretenimento brega-popularesco.

Sabemos que a música brega-popularesca, e todo seu sistema de valores, símbolos, crenças e hábitos etc, investe na domesticação do povo pobre. Mas a intelectualidade não. Eles apelam até mesmo para hipóteses ao mesmo tempo desinformadas e delirantes. Onde, por exemplo, a MPB dos anos 60 e 70 apareceu no TV Fama da Rede TV? Quando muito, é Chico Buarque saindo com uma mulher casada, e só. Eu não vi o fantasma de Sílvia Telles rondando o balcão da Sônia Abraão, vocês viram? Mas todo o playlist das rádios ditas populares de nosso país parece se converter facilmente em reportagens pomposas da revista Caras.

No brega-popularesco, o povo não é livre. Essa é a verdade, mais dolorosa do que pode parecer. Porque o circo do brega-popularesco mostra uma população resignada, com seus risos tolos, que "produz" uma "cultura" de mau gosto, vive uma situação sócio, educacional e profissional subalternas, que nada tem a ver com a população pobre que nossa história tanto registrou, com sua cultura forte, altiva e de cabeça erguida.

A ideologia brega-popularesca envolve toda uma indústria e um sistema de controle social e político que inclui rádios, emissoras de televisão, jornais, revistas, grupos de rede nacionais e oligarquias regionais.

Não sejamos ingênuos e deixarmos de acreditar que o controle latifundiário nas diversas partes do país, assim como o controle midiático das grandes redes, por outro lado, tenham reflexo no entretenimento das classes pobres nos últimos 46 anos. Não sejamos ingênuos em menosprezar a política de concessões de rádio de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, que influiu no crescimento decisivo das emissoras de rádio FM popularescas dos anos 80 em diante.

São essas emissoras que pautam o gosto musical do povo pobre, assim como a televisão aberta e a imprensa populista condiciona o comportamento médio desse povo, o que mostra que a liberdade popular é algo que não existe.

O povo é manipulado, mas essa manipulação acontece há tanto tempo que parece que o povo, por estar acostumado a isso, assimilou naturalmente aquilo que a mídia determinou em comportamento, valores, crenças, desejos e até na mentalidade artística.

Esse processo é o que chamamos de DOMESTICAÇÃO. O povo, outrora a "horda selvagem", na visão das autoridades elitistas do passado, o povo responsável por muitos movimentos sociais e por revelar artistas e intelectuais de valor, foi depois manipulado pelas oligarquias latifundiárias e, em maior escala, durante a ditadura militar, e seu comportamento altivo, se não foi totalmente extinto - volta e meia aparecem revoltas e protestos populares, e a própria violência é uma reação a essa manipulação pelas elites - , foi praticamente controlado.

Por isso não dá para considerar que a ideologia brega-popularesca significa o ideal de liberdade do povo brasileiro. Eu vejo o pessoal dos estilos brega-popularescos, todos eles, e observo medalhões ao mesmo tempo arrogantes e subordinados ao establishment do entretenimento, e ídolos emergentes ou tendências mais "grotescas" - como no caso do "funk carioca" e do tecnobrega - com personalidade patética, tola, submissa, ingênua. Não dá para fingir que isso tudo são "movimentos sociais" tais como o dos índios mapuches no Chile. De jeito nenhum.

É por tais razões que a contestação às tendências brega-popularescas, sem exceção, se torna urgente. O que está em jogo é a domesticação do povo pobre que pode ameaçar seriamente o patrimônio cultural de nosso país e deixar incompleto todo o processo de recuperação e desenvolvimento social de nosso Brasil, cujas feridas causadas pela ditadura militar de 1964 a 1985 não foram todas cicatrizadas.

Por isso é que reivindicar uma cultura popular de qualidade, dando ao povo também a reeducação cultural, o conhecimento de seu próprio passado, de suas raízes sonegadas pela mídia latifundiária, do abandono às supostas "raízes" da cafonice plantadas pelo coronelismo, nada tem de elitista, nem de idealizador, nem de delirante.

Trata-se de recuperar a auto-estima do povo, de desejar uma cultura mais orgânica, de fazer o povo superar sua situação inferiorizada não pela mera inclusão no circo do consumismo e do espetáculo, mas pela sua melhoria na qualidade de vida.

Por isso, vamos abandonar essa visão hipócrita da intelectualidade vendida, porque ela está viciada no seu confortável entretenimento dos condomínios de luxo de Sampa.