segunda-feira, 13 de setembro de 2010

MOVIMENTO SALVE A RÁDIO E TV CULTURA



COMENTÁRIO DESTE BLOG: O amigo Marcelo Delfino escreveu este texto em solidariedade à campanha pela recuperação da Rádio e TV Cultura, de São Paulo. Apesar de nos situarmos no Grande Rio, é importante que participemos desta campanha, porque se trata de uma mídia educativa que, com todas as suas imperfeições, é sempre válida, afinal a mídia educativa é um processo em permanente construção e em incessante aperfeiçoamento. Por isso nada melhor que os paulistas continuarem tendo essa opção de mídia educativa que também irradia para o resto do Brasil através de parcerias de transmissão ou mesmo pela presença da TV Cultura entre os canais da TV paga.

Evidentemente, O Kylocyclo apoia essa campanha.

Movimento Salve a Rádio e TV Cultura

Por Marcelo Delfino - Blog Preserve o Rádio AM

www.salvertvcultura.org

Alguns leitores do Tributo ao Rádio do Rio de Janeiro entraram em contato pedindo que o TRIBUTO apoiasse esse importante movimento da sociedade civil paulista. Mesmo sendo o TRIBUTO um espaço dedicado ao dial carioca, resolvi colocar o TRIBUTO para ajudar o movimento, na medida do possível. O atalho para o movimento foi colocado na seção de páginas e portais recomendados, e logo o Twitter informará a respeito.

Por motivos mais que justos, os três blogs que edito (este aqui, o Preserve o Rádio AM e o Kiss FM 91,9 Rio de Janeiro) ganharam banners do movimento.

É fundamental que toda a sociedade paulista participe desse movimento. E quem for de fora de São Paulo também pode colaborar como puder. Ainda mais se considerarmos que a TV Cultura pega no país todo pelas parabólicas, e está presente em tudo que é sistema de TV por assinatura, seja a cabo, rádio ou via satélite. É repugnante esse movimento de sucateamento que o governo paulista tem feito na rádio e na TV Cultura.

GRUPO ABRIL ESTÁ POR TRÁS DO SURTO CAFONA DA IMPRENSA ESQUERDISTA



Cooptar para calar. Manipular para controlar. A influência do Grupo Abril no mercado editorial brasileiro é tão grande que castra até mesmo a imprensa esquerdista que, no âmbito político, goza de grande autonomia, mas no âmbito cultural, sofre o peso de um acordo que não é tão incondicional que se imagina.

A influência do Grupo Abril na imprensa de esquerda se dá pelo fato dos Civita, donos do complexo empresarial, serem também donos da DINAP, distribuidora que comercializa a revista Caros Amigos. Além disso, os Civita também são, em parte, donos do portal UOL, que hospeda a edição brasileira do jornal francês Le Monde Diplomatique. O UOL também tem como sócia a família Frias, da Folha de São Paulo.

Isso é que é castrar cachorro, deixando-o latir. Sabemos que hoje a esfera cultural está cada vez mais sendo alvo de manobras políticas intensas. Já que as elites não conseguiram controlar o povo pela economia e pela política, agora o povo é controlado pela cultura. Mais tarde explicaremos o assunto.

Só a influência do Grupo Abril para explicar a presença de um dirigente funqueiro (que agora deixou de falar do estilo) e de um antigo crítico da Folha de São Paulo e Bravo (do Grupo Abril) na Caros Amigos.

Aliás, Pedro Alexandre Sanches e sua "Paçoca" seguem uma campanha pró-brega semelhante ao que Hermano Vianna, na Rede Globo de Televisão, fazia através do programa Central da Periferia. É exatamente a mesma campanha, mas sem o fardo de carregar uma grife da mídia golpista que assustaria a garotada. Isso de forma explícita.

Afinal, Pedro Alexandre Sanches entrou na imprensa de esquerda pelas portas dos fundos, sem explicação, sem qualquer posição autocrítica. Sabemos que Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna trabalharam na Rede Globo e se converteram à mídia de esquerda de forma autocrítica, com conhecimento de causa e sinceridade de adotar uma nova posição, o que é raro. Posição que é apoiada por Maria Inês Nassif e Luiz Fernando Veríssimo, como os outros integrantes do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, apesar de trabalharem em veículos da grande mídia, como o Valor Econômico e O Globo (mas fazem isso com rara autonomia e isenção).

Pedro Sanches, não. A impressão que se tem logo de cara é que ele faz um jogo duplo. Sua formação será sempre a da Folha de São Paulo, e recentemente, um episódio envolvendo um programa da TV Cultura ameaçado de sair do ar o fez reaproximar de um influente colunista da Folha, Gilberto Dimenstein. Será mera coincidência essa reaproximação? Independente do perfil ideológico do programa, certamente não.

Pedro Alexandre Sanches deve ter sido o preço que o Grupo Abril/Folha determinou para colaborar na imprensa esquerdista. Sabe que suas máquinas irão imprimir textos que vão contra os interesses políticos dos Civita e dos Frias. Ou que seus serviços de htm vão mostrar, on line, textos com a mesma anti-posição a eles. Por isso, os dois grupos empresariais querem uma compensação.

Daí a farsa de creditar dois fenômenos claramente comerciais, claramente ligados à grande mídia, como o "funk carioca" e o tecnobrega, como se fossem "movimentos sociais esquerdistas". É algo digno de entrar no Febeapá de Stanislaw Ponte Preta, ou em qualquer anedota popular. Vá comparar os movimentos sociais de outros países com os modismos - sim, modismos! - do brega-popularesco para saber desse aspecto tragicômico acerca da ideia de cultura popular.

Pois os dois estilos, enquanto são creditados como "cultura de vanguarda" ou "militância popular" pelos periódicos da imprensa esquerdista, aparecem tranquilamente na tela da Rede Globo e mesmo nas páginas da Folha de São Paulo, a mesma mídia que adota posições antagônicas a Caros Amigos, Le Monde Diplomatique e revista Fórum. Mas se virou mania chamar Waldick Soriano de "subversivo" e "vanguardista", com todo o perfil retrógrado e conservador que ele, na verdade, representa, então qualquer surto cafona da intelectualidade é "justificável".

Será que não é vergonhoso para a imprensa esquerdista adotar, para a cultura popular, as mesmas posições da grande mídia, e fingir que os dois estilos, como qualquer outro que houver ou for citado, aparecem explicitamente na grande mídia?

Sob os testemunhos de milhares de expectadores, o tecnobrega já apareceu no olimpo mídio-golpista da Globo, enquanto a imprensa esquerdista é cega e surda a isso.

LE MONDE DIPLOMATIQUE: ENTREVISTA SOBRE TECNOBREGA É CHEIA DE CLICHÊS



Mariana Fonseca, editora-assistente da edição brasileira do Le Monde Diplomatique, começou mal a reportagem-entrevista sobre o tecnobrega. "Sem o auxílio da mídia tradicional...", disse ela, totalmente desinformada com as recentes aparições dos ídolos do tecnobrega na mídia golpista, seja na Folha de São Paulo, na revista Época e, principalmente, a Rede Globo de Televisão, através da Ana Maria Braga, do aval de William Waack por intermédio de Nelson Motta (que é sócio de carteirinha do Instituto Millenium) e, acima de tudo e antes de mais nada, o olimpo brega-tucano do Domingão do Faustão.

A reportagem-entrevista tem como entrevistado o escritor Ronaldo Lemos, co-autor, com Oona Castro, do tendencioso livro Tecnobrega: O Pará Reinventando o Negócio da Música. E, certamente, a reportagem mais parece um press-release do livro do que uma entrevista séria de um periódico de esquerda, cuja matriz francesa é famosa por contestar duramente os "cães de guarda" do neoliberalismo francês, a grande imprensa da França.

Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro e diretor do Creative Commons Brasil. É formado pela USP em licenciatura e doutorado, mas o mestrado foi feito em Harvard. É um bom currículo, mas José Serra também tem um bom currículo.

Não é preciso dizer que a entrevista não trouxe novidade alguma, e que é totalmente cheia de clichês e dados (des)informativos. A saber os principais deles:

1. O tecnobrega é contraditoriamente creditado como um fenômeno "sem acesso na mídia" mas que é o mais popular do país. Ronaldo Lemos faz até gracinha, dizendo algo como "Vocês (a mídia) não sabem, mas a maioria toda conhece o tecnobrega".

2. O tecnobrega fez seu estrondoso sucesso por todo o país apenas pelo "modesto" esquema de divulgação pelas chamadas redes sociais (Twitter, YouTube, Orkut).

3. O autor cita o nome de Hermano Vianna, para reforçar a tese do suposto enfraquecimento dos "grandes centros" (ou seja, a parcela da grande mídia que tem escritório na Avenida Paulista).

4. O autor cita a expressão "preconceito", palavrinha mágica para os oportunistas que querem defender o brega-popularesco.

5. O autor menciona com certo ar de desprezo os tais "árbitros do bom-gosto", e tenta argumentar que o povo ignora a má qualidade de "sua" música (como o tecnobrega e outros estilos que o autor cita, como o forró-eletrônico, também conhecido por nós como forró-brega, oxente-music e forró-calcinha).

6. Ronaldo Lemos disse que a tecnologia mudou a música brasileira, só para justificar a hegemonia brega-popularesca de hoje. Ele esqueceu-se de dizer que o marketing também. E que sua visão está em perfeita consonância com as análises de "gurus" dos "novos tempos" como Francis Fukuyama, Jack Welch, Steve Jobs e Rupert Murdoch.

Elementar, meus caros leitores deste blog!! Se o povo ignora a má qualidade da música brega-popularesca, é porque passou por décadas de domesticação midiática. Ora, é como um cachorro que não se interessa em analisar o padrão de vida em que vive.

É evidente que essa construção discursiva - não estou sendo muito semiótico, né, pessoal? - cria um mundo maravilhoso, cheio de sonho e fantasia. É lindo, a juventude da periferia vai para os clubes noturnos do subúrbio, feito criancinhas indo à Disney. A cultura brasileira se "disneyficou", e quem paga o pato são as future girls que por mera coincidência atuam nas comédias do canal Disney, mas certamente possuem informação musical bem melhor que os ídolos do espetacular (no sentido Guy Debord-Jean Baudrillard do termo) tecnobrega.

O tecnobrega não fez sucesso porque foi difundido pelas redes sociais. Por maiores que elas sejam, elas não têm força suficiente para produzir um sucesso estrondoso de caráter nacional. Quem produz esse sucesso é a grande mídia. E, enquanto os defensores do tecnobrega insistem na lorota de que o estilo não tem acesso na grande mídia, o maior veículo de imprensa do Pará, O Liberal, deu um aval mais do que entusiasmado ao estilo.

O próprio Estado do Pará possui emissoras de rádio FM, controladas por grupos oligárquicos locais, que difundem em larga escala os ídolos do tecnobrega. Portanto, o mito de que o tecnobrega não tem acesso na grande mídia não tem fundamento sequer no seu próprio lugar de origem, porque a mídia gorda dá aval para o tecnobrega, sim!

E o que dizer do Domingão do Faustão? Será que os intelectuais etnocêntricos ainda imaginam que Fausto Silva é ainda um figurão cult da mídia de vanguarda paulista? Ora, ora, Fausto Silva deixou de ser cult há muito tempo, deixou de sê-lo antes até mesmo do jornalista e artista performático Pedro Bial, de Regina Casé, Patrícia Pillar e Casseta & Planeta, todos hoje bem acomodados no neoliberalismo sócio-cultural brasileiro. Fala-se muito dos antigos cepecistas Arnaldo Jabor e Ferreira Gullar terem se convertido para a direita, como o ex-guerrilheiro Fernando Gabeira, mas a patota acima também participa do banquete da grande mídia.

Além disso, o que dizer das "aparelhagens", que na prática se constituem numa elite que investe no tecnobrega? Que eles são pobres-pobres-pobres, de marré-de-si? Ora, se o tecnobrega junta alta tecnologia (a reportagem admite isso e a compara com os equipamentos usados pela equipe técnica de Ivete Sangalo) e superprodução dos seus espetáculos, como é que seus responsáveis podem ser equiparados, por exemplo, aos agricultores sem-terra? Nada a ver!

O tecnobrega, como diz a reportagem-entrevista, movimenta mais de R$ 3,3 milhões por mês. E já tem um tempo que o tecnobrega faz esse sucesso comercial. Mas é claro que a patota vai preferir acreditar que o tecnobrega é pobrinho, coitado, e que esses mais de três milhões são esmolinhas.

Quer dizer, isso se converte em quase R$ 40 milhões ao ano, uma grande fortuna. Um poder oligárquico se faz justamente a partir de valores assim. Deixemos de ser tolos, abramos mão do "comunismo papai-noel" e vejamos as coisas da forma mais crítica possível.

É por isso que a mídia golpista anda gracejando da ingenuidade do público esquerdista e do oportunismo dos intelectuais etnocêntricos, que veem a periferia sob os olhos filtrados pelas parabólicas, enquanto o escriba aqui já percorreu muitos bairros populares de Salvador, Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Nova Iguaçu e Mesquita.

Os intelectuais etnocêntricos - dos quais Ronaldo Lemos também se enquadra - , que acham a pobreza tão linda, menosprezando os reais dramas do povo pobre, vivem com as mentes em Londres e Nova York, e pensam a periferia brasileira como se fossem guetos fashion britânicos e estadunidenses traduzidos para nossa realidade.

Mas para uma plateia que sabe menos ainda, esses intelectuais são as maiores autoridades em cultura popular no nosso país. Em terra de cego, quem tem um olho míope é rei.

PARA QUEM TEM PACIÊNCIA: Parte da entrevista é reproduzida neste endereço:
http://diplomatique.uol.com.br/print.php?tipo=ar&id=782&PHPSESSID=bba25c7eb17ed17b7dafe5e535b454b4

CUIDADO!! O artigo deve ser lido com o desconfiômetro ligado. A entrevista é pouco recomendável para mentes acomodadas e acríticas.

O ÓDIO INTELECTUAL À MPB



Quem defende a música brega-popularesca, em primeira instância, fala, a título de provocação, que essa categoria musical é "a verdadeira MPB", só porque seus ídolos lotam plateias e são ouvidos pela empregada doméstica, pelo porteiro de prédio, pelo camelô e similares.

Mas hoje em dia, não havendo sentido em chamá-los de MPB ou de, num recurso ao mesmo tempo arrogante e nervoso, falar em Música Popular Brasileira (às vezes enfatizando a palavra "popular" de forma bem oportunista) com todas as letras, os defensores e simpatizantes da cafonice reinante se desanimaram com o rótulo MPB, incapazes de fazer a sigla deixar o estigma de "Academia Brasileira de Letras" musical para se transformar na Casa da Mãe Joana da música brasileira.

Por isso, a intelectualidade etnocêntrica, assim como os próprios ídolos do brega-popularesco, passaram a sentir repugnância à sigla MPB. "Virou um clube fechado", é a acusação. Os alvos da acusação não se tornam claros. Fala-se em Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas eles mesmos são condescendentes à cafonice reinante. Fala-se, timidamente, em Tom Jobim, porque não dá para desmoralizar um mestre impunemente. Sobra para Chico Buarque, mas também ele tem sua reputação a zelar. No fim, quem paga o pato é Guilherme Arantes, que, olhe só, é acusado de "brega" enquanto, pasmem, a pieguice chorosa de Fábio Jr. é que é considerada por certos incautos e outros cínicos como "a verdadeira MPB".

Mas hoje a tendência é a intelectualidade etnocêntrica, que invade a mídia esquerdista a tratar o público que nem gado - sorte que a maioria dos leitores da nossa imprensa esquerdista foi "alfabetizada" pela Folha de São Paulo - para defender o "verdadeiro valor" da cafonice hegemônica em nosso país, é rejeitar o termo MPB.

Isso deixa vasar um certo ódio que esses intelectuais têm em relação à MPB.

Que ódio é esse? Que rancor, que má vontade? Logo partindo de cientistas sociais, de jornalistas culturais, gente que deveria zelar pela cultura de qualidade, mas prefere exaltar o "tchan", o "créu", o "rebolation", o tecnobrega e afins?

É o ódio de ver envelhecer a geração emepebista dos anos 60/70 sem que ela tenha provocado uma revolução sócio-cultural para o país. É certo que a MPB passou por uma fase de crise no final dos anos 70 até o fim da década seguinte, e que a geração atual de críticos musicais, blogueiros e cientistas sociais passou as décadas setentista e oitentista vendo Cassino do Chacrinha, ouvindo Rock Brasil etc.

Mas será justo um rancor dessa espécie, acusando os talentos emepebistas de 1965-1974 de terem rompido o diálogo com o povo? Na verdade, se Chico Buarque, Milton Nascimento, Djavan, Diana Pequeno, Nara Leão, Taiguara, Sidney Miller e Elis Regina, por exemplo, pareciam não dialogar mais com o povo, é porque o país vivia sob intensa censura e dura repressão, esses artistas tiveram, a contragosto mesmo, de adotar uma poética que o povo pobre não conseguia compreender.

Mas daí a manipular a história cultural do nosso país feito uma massinha de modelar e dizer que os ídolos bregas eram os "verdadeiros subversivos" é cometer uma grande insensatez. Até porque os ídolos bregas, quando no tempo da Era Médici e, depois, da Era Geisel, sempre se sentiram felizes com o cenário político em que viviam. Bem mais do que os cantores da "MPBzona" que falavam de um Brasil de esperança, de um anunciado futuro que se tornou presente mas que parecia incerto então.

Podemos resumir a atual ojeriza da intelectualidade em relação à MPB autêntica através dos seguintes motivos que provocaram essas reações absurdas:

1. A ditadura separou a MPB autêntica do grande público, e a redemocratização não teve condições de reaproximá-los.

2. A indústria fonográfica tentou deturpar a MPB autêntica, através de regras mercadológicas que os artistas teriam que seguir para continuar na mídia;

3. Insatisfeitos com as pressões das gravadoras, os artistas recentemente deixaram as grandes gravadoras, num êxodo mercadológico que praticamente deixou a indústria fonográfica sem seus grandes nomes da MPB.

Ou seja, a MPB autêntica sofre as restrições da ditadura e do mercado fonográfico, é obrigada a não falar mais para o grande público senão de maneira diluída e deturpada, e, quando não quis mais se subordinar a isso, deixou as grandes gravadoras, que hoje trabalham numa pseudo-MPB de medalhões da "música sertaneja", do "pagode romântico" e da axé-music que hoje estão no mainstream da grande mídia.

Só que a intelectualidade etnocêntrica chama a MPB autêntica de covarde, de careta, de ultrapassada. A MPB não teve oportunidade de se renovar e reestabelecer o diálogo com o povo e sua cultura regional, como havia no pré-1964.

O povo passou a ser manipulado pelo latifúndio (que depois patrocinou a ditadura militar), e perdeu a cultura regional que tinha em troca da esquizofrenia do brega-popularesco.

No entanto, a MPB foi vista como um trabalhador que é obrigado a sair da cidade interiorana onde vive e, quando retorna, é hostilizado pela população. Enquanto a farsa do brega-popularesco se multiplicou em tendências pseudo-populares que até a intelectualidade defende.

Num país cujo pouco hábito de leitura, os textos favoráveis ao brega-popularesco - como os de Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo, por exemplo - , mesmo confusos e cheios de contradições, são aplaudidos diante da leitura superficial de sua plateia bem (des)informada. E, como também é pouco o hábito de ouvir música com atenção, certamente muitas barbaridades como o "funk carioca" e o tecnobrega conseguem enganar a multidão com o falso rótulo de "vanguarda".

O resto é a "MPBzona" que paga a conta.

ESQUERDA E (CENTRO)DIREITA ERRAM NA ABORDAGEM DO BREGA-POPULARESCO


VIVIANE BATIDÃO E MIKE DO MOSQUEIRO - Mais espaço para o tecnobrega no templo lúdico da mídia golpista, o Domingão do Faustão da Rede Globo.

A esquerda brasileira erra ao exaltar a domesticação do povo pobre. A direita brasileira - e setores do centro mais alinhados a ela - erra ao querer se isolar do povo pobre. Mas ambos, de uma forma ou de outra, acabam condenando os movimentos sociais, o que é mal de ambos os lados.

De um lado, vemos uma esquerda brasileira "festiva", que acha que movimentos sociais só são bons quando feitos nos Andes, nos países bascos, nos guetos de Israel, nas praças de Caracas e Havana. Mas, no Brasil, acham que "movimentos sociais" são apenas a juventude pobre consumindo tendências do brega-popularesco, como a bola da vez, o tecnobrega, por vezes conhecido como tecnomelody.

De outro, vemos uma direita esnobe, medieval, e setores neutros que mais parecem preferir o discurso direitista. Pessoas que condenam o brega-popularesco, é verdade, mas condenam também os movimentos sociais, parecendo não aguentarem sequer ver os passarinhos montarem seus ninhos nas árvores, sob as bênçãos da Natureza, sem acusá-los de "aves petralhas, parasitas do BNDES".

Não se fala aqui de pessoas que realmente são de centro, como os cimistas, embora toda pessoa de centro, no contexto de hoje, encontre tentações e armadilhas que possam jogá-las para a direita, como a tentação de usar termos vejistas para criticar o esquerdismo no Brasil. Mas fala-se de setoresque se dizem de centro, mas que são inclinados naturalmente para o pensamento direitista.

Com esse abismo separando essas duas forças dominantes e influentes no país, que vivem uma Guerra Fria doméstica, ambos os lados erram, seja a esquerda afeita ao (discreto) fisiologismo, que a faz sucumbir aos cantos-de-sereia diversos, sejam os mensaleiros, os funqueiros e os tecnobregas, seja a direita e seu centro simpatizante, que as faz isolarem-se horrorizadas até do mais altruísta movimento social, a não ser as mesmíssimas manifestações alienadas e hipócritas dos grupos conservadores, mais afeitos a soluções fascistas de resolver os problemas sociais.

A "cultura" brega-popularesca consiste no processo de domesticação do povo pobre. Isso é evidente. Mas enquanto a direita subestima esse detalhe, a direita (e seus simpatizantes "independentes") superestima. Os primeiros jogam a sujeira jabazeira que envolve o brega-popularesco para debaixo do tapete. Os segundos sacodem esse tapete, sujam a casa toda e vão embora.

Por isso é que, enquanto as coisas no âmbito político parecem de fácil solução - como dar continuidade ao projeto político petista através de Dilma Rousseff, aparentemente invicta por causa das pesquisas de intenções de voto - , o âmbito cultural, no Brasil, parece estar numa situação bastante delicada.

A MPB autêntica resiste. Egberto Gismonti é aplaudido entusiasmadamente pelo povo, um aplauso que nenhum ídolo tecnobrega consegue arrancar. Djavan e Milton Nascimento produzem novos trabalhos. A música caipira de verdade tenta respirar sob o silêncio da grande mídia e seu "sertanejo" de araque. Músicos baianos que não compactuam com a axé-music (nem com o "pagodão" e o arrocha, subprodutos do mercado axezeiro-carlista) tentam sobreviver artisticamente, sem apoio da mídia. E, pelo jeito, mal conseguem ter o apoio de uma mídia esquerdista iludida com o mesmo tecnobrega que aparece fácil no Domingão do Faustão, transmitido pela maior das corporações da mídia golpista.

A esquerda e a (centro) direita acabam agindo de forma diferente pelo mesmo objetivo, desprezar o drama das classes populares, seja pelo populismo grotesco defendido pelos esquerdistas, seja pelo elitismo niilista com que reagem os direitistas (e seus discípulos ideologicamente "neutros").

Uns e outros acabam travando o verdadeiro desenvolvimento social do Brasil, e em nada resolvem para que o povo brasileiro supere de seu carma cafona, de sua eterna mediocridade, de sua inferioridade sócio-cultural. Agem contra o verdadeiro progresso social de nosso país. Agem de forma vergonhosa, com seus preconceitos igualmente elitistas. Cegos na sua visão de sociedade, surdos aos alertas sobre o perigo de seus equívocos e mudos na omissão de justificar suas posições equivocadas.

Por isso mesmo, enquanto esquerdistas se iludem com o Cavalo de Tróia do brega-popularesco, e enquanto direitistas declaram em tom esnobe sua ojeriza generalizada aos movimentos sociais, enquanto temos que suportar esse maniqueísmo tolo entre a credulidade mais ingênua e o ceticismo mais niilista, o povo brasileiro sofre com a miséria, com a violência e ainda é domesticado e manobrado por um padrão de "cultura" e entretenimento desenvolvido pelas oligarquias da mídia e do espetáculo, e tomada como se fosse "cultura do próprio povo".