domingo, 12 de setembro de 2010

MEMÓRIA RECENTE TAMBÉM ESTÁ SENDO PERDIDA


O CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR (BAHIA) - Descaso permite destruição da memória arquitetônica da capital baiana.

COMENTÁRIO DESTE BLOG: O terrível vício do Brasil esquecer sua memória gera danos em todos os aspectos. Seja para esquecer o passado corrupto dos políticos, seja para menosprezar valores e sítios históricos que aparentemente nada nos dizem. Enquanto isso, muita gente luta para que a efemeridade do entretenimento brega-popularesco e da futilidade das boazudas dure pelo menos 55 anos. Mas os verdadeiros valores sociais, a verdadeira cultura, e até nosso patrimônio histórico autêntico, essa memória está sendo condenada à destruição e ao esquecimento.

E nem mesmo o mainstream da mídia esquerdista consegue se preocupar com isso. Acham seus integrantes que basta o Brasil tornar-se progressista no âmbito político, que não precisa mais fazer coisa alguma para o país, depois que Dilma entrar no poder. E vão pensar assim até encontrarem José Serra se esbaldando de prazer numa apresentação de cantores do tecnobrega.

MEMÓRIA RECENTE TAMBÉM ESTÁ SENDO PERDIDA

Por Natania Nogueira - Blog Brasil: História e Ensino

A memória está constantemente correndo risco de ser perdida ou relegada a uma mera lembrança de tempos que se distanciaram do presente, que é por natura efêmero. E quando digo memória, não estou me referindo apenas à memória secular ou milenar, refiro-me a memória recente, que vai se apagando de geração a geração. Das cantigas de roda, que foram esquecidas, das histórias do folclore, que não são mais contadas e mesmo das artes gráficas, como os quadrinhos e seus subprodutos, que vão se apagando, como uma cópia carbonada que o tempo perde a cor e se torna uma marca d'água em um papel amarelado.

Trabalho com os mais diversos tipos de documentos, às vezes não com a propriedade que eu gostaria, e tenho percebido uma tendência ao esquecimento e o fortalecimento da noção de que o arquivo ou o próprio museu são espaços meramente destinados ao depósito daquilo que não mais faz parte do cotidiano. Preservação por vezes se confunde com o simples armazenamento de uma material que não pode ser perdido mas que também não é usado. Não é usado porque não faz mais parte da memória coletiva, porque não se identifica com a "atualidade".

Em alguns momentos, em casos especiais, esses documentos - seja qual for sua natureza - são reeditados, readaptados, explorados, para depois serem novamente esquecidos. Ao fazer essa reflexão eu me pergunto o que provoca essa tendência ao esquecimento. Porque se interessa tão pouco pelo passado? Daí me vem a ideia de que não é a falta de interesse pelo passado que é responsável pela perda gradativa da memória, pelo seu encarceramento em depósitos ditos "oficiais", mas sim o fato de que não reconhecemos a importância da memória em si.

A curiosidade acerca do passado existe. Qual professor de história nunca se deparou com alunos curiosos acerca do cotidiano da Idade Média, da História da sua localidade, da História da sua família? Eu constantemente vivencio essa experiência, mesmo entre aqueles que dizem não gostar de história, mas de gostar de saber sobre as curiosidades do passado, recente ou longínquo.

Então, devo concluir que a memória se perde, a cada dia, a casa década, porque as pessoas não entendem o que ela é, o que ela significa e que só será possível seu resgate ao reafirmar sempre sua importância, ao se definir claramente seu papel na sociedade contemporânea, ao de fundamentar o bom uso que se pode fazer dela e, acima de tudo, direcionar o ensino de história não para o ensino de conteúdos apenas, mas na redescoberta da memória coletiva, regional e nacional.

O PRECONCEITO DA INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA


A "PAÇOCA" DO PEDRO ALEXANDRE SANCHES TAMBÉM ESTÁ NO CARDÁPIO DE ANA MARIA BRAGA

A intelectualidade defensora do brega-popularesco se acha dona da visão oficial a respeito da cultura popular. Não é uma visão coerente, afinal eles compreendem a periferia do alto de seus condomínios, através do filtro parabólico da TV paga.

Dá para perceber que esses intelectuais, considerados "deuses" por boa parte de setores ingênuos da opinião pública, só veem a periferia de longe. Mas, como eles fazem um discurso aparentemente positivo, o aplauso é certo. Muitos põem o blog de Pedro Alexandre Sanches como link nos seus blogs. E mesmo um cafajeste literário como Paulo César Araújo - vi ele pessoalmente, e ele não me passa confiabilidade - é endeusado ao extremo por essa plateia deslumbrada.

Por isso é que eles, mesmo adotando uma visão paternalista, elitista e etnocêntrica do povo pobre - na ironia deles mesmos acusarem os que discordam deles com os mesmos adjetivos - , eles são aplaudidos. E são adotados pela intelectualidade de esquerda sem a menor desconfiança de que a "cultura" brega-popularesca que defendem é exatamente a mesma que é apoiada, com entusiasmo, pela Rede Globo, Folha de São Paulo e Grupo Abril (através da Contigo, Caras e Tititi).

Como sabemos aqui, o discurso que Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Rodrigo Faour, Hermano Vianna, Bia Abramo e Milton Moura fazem não é coerente. É um discurso confuso, dotado de falhas. Num instante, é uma narrativa descritiva, que se torna um apelo publicitário maquiado de divagações intelectualóides. E que, mesmo com alegações falsamente militantes, com seus clichês da retórica "pós-moderna", eles de uma forma ou de outra adotam algum conceito neoliberal por dentro desse discurso engenhoso.

É inútil costurar essa abordagem da "cultura popular(esca)" com alegações do tipo "pequenas mídias", usando clichês do discurso informático, pós-moderno, militante e antroposociológico. Numa passagem ou noutra, aparecem as abordagens típicas do discurso neoliberal.

Se por exemplo esses críticos musicais ou cientistas sociais falam que a MPB dos anos 60/70 e mesmo a música brasileira de qualidade vinda das classes pobres nos anos 40 e 50 acabou, que a "nova música brasileira" é brega e "primitiva" (maneira de dizer para ocultar o pejorativo termo medíocre), eles estão recorrendo à tese do "fim da história" do historiador neoliberal Francis Fukuyama, aplicada à análise da Música Popular Brasileira.

Se esses críticos e etnólogos por exemplo afirmam que a mediocridade da música brasileira de sucesso hoje - mediocridade que eles cinicamente isolam com aspas - vale "porque a maioria das pessoas gosta" ou porque "é isso que o povo sabe fazer", eles adotam o mesmo preconceito de dondocas esnobes que integram os mais ricos e antisociais setores da alta burguesia brasileira.

Se esses críticos se apavoram de tanto horror, quando falamos da necessidade de surgirem, nas periferias, roças e sertões, novos Ataulfo Alves, João do Vale, Jackson do Pandeiro, Marinês, Donga e Cornélio Pires, e nos chamam de "loucos saudosistas", estão adotando o mesmo discurso do medo de Regina Duarte naquela antiga campanha tucanopefelista (como se conheciam os demotucanos uns dez anos atrás). Pior, acabam se equiparando à reação do publicitário nazista Josef Göebbels que ficava furioso quando ouvia a palavra cultura.

Se esses críticos acreditam na utópica evolução do brega-popularesco atual, de converter os Léo Santana lenta e gradualmente nos Jackson do Pandeiro de amanhã, ou transformar uma Tati Quebra-Barraco numa nova Elza Soares (tal qual os breganejos e sambregas milionários brincam de "emipebê" em tributos musicais organizados pela Rede Globo e Multishow ou mesmo em incursões oportunistas em programas da TV Cultura e da MPB FM), eles estão apelando para um dos pilares do pensamento neoliberal moderno, o filósofo positivista Auguste Comte.

Se esses críticos dizem que o brega-popularesco é "a verdadeira MPB" porque faz sucesso entre as classes populares, lotando plateias, alimentando o sucesso da mídia (que em outros momentos "desaparece" da mesma retórica apologética) e tendo alta rotação nos botecos e camelôs das ruas das cidades, esses críticos (tal qual os cientistas sociais de mesmos argumentos) adotam a mesma lógica de economistas neoliberais, que medem o sucesso da sociedade através do faturamento e do sucesso de vendas e de consumo.

Os fatos não deixam mentir. Os ídolos brega-popularescos que esses críticos e cientistas sociais tanto defendem, e que eles, só eles, assim como sua plateia animada, acreditam serem ignorados pela grande mídia, aparecem com a maior facilidade no Domingão do Faustão, principal vitrine de entretenimento do Partido da Imprensa Golpista.

Ora, ora, se até os comediantes do Casseta & Planeta já são apelidados de Psdbeta & Tucaneta, quanto mais o grande olimpo da cafonice reinante, a maior máquina de entretenimento das Organizações Globo, que condiciona todo um comportamento domesticado e resignado da população pobre provida de televisão. Como é que os maiores ídolos popularescos, ou mesmo as tendências emergentes, aparecem no olimpo midiático do Domingão do Faustão, e essa intelectualidade não vê? E ainda se acham sábios pela retórica confusa e equivocada que adoram. Vá entender...