segunda-feira, 16 de agosto de 2010

DE BONNER PARA HOMER: LEMBRANÇAS DO JN



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Não me perguntem a comparação entre William Bonner e Homer Simpson. Até porque eu acho que quem tem a ver com Homer Simpson, com cara de Dino da Silva Sauro, é o Fernando Henrique Cardoso.

Em todo caso, o texto de Laurindo Leal dá uma excelente lição de como é o gate keeping dos telejornais, processo de liberar ou vetar alguma notícia, de acordo com as normas da casa.

De Bonner para Homer: lembranças do JN

Laurindo Lalo Leal Filho - Agência Carta Maior, reproduzida também no Blog do Miro.

O destaque dado pela mídia ao Jornal Nacional na última semana, em razão das entrevistas realizadas com os candidatos à presidência da República, trouxe a minha memória o episódio de cinco atrás quando acompanhei com colegas da USP uma reunião de pauta daquele programa.

Contei em artigo publicado na revista Carta Capital e depois reproduzido no livro “A TV sob controle” o que vi e ouvi naquela manhã no Jardim Botânico, no Rio. Mostrei como se decide o que o povo brasileiro vai ver à noite, no intervalo entre duas novelas. Ficou clara, para tanto, a existência de três filtros: o primeiro exercido pelo próprio editor-chefe a partir de suas idiossincrasias e visões de mundo cujos limites se situam entre a Barra da Tijuca e Miami, por via aérea.

O segundo e o terceiro filtros ficam mais acima e são controlados pelos diretores de jornalismo e pelos donos da empresa, nessa ordem. Não que o editor-chefe não tenha incorporado as determinações superiores mas há casos que vão além de sua percepção e necessitam análise político-econômica mais refinada.

As entrevistas com os presidenciáveis passaram, com certeza, pelos três filtros e os resultados o público viu no ar. O candidato do PSOL tendo que refazer uma fala cortada pela emissora e a candidata do PT deixando de ser entrevistada para ser inquirida. Para os outros dois candidatos da oposição a pegada foi mais leve, de acordo com a linha editorial da empresa.

Nada diferente do que vi em 2005 quando uma notícia oferecida pela sucursal de Nova York foi sumariamente descartada pelo editor-chefe do telejornal. Ela dava conta de uma oferta de óleo para calefação feita pelo presidente da Venezuela à população pobre do estado de Massachussets, nos Estados Unidos, a preços 40% mais baixos do que os praticados naquele pais. Uma notícia de impacto social e político sonegada do público brasileiro.

Ou da empolgação do editor-chefe em colocar no ar a notícia de que um juiz em Contagem (MG) estava determinando a soltura de presos por falta de condições carcerárias. Chegou a dizer, na reunião de pauta, que o juiz era um louco e depois abriu o jornal com essa notícia sem tentar ouvir as razões do magistrado e, muito menos, tocar na situação dos presídios no Brasil. O objetivo era disseminar o medo e conquistar preciosos pontos de audiência.

Diante dessas lembranças revirei meu baú com mensagens recebidas na época. Foram dezenas apoiando e cumprimentando pelas revelações feitas no artigo.

Reproduzo trechos de uma delas enviada por jornalista da própria Globo:

“Discordo da revista Carta Capital num ponto: o texto ‘De Bonner para Homer’ não é uma crônica. É uma reportagem, um relato muito preciso do que ocorre diariamente na redação do telejornal de maior audiência do País.

As suas conclusões são, porém, mais esclarecedoras do que uma observação-participante. Que fique claro: trabalho há muito tempo na Globo, não sou, portanto, isento.

Poderia apresentar duas hipóteses relacionadas à economia interna da empresa para a escolha do editor-chefe do JN:

1) a crise provocada pelo endividamento levou a direção da rede a tomar medidas para cortar de despesas. Em vez de dois altos salários - o de apresentador e o de editor-chefe - para profissionais diferentes, entregou a
chefia ao Bonner. Economizou um salário.

2) como é profissionalmente fraco, não tem experiência de campo, nunca se destacou por nenhuma reportagem, o citado apresentador tem o perfil adequado para o papel de boneco de ventríloquo da direção do Jornalismo.

A resposta para a nossa questão deve estar bem próxima dessas duas hipóteses. De todo modo, os efeitos são devastadores: equipe dividida, enfraquecida e só os mais inexperientes conseguem conviver com o chefe tirano e exibicionista.

‘Infelizmente, é um retrato fiel’, exclamou uma repórter experimentada diante do seu texto.

Eu me sinto constrangido e, creia-me, não sou o único por aqui”.

É a esse tipo de organização que os candidatos à presidência da República devem se submeter se quiserem falar com maior número possível de eleitores. Constrangimento imposto pela concentração absurda dos meios de comunicação existente no Brasil, interferindo de forma perversa no jogo democrático.

MORRISSEY LISTA SEUS TREZE ÁLBUNS FAVORITOS



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Claro, um grande cantor tem um grande gosto musical. Morrissey, o batalhador cantor inglês, ex-vocalista dos Smiths e hoje defendendo uma corajosa carreira-solo, foi convidado por um site para lisar seus treze álbuns favoritos, e o resultado se vê abaixo. Inclui Velvet Underground, T-Rex, Stooges e Patti Smith e, claro, New York Dolls. Clássicos do rock. Nenhum poser, certo, garotada?

Do Portal Terra

Nesta (última) sexta-feira 13, o site The Quietus pediu ao cantor e compositor Morrissey, ex-líder dos Smiths, para listar seus treze álbuns favoritos de todos os tempos. Solícito, Morrissey escaneou e mandou para o site as capas de todos os discos, acompanhadas de seus comentários.

A lista tem clássicos como Velvet Underground, Ramones, Iggy & Stooges e New York Dolls, o primeiro da lista. Mas também contempla nomes menos conhecidos, como o cantor glam Jobriath, a banda Smoking Popes e Demian Dempsey. Sobre o álbum Born to Quit, do Smoking Popes, Morrissey escreveu: "Eu achei esse álbum extraordinário, a coisa mais adorável que ouvi em anos".

Confira a lista:
1. New York Dolls - New York Dolls
2. Ramones - Ramones
3. Patti Smith - Horses
4. Nico - Chelsea Girl
5. Iggy & The Stooges - Raw Power
6. Sparks - Kimono My House
7. The Velvet Underground - White Light/White Heat
8. The Velvet Underground - The Velvet Underground & Nico
9. Roxy Music - For Your Pleasure
10. Damien Dempsey - Seize The Day
11. Smoking Popes - Born To Quit
12. Jeff Buckley - Grace
13. Jobriath - Jobriath

OS MACHOS SELVAGENS NÃO TE QUEREM, MAITÊ!



Não, Maitê. Os machos selvagens não a querem. Os machos selvagens querem as boazudas.

No momento eles estão entusiasmados com o crescimento vertiginoso dos glúteos de Valesca Popozuda ou com as "acidentais" exibições de partes sutis dos corpos de moças como Nana Gouveia, Viviane Araújo e Renata Santos.

Se você, Maitê, acha que os machões, por terem se enjoado de Priscila Pires - que, de tão vazia e metida, deve levar fora até de caminhoneiro - , passaram a gostar de mulheres classudas, você se enganou. Se algum machista hoje pega uma mulher mais classuda, é porque ele quer mais uma vida movimentada, não é porque ele passou a gostar de mulheres emancipadas.

O macho selvagem ainda reconhece o valor da mulher pelos glúteos. Mas o país vive numa espécie de esquizofrenia social e as próprias popozudas vivem um estranho celibato, achando que podem escolher homens, que podem conquistar homens legais e que podem dar fora nos machos selvagens. É uma esquizofrenia social que faz certos neoliberais se dizerem de esquerda, jovens reacionários se dizerem "humanistas" e gente burra se gabar em ser "inteligente".

Portanto, os machos selvagens acham você, Maitê, muito complicada. O fato de você ser escritora, cronista e autora de peças de teatro lhes dá dor de cabeça. Os machos selvagens querem ir para as noitadas, encher a cara, pegar as "cachorras", não querem discutir política com uma mulher culta.

Se os machos selvagens querem José Serra, você não precisava dizer. Eles já estavam fazendo, de qualquer maneira. De tão brutos - acho que o goleiro Bruno deveria trocar o "n" pelo "t" que tem mais a ver - , os machos selvagens não aceitam conselhos. Eles só seguem seus instintos. E riem da cara dos outros, como Brun(t)o e Misael. Até chegar o momento de um dia eles começarem a chorar, como foi o caso do seu pai, Maitê.

EU CONHEÇO A PERIFERIA DE PERTO


JÁ FUI VÁRIAS VEZES AO BAIRRO DO URUGUAI, EM SALVADOR (BA).

Sou natural de Florianópolis, Santa Catarina, onde nasci há 39 anos, em 21 de março de 1971. Tenho distante ascendência britânica, por parte de mãe, mas tenho sangue baiano por parte de pai.

Sendo de classe média, eu no entanto posso dizer que conheço a periferia, porque morei em bairros de classe média baixa perto de comunidades populares ou mesmo favelas, e passeei por várias vezes nos subúrbios.

Escrevo isso porque existe o sério problema dos intelectuais que defendem a "cultura" brega-popularesca, entre antropólogos, sociólogos, historiadores, jornalistas, artistas e celebridades, que tanto se gabam em "entender" a periferia, mas só conheciam as comunidades pobres pela televisão ou pelas suas teses de gabinete, ou então em visitas rápidas a certos locais de subúrbio, quase que como verdadeiros turistas estrangeiros. Suas "ciências sociais" de gabinete só convencem quem é realmente incauto para ouvir esses pregadores da cafonice dominante.

Ou seja, esse pessoal que possui a visão que oficialmente se tem do povo da periferia simplesmente não sabe o que são as comunidades pobres, e veem tudo de maneira estereotipada, paternalista, embora eles mesmos, na cara-de-pau, jurem que não veem o povo de forma estereotipada nem o tratam de forma paternalista. Falar é fácil.

Mesmo quando fui criado em Niterói, onde morei por duas temporadas (1973-1977 e 1981-1990) e onde voltei a morar atualmente, ia muito ao município vizinho, São Gonçalo, que praticamente é quase todo um subúrbio. Passando pelo Rodo e indo até Alcântara, dá para perceber o caráter suburbano da cidade fluminense, sobretudo no seu notável comércio popular e nas casas antigas.

Do Rio de Janeiro, conheço boa parte da Zona Norte, seja Méier, Bonsucesso, Inhaúma, Jacaré, Tijuca, e uma vez fui até Cascadura (passando, por conseguinte, em Madureira). Também conheço a Baixada Fluminense, pelo lado de São João do Meriti, Nilópolis, Mesquita e Nova Iguaçu, porque vou muito à casa de meus tios em Mesquita, gente muito, muito boa, tal como meus primos. E sempre me senti bem na casa deles.

Em Salvador, Bahia, onde morei entre 1990 e 2008, passeei por tudo quanto é bairro pobre, ainda que de ônibus. Fui muito à península de Itapagipe, seja Ribeira, Bonfim, Caminho de Areia e Uruguai. Passeei por Cajazeiras, fui para alguns bairros da região devido a compromissos pessoais, mas a maior parte das vezes passeei por linhas circulares dos ônibus que partiam da Estação Pirajá. Também fui duas vezes para o bairro do Marechal Rondon e passei por Pirajá. E também conheço o subúrbio ferroviário (Paripe, Plataforma).

Já fui com meu pai por dentro de uma grande favela na Boca do Rio, perto do Centro de Convenções de Salvador. Já fui de ônibus para Tancredo Neves e Mata Escura, já passei por Pernambués, pelo Garcia, pela Av. Vasco da Gama, cheia de favelas no seu entorno. Já fui para o Calabar, quando fui falar com meu então professor Fernando Conceição. Já passeei muito pela Estrada Velha do Aeroporto, de ônibus, por onde passa por várias áreas populares.

Em vários lugares de Salvador existem casas e lojas típicos de comunidades suburbanas. Eu fui também para Lauro de Freitas e Camaçari, além de conhecer Simões Filho uma vez, uma cidade puramente interiorana.

Falando em interior, eu conheço Feira de Santana e também as cidades de Seabra, Itaberaba e fui uma vez para Lençois, lugar turístico. Conheci Amélia Rodrigues, ainda uma roça dentro da Bahia. E, através do ônibus Rio X Salvador (via Minas Gerais), conheço também cidades como Caratinga e Leopoldina. Ou seja, o interior brasileiro não é segredo para mim.

Recentemente, morei no bairro niteroiense do Viradouro - há quatro meses, moro na parte de Santa Rosa mais próxima do Jardim Icaraí. Minha mudança de residência ocorreu sem problemas, mas foi num período em que a cidade sofria as consequências da tragédia do Morro do Bumba (localizado em Viçoso Jardim, área também que conheci e que visitei muito, quando a comadre de minha mãe morava lá). Mas no próprio Viradouro pude ver a área do Beltrão, do Vital Brazil e, quando pegava o 39 para Piratininga, passar pela área suburbana da Estrada Gen. Castro Guimarães (antiga Estrada da Garganta).

Esse relato é para provar que minha compreensão do povo pobre não é pedante nem paternalista. E para considerar injusta essa exploração caricata que a grande mídia e seus adeptos (muitos deles enrustidos) fazem do povo pobre que, sofrido, não pode se transformar numa massa condenada a parecer pateticamente feliz enquanto sofre o sofrimento que nossos cientistas sociais do brega-popularesco não conseguem enxergar.