quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A DESPOLITIZAÇÃO DA CULTURA PERMITE ABORDAGENS DA DIREITA ENRUSTIDA


BANDA CALYPSO NO DOMINGÃO DO FAUSTÃO - Parece loucura, mas há lunáticos que pensam que isso se trata de uma invasão de forças rebeldes na grande mídia.

Está na pauta, no momento, a questão de haver defensores da música brega-popularesca que, supostamente, estão alinhados à ideologia política de esquerda. Pessoas que elogiam as tendências brega-popularescas mas espinafram todo o cenário midiático e político que sustentou as mesmas.

Seu grande totem é o jornalista Pedro Alexandre Sanches que, oriundo da temível Folha de São Paulo, anda passeando pelas redações da mídia esquerdista. Free-lancer? Apadrinhado por algum ex-folhista? O que se sabe é que Pedro não aderiu à mídia esquerdista com a convicção de um Paulo Henrique Amorim, que assume posição autocrítica em relação ao seu passado global e hoje milita brilhantemente em prol da mídia alternativa.

Pedro, não. Ele apenas viu uma brecha na mídia esquerdista e aderiu. Ele só se limita a ajustar seu discurso folhista com alguns clichês da abordagem esquerdista, falando em "rádios comunitárias", "pequenas mídias" e por aí vai.

Pois a moda é essa, dizer que o brega-popularesco é uma "rebelião popular de esquerda", quando na verdade nada se vê disso. Nada. Está na cara que é uma cultura estereotipada, moldada pelas elites, que transforma o povo pobre numa massa domesticada, submissa, que claramente se vê a partir dos sorrisos patéticos. E sua péssima qualidade musical é algo que é planejada até pelos escritórios das grandes gravadoras ou das grandes rádios, e se existem fenômenos "independentes" como o tecnobrega, no entanto, eles obedecem a toda uma pedagogia brega que os barões da mídia golpista tanto desenharam para o povo pobre.

Mas esses ideólogos do brega-popularesco não querem saber. Chegam ao nível do mais profundo delírio, achando que a presença de seus ídolos na grande mídia é algo como uma ocupação de índios no prédio do INCRA ou uma invasão do MST num latifúndio improdutivo. Nada a ver.

Afinal, como é que os ídolos popularescos aparecem na grande mídia, tão felizes e bem tratados, e uns lunáticos tentam ver isso como se fosse um contragolpe na mídia golpista?

Como eles podem explicar o fato da Banda Calypso aparecer, feliz, nos programas da Rede Globo ou, pior, o grupo comandado por Joelma e Chimbinha ser contratado pela Som Livre, braço fonográfico das Organizações Globo? Vão dizer que isso se trata de um plano de destruição da grande mídia, comandado por Caracas e Havana, do qual o citado casal seria agente, a serviço de movimentos com ramificação até no zapatismo e no trotskismo russo, para dinamitar as bases sócio-culturais da corporação dos irmãos Marinho?

Um grande absurdo!! Seria o mesmo que dizer que o Papai Noel se veste de vermelho porque na verdade é um grande general russo radicado na Finlândia e comprometido com a internacionalização da revolução comunista em todo o mundo.

A DESPOLITIZAÇÃO DA CULTURA

"POLITIZAR" PARA DESPOLITIZAR - Recentemente, foi publicado um texto de Marcelo Salles reclamando que a grande mídia quer despolitizar a vida. Olha só quem fala. Salles é o mesmo que escreveu textos como este, em que faz a apologia do "funk carioca", uma das principais tendências da Música de Cabresto Brasileira (o grande "bolo" que reúne as tendências brega-popularescas, do vovô Waldick - ou Waldik - aos netinhos MC Créu e Gaby Amarantos).

Mas, peraí. A defesa do "funk" aparece como um "movimento politizado", por que este blog indica a despolitização da cultura nas defesas que certas pessoas fazem à música brega-popularesca?

Simples. A cultura é despolitizada pelo discurso dominante e transformada num processo de "cultura de massa", onde estilos musicais surgem e seus sucessos são produzidos mediante uma lógica industrial de consumo, que influi em todos os detalhes do espetáculo. Na música brega-popularesca, TODOS os estilos seguem essa lógica, podendo ser tanto a axé-music quanto o "funk carioca", quanto qualquer outro (arrocha, tchê music, breganejo etc).

Só que, no Brasil politicamente correto - herdado da Era Reagan dos EUA mas adaptado desde os tempos de Collor e FHC - , a "cultura de massa" precisa se apoiar por um discurso "engajado" para que seus fenômenos não pereçam na condição de modismos.

Cria-se todo um discurso "militante", "intelectualóide", atribuindo uma rebelião que na verdade não existe. O povo consome apenas os sucessos popularescos, o empresariado do entretenimento recruta alguns cantores e grupos para futuros projetos de sucesso, dentro das regras do mercado neoliberal aplicado ao povo pobre.

Não há rebelião, do contrário que pregam, em argumentações confusas, longas, desesperadas, entre persuasivas e raivosas, dos ideólogos de plantão. Eles insistem: tentam creditar Tati Quebra-Barraco, Valesca Popozuda, MC Créu, Gaby Amarantos, Banda Calypso e Silvano Sales como supostos líderes de uma "nova rebelião popular", em discursos totalmente delirantes que, num país pouco habituado à leitura e à audição atenta às músicas tocadas, soam "verdadeiros" e "corerentes". Na verdade, eles tocam mais na emoção, pouco contribuindo na consistência argumentativa.

Pergunte para os cantores de arrocha Silvano Sales e Nara Costa se eles fazem "rebelião cultural". Pergunte para MC Créu, se ele é militante de uma cruzada trotskista. Pergunte a Léo Santana, do Parangolé, se seu "rebolation" é parte de um plano de ataque, comandado de Havana, para destruir a grande mídia e as gravadoras multinacionais instaladas no Brasil. Pergunte para a Joelma, Chimbinha e Gaby Amarantos se seu sucesso tem a influência de forças comunistas venezuelanas supostamente instauradas em Belém do Pará.

A resposta, com a mais absoluta certeza, não será outra: "NÃO SEI". E haverá quem perguntasse o que é tal rebelião que os ideólogos do brega-popularesco, trancados em seus condomínios no Leblon e no Morumbi, tão orgulhosa e convictamente creditam aos ídolos popularescos.

Na verdade, o que está por trás dessa despolitização da cultura é o jogo de interesses que a direita, através dos vários segmentos do poder econômico e político, sejam eles de âmbito nacional ou regional. Nesse jogo de interesses, o que é manjado é o que as elites fazem no âmbito político e midiático, mas no âmbito do entretenimento o desconhecimento é tão grande (daí a despolitização) que teses delirantes que tentam inverter o sentido do processo são veiculadas, sob aplausos entusiasmados da plateia incauta e ingênua.

A depender do interesse do discurso, as próprias tendências brega-popularescas, na abordagem esquizofrênica de seus defensores, são vistas ora como estilos musicais inocentes (como são vistos seus ídolos e seu público), ora como "perigosos movimentos culturais". As circunstâncias é que moldam que desculpa será usada para justificar essas tendências.

Mas a própria contradição dessas apologias, que ora justificam fenômenos como o "tchan", o "créu", o "rebolation" e o "tecnobrega" apenas pela "alegria" que causam no seu público, ora definem esses fenômenos como a "legítima rebelião do povo da periferia", mostra a total incoerência e inconsistência desse discurso apologético.

Mas, como a maioria das pessoas dificilmente observa as coisas atentamente, não lê livros nem para para ouvir uma música, seja boa ou ruim, todo mundo aplaude esse discurso confuso, esquizofrênico, que no entanto deixa vasar, mesmo na mídia esquerdista (como a revista Caros Amigos), argumentos que se alinham perfeitamente com o pensamento neoliberal.

SARNEY E COLLOR ESTÃO NO LADO DA INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA


JOSÉ SARNEY E FERNANDO COLLOR - Os patrocinadores do brega-popularesco também estão juntos com Eugênio Raggi, Pedro Alexandre Sanches e companhia. Muito mais do que eles podem imaginar.

Mas também de que adianta a intelectualidade defensora do brega-popularesco encenar toda uma pseudo-convicção de esquerda, com seu discurso que mais parece uma gororoba retócia que disfarça abordagens neoliberais com delírios intelectualóides e pseudo-militantes?

Pois, se eles, em virtude do Brasil ser governado nos últimos anos por um grupo político de centro-esquerda, tornaram-se eles mesmos supostos esquerdistas, eles deveriam se informar de que contam também com "boas companhias": os ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor de Mello.

Integrantes de grupos políticos tradicionalmente conservadores - José Sarney defendeu a derrubada de João Goulart (que, no projeto político, foi uma espécie de Lula dos anos 60, apesar de Jango ter sido fazendeiro) e apoiou toda a ditadura militar, e os pais de Fernando Collor miitaram até no IPES para derrubar Jango, apoiar a ditadura e lançar o famoso filho sob as bênçãos do regime militar - , Sarney e Collor também se tornaram presidentes através de uma aliança política predominantemente conservadora.

Os dois também patrocinaram, de forma bem explícita - algo que a miopia de Sakamotos, Raggis, Sanches e outros não querem admitir - , a expansão da música brega-popularesca em todo o país, como forma de neutralizar a força artística da MPB autêntica (já pressionada com a pasteurização ditada pela indústria fonográfica nos anos da Era Geisel).

Quem é que, ao lado de Antônio Carlos Magalhães, distribuiu emissoras de rádio para grupos políticos e empresariais aliados, nos anos 80? José Sarney. E o resultado? Pela pressão política desses donos de rádio, expressões de poder político e econômico de suas regiões, essas rádios se tornaram justamente as mais ouvidas ou as mais influentes de suas regiões. E foi através de que trilha sonora essas rádios foram influentes? Foi pela música brega-popularesca de cada região, os mesmos estilos que os ideólogos de plantão querem creditar equivocadamente como "rebelião do povo da periferia".

E quem é que chamou as "duplas sertanejas" - que na verdade faziam um engodo que pasteuriza country, boleros e mariachis com arranjos que remetem claramente ao brega de Waldick Soriano - para tocarem para ele na festa de sua vitória eleitoral? Fernando Collor. A Era Collor também foi um período em que a música brega-popularesca, a suposta "música popular" que rola na maioria das rádios, começou a se expandir da forma mais hegemônica, já não vendo mais limites entre subúrbio e zona urbana, favelas e condomínios, analfabetos e universitários.

Hoje Sarney e Collor estão alinhados com a "banda podre" do grupo governista atual. Da mesma forma que Paulo Maluf, colega deles nos áureos tempos do IPES. Os ídolos bregas da Era Collor - não posso citar certos nomes, porque dona Francielly não gosta - , entre diluidores da música caipira e do samba mas também alguns axezeiros impulsionados pela Era Sarney e alguns funqueiros e lambadeiros hoje promovidos como "funk de raiz" e "artistas de zouk", hoje batem ponto no Domingão do Faustão, mas fingem que tudo isso nada tem a ver.

Se observarmos o que levou a música brega-popularesca a se expandir no Brasil, ameaçando tanto a sobrevida da antiga música popular de raiz - dos tempos em que os morros, sertões e roças produziam música de excelente qualidade - quanto a geração sessentista universitária que tentou manter o legado da canção popular na memória do grande público, certamente veremos todo uma estrutura política conservadora, direitista, que sempre se alinhou com os governos conservadores e direitistas desde abril de 1964.

Os ideólogos de plantão, os Raggi, Sakamoto, Sanches, Patolinos e outros vão tentar combater essa realidade com suas abordagens fantasiosas. Tentarão combater com choro, com raiva, com argumentações confusas, subjetivistas, emocionais, pseudo-racionais, até cansarem a opinião pública com sua retórica bagunçada, que até o momento só consegue convencer os incautos pelo aspecto emocional.

Porque misturar alegações esquerdistas com conceitos neoliberais para justificar a prevalência da música brega-popularesca no gosto popular é algo que será contradito severamente pelo tempo, que mostrará situações concretas que irão pôr, por terra abaixo, todos esses argumentos que, estranhamente, desfilam tranquilamente tanto pelas páginas de Caros Amigos quanto pela telinha da Rede Globo.

O PREÇO DO DESBUNDE BREGA



Os defensores da música brega-popularesca estabelecem o preço de sua conta futura.

Seu "grito de liberdade", mal sabem eles, acaba descambando para o outro lado do desbunde, onde a "diversidade cultural" que eles falam mostra-se tão somente uma tradução musical da "democracia" das elites neoliberais.

Pois bem, mal sabem eles que aliado eles têm, o atual Fernando Gabeira, encharcado de neoliberalidades da Folha de São Paulo e agora aliado de José Serra.

É o desbunde, o "deixar fazer", o Brasil neoliberal onde quem decide são as elites, cabendo apenas o povo fazer "só o que sabe", porque "a maioria gosta".

Gabeira comeu certas "paçocas" e gostou. E ofereceu uma parte delas para José Serra, que deve ter adorado mais ainda. Consta-se que os demotucanos já estão preparando a grana para financiar a festa dos 15 anos do É O Tchan. Como Collor financiou os breganejos e sambregas que hoje vendem a falsa imagem de "sofisticados".

E há quem pense que esse horrendo grupo baiano simboliza a revolta popular das comunidades pobres. Dá para acreditar?

O MÉDICO E O MONSTRO



Cuidado com certas vozes "esquerdistas" que falam em prol da causa brega-popularesca.

Certos blogueiros "bem intencionados", na verdade, mais parecem o personagem Dr. Jekyll da obra de Robert Louis Stevenson, O médico e o monstro, que se transforma no monstro chamado Mr. Hyde.

Pois, no âmbito da política, essas pessoas parecem o dócil Dr. Jekyll, sempre postos a defender as verdadeiras causas populares, questionando a grande mídia, contestando o poder político das elites.

Mas, quando o assunto é cultura, se transformam no perigoso monstro a defender os mesmos ídolos brega-popularescos que o baronato da grande mídia e as elites detentoras do poder tanto apoiam.

Cuidado com eles.