terça-feira, 3 de agosto de 2010

IRÃ USA PRETEXTOS MORAIS LOCAIS PARA MANTER CONDENAÇÃO DE VIÚVA



COMENTÁRIO DESTE BLOG: O presidente Lula ofereceu asilo político para a iraniana condenada a apedrejamento, mas o Ministério das Relações Exteriores do Irã apelou para explicações moralistas para manter a sentença contra a mulher, acusada de adultério.

Irã diz que Lula é emotivo e desconhece caso de condenada a apedrejamento

Presidente do Brasil ofereceu asilo político a mulher acusada de cometer adultério

Da Agência EFE - Reproduzido também no portal R7

Ramin Mehmanparast, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, disse nesta terça-feira (3) que o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ofereceu asilo político a Sakineh Mohammadi, acusada de adultério e condenada ao apedrejamento, porque "desconhece seu caso".

O porta-voz da diplomacia iraniana fez a declaração durante a entrevista coletiva semanal realizada na sede do Ministério das Relações Exteriores, no sul de Teerã, capital do Irã.

- Pelo conhecimento que tenho do senhor Lula da Silva, sei que é uma pessoa humana e carinhosa, mas possivelmente não recebeu informações suficientes sobre o caso [de Sakineh Mohammadi].

O alto funcionário iraniano respondeu dessa forma a uma pergunta sobre a postura do Irã a respeito das recentes declarações de Lula sobre a disposição brasileira de dar asilo político a Sakineh.

- O que podemos fazer é colocar Lula a par do caso. O delito de Sakineh é óbvio, baseado em documentos.

Sakineh - que é natural do Azerbaijão, tem 43 anos e é mãe de dois filhos - foi acusada de adultério por um tribunal iraniano. A família e a própria acusada negam que ela tenha cometido qualquer crime.

A Justiça condenou Sakineh ao apedrejamento em 2007, mas a sentença ainda não foi aplicada, principalmente devido às pressões internacionais a è repercussão que o caso ganhou.

As autoridades judiciais do governo de Teerã, que também acusaram Sakineh pelo assassinato de seu marido, anunciaram em julho que a sentença não será aplicada por enquanto, mas acrescentaram que a condenação ainda vale.

No último sábado (31), Lula disse que o Brasil poderia abrigar Sakaneh se o governo do Irã permitisse o asilo.

- Apelo ao líder supremo do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que permita ao Brasil conceder asilo a esta mulher.

Um dos principais aliados ocidentais do governo iraniano, Lula errou o cargo de Ahmadinejad, que é presidente. O líder supremo do Irã é o aiatolá Ali Khamenei, que exerce autoridade religiosa e legalmente dá a última palavra nos principais assuntos de Estado.

CONGRESSO ABSOLVE MST



COMENTÁRIO DESTE BLOG: A criminalização dos movimentos sociais por parte da bancada ruralista do Congresso Nacional não conseguiu o que queria. O reacionarismo da direitona fracassou em mais uma tentativa de peso feita contra o movimento dos trabalhadores rurais.

Congresso absolve MST

Por Frei Betto - Rede de Comunicações pela Reforma Agrária

O MST jamais desviou dinheiro público para realizar ocupações de terra — eis a conclusão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito(CPMI), integrada por deputados federais e senadores, instaurada para apurar se havia fundamento nas acusações, orquestradas pelos senhores do latifúndio, de que os movimentos comprometidos com a reforma agrária se apoderaram de recursos oficiais.

Em oito meses, foram convocadas 13 audiências públicas. As contas de dezenas de cooperativas de agricultores e associações de apoio à reforma agrária foram exaustivamente vasculhadas. Nada foi apurado. Segundo o relator, o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP), “foi uma CPMI desnecessária”.

Não tão desnecessária assim, pois provou, oficialmente, que as denúncias da bancada ruralista no Congresso são infundadas. E constatou-se que entidades e movimentos voltados à reforma fundiária desenvolvem sério trabalho de aperfeiçoamento da agricultura familiar e qualificação técnica dos agricultores.

O que os denunciantes buscavam era reaquecer a velha política — descartada pelo governo Lula — de criminalizar os movimentos sociais brasileiros. Esse tipo de terrorismo tupiniquim a história de nosso país conhece bem: Monteiro Lobato foi preso por propagar que havia petróleo no Brasil (o que prejudicou os interesses norte-americanos); foram chamados de comunistas os que defendiam a criação da Petrobras; e, de terroristas, os que lutavam contra a ditadura e pela redemocratização do país.

A comissão parlamentar significou, para quem insistiu em instaurá-la, um tiro saído pela culatra. Ficou claro para deputados e senadores bem intencionados que é preciso votar, o quanto antes, o projeto de lei que prevê a desapropriação de propriedades rurais que utilizam trabalho escravo em suas terras. E resolver, o quanto antes, a questão dos índices de produtividade da terra.

A investigação trouxe à luz não a suposta bandidagem do MST e congêneres, como acusavam os senhores do latifúndio, e sim a importância desses movimentos no atendimento à população sem terra. Eles cuidam da organização de acampamentos e assentamentos e, assim, evitam a migração que reforça, nas cidades, o cinturão de favelas e o contingente de famílias e pessoas desamparadas, sujeitas ao trabalho informal, ao alcoolismo, às drogas, à criminalidade.

Segundo Jilmar Tatto, os inimigos da reforma agrária “fizeram toda uma carga, um discurso muito raivoso, colocaram dúvidas em relação ao desvio de recursos públicos e perceberam que a montanha tinha parido um rato. Porque não havia desvio nenhum. As entidades e o governo abriram todas as suas contas. Foram transparentes e, em nenhum momento, conseguiu-se identificar um centavo de desvio de recurso público. Foram desmoralizados (os denunciantes), e resolveram se ausentar dos trabalhos da CPMI. (…) Foi um trabalho produtivo, no sentido de deixar claro que não houve desvio de recurso público para fazer ocupação de terras no Brasil. O que houve foi a oposição fazendo uma carga muito grande contra o governo e o MST”.

Os parlamentares sensíveis à questão social no Brasil se convenceram, graças ao trabalho da comissão, de que é preciso aumentar os recursos para a agricultura familiar; garantir que a legislação trabalhista seja aplicada na zona rural; e incentivar sempre mais os plantios alternativos e os alimentos orgânicos, sobre cuja qualidade nutricional não paira a desconfiança que pesa sobre os transgênicos. E, sobretudo, intensificar a reforma agrária no país, desapropriando, como exige a Constituição, as terras improdutivas.

Dados recentes mostram que, no Brasil, se ocupam 3 milhões de hectares com a lavoura de arroz e 4,3 milhões com feijão. Segundo o geógrafo Ricardo Alvarez, se compararmos com os 851 milhões de hectares que formam este colosso chamado Brasil veremos que as cifras são raquíticas. Apenas 0,85% do território nacional está ocupado com o cereal e a leguminosa. Um aumento de apenas 20% na área plantada significaria passar de 7,3 para 8,7 milhões de hectares, com forte impacto na alimentação do povo brasileiro.

Para Alvarez, o aumento da produção levaria à queda de preços, ruim para o produtor, bom para os consumidores. Caberia, então, ao governo implantar uma política de ampliação da produção de alimentos, garantir preços mínimos, forçar a ocupação da terra, combater o latifúndio, gerar empregos no campo e atacar a fome. Ação muito mais eficiente, graças aos 20% de acréscimo na área plantada, do que o assistencialismo alimentar.

O latifúndio ocupa, hoje, mais de 20 milhões de hectares com soja. No início dos anos 1990, o número beirava os 11,5 milhões. A cana-de-açúcar foi de 4,2 para 6,5 milhões de hectares no mesmo período. Arroz e feijão sofreram redução da área plantada. Hoje o brasileiro consome mais massas do que a tradicional combinação de arroz e feijão, de grande valor nutritivo.

Alvarez conclui: “Não faltam terras no Brasil, faltam políticas de distribuição delas. Não faltam empregos, falta vontade de enfrentar a terra improdutiva. Não falta comida, falta direcionar a produção para atender as necessidades básicas de nossa população”.

FACEBOOK PROÍBE O TERMO "PALESTINIAN" E RESPONDE O PORQUÊ


COMENTÁRIO DESTE BLOG: A jornalista Jillan C. York recebeu uma mensagem do Facebook a respeito do "bug" que não permitiu a veiculação do termo "palestinian" ("palestino") pelo Facebook. Apesar das explicações, isso não resolve em todo a controvérsia quanto à censura na Internet.

Facebook proíbe o termo "Palestinian" e responde o porque

Do blog do Tsavkko - Angry Brazilian

Este post é uma continuação do anterior "Denúncia séria: Facebook PROÍBE termo "Palestinian" em suas páginas [Update]", que faz a denúncia de uma suposta censura contra o termo "Palestinian" pelo Facebook.

Aparentemente o site respondeu à Jillian e eis a resposta.

Eu tenho escrito sobre os problemas do Facebook durante quase quatro meses, então imagine minha surpresa ontem quando recebi um e-mail de um funcionário do Facebook, em resposta aos meus posts. Como eu não tenho a permissão do funcionário para usar seu nome ou postar seu e-mail na íntegra, vou postar os trechos mais notáveis, com minhas próprias anotações.

Em referência ao seu post mais recente sobre a exclusão do termo "palestinian" das Páginas do Facebook, eu queria entrar em contato com você pessoalmente e certificar que este foi o resultado de uma anomalia em um sistema automatizado. A finalidade deste sistema é verificar e autenticar os nomes de perfis e um erro inédito estava aplicando esta mesma regra às Páginas. Estamos no processo de correção desse "bug", se não tiver sido corrigido já.

Como eu noite ontem de manhã, o problema havia sido corrigido rapidamente. Eu não estou completamente certa de que acredito que tenha sido um "bug", considerando que aparentemente só funcionava com os termos“Nazi,” “Palestinian,” e “Al Qaeda, no entanto, estou feliz por eles terem resolvido. Curiosamente, há essa questão de sistema automatizado de novo. O que posso deduzir desta nota é que, provavelmente devido a relatos de usuários, a palavra "Palestinian" foi de certa forma considerada inapropriada para as Páginas do Facebook.

Além disso, nós entendemos que o nosso produto constitui um recurso valioso para muitos da comunidade global dos direitos humanos e de advocacy e, por favor, não hesite em enviar um e-mail diretamente para mim no futuro, com os problemas específicos de ativistas de boa fé e organizadores.

Esta é uma notícia maravilhosa. Espero que ela signifique que, ao contrário de seu companheiro funcionário do Facebook, Barry Schnitt, que deixou um comentário no blog da Rebecca MacKinnon, com o mesmo convite, e não respondeu aos vários e-mails enviados a partir de usuários com dúvidas.

Vale a pena ressaltar que isto não é assim tão diferente de como outras empresas de mídia social chegam até as preocupações de ativistas rapidamente. Houve várias situações em que um ativista entrou em contato comigo, ou alguém no campo, e usou um de nossos contatos para chegar rapidamente até alguém em uma empresa de comunicação social e corrigir o problema. Como se percebe, no entanto, isso não é nem prático nem sustentável.

No e-mail, o funcionário também alude a ler o meu blog e ficar sabendo do meu próximo trabalho sobre o conteúdo de policiamento nessas esferas. Estou feliz, meu objetivo em escrever estas mensagens foi para chamar a atenção do Facebook, e aparentemente funcionou. O próximo passo, é claro, é ter certeza de que podemos manter a sua atenção e garantir que os ativistas que usam a plataforma estão seguros.

*Traduzido por Raphael Tsavkko

O que se tira da questão é que, sendo ou não vontade ou ação do Facebook banir esta ou aquela palavra, é igualmente preocupante que o sistema aceite ou seja suscetível a "falhas" como esta. Se o sistema "aprende" com os usuários podemos chegar à conclusão de que o site é infestado de Sionistas? O que vai acontecer quando começarem a barrar temas mais corriqueiros? E como pode a visão política de uns influenciar TODO o sistema de forma tão fácil e completa?

São questões que o Facebook precisa, ainda, responder.

O site tem muito poder nas mãos, se aproxima dos 500 milhões de usuários e o número não para de crescer. É uma referência e, como tal, precisa ter um sistema que seja mais do que um simples agregador de opiniões e gostos dos usuários.

Mesmo termos que muitos não veriam problemas em censurar - como "Nazi" e "Al Qaeda" não deveriam ser bloqueados, pois da mesma forma que diz impedir a propagação do terrorismo - suponho -, impede que pessoas estudem o fenômeno e criem grupos legítimos, apenas com nomes polêmicos. bloquear um "nome" é algo que beira a estupidez, como se alguém com reais intenções de cometer crimes e etc fosse ser tão burro a ponto de colocar um alvo na testa.

Falha ou não, é preocupante. Todo tipo de censura é preocupante e repudiável.

Read more: http://tsavkko.blogspot.com/#ixzz0vY80KhuX

LEITORES DE CAROS AMIGOS FORAM EDUCADOS PELA FOLHA DE SÃO PAULO



QUANDO O ASSUNTO É CULTURA POPULAR, LEITORES DE CAROS AMIGOS EXPRESSAM SEUS PRECONCEITOS SOCIAIS.

"Não adianta lutar contra o brega-popularesco, a maioria do povo gosta". "Não se deve condenar a cultura popular (sic) de hoje, é o que o povo sabe fazer".

São frases muito conhecidas a respeito dos defensores da música brega-popularesca, a suposta "música popular" que domina nas rádios FM e nas emissoras de TV aberta do país. O que é pior, há pessoas que, no plano político, tendem a assumir uma postura ideológica de esquerda, que se estende até mesmo ao tema midiático, mas esbarra quando o assunto é cultura popular. Aí entra o festival de incoerências.

Defender a música brega-popularesca, principalmente as tendências mais grotescas, sejam as do passado (Waldick Soriano, Odair José, Gretchen), seja as do presente (Mr. Catra, Calcinha Preta, Banda Calypso, Parangolé, Gaby Amarantos), e não reconhecer que ela é um produto de mídia, tornou-se lugar comum, e mostra o absurdo de sua visão.

Afinal, a música brega e seus derivados estão na mídia há mais de 45 anos, foi sustentada pela mesma mídia e pelo mesmo empresariado que apoiou a ditadura militar, que também apoiaram governos conservadores como o dos Fernandos, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

Mas hoje os defensores da música brega-popularesca (o "bolo" que a música brega gerou, com seus inúmeros derivados), totalmente desinformados, fazem beicinho e imploram de pés juntos que a gente acredite que a música brega-popularesca nunca atingiu o mainstream e não há sombra dela nos veículos da grande mídia. Como é que é? Nenhuma sombra dela na grande mídia?

A manobra chega a envolver até mesmo nomes que estamos cansados de ver nas telas da Rede Globo, como Mr. Catra e Banda Calypso. Mas mesmo Waldick Soriano teve uma boa ajuda de uma atriz global, que fez um documentário todo sobre ele e mostrou ao próprio cantor, no final de vida deste.

O desconhecimento desses defensores do brega-popularesco chega ao ponto de ter a cara-de-pau de falar ainda em "mídia alternativa" ou comparar os cafonas em geral (seja o vovô Waldick, seja a netinha Gaby brincando de Beyoncé, seja o titio Bell Marques brincando de ser tropicalista - ou tropicarlista?) com o movimento punk, com a Semana de Arte Moderna, com a Revolta de Canudos. Falam até de "gravadoras independentes" do cenário tecnobrega do Pará. E até o YouTube é transformado em "mídia alternativa". Valha-me, Deus!!

Primeiro, a música brega-populareca representa uma visão estereotipada da cultura popular trabalhada a partir dos interesses das elites dominantes. Pelo seu aspecto confuso, esquizofrênico, domesticado, caricato e apátrida de sua música, de seus valores (que envolvem o culto às boazudas, o comércio clandestino, alcoolismo, religiosidade exagerada, etc), é claro que o brega-popularesco não corresponde à verdadeira cultura popular. Mas dizem que é "a verdadeira cultura popular" só porque lotam plateias, tocam nos camelôs e boates de subúrbio ou vendem muitos discos.

Dá para perceber, na cara do povo pobre, o que essa ideologia brega é capaz de fazer. Pobres com sorrisos frouxos, submissos, conformados, com um jeito patético de falar, emburrecidos, mal-remunerados, sub-alfabetizados. Está na cara que o povo pobre, através desta conduta, está sendo dominado por um esquema de mídia do entretenimento. Será que ninguém percebe?

Segundo, a música brega-popularesca sempre esteve ligada a cenários políticos conservadores. Mas como não estamos em 1964 - quando toda a direita, mesmo heterogênea, poderia se unir contra o trabalhismo de Jango, seja direitona ou direitinha - , a direita se fragmentou, sendo a parte "fraca" (a direita nos seus segundos escalões de liderança e supremacia) obrigada a apoiar de alguma forma o cenário político-midiático de esquerda. Por isso é que andam dizendo agora que a música brega-popularesca é de esquerda. Não é, nunca foi e nunca será. Alguém por acaso conhece o perfil ideológico de Waldick Soriano? Se conhecer, vão decepcionar-se ao ver no cantor um figurão ultra-conservador de direita.

Terceiro, a música brega-popularesca se propagou a partir de uma estrutura de mídia conservadora. A música brega original foi impulsionada por rádios ligadas a grupos oligárquicos regionais. Além disso, desde 1985, quando a música brega-popularesca representou uma ameaça real à MPB e à difusão da cultura popular autêntica, atingindo nos anos 90 uma hegemonia que engana muita gente, isso se deu porque Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, ambos barões oligárquicos do Nordeste, distribuíram rádios FM para aliados. Só que agora esses "aliados" desapareceram, não é mais o baronato midiático do Maranhão, nem da Bahia, nem de Alagoas, nem de lugar algum. De repente a mídia politiqueira "desapareceu". E, o que é pior: os caros amigos endossam essa tese absurda.

Chamo a música brega-popularesca de Música de Cabresto Brasileira porque ela foi difundida pelas rádios FM e pelas emissoras de TV aberta, das redes às afiliadas, todas comandadas por grupos oligárquicos. Digam quem é que domina o cenário político e econômico de tal localidade do interior do país. Verão que nem as rádios escapam ao seu controle. A mídia é o sustentáculo de poder das oligarquias. E o entretenimento é o meio das oligarquias controlarem as tensões sociais da população dominada.

Daí a "cultura de cabresto" que representa a música brega-popularesca, a imprensa populista, os programas de TV policialescos, o culto das mulheres-objetos com seus glúteos exagerados, da transformação do povo pobre em uma massa patética e subordinada, condenada ao desemprego, ao alcoolismo, à prostituição, à perda da identidade social que os caros amigos se recusam a ver.

Goteiras aumentam na Casa Amarela, sobre uma eletricidade mal-arrumada que faz os caros amigos perderem a sintonia das tensões sócio-culturais do nosso país.

A "ALFABETIZAÇÃO" CULTURAL DA ILUSTRADA DA FOLHA

A vida não dá saltos. A consolidação da imprensa escrita de esquerda no mercado tem pouco mais de dez anos. A própria formatação ideológica é recente, até porque até algum tempo atrás, a imprensa esquerdista seguia praticamente a mesma linha da revista Isto É só que voltada à esquerda e tentando compreender mais profundamente os movimentos sociais.

Isso se fala em relação aos jornalistas. A situação dos leitores, do público, fica muito mais complicada. Pois o leitor de esquerda é muito raro, e hoje mesmo o público de Caros Amigos, Carta Capital e Fórum ainda é superficial no seu senso crítico. Os veículos ainda não atingiram uma reputação que a edição brasileira de Le Monde Diplomatique (jornal francês de esquerda - não confundir com o conservador Le Monde) e com o jornal Nova Democracia (este, sim, cobre os movimentos culturais sem sucumbir ao popularesco), existente há mais tempo.

Pois um detalhe delicado deve ser levado em conta. O leitor padrão de Caros Amigos foi educado pela Folha de São Paulo, sobretudo pelo caderno Ilustrada e também pelo extinto caderno Mais!. Da mesma forma que o leitor de Carta Capital é o leitor dissidente do antigo público da revista Isto É.

A Ilustrada foi, durante muitos anos, o mais badalado caderno cultural do país. E era o olimpo ideológico do espírito burguês paulista, era a vitrine da arrogância e vaidade de uma classe média alta paulistana, que se achava juíza maior da cultura do nosso país, numa torta interpretação do fato de que foi em São Paulo que ocorreram a Semana de Arte Moderna e o movimento tropicalista (apesar da liderança baiana, ele se projetou em São Paulo).

Foi pela Ilustrada que passaram ideólogos que hoje defendem o brega-popularesco, como Bia Abramo e Pedro Alexandre Sanches. Além disso, a Ilustrada também foi um dos primeiros veículos a difundir o livro Eu Não Sou Cachorro Não, de Paulo César Araújo, primeiro recurso emergencial para evitar o natural desgaste da música brega-popularesca através de um relato panfletário e apologético da música brega "de raiz" e sua comparação com as tendências derivadas de hoje.

A própria Ilustrada se dizia "de esquerda". Como durante algum tempo o próprio PSDB, então marginalizado no contexto político de 1989-1992, se disse "de esquerda". Isso se deu a certo ponto que um jornalista dissidente da Folha, o gaúcho Juremir Machado da Silva, autor do excelente livro A Miséria do Jornalismo Brasileiro, definiu o leitor-padrão da Folha de São Paulo (e, sobretudo, de Ilustrada) de "esquerda ilustrada". E hoje a "esquerda ilustrada" passou a ler Caros Amigos, carregando seu ídolo Pedro Alexandre Sanches pelas mãos ao alto.

OS PRECONCEITOS SOCIAIS DA "ESQUERDA ILUSTRADA"

Daí a formação burguesa que impede essas pessoas de que haja uma compreensão exata da cultura popular, e das tensões sociais que não escapam ao âmbito cultural de nosso país.

Como várias pessoas abastadas e esnobes, elas gostam de ver bagunça e confusão na casa dos outros, mas odeiam ver a bagunça na sua casa. Aplaudem a indignação geral em torno dos conflitos sociais, políticos e éticos no Oriente Médio, mas se incomodam quando falamos das tensões da indústria brega-popularesca brasileira, que envolve poder latifundiário, poder da grande mídia nacional e também poder da grande mídia regional. Afinal, grande mídia não é aquela que tem escritório na Avenida Paulista, mas aquela que exerce, independente de ter escritório ou não em Sampa, sua expressiva parcela de poder e domínio sobre uma população.

Não adianta polarizar o brega-popularesco, jogando para a direita os medalhões do brega romântico "de luxo" (Michael Sullivan, Fábio Jr.), do breganejo, sambrega e axé-music e sua música arrumadinha que aparece todo domingo no Domingão do Faustão, e jogando para a esquerda o "mau gosto" gratuito dos ritmos claramente grotescos, como o "funk carioca", o tecnobrega, o arrocha e o forró-brega, porque tudo isso é brega-popularesco da mesma forma, e mesmo os supostos "excluídos" têm potencial para aparecer na Globo (como muitos já apareceram) ou, se não aparecem, mesmo assim compartilham dos mesmos valores ideológicos difundidos pelo baronato da grande mídia, seja esta nacional ou regional.

Os preconceitos sociais acabam se tornando gritantes. Pedro Alexandre Sanches é hoje acionado, como Hermano Vianna foi acionado há cinco anos atrás, para pregar o ideal da "periferia feliz", num método bem sutil de dominação social das classes pobres, sempre transformando-a numa massa patética, subordinada e domesticada, limitada apenas a "recriar" o que a mídia transmite nas suas regiões.

É preocupante que esses ideólogos que defendem o brega-popularesco falem tanto em "rupturas de preconceitos", quando os preconceituosos são justamente eles. Eles é que querem manter o ideal da classe pobre domesticada, atribuindo a ela uma falsa felicidade, vinda do nada, de pessoas com sorrisos patéticos, conformadas com sua inferioridade social.

OS "CAROS AMIGOS" CONDENAM OS MOVIMENTOS SÓCIO-CULTURAIS

Daí que esse preconceito tipicamente burguês, motivado provavelmente por um medo, por essa intelectualidade "ilustrada", da reação de fúria das classes populares se voltar contra a classe média alta, que faz com que eles apelem para a permanência e prevalência dessa visão domesticada das classes pobres, a ponto dessa intelectualidade pedir para que deixemos o povo "em paz com sua cafonice".

Essa manobra cria sérias contradições, já que a abordagem da cultura popular da coluna "Paçoca", de Caros Amigos, por exemplo, é exatamente igual à abordagem que a Rede Globo fez através da Central da Periferia. Sem tirar nem pôr.

Mas isso seria desmascarar demais o desejo das elites "ilustradas" - com seu preconceito de dondoca chique travestido de "ativismo social" - de ver o povo culturalmente subordinado e domesticado, quase transformado em animais domésticos. Por isso o pessoal faz vista grossa, e, quando solta o alarme, gritam desesperadamente contra nós: "É o que a maioria gosta", "é o que o povo sabe fazer", "não precisa gostar, mas aceitar é de lei".

Como é que, no Brasil em que, noutros tempos, os morros e sertões produziam música de excelente qualidade, hoje temos que defender ou aceitar uma cafonice sem identidade cultural real, sem produção de conhecimento nem de valores sociais relevantes, porque "é o que a maioria gosta" e "é o que o povo sabe fazer"?

Se não devêssemos criticar tudo isso, então por que é possível criticar o poderio da Folha de São Paulo e Rede Globo, que em aspectos quantitativos são "tão populares" quanto a música brega-popularesca e seus valores éticos e estéticos derivados? A "maioria" também "gosta" da Rede Globo, também "gosta" da Folha. A Veja vende horrores e muitos combatem ela. Por que não lutar contra a música brega-popularesca que emburrece gerações de multidões pobres?

Dizer que é impossível lutar contra isso é bobagem. Se não, teriamos que baixar a cabeça e aceitar a Rede Globo ao ponto de submeter a cultura alternativa ao domínio do Multishow, Quem Acontece e Ego (canal pago, revista e portal de Internet das Organizações Globo).

E quem garante que a maioria realmente gosta disso tudo? Essa música brega-popularesca não é veiculada pelas principais rádios de suas regiões? E essas rádios não são controladas por grupos oligárquicos? O povo "gosta disso" por vício, porque foi empurrado a consumir isso que a grande mídia regional determina. A cafonice não é coisa inerente ao povo da periferia. Em 1960, as empregadas domésticas gostavam até de jazz, que havia atingido um surpreendente estágio de sofisticação musical na época.

Negar a luta é negar os movimentos sociais. Aí os leitores de Caros Amigos mostram sua verdadeira formação folhista, condenando os movimentos sociais quando feitos aqui. Querem eles que Caros Amigos se comporte que nem o Jornal Nacional (da Rede Globo) durante a ditadura militar, contrastando as tensões políticas de fora com a pseudo-prosperidade sócio-cultural daqui.

Por isso eles se assustam quando questionamos a "periferia feliz" dos jovens que, feito gado, vão para os eventos que incluem música brega-popularesca, quando questionamos a imbecilização cultural da imprensa populista, quando questionamos o sangue frio dos policialescos da TV, quando questionamos os glúteos enormes das boazudas de plantão (e seu estranhíssimo celibato acobertando um passado amoroso com homens truculentos e até criminosos).

É o preconceito burguês que soa o alarme, com medo de que novas revoltas populares ameacem o sossego dos condomínios onde essa intelectualidade "ilustrada" vive. É o mesmo medo da Regina Duarte na campanha tucana, o mesmo medo de um novo Ataulfo Alves, de uma nova Marinês, de um novo Cornélio Pires, um novo Jackson do Pandeiro, um novo Luiz Gonzaga, um novo Sinhô, botarem ordem na cultura de nosso país.

Como a burguesia "ilustrada" não pode combatê-los, já que eles hoje gozam de uma reputação póstuma inabalável, pregadores da mediocridade musical como Pedro Alexandre Sanches tomam emprestado o discurso de Francis Fukuyama e pedem o "fim da História" para nossa MPB.

Assim como Fukuyama não pode lutar contra Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx, Lênin, Rosa Luxemburgo, Emiliano Zapata, Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Abbie Hoffman, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, ele têm que "reconhecer" seus méritos como entes passados. Da mesma forma, Pedro Sanches, como Hermano Vianna, Bia Abramo, Rodrigo Faour e outros tantos, não podem combater Chiquinha Gonzaga, Donga, Ataulfo, Gonzagão, Cornélio e outros, sendo obrigados a "reconhecer" seus méritos, desde que historicamente isolados no passado.

E, da mesma forma que Francis Fukuyama anuncia o circo feliz do neoliberalismo globalizado, a "esquerda ilustrada", enquanto ainda não apunhala os verdadeiros caros amigos da esquerda pelas costas, pede para que até nós aceitemos o circo feliz da "cultura" brega-popularesca, para o necessário "equilíbro social" que as elites do neoliberalismo à brasileira tanto reivindicam para o sucesso do "sistema". E esse mesmo "equilíbrio social" era defendido com gosto pelos generais da ditadura.

Até quando vai reinar a "ditabranda" do mau gosto, não se sabe. A não ser que tenhamos mesmo a coragem de lutar contra isso.