quarta-feira, 28 de julho de 2010

AS MÚLTIPLAS FACES DO PRECONCEITO


Os sapatos de dona Maria José foram considerados inapropriados para o exame prático de merendeira

COMENTÁRIO DESTE BLOG: Este preconceito que se fala não é o "preconceito" brega-popularesco que aqui conhecemos. É a sociedade pobre com seus dramas sem a maquiagem generosa dos intelectuais paternalistas. Não é esconder a sujeira da rejeição elitista sob os "bondosos" tapetes funqueiros, tecnobregas, sambregas etc, mas mostrar o drama real que os pobres sofrem, por culpa de critérios injustos de rejeição social.

As múltiplas faces do preconceito

De Brizola Neto - Blog Tijolaço

O preconceito contra o pobre se expressa de várias maneiras. Uma típica é aquele olhar de cima a baixo que as elites dirigem à gente mais simples como se os trajes revelassem o que uma pessoa verdadeiramente é. Uma veste mais modesta é ridicularizada e tachada pejorativamente de cafona como se houvesse alternativas de bom gosto a quem pouco tem para vestir.

Numa sociedade consumista, o ter ganha total relevância sobre o ser. A roupa certa, o comportamento padrão sufocam o talento e a autenticidade das pessoas. Essa ditadura leva a situações discriminatórias e absolutamente ridículas como a da mulher que foi proibida de fazer concurso para merendeira da prefeitura de Igaraçu do Tietê, em São Paulo, por causa do sapato simples que usava. A matéria está em O Globo.

O primeiro absurdo da história era o edital do concurso que exigia que os candidatos usassem sapato fechado e sem salto para a prova prática. O que tem a preparação da merenda das crianças com o calçado usado por quem as prepara? E se a candidata não tivesse um calçado como o exigido? Seria eliminada mesmo capaz de fazer o trabalho com carinho e habilidade?

A prefeitura poderia exigir um determinado tipo de calçado e provê-los depois que as merendeiras fossem aprovadas. Exigir isso antes foi um processo discriminatório que só pode ter saído de uma cabeça distante da realidade do país e do próprio município.

Igaraçu do Tietê, a 281 km da capital paulista, aparecia em 2002 como um dos municípios mais carentes em riqueza e com indicadores de longevidade e escolaridade inferiores aos observados para a média do Estado, segundo o Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade).

A candidata Maria José de Oliveira, que já tinha passado pela prova escrita, contou que só tinha aquele sapato e estava sem condições de comprar outro. Ela disse ter certeza de que poderia ter feito todas as receitas que eram pedidas e passar no concurso que oferecia salário de R$ 600. Dona Maria José entrou na Justiça por danos morais.

O mais grave é que o advogado da empresa que organizou o concurso, a Triani Assessoria e Treinamento Educacional, reafirmou que a “vestimenta” não estava de acordo com o exigido no edital. A empresa diz em seu site ter longa experiência educacional e uma equipe pedagógica que a credenciou no mercado. Se a insensibilidade demonstrada no concurso for parte da pedagogia da Triani, coitados dos seus clientes.

FRACASSOU A NEGOCIAÇÃO ENTRE FM O DIA E GRUPO RECORD



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Segue a informação que recebi há pouco de William Marques, blogueiro do Rádio Corredor. Os fãs de brega-popularesco continuarão com três FMs dedicadas ao brega-popularesco em geral, até segunda ordem. Mas o jabaculê "universitário" dos intelectuais etnocêntricos continua como opção para o empresariado da Música de Cabresto Brasileira.

Envio este para passar as últimas informações. A... Envio este para passar as últimas informações.

A negociação melou entre as emissoras O DIA e o Grupo Record.

O motivo foi divergencias foi quanto a entrega do canal. O Grupo O Dia só queria entregar em janeiro
o a adm da IURD, da universal, queria a emissora agora em setembro. As informações são
de um diretor do grupo IURD de SP. Ainda segundo o diretor, a IURD vai buscar nova emissora pois que
uma emissora para formar rede nacional com programação popular. Estratégicamente, o grupo
quer uma rede popular em FM. As negociações não estavam passando pelo Rio, como comentado em blogs.
A adm do grupo no Rio não foi informada sobre as negociações.

Willian Marques,
do blog RadioCorredor.ning.com, que está sendo reformulado.

FIM DA RÁDIO O DIA FM COMPLICA MERCADO DO BREGA-POPULARESCO


FIM DA FM O DIA: BOA NOTÍCIA, MAS AINDA NÃO É MOTIVO DE COMEMORAÇÃO.

O rádio carioca vive, nos últimos cinco anos, uma verdadeira dança das cadeiras, resultante do verdadeiro "cassino" que se tornou o dial FM, entregue à ciranda dos barões da mídia radiofônica. Para o bem e para o mal, emissoras tradicionais ou relativamente veteranas são dizimadas.

Com a moda das "rádios AM em FM" - feitas mais para a concentração político-financeira dos empresários, porque, do contrário que as propagandas alardeiam, rádios como a "Tupi AM" e "Globo AM" amargam fracasso de audiência no dial FM e a Band News Fluminense nunca sai dos mesmos índices de audiência que derrubaram a antiga "Maldita" em 1994 - , a crueldade do mercado não poupa sequer o filão fácil e aparentemente certeiro da música brega-popularesca.

A música brega-popularesca era tida como o pretexto para a proposta da Aemização das FMs, defendida até por veículos da imprensa conservadora como Veja, em reportagem de 1984. Havia promessas, muitas delas delirantes, de que se houvesse notícias, debates, falatório e jornadas esportivas em FM, a "música ruim" e o jabaculê seriam extintos.

O que se viu, na verdade, foi o contrário. A música de qualidade desapareceu praticamente do dial FM, salvo uns raros espaços. E o jabaculê deixou de ser vinculado à música, com maior volume de propinas invadindo noticiários radiofônicos e, acima de tudo, as jornadas esportivas, que se tornaram o maior mercado de jabaculê do rádio, superando, de longe, a música. É tanto jabaculê que os barões da grande mídia são obrigados a fazer eufemismo, transformando a palavra no inofensivo sinônimo de mershandising, tamanha a lavagem financeira que acontece entre dirigentes esportivos e diretores de FM, e que quase matou, em 2008, o ex-prefeito de Salvador Mário Kertèsz, astro-rei da Rádio Metrópole FM e corrupto e demagogo histórico da Bahia.

Pois o fim da emissora de FM carioca, O Dia FM, para dar lugar a uma repetidora da Rádio Record AM já transmitida na Amplitude Modulada do Grande Rio, trará sem dúvida uma boa e uma má notícia.

Vamos, primeiro, à boa. Será uma a menos entre as atuais três emissoras dedicadas à música brega-popularesca, a suposta "música popular" de mercado complica sua situação no rádio e terá que se contentar com a Beat 98 e a Nativa FM, como emissoras dedicadas ao brega-popularesco geral, ou respaldar o atual lobby de intelectuais simpatizantes ao brega-popularesco (que se estende à coluna "Paçoca" da Caros Amigos) no programa "Noite Preta" da MPB FM (isso se o programa não sair do ar; o programa, ruim, é praticamente um programa dos amigos de Preta Gil).

Daí que vem, por isso mesmo, a má notícia. Com as restrições cada vez mais crescentes à programação musical no dial FM - cada vez mais substituída por um falatório que se prova cada vez mais supérfluo, pedante e maçante, por mais "informativo" e "cidadão" que tente parecer - , a música brega-popularesca, que há muito tempo havia trocado em parte o jabaculê radiofônico (aqui o conhecido sentido de subornar programadores de rádio) pelo jabaculê acadêmico (subornando intelectuais, sejam críticos musicais ou cientistas sociais, para fazer um discurso intelectualóide sobre as tendências brega-popularescas), tentará reforçar esse atual esquema.

Numa época em que até tendências recentes do brega-popularesco, como o tecnobrega, vendem uma falsa imagem de "movimentos à margem da grande mídia" mesmo depois de apadrinhados pela Rede Globo de Televisão, é de se preocupar quanto aos rumos da música brasileira, mesmo com o fim da FM O Dia.

Certamente o fim da FM O Dia foi bom. É um castigo tardio para uma rádio que foi chamada para tirar do ar a RPC FM, rádio de pop dançante extinta para não atrapalhar a reserva de mercado da Jovem Pan 2, que então havia desalojado a Fluminense FM e havia "sugerido" para as concorrentes Rádio Cidade e Transamérica migrarem para o segmento rock (cujo desempenho de ambas foi risível de tão desastroso). Poderá inspirar até mesmo a futura extinção da Nativa FM, como castigo desta ter desalojado a histórica Antena Um.

Mas, em vez de comemorarmos com festa, nos limitemos a sorrir. A música brega-popularesca é um mercado que movimenta milhões de reais por mês, sendo respaldado pelas mais poderosas elites e oligarquias, desde donos de redes de televisão, empresários do varejo e latifundiários.

O lobby com a intelectualidade cada vez mais substitui o jabaculê radiofônico e por isso a nossa posição é de cautela. Muita cautela. Só para citar um exemplo, a dupla breganeja Chitãozinho & Xororó, símbolo máximo da cafonice dominante em 1990, hoje comemoram 40 anos de carreira vendendo uma imagem falsa de "sofisticados", como se eles fossem "grandes nomes da MPB". A apreensão continua. Os donos da música brega-popularesca ainda têm dinheiro e poder.

BREGA-POPULARESCO NÃO TRARÁ DESENVOLVIMENTO CULTURAL PARA O PAÍS



É totalmente inútil defender os movimentos sociais e a música brega-popularesca ao mesmo tempo, acreditando que isso trará desenvolvimento social ao nosso país.

A retórica de defesa da música brega-popularesca, no auge com Pedro Alexandre Sanches - que tenta inserir a argumentação tão conhecida na grande mídia para a imprensa esquerdista - , tenta agora usar como pretextos os movimentos sociais, a mídia alternativa, como se todos nós fôssemos tolos e achássemos que os grandes ídolos popularescos, mesmo os emergentes, são "iunjustiçados pela mídia" apenas pelo simples fato deles representarem o mau gosto, pela sua evidente qualidade duvidosa de seu repertório.

Citam rádios comunitárias como espaço de popularescos emergentes, sem perceber que nem todas as rádios comunitárias prestam, pois várias delas, há um bom tempo, são tomadas por políticos e até mesmo representam os interesses das oligarquias dominantes em determinadas regiões.

Citam gravadoras pequenas como espaço de popularescos emergentes, achando que isso já significa estar à margem da indústria fonográfica. Grande engano, se percebermos que tais gravadoras não representam a filosofia de trabalho das gravadoras independentes, pois, enquanto estas se preocupam com a qualidade artística e não têm fins lucrativos, as pequenas gravadoras de música brega se preocupam unicamente com o lucro, são tendenciosas nos seus critérios "artísticos" e pouco se preocupam com a qualidade ou a integridade do ídolo contratado.

O brega-popularesco tentou se tornar o símbolo da Era Lula, se esforçando em dar uma rasteira na MPB autêntica que ameaçava dominar a época: Maria Rita Mariano, Vanessa da Mata, Wilson Simoninha, Cordel do Fogo Encantado, Ana Cañas, Seu Jorge. Uma "frente ampla" de intelectuais foi recrutada pela mídia e pelos empresários do entretenimento para fazer um discurso "socializante" defendendo as tendências popularescas, enquanto a grande mídia arquitetava, eventualmente, duetos ou tributos tendenciosos que fizessem os ídolos popularescos em evidência se autopromoverem de uma forma ou de outra do legado da MPB autêntica, através de covers ou duetos.

A retórica vigente sobretudo desde 2002 - embora haja registros da mesma retórica publicados até mesmo nos anos 90 - evoca desde alegações de "vítimas de preconceitos" como pretexto para inserir os ídolos popularescos em plateias de melhor formação intelectual, até mesmo declarações hipócritas de que os ídolos emergentes estão "fora da mídia".

Mas a valorização da música brega-popularesca não vai contribuir para o desenvolvimento social nem cultural, como não vai fortalecer a auto-estima nem a identidade do povo.

Isso porque a música brega-popularesca e todo o suporte de valores e expressões culturais que está por trás - imprensa policialesca e mulheres-objeto, por exemplo - são processos que promovem uma imagem domesticada e caricata do povo pobre, agindo não a favor, mas CONTRA os movimentos sociais, queiram ou não queiram os caros amigos.

Afinal, existe um grande contraste entre a realidade sócio, política e econômica do povo pobre, vítima da opressão, da omissão das autoridades, das injustiças sociais, e o circo ao mesmo tempo tolo, ingênuo e patético do entretenimento popularesco. No primeiro caso, o povo sofre. No segundo, o povo é feliz.

Outro aspecto que se deve levar em conta é que os valores assimilados e produzidos pela música brega-popularesca não são valores culturais autênticos, mas aqueles ditados pelos meios de comunicação, como rádios FM controladas por grupos oligárquicos e emissoras de TV aberta, também controladas pelas elites regionais.

Só isso faz evitar o agravamento das tensões sociais vividas diariamente pelo povo pobre. O analgésico brega-popularesco promove o conformismo sobretudo entre os jovens da periferia, felizes em caminhar feito gado para os clubes de subúrbio que mostram a música "popular" que eles são induzidos a consumir e que a eles é simbolicamente atribuído.

Em outras palavras, o povo apenas segue o roteiro brega-popularesco estabelecido pela mídia e os intelectuais-ideólogos vendem isso como "a pura e autêntica expressão da cultura popular". Criam um discurso confuso, mas que evoca o sonho, a fantasia de uma periferia feliz, e muita gente cai desprevenida, acreditando e aplaudindo.

Mas, por trás disso, identidades culturais são dizimadas, porque agora a ideia de "identidade cultural" se limitou a uma reles "colcha de retalhos" musical, sobretudo com presença maciça de elementos estrangeiros, usados não para enriquecer uma linguagem local, mas para enfraquecê-la. Não por acaso, o forró-brega, tão associado a uma pretensa ideia de "regionalidade", vive, quase que exclusivamente, de versões de sucessos radiofônicos da música estrangeira.

A "identidade cultural", através dos fenômenos brega-popularescos, se reduziu a uma mera "tradução local" do estrangeiro, uma sub-criatividade que pouco tem de expressiva ou relevante. Artisticamente, é uma cultura débil. Não produz conhecimento, não produz valores sociais, só estabelece padrões de consumo, sem acrescentar coisa alguma para a sociedade.

Por isso, o brega-popularesco não trará desenvolvimento social nem cultural para o Brasil. Pelo contrário, enfraquecerá cada vez mais o povo, com essa "cultura popular" de mercado, que até o reino mineral sabe que é comandado pelas elites e pela grande mídia.

Só o fato das tendências brega-popularescas existirem desde há uns 50 anos, não quer dizer que a atual cultura popular tenha agora que se vincular à cafonice dominante. Essa visão, ao mesmo tempo conformista e cruel, apesar do discurso lindo que os intelectuais apologistas fazem, em nada contribui para enobrecer e valorizar o povo pobre.

Essa visão apologética do brega-popularesco só serve para encher linguiça e convencer os amiguinhos dos intelectuais a se conformarem com a hegemonia da mediocridade cultural do povo pobre. A cafonice dominante mantém o povo no sub-desenvolvimento, na miséria disfarçada por paliativos.

A "cultura" hoje atribuída ao povo pobre é ruim, mas tudo o que se faz é apenas tentar nos convencer a fingir que essa ruindade é "coisa boa". Sabemos que não é. Mas temos que seguir o etnocentrismo bondoso desses ideólogos, enquanto todo o legado cultural autêntico do povo pobre - quando a pobreza não impedia a produção de cultura e arte de excelente qualidade - é deixado para trás, como peça de museu. Até que nosso protesto organizado contra a pasmaceira discursiva reinante se torne mais expressivo.