sexta-feira, 23 de julho de 2010

DOIS PLÍNIOS, DOIS IDEAIS



Numa dessas coincidências da História, um dos candidatos à presidência da República da atualidade e um dos integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922 chegaram a fazer parte de um mesmo período político.

São coincidências, mas valem pela curiosidade. Dois homens com o mesmo prenome e representando o mesmo Estado na política, no caso São Paulo.

De um lado, o ultra-direitista Plínio Salgado, participante da Semana de 22, depois líder do movimento integralista, que foi uma tentativa de criar um movimento fascista brasileiro. De outro, o esquerdista de origem socialista-cristão Plínio de Arruda Sampaio, remanescente daqueles agitados anos 50-60, e hoje concorrente pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) para a sucessão do presidente Lula.

Há 50 anos atrás, os dois atuaram no mesmo contexto político, na transição do fim do governo de Juscelino Kubitschek (que derrotou Salgado nas eleições de 1955), no conturbado governo Jânio Quadros e no começo do governo de João Goulart, de precedente tumultuado.

Num instante, os dois Plínios estavam no mesmo lado, quando direita e esquerda acertaram pela defesa da posse de Jango, em 1961, desde que, para a direita, o governo fosse exercido pela via parlamentarista, através da figura do Primeiro Ministro, o presidente do Conselho de Ministros.

Nessa época, Plínio Salgado era deputado federal, enquanto Plínio Sampaio era secretário em sucessivas pastas (Negócios Jurídicos e, depois, Interior e Justiça) do governo de São Paulo, cujo titular era Carvalho Pinto.

Passada a aliança única pela posse de Jango "amestrada" pelo parlamentarismo, direita e esquerda foram para seu lado. E Plínio Salgado tornou-se uma das vozes de defesa do golpe militar, ante a crise institucional do governo Jango. Plínio Sampaio, por outro lado, passou a apoiar a reforma agrária, uma das bandeiras do plano de reformas de base de João Goulart, sendo relator do projeto de Reforma Agrária e criador da Comissão Especial de Reforma Agrária.

Plínio Salgado terminou a vida apoiando a ditadura militar. Morreu em 1975 como um retrógrado representante do pensamento conservador, extremamente o oposto do que sugerira o passado modernista.

Plínio de Arruda Sampaio teve o mesmo destino de muitos opositores, forçados a ir para o exílio, cassado pelo primeiro Ato Institucional. Voltou ao país poucos anos antes da anistia. Filia-se ao MDB e durante anos torna-se político do PT, do qual foi um dos fundadores. E tornou-se também um dos fundadores do PSOL.

PARA ESFREGAR NA CARA DOS CAROS AMIGOS



Os caros amigos comeram paçoca demais e passaram mal? E não querem sair do mundo encantado do brega-popularesco, com todo o enfoque fantasioso de uma (domesticada, caricata, apátrida e medíocre) periferia idealizada pela intelectualidade burguesa?

Pois então, caros amigos, surdos e cegos para certas coisas, enquanto acreditam que o tecnobrega (ou "tecnomelody) prossegue sem qualquer apoio da mídia ou da indústria cultural (os caras fazem muito sucesso comercial e ainda reclamam de falta de espaço na mídia - isso é reclamar de barriga cheia), aqui mostramos o tecnobrega recebendo tratamento VIP no Domingão do Faustão.

E o que é o Domingão do Faustão? O maior símbolo da vulgaridade televisiva. E qual a rede que transmite este programa? A Rede Globo, oras. É certo que nem todo programa transmitido pela Rede Globo reflete seu perfil ideológico (os sitcoms Separação?! e SOS Emergência, por exemplo, são quase produções independentes), mas o Domingão do Faustão reflete, sim, e até o mundo mineral e o reino fungi sabem muito bem disso.

Precisamos dizer o perfil ideológico da Rede Globo? Certamente as pessoas, neste caso, se esquecem, quando o caso é brega-popularesco. Vide o "funk carioca" (FAVELA BASS), que muita gente tinha medo de vê-lo associado às Organizações Globo, numa época em que a corporação dos filhos do "doutor Roberto" dava o maior espaço ao ritmo, em todos os seus programas de entretenimento.

Pois aqui tem o vídeo com Gaby Amarantos (ou Gabi Amarantos, para quem usa a busca do Google), a Beyoncé do Pará, sendo recebida com festa pelo Domingão do Faustão, a maior arena lúdica da mega-corporação do PiG, a mesma corporação que causa horror aos caros amigos.

QUANDO PAÇOCA É SINÔNIMO DE GOROROBA



Na edição deste mês da revista Caros Amigos, o estranho no ninho Pedro Alexandre Sanches tenta disfarçar a defesa do brega-popularesco e despeja um texto aparentemente correto sobre as grandes compositoras da música brasileira.

O grande problema é que ele enfia Gaby Amarantos junto, sempre para puxar a brasa para a sardinha popularesca que, mesmo com todo o discurso pseudo-vanguardista e pseudo-esquerdista - Sanches chega a falar em "Reforma Agrária no Ar", pode? - , rapidamente ganha acesso na mídia golpista, já que a música brega-popularesca tem um quê de apátrida, domesticada e caricata, bem do agrado dos barões da grande mídia.

Em apelo marqueteiro, Pedro Alexandre Sanches é o Hermano Vianna da vez. Que foi o Paulo César Araújo da hora. A "Paçoca", a gororoba cultural de Caros Amigos, é a "Central da Periferia" da vez, que foi o Eu Não Sou Cachorro Não (o livro) reembalado para a TV. Gaby Amarantos é a Tati Quebra-Barraco da vez, que por sua vez foi o Waldick Soriano da hora. Sempre as mesmas alegações, a mesma choradeira de "vítimas de preconceito", a suposta discriminação da mídia (que, na verdade, apoia completamente esta categoria musical em todos os seus estilos). Mas ninguém percebe isso.

Fico imaginando como é que ficariam os leitores de Caros Amigos diante de um fraudulento conjunto musical palestino empresariado pelos barões de Israel. Será que o pessoal vai fazer a mesma apologia "etnográfica", "pós-moderna" e outras manobras intelectualóides?

É um perigo haver uma pregação dessas em Caros Amigos, porque o risco de Pedro Sanches relançar o É O Tchan como se fosse um caleidoscópio multimídia pós-moderno é muito grande. Pedro Alexandre Sanches faz muito mais pela mídia golpista do que qualquer cronista político mal-humorado que faça ponto no Instituto Millenium.

Eu escrevo isto e os caros amigos, coitados, não ouvem. Nem querem ouvir.

DEFENDER BREGA-POPULARESCO NÃO É LEGITIMAR AS LUTAS POPULARES


PROTESTOS DE PROFESSORES CONTRA A GOVERNADORA GAÚCHA YEDA CRUSIUS, NO CENTRO DE PORTO ALEGRE.

Batemos nossas teclas em chamar a atenção da opinião pública para o contraste de evocar os movimentos sociais, no plano da crônica política de esquerda, enquanto que, no âmbito cultural, se evocam os mesmos ritmos popularescos que fazem sucesso na grande mídia, a pretexto de "romper com o preconceito" dado à MPB supostamente elitista.

Pois não é elogiando o "rebolation", o "tchan", o "créu", o "tecnomelody", a axé-music, oxente-music e tchê-music, que se legitimará as lutas das classes populares.

Porque existe um grande abismo entre essa "música popular" de mercado, tão associada oficiosamente às classes populares, e as verdadeiras manifestações movidas pelas classes populares.

Esse abismo pode ser observado quando, num mesmo lugar, seja Bahia ou Pará, nota-se o cenário político tenso, ameaçador e conflituoso, enquanto, no âmbito da cultura, sobretudo a música, se trabalha uma imagem idealizada, domesticada e fantasiosa do povo pobre.

Basta olhar para as caras dos pobres nas duas abordagens. Na crônica política, o povo pobre chora, se zanga, se indigna, porque têm problemas, porque sofre, porque reclama por melhorias. Na crônica cultural, no entanto, as caras do povo pobre são completamente outras. São caras ao mesmo tempo ingênuas e submissas, com sorrisos patéticos, jeito frouxo de declarar suas atividades e seu estilo de vida, gente a um só momento medíocre e bondosa.

Como é que a imprensa de esquerda vai deixar passar um contraste desses? E ninguém reclama, ninguém estranha, ninguém faz coisa alguma!! Nada!!

As lutas populares, no que se diz ao âmbito cultural, se anulam porque o povo vive numa periferia feliz, numa outra dimensão dos subúrbios e roças, dos morros e sertões, onde não existem tiroteios, nem deslizamentos de terras, nem ação da pistolagem, nem deficiência dos serviços básicos para a população.

Não. Na periferia sorridente dos funqueiros, axezeiros, bregas, tecnobregas, breganejos e por aí vai, as lutas populares não existem. Mas seus ideólogos creditam, sob o rótulo hipócrita de "lutas populares", um mero ato submisso de camelôs ouvirem o que as rádios tocam e o povo ir que nem gado ao clube ou à boate do subúrbio ou roça.

Isso trava completamente a difusão integral das lutas populares, porque no âmbito da cultura o que se evoca não são as manifestações genuínas do povo, mas apenas o condicionamento da multidão pobre para o consumo de um tipo de música, ou então de referenciais culturais - como a pornografia barata das boazudas, o jornalismo policialesco da TV e dos jornais baratos - , coisa que não representa luta alguma, pelo contrário, é uma submissão ao que a mídia regional (comandada pelos detentores regionais do poder político e econômico) determina para o povo consumir.

A verdadeira cultura popular continua marginalizada, deixada de lado por essa pseudo-cultura de reles lotadores de plateias que as rádios e TVs abertas mais divulgam.