segunda-feira, 19 de julho de 2010

DEZ ANOS SEM BARBOSA LIMA SOBRINHO



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Já havia homageado meu xará Barbosa Lima Sobrinho (ele era um Alexandre) em artigo no zine homônimo a este blog, texto aqui reproduzido. Admirava ele ao conhecê-lo nos últimos anos de vida e ele dedicou seus 103 anos em prol da ética, da cidadania e da soberania nacional, como poucos jornalistas e políticos de nosso país.

Apesar de três dias de atraso, a lembrança é oportuna.

Dez anos sem Barbosa Lima Sobrinho

Jandira Feghali - JB On Line

Na história da humanidade há a figura de homens e mulheres símbolos, pessoas que levantaram determinadas ideias com tal denodo, por tanto tempo e a tal altura que o simples enunciado de seus nomes funciona como o desfraldar dos ideais pelos quais se consagraram. Barbosa Lima Sobrinho é um desses homens.

Seu nome passou a ser uma legenda identificada com soberania nacional e democracia. Na longa trajetória de sua vida centenária, não houve luta nacional ou democrática em nosso país que não tivesse recebido seu apoio, não houve momento de interesses nacionais ameaçados ou de liberdades encasuladas, que não tivesse suscitado o seu imediato gesto de protesto, aberto, claro e contundente.

Barbosa Lima Sobrinho, cujo décimo aniversário de falecimento lembramos neste 16 de julho, foi homem de grande talento. Daí que marcas de brilhantismo são encontradas nas múltiplas atividades que exerceu, como advogado, jornalista, professor, historiador, administrador público, parlamentar e governante.

Sua vocação para grandes causas esteve presente desde quando, ainda em Pernambuco, iniciou sua vida pública, promovendo uma minireforma agrária, à frente do Instituto do Açúcar e do Álcool. Elaborou um Estatuto da Lavoura Canavieira.

Aqui no Rio, antigo Distrito Federal, como procurador-geral da justiça, proferiu histórico parecer sobre os bens reversíveis da antiga Light, que, de tão preciso, serviu, anos depois, para fundamentar o processo de nacionalização dessa empresa.

Seu viés nacionalista se acentua na Câmara Federal, onde, ao lado de outro deputado notável, seu conterrâneo Osvaldo de Lima Filho (PTB-PE), organiza e dá projeção à Frente Parlamentar Nacionalista, que papel tão importante desempenhou na década de 60 do século passado. Foi, em 1962, um dos redatores da Lei de Remessa de Lucros, cuja aprovação pelo Congresso despertou a ira do capital estrangeiro espoliador, tendo sido um dos fatores que fez acelerar o movimento golpista de 1964.

A partir de 164, a atividade de Barbosa Lima Sobrinho ganhou foros de militância política e intelectual permanente na oposição decidida ao regime discricionário então imposto. Atua como um inconformado, um insubmisso.

Nas eleições de 1974, com Ulysses Guimarães, forma a dupla que organizou o protesto das anticandidaturas – Ulysses, anticandidato a presidente da República, e Barbosa Lima Sobrinho, anticandidato a vice. Os anticandidatos percorreram o país em caravana cívica e comoveram a gente brasileira.

Outro gesto de sentido histórico executado por Barbosa, ao lado de outros brasileiros ilustres, foi a assinatura do pedido de impeachment do então presidente Fernando Collor, em 1992, quando ocupava pela segunda vez o cargo de presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Vendo o neoliberalismo pontificar em nosso país, desencadeando uma sequência de privatizações em setores estratégicos da economia, Barbosa Lima Sobrinho se insurgiu mais uma vez, denunciando a entrega de riquezas nacionais e a ameaça à soberania do país.

Tive a oportunidade de participar com Barbosa de algumas dessas batalhas. Na campanha contra a privatização da Usiminas, Barbosa, com mais de 90 anos, teve que enfrentar – e o fez com galhardia – a repressão que contra nós foi lançada, com cães e bombas de gás lacrimogêneo.

Em outros momentos, testemunhei o entusiasmo quase juvenil com que defendia suas bandeiras históricas, a soberania nacional, o desenvolvimento, a independência do país e as liberdades dos cidadãos.

Muito mais haveria a dizer. Sua obra escrita atinge cerca de 90 títulos e mais de 3 mil artigos publicados neste jornal, o centenário e importante JB. Que fiquem para as gerações futuras sua coerência inabalável, a voz sempre vigorosa em defesa das liberdades democráticas e sua afirmação, pouco antes de morrer: “Em uma democracia, o fundamental é o direito à contestação”.

Barbosa Lima Sobrinho foi um homem que não deixou vergar seu perfil de combatente pela idade de mais de cem anos. Defendeu suas posições, serena e firmemente, até o fim.

CERTAS PAÇOCAS FAZEM MAL À SAÚDE!!



Atenção, Caros Amigos, urgente!! Atenção, Fórum Social Mundial!! Atenção mídia de esquerda em geral!! Urgente, urgentíssimo!! Tirem suas ceras de ouvido, tirem os véus dos olhos, e prestem atenção a este texto e à foto que o ilustra.

Além do mais, os ritmos do brega-popularesco que o (para sempre) pupilo de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, defende nas páginas da imprensa esquerdista tão logo vão parar nas páginas da Folha de São Paulo e em todos os veículos das Organizações Globo, principalmente a Rede Globo de Televisão.

Foi assim com o tecnobrega, com direito a tratamento VIP e tudo, e até uma rebatizada generosa na revista Época, que passou a chamar o estilo de tecnomelody.

Enquanto a mídia de esquerda faz sua batalha, no âmbito político, contra a "ficha suja" de vários políticos brasileiros, ela se esquece de ver a "ficha suja" de certos jornalistas que rondam as redações de esquerda fazendo as mesmas pregações em torno da "cultura popular" apátrida, caricata, estereotipada e comercial que as Organizações Globo e o Grupo Folha já defendem com indisfarçado entusiasmo.

A imprensa de esquerda ainda não encontrou a trilha sonora ideal para sua narrativa das tensões políticas que acontecem no Brasil e no mundo. Essa trilha sonora brega-popularesca, a suposta "música popular" de consumo, com P maiúsculo de "porcaria", é que nada tem a ver com as lutas populares. Nada, mesmo.

KELLY OSBOURNE ANDA NA FOSSA?



Diz o título da nota de Caras sobre a atual fase da filha de Ozzy Osbourne:

"Solteira, Kelly Osbourne curte balada".

Sério mesmo? Será que ela anda mesmo na fossa depois que rompeu com seu último namorado? Será que ela passou a ouvir "Mandy", sucesso de Barry Manilow? Será que ela anda ouvindo muita música romântica? Ou será que ela vai seguir a cartilha do pai e ouvir coisas como "I'm going to Changes", com o próprio pai e o Black Sabbath, e "Stairway to Heaven", do Led Zeppelin?

Se bem que Kelly Osbourne tem uma formação mais pop e modernosa, deve estar à procura de um trip hop (que só tem baladas - música lenta, na boa) para ouvir nos momentos de dor-de-cotovelo.

LÉO SANTANA DIZ QUE "REBOLATION" É A MÚSICA MAIS TOCADA DO MUNDO



A coluna Sessão Extra, do jornal Extra - das Organizações Globo - , afirmou que a música "Rebolation", do grupo de porno-pagode baiano Parangolé, entrou no livro do Guiness como a música mais tocada no mundo. Mesmo?

Léo Santana anunciou a "façanha" durante apresentação do grupo no Salvador Fest, evento popularesco que acontece todo ano na capital baiana.

E os outros grandes sucessos da música internacional, mais tocados no mundo durante décadas? E "Garota de Ipanema"? Como é que ficam até mesmo Lady Gaga e Justin Bieber, que não são grande coisa mas pelo menos fariam sentido se fossem considerados febre mundial?

Além do mais, a posição de "Rebolation" como "música mais tocada no mundo" é muito duvidosa, pois nenhum fato concreto foi mostrado para provar tal hipótese. Ficou naquela mesma lorota da Banda Calypso "concorrer" ao Nobel da Paz, que nunca passou de um blefe para impressionar os incautos.

Quanto ao "Rebolation", é bom deixar claro que 99% de suas execuções se deram através do jabaculê, do "jabá", que os gringos conhecem como payola, que é o suborno aos programadores e DJs de rádios, TVs e casas noturnas.

Mas pelo jeito parece que, para muita gente, não há mais jabaculê, e atingimos a paz mundial da noite para o dia. Certamente é o pessoal brazuca que não entende dos conflitos do Oriente Médio, do latifúndio brasileiro, do imperialismo ianque, e mal consegue perceber o efeito estufa que destrói morros, plantações e litorais, da poluição ambiental, da violência e outros males que ainda castigam nosso planeta.

Mundo tenso, multidão ingênua: combinação perigosa.

RONALDINHO GAÚCHO VIROU CANTOR ROMÂNTICO?



O portal Ego disse que o craque Ronaldinho Gaúcho tornou-se "baladeiro".

A gente, na nossa completa ignorância, pergunta: será que o jogador gaúcho virou cantor romântico? Será que ele vai gravar um álbum de serestas, ou de sucessos românticos? Será mesmo que ele vai gravar com uma big band?

A gente aguarda novas notícias sobre o primeiro CD de músicas românticas de Ronaldinho Gaúcho, certo, equipe do Ego?

INTELECTUAIS PRÓ-BREGA DEVERIAM SER ESTUDADOS



Uma das maiores questões das ciências sociais, em particular a Antropologia, não está exatamente na compreensão mais generosa do outro, mas na compreensão que o intelectual tem que ter de si mesmo.

Até mesmo o saudoso antropólogo Clifford Geertz já falou nisso, quando pensou o relativismo da abordagem etnográfica. Ele não condena, a rigor, o etnocentrismo, mas aconselha ao antropólogo uma análise mais cautelosa de si mesmo.

Afinal, é a partir da visão pessoal do etnógrafo, mesmo a visão deslumbrada diante do "outro", que ele estabelece seu juízo de valor, seus preconceitos, sua visão docilmente distorcida do "outro", por mais generoso que pareça ser.

É por isso que, tal um Pero Vaz de Caminha embasbacado diante dos índios do litoral brasileiro, Pedro Alexandre Sanches, com sua formação cultural herdada de referenciais próprios da TV Record dos anos 80 e da revista Bizz dos anos 80, se deslumbra com os subúrbios popularescos do Pará, de Salvador, de Goiânia, da Baixada Fluminense.

COLUNA "PAÇOCA" É A "SUCURSAL" DA FOLHA NA CAROS AMIGOS

Seu "Paçoca" (nome de uma coluna publicada em Caros Amigos) é a Central da Periferia da vez. Na prática, apesar do contraste ideológico dos dois veículos, "Paçoca" acaba sendo a sucursal da Folha de São Paulo, pela sua apologia popularesca que tão logo alimentará as páginas da Ilustrada e dos programas da Rede Globo (Folha e Globo são "irmãs" ideológicas).

Mas em todo caso, a análise vale tanto para Pedro Sanches quanto para Bia Abramo, Hermano Vianna, Rodrigo Faour ou quem vier com a mesma abordagem. Seu etnocentrismo moderno pega de surpresa uma classe média desprevenida, que não compreende direito o que é a periferia, seus problemas, suas contradições e os mecanismos de controle social dos barões regionais da mídia.

VISÃO FANTASIOSA DA PERIFERIA

Por isso todos ficam felizes e sorridentes quando a abordagem da música brega-popularesco cria uma visão fantasiosa da periferia, descrita como um "paraíso" com multidões sorridentes, sem problemas, ao mesmo tempo ingênuo, sem maldades e sem tutores.

A abordagem tem muito daquilo que é contestado por John Kenneth Galbraith no seu livro A Cultura do Contentamento, que é atribuir ao povo pobre a ilusão de sua auto-suficiência, como forma dos detentores do poder de aliviar as tensões das classes populares.

Este doce etnocentrismo, por parecer generoso, otimista e simpático, não é questionado numa linha só pela classe média que lê tais apologias. E nem desconfiam que estas, ao serem publicadas por veículos esquerdistas como as revistas Fórum e Caros Amigos, agem em diverência, e não convergência, com as abordagens críticas que as mesmas publicações fazem no âmbito político.

IMPRENSA DE ESQUERDA ACABA FAZENDO O MESMO QUE O JORNAL NACIONAL DURANTE A DITADURA

Mas essa visão tão generosa e confortável, na medida em que desperta, na classe média, o mesmo efeito analgésico dos noticiários alienantes, faz com que a imprensa de esquerda acabe fazendo o mesmo que o Jornal Nacional fazia durante a ditadura militar.

Enquanto o noticiário político ferve com suas tensões, seus dramas, tragédias e confrontos, o noticiário cultural mostra uma "periferia feliz", infantilizada, alegre, ingênua, submissa ainda que seja definida como "espontânea". Não é mais a periferia tal como ela realmente é, mas uma visão idealizada e domesticada trazida por Pedro Alexandre Sanches, Bia Abramo e seus similares, que depositam numa periferia manipulada pelos barões da grande mídia uma suposta sabedoria que os jovens pobres não têm a menor ideia do que se trata.

É isso que o Jornal Nacional fazia nos tempos do AI-5. Falava de um mundo explosivo, tenso, conflituoso, enquanto anunciava o "Brasil Grande" como um "doce paraíso", alegre, ingênuo, infantilizado, domesticado.

A "Paçoca" de Pedro Sanches e suas colaborações em Carta Capital e Fórum também mostram um Brasil "adocicado" - na ironia do sucesso do brega Beto Barbosa se chamar "Adocica", talvez bem do agrado da falsa etnografia de Sanches, Vianna e companhia - , um país domesticado que contrasta com as explosivas notícias do ramo político.

Mas, por debaixo dos panos, o poder latifundiário que faz derramar a mortal ferida de sangue de agricultores, seringueiros, padres, operários, professores, donas-de-casas e até missionárias estrangeiras, patrocina o entretenimento brega das regiões interioranas. Só que falar isso estraga a doce fantasia da classe média urbana, que prefere sonhar com uma periferia feliz, que eles, no seu julgamento pequeno-burguês, acreditam que vá diminuir o risco deles serem assaltados na calada da noite.

Por isso mesmo, deve-se estudar o perfil desses intelectuais e da classe média que os aplaude com sorrisos tão dóceis. Gente que não desconfia de uma revista Fórum falando do mesmo tecnobrega que depois ganha tratamento VIP da Globo.

É preciso estudar esse etnocentrismo às vezes piegas e tolo, mas também paternalista e sonhador, pois não é a visão bondosa que a classe média e seus intelectuais têm do povo pobre através do apoio ao brega-popularesco que ela se despojará de uma visão fantasiosa ou preconceituosa. Pelo contrário, seus preconceitos se tornam cada vez maiores, na medida em que continua tratando o povo pobre de forma domesticada e estereotipada.