segunda-feira, 21 de junho de 2010

ENFIM A "SELEÇÃO" TEM UM GUERREIRO: O TÉCNICO DUNGA



Dunga é mesmo um guerreiro. Isso porque desafiou o poder de uma das mais poderosas corporações de mídia do Brasil, a Rede Globo de Televisão.

Há poucos dias, ele recusou-se a fazer entrevista exclusiva para Fátima Bernardes, repórter da rede, sem acatar sequer a permissão que a CBF - na pessoa de Ricardo Teixeira - deu à equipe de reportagem.

Ontem, ele realizou entrevista coletiva para falar do jogo contra a Costa do Marfim e, com seu famigerado mau humor (francamente, às vezes certas pessoas mal humoradas parecem interessantes), fez marcação com o olhar contra o repórter Alex Escobar, titular da seção esportiva do Bom Dia Brasil. Além disso, Dunga mexia os lábios como se estivesse falando palavrões.

A Fifa disse que pensa em punir o técnico. Mas Dunga, neste caso, tornou-se um guerreiro, porque desafiou um império da mídia, recusando-se a dar privilégio a ela, famosa por transmitir todo um clima de oba-oba que, não raro, atropela as regras do verdadeiro jornalismo.

JESSICA ALBA PÕE A CAMISA PRA DENTRO



Enquanto as boazudas brasileiras se tremem todas para usar camisas longas e enfiá-las para dentro da calça, lá no exterior mulheres charmosas como Jessica Alba fazem isso naturalmente.

E olha que lá nos EUA é um dia ensolarado da virada primavera-verão, e aqui no Brasil as boazudas usam top até nos gelados dias de inverno. Aí tentam vestir vários tops, um sobre o outro e sobre o corpo achando que vão ficar agasalhadas. É quando a barriga, tremendo de frio, reclama de um bom agasalho por causa do ar gelado que atinge a cintura.

ENQUANTO A TORCIDA CELEBRA MAIS UMA VITÓRIA DA "SELEÇÃO"...


Fortes chuvas atingem o Nordeste brasileiro, sobretudo em Alagoas, causando a morte de mais de 20 pessoas, causando enchentes em várias cidades e deixando mais de 35 mil desabrigados.

O que é uma vitoriazinha no futebol diante de tragédias sérias como esta? Certamente existe quem não tem condições de comemorar o resultado da partida de ontem contra a seleção da Costa do Marfim.

INTELECTUALIDADE PAULISTA E BREGA-POPULARESCO


ILUSTRADA SIMBOLIZA A ABORDAGEM PRÓ-BREGA DOS INTELECTUAIS.

A campanha pela defesa do brega-popularesco ganhou um tom "intelectualizado" através de todo um padrão de abordagem adotado pela intelligentzia paulista, ligada aos jornalistas dos grupos Abril e Folha e aos tecnocratas da USP que integram a grande imprensa e a política neoliberal que São Paulo lança como "modelo" a ser seguido no plano nacional.

É um processo ideológico que mistura um discurso pós-moderno, uma abordagem pretensamente sociológica e apelações publicitárias em prol da "ruptura do preconceito". É um repertório retórico que foi lançado pela mídia grande, principalmente pela Folha de São Paulo, e ganhou adesão de críticos musicais e cientistas sociais, vários deles tendo deixado de militar pela imprensa alternativa ou mesmo pela cultura underground durante a fase áurea da Bizz (1985-1990).

As raízes da adesão de parte da intelectualidade para a defesa de tendências brega-popularescas, fruto de uma consciência tardia e confusa do que é a cultura popular para uma geração de críticos e cientistas sociais com formação mais próxima do Rock Brasil, mas herdeiros de uma postura condescendente vinda do Tropicalismo, podem estar justamente entre os tropicalistas, como Gilberto Gil e sobretudo Caetano Veloso, que, embora baianos, desenvolveram o movimento na cidade de São Paulo.

DILUIÇÃO DO CONCEITO DE "GELÉIA GERAL"

A origem da ideologia apologética que vemos em textos de Bia Abramo, Pedro Alexandre Sanches ou em posturas de gente como o falecido guitarrista Marcelo Fromer, ou de gente situada no Rio mas igualmente influenciada pela abordagem paulista como Hermano Vianna, Patrícia Pillar, Paulo César Araújo, Fernanda Abreu e Rodrigo Faour, teria sido a deturpação do conceito de "geléia geral" lançado pelos tropicalistas.

A expressão "geléia geral" foi lançada pelo pesquisador musical, professor universitário e integrante do movimento poético concretista (1956-1960), Décio Pignatari, e adotada pelo poeta tropicalista Torquato Neto. Era o estabelecimento de um debate cultural brasileiro a partir da problemática da indústria cultural, assim como da exposição de todas as manifestações, nas quais se analisaria o quadro da sociedade brasileira, através de conceitos de modernidade e atraso, de nacional e estrangeiro, de popular e elitista, etc.

Mas o debate cultural deu lugar a uma abordagem passiva, não raro apologética, a uma exposição gratuita e condescendente de modismos. A cultura brasileira passou por um processo de degradação progressiva, sob o consentimento dos dois líderes tropicalistas, Caetano e Gil, o que criou uma mentalidade padrão de intelectuais que abordam o comercialismo musical brasileiro como se fosse uma manifestação "pós-moderna".

Essa ideologia andava adormecida com a onda do Rock Brasil que, em que pese se tratar de um movimento baseado num ritmo estrangeiro, possuía uma consciência da realidade nacional e uma criatividade artística peculiares que colocam os roqueiros brasileiros acima até mesmo dos popularescos mais "regionais" (que não veem diferença essencial entre Xapuri e Texas).

Com o declínio do Rock Brasil e o fortalecimento da música brega-popularesca patrocinada por grupos econômicos conservadores, de latifundiários a executivos de rádio e TV, a intelectualidade acomodada nas bancadas da USP (e, por conseguinte, UFRJ e outras universidades federais) e nas redações de Ilustrada, Veja e Isto É (a Bizz havia entrado numa fase esnobe-niilista de André Forastieri), passou a desenvolver um discurso que mostrava seu claro etnocentrismo.

Afinal, como intelectuais poderiam abordar sertões, favelas, senzalas, sobrados, aldeias, com um juízo paternal típico de liberais trancados em seus condomínios de luxo?

Mas suas posições garantem a validade do discurso, tal qual a aparente generosidade dessa retórica. Se não era rigorosamente a realidade da senzala sob o ponto de vista da casa grande, era o sertão e a favela vistos sob o filtro das lentes dos condomínios ou das academias universitárias.

VISÃO PATERNALISTA

Era fácil até botar a culpa nos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE) pela abordagem paternalista da cultura popular. Ou seja, é "paternalista" educar o povo e fortalecê-lo culturalmente, enquanto "não é paternalista" manter o povo na sua burrice, deixar o povo fazer "o que sabe".

Se for por este raciocínio, Pixinguinha seria um burguês, por fazer uma música de excelentes melodias e grande valor artístico, embora ele seja oriundo dos morros. E o É O Tchan seria da periferia, porque faz uma música de qualidade duvidosa, mesmo tendo em sua formação cantores enriquecidos que deixaram sua origem pobre para trás, praticamente integrando a classe média alta dos famosos.

Mas esse raciocínio é que é paternal. É só compararmos o que é uma relação entre pai e filho. O pai que ensina o filho a ter opiniões e iniciativas próprias não seria paternalista. Já o pai que apenas adula o filho com presentes mas não estabelece diálogo com ele nem o permite desenvolver iniciativa e opiniões próprias, esse pai é paternalista. O paternalista dá o peixe para o pescador iniciante, o não-paternalista o ensina a pescar.

Da mesma forma, a intelectualidade que corteja o emburrecimento cultural como se isso significasse o "mais autêntico cheiro de povo", é que é, sim, paternalista.

Que mal tem Chico Buarque fazer sambas e apresentá-los às favelas? Que mal tem Sérgio Ricardo e Carlinhos Lyra temperarem sambas com Bossa Nova com letras falando sobre sertão? Isso é fruto de um diálogo entre classe média e classe popular, guiada pela verdadeira arte de uma e outra, numa comunicação que pode revitalizar o potencial artístico do povo pobre, renovado com o diálogo com a classe média solidária e não-usurpadora, portanto, não-paternalista.

Mal tem, na verdade, numa Gabi Amarantos tida como "criativa", quando a única coisa que ela sabe fazer é brincar de Beyoncé Knowles em ritmo de forró-brega (agora sob o rótulo de tecnobrega). Porque é a mediocridade cultural neste caso exposta que representa a subordinação do povo pobre à supremacia do entreguismo cultural, da prevalência de elementos estrangeiros sobre a mentalidade local, que, enfraquecida, se traduz num provincianismo patético, caricato, conformista e sem vontade própria, pois "sua vontade" é a vontade dos donos de rádio, dos donos de TV.

Portanto, é essa ideologia bem ao gosto dos yuppies da Avenida Paulista, metidos a julgar a cultura popular sob suas lentes acadêmicas, que é paternalista. É a defesa da mediocridade musical do brega-popularesco que se torna etnocêntrica, não é o julgamento real e fiel da cultura popular. É a afirmação de uma dominação de uma mentalidade classe média e seus verdadeiros preconceitos sobre o povo popular. Porque é um povo que, sofrendo, "não sofre", o inferno torna-se "paraíso" na retórica etnocêntrica, os problemas são camuflados e as classes populares, falsamente "exaltadas", são depreciadas na sua subordinação qualquer nota de sua suposta produção cultural.