sexta-feira, 11 de junho de 2010

IDEOLOGIA BREGA FAZ DISCURSO CONSERVADOR



Ninguém percebeu, e a imprensa de esquerda, no que se diz à abordagem da música brasileira, abraçou todo o discurso da mídia golpista que corteja o brega-popularesco.

Será que ninguém da mídia esquerdista se envergonha de fazer o mesmo discurso pró-popularesco que vemos nos programas da Rede Globo e nas páginas de O Globo, Folha de São Paulo e Contigo, todos veículos da mais reacionária grande mídia?

Será que ninguém desconfia que a FOLHA DE SÃO PAULO foi uma grande escola para um jornalista como Pedro Alexandre Sanches, que, com a frieza de quem cometeu um crime, nem se deu ao luxo de se arrepender em ter trabalhado na imprensa de direita, como também não mede escrúpulos em fazer na mídia esquerdista o que sempre fez no jornal de seu mestre Otávio Frias Filho?

Será que ninguém percebeu que o que a revista Fórum escreveu sobre o tecnobrega, por exemplo, em poucas semanas será igualmente reproduzido no Domingão do Faustão? O que Pedro Alexandre Sanches escreve na mídia de esquerda é exatamente a mesma coisa que Nelson Motta, "sócio" do temível Instituto Millenium, vai dizer no também temível Jornal da Globo, sob a batuta do não menos temível William Waack? E que o que MC Leonardo escreve sobre o "funk" em Caros Amigos é igualzinho ao que Gilberto Dimenstein escreve na Folha de São Paulo?

A ideologia brega é um exemplo. Em todos os aspectos. O mais recente produto da Música de Cabresto Brasileira, o tecnobrega, tentou-se vender como um produto "alternativo" num discurso confuso, que, no mais típico jeitinho brasileiro, quer vender um modismo comercial como se fosse uma vanguarda underground.

É como se vendesse a disco music como se fosse uma rebelião punk, o que nada tem a ver. Mas, em se tratando de Brasil, qualquer absurdo torna-se válido. E aí a intelectualidade quer, ao mesmo tempo, pensar como Justo Veríssimo e agir como Albênzio Peixoto, ou seja, renegar o povo e criar um discurso intelectualóide. Chico Anysio e seu filho Bruno Mazzeo que o digam.

A ideologia brega esconde uma perversidade semântica por trás do lindo discurso "sociológico". Em primeiro lugar, trata a pobreza, a periferia, como se fossem regiões paradisíacas, uma espécie de paraíso de escombros, de lixo, de lama, de comércio clandestino, de instalações elétricas irregulares, de parabólicas piratas, o que dá o tom de toda a perversidade anti-popular que nossos tão "bonzinhos" intelectuais pró-cafonice fazem com o povo. Eles glamourizam a miséria, a veem como algo "muito lindo", querem transformar o "lixo" em "luxo".

Em segundo lugar, essa perversidade imobiliza o povo na sua mediocridade. Transforma lata enferrujada em ouro, numa pretensa folhagem de ouro camuflando toda uma sucata. O público de música brega-popularesca mais grotesca, o povo da periferia, é analfabeto ou sub-alfabetizado, mas no discurso etnocêntrico dos intelectuais pró-cafonice, eles "entendem" de Oswald de Andrade.

A periferia nunca ouviu falar de Oswald, nem de Mário de Andrade, nem de Hélio Oiticica, nem de Glauber Rocha, nem de Torquato Neto, nem de Oduvaldo Vianna Filho. Mas, no olhar etnocêntrico de Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Rodrigo Faour e outros, a periferia conhece eles, sim.

Desmascarar a ideologia brega difundida por esses ideólogos, de Paulo César Araújo a Pedro Alexandre Sanches, passando, no meio do caminho, pela cafajestice teórica do baiano Milton Moura ou pelo fascismo sócio-cultural do mineiro Eugênio Raggi, não é uma tarefa fácil.

Mas o discurso pró-cafonice, pró-brega, tem suas falhas. E nem estou falando, aqui, da arrogância dos reacionários defensores dos medalhões do sambrega, do breganejo e da axé-music, que em várias vezes espinafrarem até este blog, mas são capazes de desmoralizar gente como Bruno Mazzeo e Artur Xexéo. Isso é uma outra história. É a chamada gente "anti-cabeça" de que Arnaldo Bloch descreveu. Nem se dão ao luxo de se passar por "intelectuais" e não obstante escrevem muito mal, ainda que apareça um para escrever bem bonitinho para tentar impressionar.

As falhas do discurso pró-brega escondem todo o contexto original da ideologia cafona. Que cria uma espécie de "pecado original" dentro do "paraíso da periferia" tão louvado por esses intelectuais etnocêntricos.

A primeira falha é quando se descreve o cenário da música brega original, que é o mesmo de tendências recentes como o "funk carioca" e o tecnobrega. Só a descrição desse cenário mostra a crueldade de promover a imagem patética do povo pobre, além de reservar a ele tudo o que há de ruim no emprego, no lazer e nas perspectivas de vida, como também na auto-estima.

O cenário mais típico da cafonice cultural é a zona intermediária entre o rural e o suburbano. Pequenas roças ou bairros de periferia. Favelas, sobrados, pequenos sítios, e suas casas degradadas. Pequenos comércios falidos, ou comércio clandestino. Botequins decadentes, prostíbulos, galpões convertidos em casas noturnas, arenas privativas para disc-jóqueis dominadores, exploradores do gosto popular. Ruas sem asfalto, morros em erosão, estradas esburacadas, lodo por toda parte.

Os personagens? Idosos transformados em débeis-mentais. Mulheres com alguma beleza jogadas para a prostituição aberta ou sutil. Mulheres sem qualquer beleza jogadas para tarefas mal-remuneradas, num trabalho doméstico sub-valorizado. O povo em geral também é jogado ao subemprego e ao comércio clandestino. Mas, para os ideólogos da música brega, é ótimo haver camelôs, perigoso, para eles, é haver trabalhador com Carteira de Trabalho e ganhando salário justo e tendo condições técnicas, de saúde, de assistência e proteção dignas.

A ideologia brega destruiu as culturas regionais, reduzindo o folclore brasileiro a meros cacos. Mas, demagogicamente, argumenta que revelar esse processo cruel é uma grande bobagem. Destroem-se identidades, degrada-se o povo, mas faz-se de conta que o povo continua forte, que mantém sua identidade, superestimando o poder de Fênix deste povo. Que o povo pode superar suas desgraças, isso é verdade, mas tal superestima tem um quê de sadismo, pois o prazer do intelectual etnocêntrico é ver o povo sofrer e sorrir ao mesmo tempo.

A ideologia brega empurra ritmos estrangeiros fora de moda, que se juntam ao que resta das identidades regionais, transformadas num quase-nada patético, resignado e conformista. O povo não cria mais coisa alguma, pega coisas alheias de segunda mão e as toma como "suas", juntando ao que lhe sobrou de coisas próprias.

Mas o discurso da ideologia brega tenta disfarçar e diz que o povo "recria", "reconstrói", "renova". Por trás do "amigável" discurso pró-brega, o poderio midiático destrói o legado cultural do povo, e o obriga a "reconstruir" do nada, sem referências, sem valores, sem qualquer rumo.

O povo se desnorteou culturalmente, por conta do poderio dominante de suas regiões. As elites tiraram a cultura de seu povo, e botaram a culpa toda no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE), só porque alguns universitários abraçaram a causa da cultura de raiz.

Não, não foram os inocentes Carlos Estevam Martins, Oduvaldo Vianna Filho e os hoje vivos e ativos Cacá Diegues e Carlinhos Lyra os culpados pela ação paternalista e usurpadora sobre a cultura popular. Foram as elites latifundiárias e os barões da mídia que se empenharam em tirar do povo pobre os sambas, maxixes, baiões, catiras, cocos, ritmos nativistas, modinhas e tantos outros ritmos, para empurrar boleros, discos, soul ballads, valsas, traduzidos localmente em meras caricaturas patéticas, apenas "temperadas" por alguns clichês remanescentes dos ritmos regionais.

Evidentemente, o discurso da ideologia brega se apressa em apagar todo vestígio de coronelismo midiático. Sobretudo no Pará, que na crônica política dos críticos da grande mídia é uma região altamente perigosa, um dos maiores redutos de pistolagem no Brasil e um dos palcos mais sangrentos de conflitos de terra ocorrentes no país.

Não é por acaso que um dos maiores massacres contra trabalhadores rurais ocorreu na cidade de Eldorado dos Carajás, no Sul do Pará, o que mostra o quanto o Estado nortista é uma espécie de "coração" do coronelismo brasileiro, embora o poder dos "coronéis" seja forte até em outras partes do país, havendo até mesmo um "coronelismo" no Estado do Rio de Janeiro (com braços na contravenção do jogo-do-bicho), que merece investigação.

Também não é por acaso que a missionária norte-americana Dorothy Stang, já ameaçada pelos "coronéis" paraenses, foi assassinada numa pequena cidade do interior do Pará, Anapu, num atentado tramado por vários fazendeiros da região.

A ideologia brega "limpa" a influência midiática dos "coronéis" brasileiros. No Pará, é mais típico, mas está longe de ser exclusivo, afinal isso ocorre do Oiapoque ao Chuí. Menospreza o fato de que o coronelismo se serve da mídia para fortalecer e reafirmar seu poderio, promovendo o controle social através do entretenimento, enfraquecendo culturalmente o povo para este ser mais facilmente dominado.

Por isso mesmo, a abordagem do tecnobrega, por exemplo, torna-se hipócrita. Há um hit-parade no Pará e os ideólogos do brega querem creditá-lo como se fosse "vanguarda alternativa". Grande mentira. Existe hit-parade na Itália, no Japão e na América Central, e nem por isso se tratam de "música underground" pelo fato de não aparecerem nos listões do hit-parade dos EUA, os chamados "grandes centros" da "civilização global".

O discurso "anula" completamente a influência dos "coronéis" nas rádios que, no citado exemplo, existem nas cidades do Pará. "Limpa" o controle latifundiário da responsabilidade midiática, como se não existisse qualquer oligarquia midiática no mesmo Pará da pistolagem, do poder coronelista, das listas dos marcados para morrer.

É contraditório, assim, contrapor a problemática e sangrenta realidade dos conflitos de terra do Pará com o "paraíso da periferia" do entretenimento local. Contrastar os prantos, o medo e a insegurança do povo pobre, diante das questões políticas e econômicas locais, com a "felicidade" atribuída a esse mesmo povo nos momentos de lazer e entretenimento, revela a farsa e a perversidade do discurso da ideologia brega, que adota um tom bastante conservador quando o assunto é povo brasileiro.

Mesmo tendo a capital, Belém, como cenário das tendências bregas, isso não menospreza a influência coronelista, uma vez que toda capital de Estado é sempre uma vitrine do poder coronelista estadual. As relações políticas e econômicas comprovam muito bem isso, e tudo isso traz um reflexo sócio-cultural evidente, não há como escapar.

A conclusão mais dramática que se faz é que a tão "alegre", "positiva" e "feliz" defesa feita para a chamada "cultura" brega-popularesca é uma das maiores afrontas que a mídia dominante e a intelectualidade associada - mesmo aquela camuflada na mídia de esquerda - faz contra o povo pobre do Brasil.

Tirando o véu da retórica, a ideologia brega se resume perfeitamente na mais cruel condenação ao povo brasileiro, tratando-o como "gente burra, sem identidade, sem qualidade de vida, sem auto-estima".

Será lindo manter o povo brasileiro culturalmente nestas condições? Para mim, não.

ARNALDO BLOCH CRITICA O ANTI-INTELECTUALISMO DOS JOVENS BRASILEIROS


COMENTÁRIO DESTE BLOG: Há poucas semanas, terminei de ler o livro Os Irmãos Kamarabloch, de Arnaldo Bloch, dedicado à sua família, ligada à história do grupo Bloch, responsável pela revista Manchete e pela TV Manchete.

No entanto, diante dos problemas financeiros do grupo empresarial, que entrou em colapso depois que faleceu o empresário Adolpho Bloch, Arnaldo Bloch, então jornalista emergente, foi trabalhar em O Globo.

Já experiente e escrevendo coluna no Segundo Caderno, Arnaldo escreveu em 2004 um texto muito interessante, sobre o anti-intelectualismo que assola os jovens atuais (e que eu mesmo pude ser testemunha nas minhas informais pesquisas sociais e virtuais). No dia que eu li o texto, não tinha dinheiro para xerox e o copiei manualmente, para leitura posterior. Todavia, o texto aqui apresentado eu copiei da Internet, mesmo.

O ANTI-CABEÇA

Arnaldo Bloch - Segundo Caderno de O Globo, 14 de fevereiro de 2004.

Uma tendência ganha fôlego em nossos dias: o antiintelectualismo. Seu porta-voz, o Anti-cabeça, está em tudo que é lugar, pronto pra lutar por sua ideologia.

O Anti-cabeça é recrutado por uma força invisível ( um deus? um fenômeno natural?), que diz: “ Onde quer que estejas, filho, abomina todo refinamento mental, toda sutileza oratória. Destrói aqueles que elaboram o pensamento complexo e abra as portas para a felicidade simplificadora.”

O Anti-cabeça pode ser ignorante ou culto. Mas nunca será inteligente.

O inteligente inculto, por sua vez, livra-se de ser um Anti-cabeça se estiver consciente de seus limites circunstanciais, e dar-se a liberdade de decidir, sem traumas, desenvolver ou não o intelecto. Mas, se for magoado, será um Anti-cabeça furioso.

Culto ou ignorante (mas sempre ininteligente), o Anti-cabeça odeia o raciocínio sofisticado e acredita que, para existir e imperar, precisa exterminá-lo ou isolá-lo. Não pode haver diálogo entre as duas esferas. O mundo é pequeno demais para caber Cabeça.

O intelectual, na visão do Anti-cabeça, nada tem a contribuir para a construção de uma sociedade melhor. Ele é sempre o Cabeça, pernóstico, mentiroso, delirante, confuso, um chatonildo que opõe-se à simplicidade deste mundo.

O Anti-cabeça vomita diante de uma arte que não seja figurativa ou decorativa. Cospe, mesmo sem ouvir, numa música cuja harmonia (palavra proscrita) seja um tantinho mais intrincada.

Acredita que a vanguarda não existe, que é sempre um embuste, e ignora interdependência/intercâmbio/processo que envolvam clássico e novo.

O Anti-cabeça pronuncia a palavra “intelectual” como se fosse um palavrão. Ou então, como se tal ser ( “o intelectual” ) não existisse na realidade, fosse invariavelmente um picareta, sujeito deletério, um sofisma ambulante, uma praga subversiva.

O Anti-cabeça dorme na platitude e acorda no banal. Acredita que o medíocre será vencedor. À noite, sonha com a uniformização de tudo num grande show que não pode parar para pensar, que transforme as vidas num zumbido permanente e alegre. Nesse show não há lugar para a expressão da tristeza, da melancolia, da angústia como formas válidas: estes são sentimentos para se extirpar do coração antes de chegar à garganta e à voz, que devemos guardar nos nossos peitos, não encher o saco dos bons e simples com roupa suja existencial.

A existência, por sinal, não é uma questão a ser pensada ou exposta, crê o Anti-cabeça. A existência apenas “é”. E ponto – porque se forem reticências a coisa já fica muito complexa. Toda a filosofia está enterrada nesta afirmativa, podemos bailar e rir. É tão fácil ser feliz!!! Só o cabeça com a sua carranca, é que não vê.

O objetivo final do Anti-cabeça é exterminar o Cabeça, que tem um poder de comunicação imediata menor e pode encontrar dificuldades em defender sua dignidade e sua honra.

O Anti-cabeça segrega, procura criar uma nova classe de degenerados, de inúteis, de incompreensíveis masturbadores mentais que nada têm a ver com o senso comum e, portanto, não devem ser levados a sério. O mundo será melhor, mais direto, mais claro, mais divertido e colorido sem eles pra perturbar. Que fiquem encastelados em seus átrios abafados e cheios de teias de aranha.

O cronista, que não é um Anti-cabeça, prescinde de declarar-se, entretanto, um intelectual. Mas saúda os Cabeças e os simples com toda a humildade.