quinta-feira, 10 de junho de 2010

ALIANÇA COM PMDB FAZ ADVOGADA DESFILIAR-SE DO PT


COMENTÁRIO DESTE BLOG: Não é um episódio novo. É mais um capítulo de uma longa novela do êxodo de descontentes do PT. Que já produziu, pelo menos, uns novos três partidos de esquerda (PSTU, PCO, PSOL). Interesses "pragmáticos" mancharam a história do PT, partido com 30 anos de existência. Agora é a aliança com o PMDB na corrida para o governo de Minas Gerais que faz advogada e uma das fundadoras do PT, Sandra Starling, a deixar o partido e divulgar este manifesto abaixo.

Os parágrafos foram por mim editados para facilitar a leitura.

MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO
Adeus ao Partido dos Trabalhadores

Sandra Starling

Ao tempo em que lutávamos para fundar o PT e apoiar o sindicalismo ainda “autêntico” pelo Brasil afora, aprendi a expressão que intitula este artigo. Era repetida a boca pequena pela peãozada, nas portas de fábricas ou em reuniões, quase clandestinas, para designar a opressão que pesava sobre eles dentro das empresas.

Tantos anos mais tarde e vejo a mesma frase estampada em um blog jornalístico como conselho aos petistas diante da decisão tomada pela Direção Nacional, sob o patrocínio de Lula e sua candidata, para impor uma chapa comum PMDB/PT nas eleições deste ano em Minas Gerais.

É com o coração partido e lágrimas nos olhos que repudio essa frase e ouso afirmar que, talvez, eu não tenha mesmo juízo, mas não me curvarei à imposição de quem quer que seja dentro daquele que foi meu partido por tantos e tantos anos.

Ajudei a fundá-lo, com muito sacrifício pessoal; tive a honra de ser a sua primeira candidata ao governo de Minas Gerais em 1982.

Lá se vão vinte e oito anos! Tudo era alegria, coragem, audácia para aquele amontoado de gente de todo jeito: pobres, remediados, intelectuais, trabalhadores rurais, operários, desempregados, professores, estudantes. Íamos de casa em casa tentando convencer as pessoas a se filiarem a um partido que nascia sem dono, “de baixo para cima”, dando “vez e voz” aos trabalhadores.

Nossa crença abrigava a coragem de ser inocente e proclamar nossa pureza diante da política tradicional. Vendíamos estrelinhas de plástico para não receber doações empresariais. Pedíamos que todos contribuíssem espontaneamente para um partido que nascia para não devermos nada aos tubarões.

Em Minas tivemos a ousadia de lançar uma mulher para candidata ao Governo e um negro, operário, como candidato ao Senado. E em Minas (antes, como talvez agora) jogava-se a partida decisiva para os rumos do País naquela época. Ali se forjava a transição pactuada, que segue sendo pacto para transição alguma.

Recordo tudo isso apenas para compartilhar as imagens que rondam minha tristeza. Não sou daqueles que pensam que, antes, éramos perfeitos. Reconheço erros e me dispus inúmeras vezes a superá-los. Isso me fez ficar no partido depois de experiências dolorosas que culminaram com a necessidade de me defender de uma absurda insinuação de falsidade ideológica, partida da língua de um aloprado que a usou, sem sucesso, como espada para me caluniar.

Pensei que ficaria no PT até meu último dia de vida. Mas não aceito fazer parte de uma farsa: participei de uma prévia para escolher um candidato petista ao governo, sem que se colocasse a hipótese de aliança com o PMDB. Prevalece, agora, a vontade dos de cima.

Trocando em miúdos, vejo que é hora de, mais uma vez, parafrasear Chico Buarque: “Eu bato o portão sem fazer alarde. Eu levo a carteira de identidade. Uma saideira, muita saudade. E a leve impressão de que já vou tarde.”

BIBLIOTECA VIRTUAL FAZ IDEIA DISTORCIDA DO BREGA DO PARÁ



A Biblioteca Virtual, sob o pretexto de lançar uma visão "objetiva" da música brasileira, sucumbiu aos clichês publicitários do tecnobrega. Aparentemente desenvolvendo um histórico geral da música brasileira, o texto em questão, no parágrafo dedicado à música brega e o tecnobrega, comete violentos deslizes na abordagem claramente apologética dos fenômenos.

Como se trata de um site produzido pela Secretaria de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo - há um claro cheiro tucano por aí - o texto, publicado em março de 2010, se beneficia da visão paulistocêntrica da mídia e credita os fenômenos bregas e do tecnobrega como se fossem discriminados pela "grande mídia".

Num trecho, diz que os ídolos bregas do Pará fizeram estrondoso sucesso mas eram ignorados pela "grande mídia". Noutro, afirmam que o tecnobrega tem um "mercado alternativo", que veio das "periferias" mas por outro lado afirma que os ídolos do estilo "se profissionalizaram de forma impressionante, com estruturas grandiosas de luz, som e figurinos".

Você fica maluco achando que o tecnobrega e os bregas veteranos do Pará fazem estrondoso sucesso mas "não fazem sucesso algum". E, por que o estrondoso sucesso, se eles estão "fora da grande mídia". E que "mercado alternativo" é esse? É "alternativo" porque não é subsidiária das "grandes irmãs" (Sony, Warner, Universal e EMI)?

A visão é esquizofrênica. Imagine definir como "alternativo" um modismo cuja estrela principal é uma imitadora da Beyoncé Knowles, símbolo do mais manjado hit-parade do mundo inteiro? Falta de coerência, no duro!!

Imagine se você fala que a disco music tornou-se fenômeno mundial com um esquema de divulgação e distribuição próprios do punk rock? É pura hipocrisia da intelligentzia brasileira em anunciar novos modismos. Pura cara-de-pau dizeer que as gravadoras do Pará são "independentes" porque não são a Sony, nem Warner, nem Universal, nem EMI, nem Som Livre.

A filosofia dessas gravadoras nada tem a ver com as gravadoras independentes, porque têm um esquema de jabaculê, de exploração artística, de mentalidade comercial dignos da mais capitalista indústria fonográfica. Ou seja, são apenas versões rurais de uma Warner Bros Records, de uma Capitol Records, de uma Columbia Records.

Independentes mesmo são a Baratos Afins, é a Monstro Discos, é a Biscoito Fino, é a Trama Discos. Porque gravadora independente valoriza a liberdade artística, e não a fabricação de um espetáculo visando o lucro fácil.

Além disso, no ramo do entretenimento, as tensões sociais do Pará simplesmente desaparecem no discurso florido dos defensores do brega-popularesco. Não há dominação, não há controle social, as rádios de lá podem ser comerciais e ligadas a grupos oligárquicos, por sua vez ligados aos grandes fazendeiros, que "grande mídia" não existe no Pará, pelo menos é o que sugere tal discurso.

Também é uma grande coerência limitar a grande mídia à visão paulistocêntrica, das grandes redes nacionais, da mídia da Avenida Paulista, da Alameda Barão de Limeira, do Projac. Existe grande mídia regional, sim, com sua dimensão local de prepotência, domínio e controle social.

Portanto, nota zero ao Biblioteca Virtual, que se baseou no rol de besteiras que o tal livro do tecnobrega, Tecnobrega: O Pará Reinventando o Negócio da Música, de Ronaldo Lemos e Oona Castro, registrou para promover o modismo com uma retórica pseudo-sociológica.

NÃO FAZ SENTIDO CRITICAR A MPB E APOIAR A MÚSICA BREGA



Não faz o menor sentido que determinados intelectuais e jornalistas falem mal da MPB, acusando-a de "elitista", "distante do povo", "hermenêutica", "complicada demais", "criptografada" etc, se eles apoiam a música brega como "verdadeira cultura popular" e aplaudem quando ídolos neo-bregas se apropriam de clichês da fase pasteurizada da MPB (1979-1988).

Pois é esta mesma MPB pasteurizada, que esses críticos reprovam, que os medalhões da música brega e neo-brega, de Fábio Jr. aos atuais ídolos do sambrega, breganejo e axé-music, se inspiram para se passarem por "sofisticados".

Para esses críticos, Zizi Possi gravando uma canção romântica acompanhada só de piano, é um horror. Mas se a "ídala" da axé-music faz o mesmo, ele aplaude, com entusiasmo.

Se, para esses críticos, Guilherme Arantes grava músicas com sintetizadores falando sobre natureza, soa desastroso e constrangedor. Mas vai o cantor-ator breganejo fazer o mesmo, e esses críticos dão os elogios mais derramados.

Se o Fundo de Quintal grava um álbum que, feito às pressas, p0r pressões da gravadora, e por isso soa morno e burocrático, os críticos baixam a lenha, falam que o grupo "não é mais aquele". Mas se o grupo de "pagode mauricinho" faz um disco igual, os críticos logo dizem que este grupo "progrediu consideravelmente, chegando à maturidade artística".

Chico Buarque, coitado, sempre solidário com o povo, é visto como "elitista" por esses críticos. Para eles, "bom" mesmo é Michael Sullivan, que nunca foi além daquele modelo de "música de motel" que ele desenvolveu sob as bênçãos da Rede Globo.

E, enquanto Edu Lobo, Francis Hime e Carlinhos Lyra pagam caro pela sofisticação musical, sempre desejosos de que o grande público conheça música de qualidade e volte a brilhar com a sua, nomes como Fábio Jr., José Augusto, Alexandre Pires, Daniel, Leonardo, entre outros, confundem "sofisticação" com "pompa", em seus espetáculos superproduzidos e suas canções melosas e enjoadas.

Os reacionários aplaudem os bregas, pois é a mediocridade que gera fanatismo, no afã dos medíocres em conquistar mais vantagens com menos esforço e menos mérito. E pouco estão se lixando para os rumos que toma ou deixa de tomar a Música Popular Brasileira.

Para eles, que a cultura popular autêntica se dane. Eles preferem os lotadores de plateias que visitam o Fausto Silva na TV dos domingos. Eles querem é lucro, poder da mídia, poder do capital. E ainda têm a coragem de camuflar suas verdadeiras intenções.

INTELECTUAIS QUE DEFENDEM BREGA-POPULARESCO SÃO ELITISTAS



Você já ouviu falar de intelectuais que disseram que quem reprova a "música popular" (brega-popularesca) é "elitista", entre outros adjetivos lamentáveis.

Grande engano. Elitistas são eles, que vão para a primeira danceteria de subúrbio de qualquer cidade e acha que aquilo que os DJs das casas noturnas e os programadores de rádio empurram de cafonice para o povo consumir, seja "pancadão", "rebolejo" ou "tecnobrega" etc, é a "autêntica cultura da periferia".

Quanta hipocrisia. São jornalistas, antropólogos, sociólogos e historiadores que, eles mesmo, detém uma grande bagagem de conhecimento musical, e se tornam ideólogos do brega-popularesco que domina a mídia cultural de nosso país, perpetuando modismos e tendências através de um discurso intelectualóide cheio de clichês.

São eles mesmos: Hermano Vianna, Milton Moura, Bia Abramo, Pedro Alexandre Sanches, Rodrigo Faour, que desperdiçam sua formação intelectual com abordagens apologéticas, que na prática não são mais do que mensagens publicitárias que legitimam o sucesso comercial da música brega-popularesca a partir de uma retórica "etnográfica" ou "pós-modernista".

Somente eles puderam conhecer a MPB autêntica dos anos 50, 60 e 70, que o grande público desconhece, somente eles puderam ouvir os discos dos grandes artistas do passado, e além deles, conhecer também a época que a música vinda das roças e dos morros tinha qualidade, e não essa esquizofrenia "pop" sem pé nem cabeça.

Mas eles, de forma hipócrita, guardam seus discos preciosos nos seus armários. Como os velhos sacerdotes medievais que escondiam os grandes segredos da humanidade.

Mas o grande público, que não pode mais assistir à ascensão de um novo Ataulfo Alves, de um novo Cartola, um novo Tião Carreiro, um novo Jackson do Pandeiro, um novo João do Vale, de um novo Luís Gonzaga, de novas Elza Soares e novos Tincoãs, de novos Novos Baianos, é obrigado a engolir ídolos medíocres que imitam estilos estrangeiros com a mentalidade débil do matuto alienado. O que não é a música brega, com todos os seus derivados, senão isto: a junção da submissão imperialista com a ignorância provinciana, a serviço da mediocridade artística e cultural?

Esses intelectuais que defendem a breguice dominante na música brasileira é que são elitistas. Independente deles gostarem dessa breguice ou não, a defesa deles soa paternalista, etnocêntrica. Eles é que, acomodados em seus apartamentos, veem a pobreza como um "universo lindo", um "paraíso de escombros e sujeira", eles é que ocultam os verdadeiros problemas do povo pobre, eles é que têm a miopia de julgar a pobreza como se fosse uma infância feliz.

No fundo, porém, eles não passam de meras traduções, supostamente benevolentes e etnográficas, do esnobismo anti-social de Justo Veríssimo, personagem de Chico Anysio.