quarta-feira, 2 de junho de 2010

O TERRORISMO VERBAL DOS TALIFÃS



Nunca invadi um blog de qualquer ídolo da música brega-popularesca para falar mal dele. Para isso, uso este blog.

Mas os fanáticos defensores desses ídolos invadem o meu blog para me espinafrar, e veio até um tal de Juliano dizer que "eu nunca vou ser jornalista", num texto tão arrogante e muito mal escrito que nem vale a pena reproduzir.

Quer dizer, eu cursei Jornalismo, tenho registro no Ministério do Trabalho, e "não posso" ser jornalista porque falei mal do ídolo desse tal de Juliano. Que moral ele tem, com seus textos muito mal escritos, para entender de jornalismo? Está na cara que ele, na burrice de outros tantos, entende que a única missão do "jornalista" é ser garoto de recados dos fãs-clubes desses ídolos popularescos.

O grande problema é que Juliano, como outros talifans - alcunha dada por Bruno Mazzeo, que sofreu semelhantes ataques reacionários - , vide o mair violento deles, chamado Olavo Bruno, criam problemas até para os ídolos que eles mesmos defendem.

Daí ser muito exato o trocadilho que o nosso prestigiado humorista, filho e parceiro de Chico Anysio, autor e ator do brilhante Cilada, fez com as palavras "fãs" e "Taliban". Vejamos:

1) Taliban, ou Talibã, Talebã e Taleban, é um movimento terrorista do Afeganistão que chegou a governar o país, com mãos de ferro.

2) No idioma farsi, "taliban" significa "estudante", o que relaciona o movimento à fúria reacionária dos jovens terroristas.

3) Como todo grupo terrorista de linha extremista islãmica, realizam ataques de modo que até eles tornam-se vítimas, acabando com tudo e todos, sem medir escrúpulos em praticar o "fogo amigo" (termo dado para ataques bélicos contra os próprios aliados e parceiros de guerra).

Esses três ítens dizem muito à alcunha "talifãs". Gente arrogante, defensora do pensamento único, gente desesperada e insegura, que luta por uma unanimidade que não existe, em prol de certos ídolos da dita "música brasileira", e que não tolera quando um simples blog ou site da Internet fala mal de determinado ídolo.

Primeiro, nunca falei calúnias nem desaforos. O criticava como cantor ou músico, não como pessoa. Que culpa tenho eu se o cantor de sambrega se limita a imitar Lionel Richie? Tenho que achar que ele é um "grande sambista" só porque ele é defendido pela mídia? E aquela dupla de "sertanejo universitário" cujo nome tira sarro com a MPB autêntica? Tenho que achar que eles são "legítima moda de viola" porque a mídia assim quer?

Vão trabalhar, Talifãs!! Vocês mesmos põem tudo a perder. Vejam o caso do Olavo Bruno, tão arrogante que se achava na moral de esculhambar João Gilberto, Maria Rita Mariano ou mesmo este blog e eu, em particular.

Tão defensor da tal "música sertaneja", Olavo parecia triunfar no fórum do portal Movimento Country (um dos maiores relacionados ao breganejo), na sua metralhadora giratória contra os grandes nomes da MPB. Animava-se até a desmoralizar Rita Lee pela oposição que ela faz aos rodeios.

Só que, recentemente, tentei localizar, pela busca, o nome "Olavo Bruno" no portal Movimento Country e, surpresa, o nome dele não estava lá. Por que um entusiasta do breganejo que tanto escrevia num fórum de um grande portal de breganejo, teve suas mensagens apagadas? Certamente é o preço caro da arrogância desse cara, cujas mensagens são vistas num site sobre rock (Mondo Pop), em fóruns sobre mídia (quando Olavo, ingrato, criticava os programas da Globo, tão zelosa pelos ídolos do truculento internauta) e até em comentários sobre ônibus no Fotopages.

Fazer ataques a blogs que não aprovam a mediocridade musical do país em nada irá proteger os ídolos que rolam muito nas rádios. Pelo contrário, nomes como Alexandre Pires, Zezé Di Camargo & Luciano, Belo, Chiclete Com Banana, Luan Santana, Banda Calypso e outros acabam gerando péssima fama, o que compromete todo o compromisso de alto astral entre eles e o público, por causa da truculência verbal de seus defensores sobretudo na Internet.

Diz até um provérbio que, à maneira dos refrigeradores (geladeira, ar condicionado), que se esquentam por fora para se esfriarem por dentro, a pessoa que tem a cabeça quente demais é porque está com o pé mais frio. Conta-se que um fanático defensor do Chiclete Com Banana, que fazia bate-boca numa comunidade contra o grupo baiano no Orkut, faleceu há uns três anos num acidente de carro.

É bom essa turma toda tomar cuidado com esse radicalismo intolerante. Porque esse reacionarismo, sem dúvida alguma, tem muitas chances de se voltar contra os próprios ídolos defendidos, na medida em que suas imagens positivas são quebradas bruscamente pela fúria de uma parte da plateia.

O VERDADEIRO CARTÃO DE VISITAS DO RIO DE JANEIRO



Eduardo Paes não consegue perceber as verdadeiras prioridades para o Rio de Janeiro.

Achando que vai colocar a Cidade Maravilhosa no Primeiro Mundo fechando uma grande avenida para colocar uma praça-calçadão no lugar, Eduardo Paes pode dar vexame para as autoridades estrangeiras, na medida em que não resolverá, como prioridades, a despoluição da Baía da Guanabara e, o que é mais importante, a urbanização do Complexo do Alemão e todas suas áreas próximas, construindo conjuntos habitacionais populares no lugar das favelas.

Pois o Complexo do Alemão é o VERDADEIRO CARTÃO DE VISITAS DO RIO DE JANEIRO, na medida que é a primeira paisagem vista pelos estrangeiros quando eles desembarcam no Rio, pelo Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão). E sabemos que o avião é o principal transporte coletivo do mundo, o mais utilizado pelos estrangeiros que queiram atravessar sobretudo os limites continentais.

Afinal, não são os célebres Cristo Redentor e Pão de Açúcar, e nem a orla de Copacabana, que os cidadãos que desembarcam no Galeão primeiro veem no trajeto para o centro carioca, mas a gigantesca região de favelas e reduto da pior criminalidade que ficam às margens da Avenida Brasil e nos entornos das avenidas João Goulart (Linha Vermelha) e Carlos Lacerda (Linha Amarela). Locais que necessitam de urbanização urgente, porque há milhares de moradores necessitados de casas dignas e estrutura urbana decente.

Nem para ser esperto o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, é, porque, para seu plano de modernização tosca do Rio ser convincente, ele teria que pedir ao governador e colega de partido político, Sérgio Cabral, para transferir o aeroporto internacional para o Santos Dumont, para evitar que as autoridades gringas vejam de perto a vexaminosa paisagem do Alemão, resultante de antigos descasos das autoridades cariocas, fluminenses e federais, ou que passem pelo local durante eventuais tiroteios, como já ocorreu uma vez quando membros do Judiciário federal visitavam o Rio.

Transformar a Av. Rio Branco em um megalomaníaco calçadão, para fazer par ao vergonhoso deserto de mármore da Praça 15 - que só serviu para criar um espaço para mendigos no caminho entre a estação das Barcas e a Misericórdia - , só representará grande desperdício financeiro, além de outros prejuízos como agravar os engarrafamentos que já existem com a Av. Rio Branco, o que dá na adaptação do dito popular: "Se o trânsito carioca está ruim com a Av. Rio Branco, ele ficará pior sem a avenida".

Também não adianta Eduardo Paes querer manter o projeto do fechamento e prometer investimentos também na Baía e no Alemão porque sabemos que ele não os vê como prioritários, tais promessas são conversas para boi dormir, já percebemos que ele não quer criar um verdadeiro complexo urbano nos arredores de Bonsucesso, Penha e Ramos, como não se preocupa muito com a poluição ambiental nas águas, que tanto agride nosso ecossistema e provoca reações drásticas da Natureza.

Além do mais, dinheiro não é capim. Trezentos milhões de reais para fechar a Rio Branco são um desperdício, mesmo que Paes atraia mais investimentos para as verdadeiras prioridades. Porque não haverá dinheiro para tudo isso, o que poderá causar, para a Prefeitura do Rio de Janeiro, uma gigantesca dívida financeira que sangrará os cofres públicos até depois de 2016.

As festas de 2014 e 2016 serão muito animadas (pelo menos para seus beneficiários diretos, como autoridades, esportistas, patrocinadores e jornalistas), mas no fim elas custarão caro demais.

"IMPRENSA ALTERNATIVA NÃO DISPUTA HEGEMONIA"


COMENTÁRIO DESTE BLOG: Felizmente a mídia alternativa tem senso crítico e também busca autocrítica. Isso é bom.

"Imprensa alternativa não disputa hegemonia"

Do Blog do Miro

Reproduzo entrevista de Daniel Cassol, concedida à jornalista Candice Cresqui e publicada no sítio do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação:

A tendência da imprensa alternativa de fazer uma espécie de sociologia dos acontecimentos, optando por sempre explicar as estruturas e relações de poder por trás dos fatos, impede que os próprios fatos falem por si. Além disso, os veículos alternativos assumem a posição de marginalizados e permitem que somente os meios vinculados a grandes empresas narrem o cotidiano. Dessa forma, deixam de disputar hegemonia no terreno do moderno jornalismo.

Refletir sobre as características desses meios e como eles se relacionam com a tradição dos veículos contra-hegemônicos, especialmente em um contexto de “crise das esquerdas”, foi o objetivo da dissertação “Brasil de Fato: A imprensa popular alternativa em tempos de crise”, de autoria do jornalista Daniel Cassol.

Em entrevista concedida por e-mail, Cassol comenta a sua pesquisa e analisa as possibilidades de se fazer um jornalismo alternativo que fuja desse padrão. A dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo (RS) no início do mês de abril, e teve a orientação da pesquisadora Christa Berger, coordenadora do programa.

Daniel Cassol graduou-se em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2003. Trabalhou com assessoria de imprensa de movimentos sociais e colabora com veículos alternativos, entre eles o Brasil de Fato. Durante o primeiro semestre de 2009, atuou como correspondente do jornal em Assunção, Paraguai.

O que motivou a sua pesquisa e como foi feita a análise?

Quem alguma vez conversou sobre comunicação alternativa certamente já se deparou com a discussão sobre a incapacidade de os veículos alternativos alcançarem parcelas mais amplas da população. Normalmente, as respostas estão em fatores externos, como a falta de recursos. Minha intenção foi refletir sobre que tipo de jornalismo os alternativos, no caso o Brasil de Fato, vêm fazendo atualmente, como se relacionam com a tradição dos veículos contra-hegemônicos e como se situam num contexto de dificuldade para as idéias de transformação.

Além disso, eu considerava importante fazer uma reflexão atualizada sobre imprensa alternativa, uma vez que os estudos neste campo normalmente se voltam aos jornais do período da ditadura militar ou seguem mais os processos de comunicação e ativismo relacionados às novas tecnologias. Assim, optei por fazer uma interpretação do jornal, procurando compreender seu funcionamento, suas questões e sua relação com o contexto social.

Em que contexto social se deu a criação do jornal Brasil de Fato? Quais foram os objetivos da sua criação?

O Brasil de Fato nasce em 2003, num contexto de esperanças, mas também de certo ceticismo. Esperanças principalmente em torno da eleição do presidente Lula, visto como uma possibilidade de retomada das mobilizações sociais, como de fato aconteceu no início. Prova disso foi o ato de lançamento do jornal durante o Fórum Social Mundial de 2003, que reuniu lideranças e personalidades, além de uma multidão que não coube no auditório Araújo Vianna em Porto Alegre. Porém, o jornal é criado exatamente para contribuir no processo de reorganização dos movimentos sociais, a partir da leitura de que a esquerda brasileira vive um período histórico de crise.

Você menciona uma crise das esquerdas. Como ela se configura?

O próprio jornal é criado em torno desta idéia: a esquerda brasileira vive uma crise de valores, práticas, organização, pensamento e estratégia política. Trata-se de um processo amplo, cuja origem é antiga, e que se caracteriza pelo ataque às organizações dos trabalhadores, o esvaziamento de sindicatos, a burocratização e o pragmatismo de partidos de esquerda, além de um abandono de antigas práticas. Por isso, o Brasil de Fato se apresenta como um instrumento para superação da crise, a partir da retomada da formação política, do trabalho de base e das lutas sociais.

O jornal debate a crise da esquerda e acaba desenhando uma espécie de mapa das lutas e dos atores sociais que considera mais urgentes e importantes, promovendo uma agenda mínima para os movimentos sociais. Porém, mais que fragilidade das forças sociais, o que vivemos é uma crise das alternativas. Boaventura de Souza Santos tem uma idéia interessante: a hegemonia não se dá mais pela imposição dos interesses da classe dominante como se fosse algo bom para toda a população, mas porque não existe alternativa. As coisas são do jeito que são porque não há alternativas, eis uma noção muito presente nos discursos dos administradores políticos, por exemplo. Um contexto em que o pensamento alternativo é tratado como inviável acaba impondo muitas dificuldades para a imprensa de resistência ao pensamento dominante.

Como o jornal sobrevive, há sete anos, nestes tempos de crise?

Minha pesquisa toca pouco nas questões administrativas e políticas do jornal, pois minha opção foi sempre compreender que tipo de jornalismo é feito pelo Brasil de Fato. Mas é possível dizer que a existência de uma unidade mínima em torno do jornal, liderada pela Consulta Popular (saiba mais) e pelo Movimento Sem Terra (MST), garante a permanência do Brasil de Fato ao longo dos anos.

Além disso, há que se destacar o trabalho profissional dos jornalistas da redação, que superam o amadorismo tradicional dos alternativos e mantêm a periodicidade e a qualidade necessárias. É claro que, nestes sete anos, o jornal enfrentou suas próprias crises internas, em razão da eterna falta de recursos, mas de fato é impressionante como o jornal se mantém vivo após sete anos, se constituindo numa das experiências mais longevas de jornal alternativo no Brasil.

Por que você classifica o jornal de “popular alternativo”?

Basicamente, porque esta denominação dá conta das especificidades de um jornal como o Brasil de Fato e afasta incompreensões. O termo “imprensa alternativa” tem problemas: é datado historicamente, porque se refere mais aos jornais de resistência à ditadura militar. Além disso, sob “alternativa” se inscrevem diferentes tipos de comunicação. Da mesma forma, somente “jornal popular” pode confundir com os jornais chamados “sensacionalistas”. A professora Cecília Peruzzo sustenta que a comunicação popular alternativa é aquela que está inserida no contexto dos movimentos sociais.

Além de atender essa característica, o Brasil de Fato traz em sua linha editorial a defesa das classes populares e de um projeto de país. Ao mesmo tempo, tem certa vocação para se tornar uma imprensa de interesse geral, uma vez que aborda temas diversos e tem a pretensão de disputar espaço com os jornais de referência. No entanto, não vejo problemas em se utilizar a expressão “jornal alternativo”, já consagrada. Para efeitos da pesquisa, foi uma forma de precisar a natureza do jornal.

O Brasil de Fato vive, segundo o seu estudo, a tensão entre sua vocação massiva e o recuo para uma postura de resistência. Diante disso, qual é o público do jornal?

Creio que esta é uma das dificuldades enfrentadas pela imprensa popular alternativa como um todo. Estes jornais convivem com o desejo de falar ao leitor comum, para convencê-lo; com a pretensão de desafiar os adversários políticos, para reafirmar as posições; e com a necessidade de conversar entre companheiros, a fim de afinar discursos. Disto decorre, a meu ver, uma indefinição no contrato de leitura estabelecido entre o jornal e seu público, na medida em que este é difuso. O Brasil de Fato, também por sofrer a crise, foi reduzindo sua intenção de se tornar massivo e diário para voltar-se a uma postura mais de resistência.

O jornal terminou por reproduzir o jornalismo alternativo clássico? Quais são as suas diferenças em relação ao dito jornalismo?

O que existe é uma tradição de se fazer jornalismo desde uma perspectiva contra-hegemônica, que vem desde o início do século XX, a partir de leituras mecânicas de alguns textos esporádicos escritos sobre jornalismo, por Lênin, Trotsky, Gramsci e pelo próprio Marx. O Brasil de Fato, como herdeiro legítimo, não poderia deixar de apresentar algumas marcas desta tradição. Em resumo, historicamente a esquerda promoveu certa instrumentalização do jornalismo em nome de sua visão política, ignorando até mesmo a potencialidade desta forma de conhecimento sobre a atualidade.

O jornal é tomado, muitas vezes, como um instrumento para a orientação política das massas e, desse modo, só publica aqueles temas considerados necessários à denúncia dos inimigos de classe e à politização dos trabalhadores. Algo que está presente no Brasil de Fato e em outros veículos alternativos atuais é uma tendência a fazer quase uma sociologia dos acontecimentos, optando por sempre explicar as estruturas e relações de poder por trás dos fatos, impedindo que os próprios fatos falem por si e tirando a autonomia dos leitores.

O jornal apresenta uma visão estática do povo, reduzindo-o ao conflito de classes?

Creio que este é um problema crônico da imprensa de esquerda, que tem a ver com esta tradição de que falei antes e aparece, em parte, no Brasil de Fato. Foi o pesquisador chileno Guillermo Sunkell que, ao analisar os jornais populares do Chile no período do presidente Salvador Allende, apontou que os discursos daqueles jornais interpelavam apenas espaços, atores e conflitos considerados politizados ou politizáveis pelos partidos de esquerda. Assim, o operário fabril era visto como o agente da transformação social, enquanto outras parcelas da população eram esquecidas pelos jornais populares.

Disso resultava essa visão estática da idéia de povo, ou seja, povo era o operário em um conflito econômico com seus patrões. Para Sunkell, estes jornais acabavam marginalizando outras parcelas da população e, também, deixando de lado a realidade subjetiva do povo e outros aspectos da realidade popular, como a religiosidade, a vida em família, o lazer. O resultado era a incapacidade de expansão destes jornais.

No caso do Brasil de Fato, por ser de uma época diferente, os espaços, atores e conflitos contemplados por seus discursos são outros. O operário fabril dá lugar, principalmente, a populações que luta em defesa dos seus territórios e de recursos naturais, em conflitos que poderíamos dizer mais estratégicos. Nota-se também que o jornal dá voz prioritariamente ao povo organizado em sindicatos, movimentos e associações. Povo, para o Brasil de Fato, é povo em luta. Os inimigos é que não são apenas os patrões ou latifundiários, mas principalmente as grandes transnacionais.

Quais os caminhos dos jornalistas para mudar isso?

Talvez um caminho seja fazer mais jornalismo. Apesar de todas as críticas que podemos fazer à atividade, o jornalismo tem fundamental importância na medida em que nos provê de informações sobre os diferentes aspectos da atualidade. É através do jornalismo que organizamos uma determinada visão de mundo, com informações desde as condições das ruas e das paradas de ônibus de nossa cidade até as grandes questões estratégicas de política internacional, por exemplo.

Mas a imprensa alternativa, historicamente, se dedica somente àquelas pautas que interessam à conjuntura imediata ou estratégica das organizações sociais. Assim, como dizia Adelmo Genro Filho, deixa de disputar hegemonia no terreno do moderno jornalismo, ou seja, assume esta posição de estar à margem e permite que somente os veículos vinculados a grandes empresas narrem o cotidiano.

Você conhece alguma outra experiência de jornalismo alternativo que fuja desse padrão?

O próprio Brasil de Fato representa um esforço do jornalismo popular alternativo se reinventar. Considero uma experiência exitosa, não só por sua longevidade, mas porque tenta encontrar uma nova linguagem necessária para estes tempos de crise, principalmente em sua página na internet. Logicamente, vive problemas das mais diferentes naturezas e passa por dificuldades para se expandir hegemonicamente.

Mas, dentro dessa idéia de um jornalismo capaz de abordar os diferentes aspectos da atualidade e da vida em sociedade, acho importante analisarmos experiências como o do jornal La Jornada, do México, a RadioCom, de Pelotas, a Rádio Viva, de Assunção, no Paraguai, e a Radioagência NP, parceria do Brasil de Fato de São Paulo. No seu conjunto, não são veículos de esquerda, mas tem um “lado”. E não se furtam de falar de assuntos do cotidiano, do buraco na rua, dos cuidados com a saúde, dos resultados do futebol, temas que historicamente foram ignorados por não serem politizáveis. São alguns exemplos de possibilidades que me ocorrem agora.

O que a esquerda poderia fazer para ter um jornalismo diferente?

Aqui volto ao Adelmo Genro Filho, que no livro “O Segredo da Pirâmide”, cujas idéias são incompreendidas na mesma medida em que não são lidas, propôs uma “teoria marxista do jornalismo”, que vem sendo atualizada por alguns autores. Em resumo, correndo o risco de reduzir a complexidade, Adelmo Genro Filho sustentava que o jornalismo é uma forma de conhecimento capaz de revelar o que a realidade tem de singular. E o singular tem sua potência na capacidade de revelar os aspectos particulares de determinado acontecimento e nos levar à compreensão do universal. Ou seja, o autor apostava na potencialidade do jornalismo e refutava sua instrumentalização.

Talvez este seja um dos caminhos a serem considerados por quem faz jornalismo alternativo. Há que se considerar a possibilidade de realização de um jornalismo informativo contra-hegemônico, que reconheça a presença da ideologia não como uma limitação da atividade, uma vez que a apreensão da realidade objetiva só se dá na relação dos sujeitos com a realidade – sendo esta, inclusive, riqueza deste processo –, mas que não se reduza à mera propaganda desses pressupostos políticos.

Gosto de uma idéia do Adelmo Genro Filho, que encerra essa aposta nas potencialidades do jornalismo: ele diz que o jornalismo, por mais que tenha sido gestado ao longo do desenvolvimento da sociedade capitalista, supera a mera funcionalidade ao sistema, porém “não é reconhecido em sua relativa autonomia e indiscutível grandeza”.

APERTEM OS CINTOS: ÁLBUM CONCEITUAL DA LEGIÃO URBANA SUMIU!!



Sumiu das lojas de discos o conceituado álbum As Quatro Estações, que a Legião Urbana lançou em 1989. É, ao mesmo tempo, um álbum divisor de águas, quando a Legião trocava a raiva punk pelas melodias introspectivas, e o mais popular da Legião Urbana, por causa de músicas como "Há Tempos" e "Pais e Filhos", que ultrapassaram os limites do Rock Brasil e garantiram ao grupo brasiliense o reconhecimento dentro da Música Popular Brasileira. É também o primeiro disco da Legião Urbana depois da tumultuada apresentação em Brasília, em 1988.

Não há como encontrar o disco nas lojas especializadas, e mesmo na Internet, salvo exceções, o disco também está fora de catálogo. Para piorar a tragicomédia de erros, há alguns transtornos de deixar os fãs de cabelo em pé:

1) A página da EMI brasileira na Internet está fora do ar, em reconstrução;

2) A ausência do disco nas lojas cariocas é um agravante, tendo sido o vocalista, Renato Russo, natural da cidade do Rio de Janeiro;

3) A gravadora prefere manter em catálogo uma inexpressiva coletânea, Mais do Mesmo, só de material previamente lançado em outros LPs.

Imagine se, nas lojas de discos da Inglaterra, faltasse o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles? Imagine se esse disco não se torna disponível sequer nas lojas de Liverpool?

É muito constrangedor ver que a indústria fonográfica brasileira, tomada de completa miopia, se recusa a manter um disco popular e conceitual em catálogo. É demais num país culturalmente escravizado pela música brega e seus derivados, chegar ao ponto de ver um grande álbum de uma respeitável banda fora de catálogo. Nem sua bela capa, nem as melodias sofisticadas associadas a uma poesia melancólica e existencialista (que, a princípio, causaram estranheza, mas depois mostraram sua beleza ímpar), nada fez com que os "ezecutivos" mantivessem o disco nas lojas.

Há a possibilidade de download na Internet, mas para um disco assim seria melhor comprar a cópia original. Não bastasse um mercado caríssimo, mesquinho, mercantilista, como é a indústria fonográfica brasileira, ocupado no eterno lançamento de CDs e DVDs ao vivo, todo santo ano, dos mesmos medalhões do sambrega, breganejo e axé-music, tornam-se escassas as opções de encontrar discos de qualidade disponíveis.

É bom a EMI recolocar o disco da Legião Urbana nas lojas. Os cantores e grupos de sambrega, as duplas de breganejo, os MC's funqueiros e as "divas" da axé-music passam, apesar de sua persistência obsessiva, mas a boa música, mesmo a de intérpretes já falecidos (Renato Russo nos deixou há quase 15 anos), permanece sempre, a encantar até mesmo as gerações que não conheceram os saudosos artistas em vida.