domingo, 30 de maio de 2010

ETNOCENTRISMO NÃO É SÓ ODIAR O "OUTRO"



A grande mídia difunde a ideia de que o etnocentrismo se expressa necessariamente na pura e simples rejeição ou problematização do "outro".

A título de exemplo, é como se eu fosse etnocêntrico tão somente por dizer "eu não gosto do outro", "eu odeio o outro". Se eu "gostar do outro", deixarei de ser etnocêntrico, segundo a mídia grande e seus ideólogos, muitos deles aparentemente "insuspeitos".

Distorcer os conceitos de ciências sociais é um artifício tão sutil que, mesmo produzido pela grande mídia, por ordem de seus barões para evitar o esclarecimento da sociedade, ele penetra na mídia de esquerda, tão precavida em assumir posições nos assuntos de política internacional, mas tão desprevenida em adotar uma postura crítica para o próprio cenário cultural brasileiro.

É como no caso das moças da periferia que, pelo capricho da manipulação ideológica da grande mídia, são induzidas a assumir uma postura de vulgaridade e grosseria que, na medida em que espanta os homens mais diferenciados - que em cidades como Salvador chegam mesmo a ser vítimas de assédios sexuais dessas moças - e as faz arrogantes e turronas para os homens de suas comunidades, as coloca numa situação de solidão e niilismo amoroso que a própria mídia, no seu discurso "etnográfico", chama equivocadamente de "feminismo".

Sim, a ideia de feminismo, para a grande mídia, não é mais da mulher que luta pela quaidade de vida, que busca verdadeiras conquistas sociais, mas tão pura e simplesmente da moça embrutecida que fala mal do ex-namorado e sai à noite com as amigas, todas desprovidas de companhia masculina (quando muito, um irmãozinho mais novo ou um afilhado de uma das moças). Essas moças foram induzidas a exercer um tipo grotesco pela mídia machista, elas são vítimas do machismo, mas a mídia, pondo a sujeira debaixo do tapete, prefere creditar essas moças como "feministas" apenas porque esculhambam os homens de suas comunidades.

DEFESA DO BREGA-POPULARESCO IDEALIZA O POVO

O etnocentrismo é o processo de alguém entender o outro não como ele é, mas como o observador gostaria que fosse. Pode ser por aversão, mas pode ser também pela admiração, porque gostar do outro também pode dar na sua idealização.

É o que ocorre com a defesa da música brega-popularesca, cujo teor de idealização do povo pobre é evidentemente forte, mas até agora não houve algum questionamento ou mesmo alguma constatação oficial a respeito disso.

Afinal, classificar a periferia como um "paraíso" a ser descoberto, assim como creditar o povo pobre como se fosse uma multidão "feliz", transformando o grotesco, numa estruturação discursiva, no sentido invertido de uma "selvageria florida", numa "desordem ordeira", numa "vulgaridade inocente", onde os glúteos balançam como se quisessem imitar os movimentos das asas das borboletas.

Pura idealização. Vejam o que Hermano Vianna escreve, o que Pedro Alexandre Sanches escreve. Na alegre retórica deles, não há tiroteios nos morros, não há o deslizamento do Morro do Bumba, não há o povo pobre racionando os gastos porque é obrigado a equilibrar o salário de fome com o sofrido pagamento de contas do mês e com o investimento parcial de subnutridas cestas básicas. Não há coronéis da mídia regional controlando rádios e determinando o gosto cultural do povo tratado feito gado.

Nada disso. Na alegre retórica de Vianna e Sanches, e de outros como Milton Moura, Rodrigo Faour e similares, o "outro" não tem problemas. O outro vive em festa. O outro não é manipulado, é um bebê que fala desde o berço. O outro não sofre, a favela é um misto arquitetônico de pop art com cubismo, não existe erosão, nem enchentes, nem violência, nem drogas, nem tristeza. Só existe o "créu", o "rebolation", o "tchan", o "tecnobrega", e outras fantasias.

Quanto erro em ver a pobreza assim, quando os problemas são gritantes, quando as pessoas, na vida real, sofrem a sua tragédia. A revolta popular que faz muitos moradores bloquearem estradas com pneus em chamas, os prantos das mães que perdem seus filhos devido à violência, as casas ameaçando cair, as enchentes destruindo todos os bens nos lares das famílias, os incêndios causados por curtos-circuitos sobretudo nas favelas de São Paulo, os bandidos morando ao lado das casas dos trabalhadores. Isso não aparece no discurso doce do brega-popularesco.

O etnocentrismo que corteja a música brega-popularesca se expressa com uma intelectualidade que, ao que parece, cansou de ouvir MPB. Só ela ouvia a MPB autêntica, mas parece ter se cansado dela, só que não quer que ela esteja acessível ao povo pobre.

A cultura pobre tem que ser qualquer nota, grotesca, medíocre, piegas, "docemente" malfeita. A cultura pobre tem que se limitar ao grotesco dócil e sorridente. Mas essa visão "generosa" do povo pobre é puramente etnocêntrica. Fantasia demais o outro. Mas em nada contribui para melhorar a vida do outro, não lhe traz dignidade.

Os intelectuais do brega-popularesco "gostam" do outro, e nem por isso se tornam menos etnocêntricos. Eles continuam apreciando o outro, no caso o povo pobre, de forma idealizada e fantasiosa, mas desprezam os verdadeiros problemas que atingem o povo que eles contemplam.

A defesa do brega-popularesco com base no mito da "verdadeira cultura popular" é um discurso ilusório que apenas cria um faz-de-conta, que tenta nos convencer de que o povo pobre, com uma realidade dura e com muitos problemas, é uma mera "multidão feliz".