sexta-feira, 14 de maio de 2010

O MACHISMO E O MEDO



Nos últimos anos, o machismo vive num clima de medo. Muito medo.

Não se fala do "destemido" machismo criminoso e vingativo que, a curto prazo, transforma as mulheres em cadáveres e, a médio e longo prazo (mas, não obstante, a curto prazo também) os próprios machistas em pessoas de altíssima vulnerabilidade para doenças graves ou para a insegurança nas ruas. Fala-se do machismo "dócil" e "simpático", que consegue convencer as pessoas de seus valores "tradicionais" tão fora do nosso tempo, mas praticados silenciosamente por muita gente.

É o machismo que determina que os homens sejam valorizados na sua capacidade de comando, através do poder financeiro, que lhes permite ter o privilégio decisório em muitas situações. É o machismo que determina que as mulheres optem pela reginada inferioridade na escravidão doméstica-religiosa, ou para servirem ao recreio sexual dos machos, vendendo seus corpos para a indústria do entretenimento.

Pois não é que, no Brasil, os dois entes-padrão da sociedade machista, o macho-líder e a mulher-escrava, antes modelo de casal indissociável nas sociedades conservadoras, passaram a se evitarem um ao outro, como se sentissem uma repugnância mútua.

O macho-líder, sem evoluir-se na sua personalidade sisuda, passou a se cercar de mulheres que são o oposto do que exigia a cartilha machista. Mulheres de personalidade forte, comunicativas, inteligentes, com ótimos referenciais culturais, passaram a se tornar esposas desses homens. É como se eles, vendo seu barco prestes a afundar, têm que embarcar noutro que antes não era de sua estima para não ficarem à deriva.

Por outro lado, as musas-crias do machismo, as escravas-do-lar que se converteram em "marias-coitadas", e as escravas-do-sexo que se converteram nas "popozudas" em geral, passaram a viver numa solidão ao mesmo tempo irremediável e suspeita. E, assim como o macho-líder, hoje convertido em profissionais liberais e empresários sisudos, procurou mulheres de perfil interessante para se casarem, as "marias-coitadas" e "popozudas" procuram homens que, embora esteticamente sejam inferiores ao padrão, sejam dotados de uma personalidade diferenciada. Só que, do contrário dos machos-líderes, que conseguiram o que queriam, as modernas musas-crias do machismo não conseguiram os homens que desejavam.

É claro que esse desejo por cônjuges diferenciados não é fruto de um novo sentimento humanitário ou conscientizado dos dois entes da ideologia machista. Antes é uma forma de sobrevivência sócio-cultural e sócio-econômica ante aos avanços da sociedade.

As pressões do empreendedorismo e de outros novos conceitos na teoria da Administração fazem com que o macho-líder convertido num "terno-e-gravata falante", espécie de versão contemporânea dos antigos condes e viscondes do Segundo Império, os fazem buscar uma fachada conjugal-familiar moderna.

Daí que o macho-líder, talvez pesquisando as revistas femininas e conhecendo o que pensa a mulher contemporânea, a veja como um modelo de esposa que ele, por sua espontânea vontade, não tem a menor necessidade em desposar, mas é induzido a desposar de qualquer maneira porque é essa mulher que será o trampolim para o marido no mundo dos negócios. Pois um executivo, empresário, médico, advogado ou engenheiro que tenha uma importante mulher ao seu lado tem mais chances de estabelecer contatos mais influentes para sua ascensão sócio-econômica.

Por outro lado, as musas-crias do machismo parece que pararam no tempo, em que pese elas também quererem se passar por "modernas". As "marias-coitadas" pararam na infância, brincando com seus afilhados, tentando reproduzir no contexto da solteirice a vida das jovens esposas nobres do patriarcalismo rural. Só que, em vez de filhos, afilhados e sobrinhos. E, em vez de poesia, as novelas da TV, breguice romântica (Fábio Jr., Alexandre Pires, Zezé Di Camargo & Luciano), o Big Brother Brasil, as revistas de fofocas.

As "popozudas", por sua vez, pararam na adolescência. Esnobes, arrogantes, traiçoeiras, exibidas, viciadas em noitadas, numa sensualidade barata e forçada, seja pelo físico quase roliço de glúteos enormes, seja pelas roupas em cores aberrantes e cheias de adereços. Elas até criaram um subproduto mais light, as "marias-bobeiras", que fisicamente não são tão exageradas e no comportamento são menos exibidas, mas não deixam de ser astutas nem arrogantes ou esnobes.

Em comum, as "marias-coitadas" e as "popozudas" (e as "marias-bobeiras" entre umas e outras) tentam recusar pretendentes que são justamente o que elas querem ou foram educadas a querer: homens robustos que, dentro de seus ambientes sociais, representam grande status social e símbolos de uma masculinidade influente.

A razão mais provável desta recusa é a pretensão dessas mulheres em parecer independentes, da mesma forma que a aparente afeição por homens com menos status social é uma forma de dar a impressão de que elas não são exigentes nem interesseiras, desejando homens que pareçam menos capazes de sustentá-las ou dominá-las. E a desculpa mais comum para essa "nova posição" é a tão surrada alegação da "falta de preconceitos".

Também tem a questão delas em evitar com que, se casando com homens de grande status estético ou econômico, elas fossem acusadas de "golpe do baú" ou de se sujeitarem ao protecionismo do macho mais robusto. O que comprometeria a busca pela suposta imagem de "independentes" que essas mulheres buscam, reputação tão falsa porque, não raro, há o sustento de mães, irmãos mais velhos nas vidas dessas moças.

MEDO - Tanto nos dois casos, do macho que exerce posições de liderança e da fêmea que exerce posição de escravidão doméstica ou sexual, há o medo de parecerem deslocados, antiquados e repulsivos.

A ideologia machista, que durante décadas dominou por um lado subúrbios e zonas rurais e, por outro, influiu nas aristocracias mais tradicionais, de repente caiu em descrédito e seus antigos adeptos tentam uma aparente mudança de posição que não é uma opção pessoal, mas uma escolha tendenciosa, visando a sobrevivência pessoal e mesmo a ascensão social em novos contextos.

Mas isso mostra também que há todo um desejo de fuga. O machismo tradicional não mais deslumbra as pessoas e causa grande rejeição na opinião pública. Por isso, os homens machistas correm atrás de parceiras que disfarcem o machismo de seus maridos, cuja sisudez já causa constrangimento até nos colunistas sociais.

E as mulheres machistas correm atrás de parceiros que não pareçam tão fortes nem ricos, mas inteligentes, para dar a impressão de que essas mulheres não precisam ser sustentadas nem protegidas. Qualquer probleminha, elas recorrem às suas mães ou aos irmãos mais velhos.

Só que esse teatro pós-machista ainda vai mostrar seu desfecho e reunir novamente os homens-líderes e as mulheres-escravas que mal conseguem disfarçar seu caráter retrógrado em perspectivas pretensamente modernas.

JORNALISTA DE VERDADE EXERCE SENSO CRÍTICO


Fanática defensora de ídolo de sambrega deve pensar que ser jornalista é ser fantoche de assessoria de imprensa.

Chega a ser risível o comentário que Francielle Siqueira, a integrante da milícia Talifan a serviço de Alexandre Pires, disse na mensagem neurótica que mandou para este blog: "(...) ME ADIMIRA UMA PESSOA QUE LÊ QUE TEM UMA CERTA CULTURA JA QUE É JORNALISTA NÃO DAR VALOR A UM CANTOR COMO ALEXANDRE QUE É SUCESSO INTERNACIONAL".

Quer dizer, em outras palavras, para a esquentadinha moça, ser jornalista é quase que ser fantoche de assessoria de imprensa, de relações-públicas, mas não alguém que busca questionar o mundo das aparências, em nome do verdadeiro direito à informação?

Dá para perceber a burrice da srta. Siqueira, que deve entender como "jornalismo" apenas o Jornal Nacional e a revista Contigo, que devem ser os únicos órgãos de imprensa que a moça conhece e têm disposição de apreciar.

Em primeiro lugar, jornalista de verdade lida com senso crítico. Talvez Francielle, no seu delírio, tenha se esquecido de que Alexandre Pires tenha cantado ao lado do impopular George W. Bush num evento de imigrantes latinos. Talvez ela pense que Alexandre Pires tenha cantado no comício da vitória de Barack Obama, ou algo mais 'progressista'.

Como jornalista, tenho nível de cultura, sim. E, antes de encarar os sucessos de Alexandre Pires, conheci cantores infinitamente muito superiores a este ídolo do "pagode mauricinho". Wilson Simonal, Agostinho dos Santos, Noite Ilustrada, Ataulfo Alves, Cartola, só para citar cantores negros que gravaram sambas, independente de terem sido sambistas ou não.

Minhas pesquisas envolvem passeios pelas ruas, muita observação. Ou será que Francielle pensa que pesquisar é só fazer contas matemáticas? Certamente ela esperava que eu valorizasse um cantor ou grupo musical não pela qualidade ou não de sua música, mas pelo barulho dos aplausos que tal ídolo musical recebe no Domingão do Faustão.

Além do mais, cega pela idolatria desesperada, Francielle desconhece que o sucesso de Alexandre Pires nos EUA nem foi tanto assim, como os sucessos internacionais da lambada e do "funk carioca" não passaram de pequenas marolinhas. Observando bem, Pires estava em desvantagem enorme num mercado competitivo duplo, seja de cantores de charm como Bobby Brown, Chris Brown, Usher e R. Kelly, seja de cantores latinos como Alejandro Sanz, Enrique Iglesias, Ricky Martin e Marc Anthony.

Ser jornalista não significa necessariamente coisas agradáveis, senão o "verdadeiro" jornalista teria que dizer, por exemplo, que José Roberto Arruda, ex-governador do Distrito Federal, era um grande estadista, porque foi eleito pelo voto direto etc, e que seu escândalo de corrupção era apenas fruto de preconceituosos e invejosos.

Ou então, tínhamos que dizer que a procuradora Vera Lúcia Gomes, por sua posição "ilibada", é vítima de intriga e que não teríamos que condená-la por coisa alguma, mas teríamos que reconhecer nos hematomas que sua filha adotiva levou da procuradora uma mera maquiagem para uma festinha na escola.

Tenha paciência, Francielle!! Se não gosta do que aqui se escreve sobre Alexandre Pires, fiqeu na sua!! Aqui não é sucursal da Contigo nem do Domingão do Faustão. Este é um blog sério e não estou aqui para agradar todo mundo, não!! Se acredita em unanimidade, azar o seu, porque disse o famoso dramaturgo e cronista esportivo Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra.

Só duas questões acerca de Francielle Siqueira:

1. Seu sobrenome e cidade de origem coincidem com o da presidente de um fã-clube de Alexandre Pires em São Paulo;

2. Por que suas mensagens nos blogs favoráveis ao ídolo de sambrega são tão curtas e lacônicas, enquanto dispara textos longos (e mal escritos) para quem fala mal do cantor?

QUE COISA FEIA, JAIME LERNER!!



Que coisa feia um tecnocrata do transporte coletivo, depois de tantos anos servindo às siglas ARENA e DEM, agora se esconder sob uma sigla socialista, o PSB, depois que, em outros tempos, se escondeu numa sigla nacionalista, o PDT?

Não chega a ser um procedimento tão vergonhoso quanto a do picareta baiano Mário Kertèsz, um udenista-arenista-carlista de carteirinha, que seduziu, ludibriou e apunhalou a esquerda da Bahia, destruiu o Jornal da Bahia e, se apropriando das vozes oposicionistas dos anti-carlistas e dos críticos da mídia baiana em geral, tentou a todo custo calá-los como vozes autônomas, enquanto bancava o dono e manipulador dessas vozes que, falando, ecoam em um grande silêncio.

Mas Jaime Lerner agiu em incoerência, como se quisesse dar a falsa impressão de que seu projeto tecnocrático para o trânsito e os transportes coletivos, dotados de vários pontos impopulares, não estivessem associados à ideologia neoliberal.

Claro que estão. Diminuir os ônibus sob um suposto cálculo urbanístico, sem explicar o que se fará com o fluxo excessivo e supérfluo de automóveis, padronizar as pinturas dos ônibus transformando-os em ônibus fardados, sem personalidade e camuflando as empresas deficitárias (que terão as mesmas cores das empresas decentes), ou mudar drasticamente o fluxo de avenidas sem verificar o real impacto do trânsito, são de interesse neoliberal, sim.

Na boa, sugerimos para que o sr. Lerner, caso queira estar em coerência com sua trajetória política, que se filie ao PSDB, um partido cujo projeto político tem muito mais a ver com suas ideias tecnocráticas.

JOSÉ SERRA QUER MANTER PROJETO DE TRANSPOSIÇÃO DO "VELHO CHICO"



O pré-candidato à presidência da República pelo PSDB, José Serra, disse ontem numa entrevista em Recife que, se eleito, vai manter os projetos atuais do Governo Federal, como a transposição do Rio São Francisco.

A transposição do Rio São Francisco está para o plano federal assim como o fechamento da Av. Rio Branco está para o âmbito do município do Rio de Janeiro. Dois projetos desastrosos, horrorosos, mas supostamente defendidos pela "sociedade organizada". Com o agravante de que a transposição do "Velho Chico", como o rio é conhecido, é uma afronta aos desígnios da Natureza. É o Governo Federal querendo brincar de Deus.

A transposição irá comprometer o curso natural do Rio São Francisco, que corta alguns Estados das regiões Sudeste e Nordeste. Um trecho do rio será "destruído" para que outro trecho supostamente atinja as áreas do semi-árido nordestino, mas o que parece beneficiar as populações nordestinas miseráveis, poderá se transformar numa tragédia ambiental futura.

Em primeiro lugar, não é necessário desviar a rota do "Velho Chico". O que se precisa é aproveitar os lençóis de água e outros recursos naturais que possam acabar com a seca no semi-árido nordestino.

Existe tecnologia para isso, e ela não é nova. O trecho do deserto do Saara, no Egito, próximo aos rios Nilo, Tigre e Eufrates, décadas e décadas antes de Jesus Cristo, foi irrigado com êxito, permitindo até mesmo o desenvolvimento da agricultura. E olha que se tratava não de uma região do semi-árido, mas de uma área desértica, e numa época em que a civilização de nosso planeta ainda era recente, sem as conquistas sociais, tecnológicas e culturais que temos hoje.

Desafiar a Natureza para desviar o curso de um rio, com claras intenções populistas que iludem muita gente, só vai gerar mais problemas. Beneficiará uns - e, creio, não será de forma grandiosa e efetiva como muitos pensam - e prejudicará outros. E uma solução mirabolante dessas, para muitas autoridades, é muito mais cômodo do que realizar estudos concretos e verdadeiros, realmente comprometidos com as causas sociais, e que não dependam de transformações danosas para a Natureza.

Mas, num país comandado por tecnocratas com seus projetos mirabolantes e falsamente futuristas, dane-se a Natureza, dane-se o povo, danem-se os cidadãos. Como se nada tivessem servido as advertências críticas dos escritores de ficção científica, diante dos delírios das autoridades quanto à sociedade "futurista".

ENGOLE ESSA, EUGÊNIO RAGGI!!



O professor mineiro Eugênio Raggi, tão preocupado em massacrar a cantora Roberta Sá por ela supostamente ter sido criada pelo reality show Fama, da Rede Globo, mal sabe que um dos cantores da banda preferida do professor, o grupo de "pagode mauricinho" Exaltasamba, de nome Thiaguinho, foi lançado ao estrelato pelo programa.

Roberta Sá é uma espécie de Grazi Mazzafera da música, que paga pelos pecados de outros que são realmente lançados pelos "riélites", quando na verdade já tinha uma carreira própria, independente deste tipo de programa.

Já no caso de Thiaguinho, até mesmo os talifãs mais neuróticos sabem que, em que pese um e outro trabalho como cantor antes de Fama, Thiaguinho só começou sua carreira como cantor depois da projeção pelo programa.

Ah, e quanto à Rede Globo, será que o professor Eugênio Arantes Raggi vai voltar atrás de sua ingratidão com a emissora dos irmãos Marinho, tão zelosa pelo sucesso dos ídolos que ele tanto defende?

NÃO SE FAZ MÍDIA DE ESQUERDA COM BREGA-POPULARESCO



Grande erro da mídia de esquerda. Contrata certos jornalistas ou ativistas que pensam que o brega-popularesco é uma rebelião popular e montam uma retórica convincente que seduz a todos.

É aquela coisa. O cara vai para uma danceteria de subúrbio ou circula entre camelôs e acha que qualquer coisa que rola lá é "a verdadeira cultura popular". Aí cria um discurso delirante que envolve tudo: Antônio Conselheiro, Oswald de Andrade, Malcolm McLaren, Hélio Oiticica, Luís Carlos Prestes e o escambau.

É essa retórica que fez o "funk carioca" (FAVELA BASS) a maior fraude musical realizada nos últimos anos no Brasil. Só que o rico discurso, que tentava fazer uma comparação surreal do "funk" com os mais diversos fatos históricos e culturais do Brasil, foi desmoronado pela simples execução dos CDs e pela simples observação de suas apresentações ao vivo, em ambos os casos de uma ruindade de doer, de um grotesco que constrange até mesmo as mentes mais liberais (não nos esqueçamos que até a moderna Elke Maravilha se sentiu constrangida com o "funk carioca").

A mídia de esquerda faz bonito quando os questionamentos envolvem fatos politicos. Até mesmo em relação ao Oriente Médio a mídia esquerdista adota uma posição, no caso em favor dos palestinos, enquanto atribui Israel a uma nação manipulada pelos interesses imperialistas dos EUA.

Mas, no ramo da cultura, o fato estarrecedor é que neste caso o discurso que vimos na revista Fórum e na Caros Amigos se afina, completamente e com todas as palavras, com o que o Segundo Caderno de O Globo e a Ilustrada da Folha de São Paulo já escrevem sobre o brega-popularesco. Isso é assustador.

Semanas depois do tecnobrega virar capa da esquerdista revista Fórum, a moça da capa, Gabi Amarantos, a "Beyoncé do Pará", apareceu no Domingão do Faustão, da Rede Globo. Antes de toda a retórica "etnográfica" aparecer na Caros Amigos, Brasil de Fato e outros veículos esquerdistas, o "funk carioca" aparecia nas primeiras páginas de SC e Ilustrada com exatamente a mesma retórica, as mesmas alegações, a mesma choradeira de "vítima de preconceito".

De que adianta Pedro Alexandre Sanches, que, para quem não sabe, veio da Folha de São Paulo, fazer na imprensa esquerdista o MESMO DISCURSO que Hermano Vianna, por intermédio de Regina Casé, veiculou na Rede Globo de Televisão?

O brega-popularesco está historicamente ligado às classes dominantes. Daí o nome de Música de Cabresto Brasileira. Ninguém escolhe a música a fazer sucesso, vai um latifundiário e seu "laranja" - geralmente um empresário de entretenimento - montar um grupo de forró-brega e fortunas inteiras são investidas para esse grupelho (que normalmente faz um som subordinado ao pop dançante estrangeiro) fazer sucesso, seja em Belém, Goiânia, São Paulo ou Porto Alegre. Mas também em Niterói, Belo Horizonte ou Florianópolis.

POR QUE A MÍDIA DE ESQUERDA E A MÍDIA DOMINANTE DANÇAM AS MESMAS MÚSICAS?

TODOS os ritmos e tendências da Música de Cabresto Brasileira são financiados, com gosto, pelas elites dominantes. Daí que não tem cabimento a imprensa de esquerda cortejar o brega-popularesco, o mesmo que faz sucesso no programa do Fausto Silva. Se, no ramo político, a mídia de esquerda se diverge energicamente à mídia dominante, por que ambos acabam dançando as mesmas músicas?

É como diz Dioclécio Luz, jornalista e escritor, comprometido com a verdadeira esquerda, não se faz revolução com breganejo e derivados. O breganejo foi o primeiro ritmo da Música de Cabresto Brasileira a fazer sucesso nacional de forma sistemática e organizada, embora só recentemente tenha ingressado com força no mercado fluminense, até pouco tempo atrás hostil aos vaqueiros musicais de mentirinha.

Gilberto Dimenstein baixa o cacete verbal nos professores em protesto. A Caros Amigos vai em socorro deles. Mas, quando o assunto é o "funk carioca", Folha e Caros Amigos usam rigorosamente o mesmo discurso, com a mesma cara-de-pau em querer empurrar o grotesco ritmo para as escolas.

Não dá para fazer um discurso bonito, de que os ídolos popularescos "representam" a população pobre, são "vítimas de preconceito", são "linchados" pela crítica etc, puro discurso do "marketing da exclusão". Você toca o CD do Waldick Soriano e acaba convencido de que ele era ruim, mesmo. Você toca o CD de Michael Sullivan e é uma pieguice de constranger. Você toca o CD de "funk carioca", seja Mr. Catra, Gaiola das Popozudas, Marlboro e o que for, e verá o quanto tudo isso é patético.

A axé-music e sua alegria falsificada é vergonhosa de se ouvir, o Asa de Águia, por exemplo, cheira a mofo até nas canções inéditas. Zezé Di Camargo & Luciano e Alexandre Pires com aquela breguice de luxo também não convencem musicalmente, porque não há a tão alardeada música caipira nos primeiros, nem o tão prometido samba no segundo.

Daí que, ouvindo os CDs e conhecendo realmente quem é que financia, difunde e patrocina o sucesso desses "artistas" dessa cultura popular de mentira, é que qualquer tentativa de apreciação deles vai por água abaixo. Pouco importa se tais ídolos sofreram de fome na infância, dormiram em estação de trem, tiveram irmãos assassinados etc, se a música que eles fazem é ruim.

E de que adianta "perdermos o preconceito" se o que os CDs tocam são muito ruins, se a música que eles apresentam ao vivo machucam nossos ouvidos? Basta usarmos outros artifícios e fingir que eles são uma maravilha? Perderemos o "preconceito" com o sucesso dos ídolos popularescos, mas passaremos a ter preconceito com o nosso prazer, tendo que suportar e fingir gostar de CDs abomináveis só porque seus cantores passaram fome, têm mães doentes, irmãos assassinados etc. Se for por este raciocínio, até Fernandinho Beira-Mar mereceria o Prêmio Nobel da Paz por causa de sua origem pobre.

Isso é uma falta de respeito com a cultura brasileira, um patrimônio que não pode ser privilégio de uns meros lotadores de plateias em micaretas, vaquejadas e "bailes funk".

A cultura envolve transmissão de conhecimentos e de valores. É inútil criticarmos as manobras políticas da direita, se louvamos os cantores e conjuntos musicais patrocinados por essa mesma direita. Como é inútil defender Alexandre Pires, Belo, Vítor & Léo, Banda Calypso, Mr. Catra e baixar a lenha na Rede Globo que tanto ajudou, decisivamente, no sucesso deles.

É preciso passar para a esfera cultural a preocupação crítica contra as manobras da direita, porque os entes políticos já sabem que são odiados. Sejam os políticos do PSDB, sejam os jornalistas associados ao Instituto Millenium. Eles até se satisfazem em ser atacados, enquanto seus capatazes musicais são defendidos nas páginas de Fórum, Caros Amigos, Brasil de Fato e outros.

Mas a verdade é essa: a música brega-popularesca, por mais que pareça associada às populações pobres - mito que no fundo é uma grande farsa - , deve muito às elites que dominam o jogo político e econômico de nosso país. Não fosse José Sarney, ACM, Fernando Collor, Rede Globo, Instituto Millenium, Folha de São Paulo, Veja, Contigo e Caras, o brega-popularesco não teria chegado aos lares da classe média, não teria ganho o verniz de "verdadeira cultura popular", essa mentira descarada que a mídia lança e cuja gravidade poucos percebem.

Mas a mídia golpista, a cada dia, prova cada vez mais que é a maior responsável por essa "cultura popular" que aparece nas rádios e TVs do país. Se a imprensa de esquerda continuar desconhecendo isso, terá sua reputação comprometida ante o público.

O sorriso de um Alexandre Pires, de uma MC Perlla, de um Zezé Di Camargo ou Bell Marques, se reproduz com mais intensidade no de um José Serra, e mais ainda no de Otávio Frias Filho, o inesquecível ex-patrão e mestre de Pedro Alexandre Sanches.

O RENASCIMENTO DO BARÃO DE ITARARÉ



Por Altamiro Borges - Blog do Miro

Nesta sexta-feira, dia 14, às 19 horas, no auditório do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo, será lançado o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. O coquetel de fundação será precedido por um debate sobre “A mídia e as eleições de 2010”, com os jornalistas Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Maria Inês Nassif (Valor Econômico) e Leandro Fortes (CartaCapital). Reproduzo abaixo o manifesto de lançamento da entidade:

A mídia hegemônica vive um paradoxo. Por um lado, ela nunca foi tão poderosa no mundo e no Brasil, atingindo níveis de concentração sem precedentes na história. Além do poder econômico, ela exerce um brutal poder ideológico, que manipula informações e deturpa comportamentos. No atual estágio, ela confirma a velha tese do intelectual italiano Antonio Gramsci e transforma-se num autêntico “partido” dos conservadores.

Por outro lado, ela nunca esteve tão vulnerável e sofreu tantos questionamentos da sociedade. No mundo todo, cresce a resistência às manipulações da mídia. Alguns governantes enfrentam, com formas e ritmos diferentes, esse poder que atenta contra a democracia e o Estado de Direito. Os avanços tecnológicos também criam brechas para a sua democratização. Novas mídias surgem no mundo inteiro, baqueando a audiência dos veículos tradicionais.

No caso do Brasil, a mídia controlada por meia-dúzia de famílias também esbanja poder, mas dá sinais de fragilidade. Ela não consegue mais fazer os “corações e mentes” dos brasileiros e perde audiência. A luta pela democratização do setor ganhou novo fôlego na fase recente. A realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação foi um marco neste processo. Surgem vários fóruns que encaram esta luta como estratégica e novas mídias ganham musculatura, com a multiplicação de veículos alternativos, como blogs, rádios e TVs comunitárias.

Este quadro, com os seus paradoxos, é que coloca a necessidade da criação de uma entidade que, em parceria com muitas outras já existentes, contribua na luta pela democratização dos meios de comunicação e pelo fortalecimento da mídia alternativa. Ela deverá ajudar na construção de uma militância social, permanente e aguerrida, nesta frente estratégica da batalha de idéias. É com esta perspectiva que nasce o Centro de Estudos da Mídia Alternativa e que se presta homenagem ao Barão de Itararé, um incansável lutador da imprensa progressista e pela ética jornalística.

Um dos criadores da imprensa alternativa

“Barão de Itararé’, pseudônimo irreverente do jornalista gaúcho Apparício Torelli (1895-1971), é considerado um dos criadores do jornalismo alternativo no país e o pai do humorismo brasileiro. Com os jornais A Manha e Almanhaque, ele ironizou as elites, criticou a exploração e enfrentou os governos autoritários. Preso várias vezes, ele nunca perdeu o seu humor. Itararé é o nome da batalha que não houve entre a oligarquia e as forças vitoriosas na revolução de 1930.

Frasista genial, ele cunhou incontáveis pérolas. Cansado de apanhar da polícia secreta do Estado Novo, colocou na porta do seu escritório uma placa com a hoje famosa frase “entre sem bater”. Político sagaz, ele percebeu a guinada progressista de Getúlio Vargas e respondeu aos críticos udenistas: “Não é triste mudar de idéias; triste é não ter idéias para mudar”. Militante do Partido Comunista do Brasil (PCB), Apparício foi eleito vereador pelo Rio de Janeiro em 1946 com o lema “mais leite, mais água e menos água no leite” – denunciando fraudes da indústria leiteira.

Seu mandato foi combativo e irreverente. Segundo o então senador Luiz Carlos Prestes, “o Barão não só fez a Câmara rir, como as lavadeiras e os trabalhadores. As favelas suspendiam as novelas para ouvir as sessões que eram transmitidas pela rádio”. Ele teve o mandato cassado juntamente com a anulação do registro do PCB, em 1947, e declarou solenemente: “Eu saio da vida pública para entrar na privada”. O seu jornal, A Manha, foi novamente empastelado e, com dificuldades financeiras, escreveu: “Devo tanto que, se eu chamar alguém de ‘meu bem’, o banco toma”.

Diante da crise que resultou no suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, ele afirmou: “Há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira”. Barão de Itararé foi um crítico dos jornais golpistas de Assis Chateaubriand e Carlos Lacerda e um entusiasta da imprensa alternativo. Após o golpe de 1964, ele passou por várias privações, mas manteve a sua máxima: “Nunca desista de seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra”. Faleceu em 27 de novembro de 1971.

Os objetivos do “Barão do Itararé”

O Centro de Estudos da Mídia Alternativa “Barão de Itararé” irá se somar a outras entidades e movimentos sociais que lutam pela democratização da comunicação, visando conquistar maior pluralidade e diversidade informativa e cultural no país. Entre outros objetivos, ele concentrará as suas atividades em cinco eixos centrais:

1- Contribuir na ampliação da militância na luta pela democratização da comunicação. Na fase recente, em especial no processo da 1ª Confecom, muitas entidades, movimentos e ativistas se engajaram neste frente estratégica da batalha de idéias. O objetivo é dar maior organicidade e dinamismo a este movimento, lutando pela aplicação das resoluções da conferência, para tornar periódico este fórum democrático de consulta à sociedade e para avançar na regulamentação do setor e na adoção de políticas públicas visando a democratização dos meios de comunicação;

2- Fortalecer os fóruns existentes e incentivar novos espaços de atuação. O Brasil conta hoje com inúmeras entidades e movimentos que priorizam esta frente – desde o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), o mais antigo, até o Fórum de Mídia Livre, criado em 2008. No processo da Confecom, também foram formadas comissões estaduais pró-conferência, que ampliaram a participação da sociedade neste movimento. Há ainda novos espaços, como o dos blogueiros e o dos empresários progressistas do setor (Altercom). O “Barão de Itararé” atuará em parceria com estas entidades, visando fortalecer a atuação e organização unitárias.

3- Reforçar as mídias alternativas, comunitárias e públicas. A luta pela democratização do setor se dá, também, com o fortalecimento dos veículos não comerciais. Atualmente, existem cerca de 3.800 rádios comunitárias e 83 TVs comunitárias. O sistema público também ganhou alento com a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que revigora as emissoras de rádio e televisão educativas e culturais nos estados. Já com o crescimento da internet, surgiram centenas de sítios e blogs progressistas. O “Barão de Itararé” manterá relação estreita e solidária com estes veículos, visando seu florescimento e fortalecimento.

4- Investir na formação dos novos comunicadores. A comunicação alternativa conta hoje com milhares de ativistas, seja na luta pela democratização do setor, na construção dos instrumentos alternativos e nas próprias redações da mídia privada. A formação destes comunicadores é uma das prioridades do “Barão de Itararé”, que investirá na juventude, ainda nas faculdades, e nos ativistas sociais que constroem as rádios e televisões comunitárias, a imprensa sindical e juvenil, os blogs e sítios progressistas. O objetivo é promover o intercâmbio de experiências e reforçar a formação crítica destes comunicadores.

5- Aprofundar os estudos sobre o papel da mídia na atualidade. Há um acelerado processo de mutação na mídia internacional e brasileira. Por um lado, ele reforça a concentração deste setor, resultando em maior poder de manipulação. Por outro, ele abre brechas para criação de espaços alternativos. O “Barão de Itararé” pretende, em parceria com a academia e outros institutos de pesquisa, promover estudos sobre esta nova realidade da comunicação.