domingo, 9 de maio de 2010

A CRISE DA PÓS-MODERNIDADE



A crise da pós-modernidade é um assunto que, na Europa e nos EUA, é tão amplamente discutido e difundido na sociedade. Não chega a atingir o grande público propriamente dito, mas seu alcance público chega a ser acima da média, podendo até mesmo atingir parte dos cidadãos comuns razoavelmente informados.

Mas aqui, no Brasil que aborta as carreiras dos grandes intelectuais na medida em que barra seus acessos na pós-graduação (por questões ideológicas e financeiras, Mestrado e Doutorado boicotam o senso crítico), a crise da pós-modernidade não existe. A pós-modernidade virou mercadoria das Organizações Globo e seus veículos "vanguardistas" (Multishow, Quem Acontece, portal Ego, programa Fantástico), e o mínimo de questionamento que se faz é ridicularizado por internautas arrogantes em mensagens agressivamente jocosas.

A crise da pós-modernidade se dá na medida em que os critérios de vanguarda cultural entram em crise. Poucos sabem, mas os princípios do neoliberalismo, relativos à tecnocracia e ao mercantilismo, há muito dominam o entretenimento, que não dá para levar a sério quando intelectuais passam a creditar modismos como pretensos movimentos folclóricos.

No Brasil recente, cujo contato efetivo com a cultura de massa se deu a partir de 1967 com o auge da Jovem Guarda e com o Tropicalismo, enquanto nos EUA a cultura de massa era analisada e discutida desde a década de 1920, pouco se discute a crise da pós-modernidade. Somente intelectuais em círculos fechados, privadíssimos, contestam e debatem. Escrevem artigos, por vezes acessíveis até na Internet, mas não adianta. O internauta médio não se interessa por esses textos. O anti-intelectualismo é o grande mal no nosso país.

A verdadeira arte, a verdadeira cultura, existe, mas é marginalizada. Mas a "verdadeira cultura", para a grande mídia, é aquela dos lotadores de plateias, dos ídolos de massa, dos bravateiros do pop comercial dos EUA ou dos ídolos brega-popularescos do Brasil. Fala-se, com cínica provocação, que a música brega original de Waldick Soriano, Odair José e similoares é "a verdadeira MPB", "a autêntica MPB", só por uma questão de execução em rádios, lotação de plateias e audiência de programas de TV. É o dinheiro movendo falsas justificativas. Lotar plateias com facilidade e rapidez é mais importante do que realmente ter talento.

Mas "talento", para a grande mídia, não é mais fazer arte genuína. Não é mais produzir conhecimento e valores sólidos. Ter "talento", agora, é ser esperto e ter uma noção básica de marketing, mesmo sendo um MC Créu na vida. É como ser um artífice da fama e do sucesso financeiro e um gerente de sua imagem pública.

Acabou a espontaneidade, agora há o tendenciosismo. Nada de ética, estética, nada de conhecimento nem de valores sólidos. É a crueldade do pós-moderno que ainda esfrega em nossas caras que somos "preconceituosos", "invejosos", "moralistas" e "retrógrados" só porque apontamos seus problemas. É muito triste, vivemos uma época de curtição mórbida e totalitária. Um entretenimento que nos agride, nesse espetáculo lamentável do vale-tudo.

Mas a crise da pós-modernidade existe, e na medida em que os excessos do consumismo, do mundo da fama e do entretenimento aparecem com mais evidência, seus problemas deixam de ser dissimuláveis. Os reacionários de plantão não podem mais defender esse ideal lúdico-consumista com unhas e dentes e nem terão tempo de contradizer quem questionasse o totalitarismo lúdico dos dias de hoje. Porque os questionamentos crescerão, na medida em que a crise da pós-modernidade se mostrar evidente. E como se evidenciará essa crise?

Simples. Na medida em que o pós-moderno perde a aura original de modernidade. Na medida em que não faz mais sentido haver ídolos "escandalosos", espetáculos superproduzidos e outros elementos ao mesmo tempo pretensiosos e polêmicos da indústria do entretenimento. Quando todo o cenário de luzes, de luxo, de lixo, de maquiagens, de escândalos, de fama não consegue mais justificar o vazio da indústria do entretenimento, a crise da pós-modernidade torna-se cada vez mais difícil de ser desmentida.

E aí toda a intelectualidade que fazia festa com o vazio da indústria do entretenimento assistirá à sua crise com um melancólico silêncio.

A "DANÇA DO TAMANDUÁ AFRICANO" ÀS AVESSAS



Caiu a ficha. O "rebolation" (REBOLEJO) e o "funk carioca" (FAVELA BASS) são ritmos descartáveis, meramente dançantes, convertidos pela mídia gorda a "danças folclóricas". O percurso inverso do que ocorreu no filme Namorada de Aluguel - Patrick Dempsey e Seth Green que o digam, porque atuaram no filme - com a "Dança do Tamanduá Africano".

Acho que já disse isso. No filme, de 1987, o personagem Ronald Miller, interpretado por Dempsey (o mesmo galã de Grey's Anatomy foi o nerd no longa oitentista), viu na televisão a apresentação de uma dança folclórica para ver que coreografia usaria para o baile de sua escola. Sem saber que era uma dança folclórica, a Dança do Tamanduá Africano, ele copiou a coreografia e, apresentando no baile da escola, a transformou num modismo dançante entre seus colegas.

Pois o "funk carioca" e, mais tarde, o "rebolation" - há notórias semelhanças no apelo porno-grotesco do "funk" e do porno-pagode baiano, que fizeram com que ambos evitassem fazer sucesso nacional juntos, ao mesmo tempo - , vendo a mina de ouro que é o rótulo de "folclore", passaram a vender a pretensa imagem de "movimentos etnográficos".

Alguém avisou ao DJ Marlboro, certa vez, ao vê-lo preocupado com mais um vai-e-vem do modismo funqueiro, de que ele deveria cortejar e adular os cientistas sociais e os produtores culturais para perpetuar o modismo do "funk", se possível empurrando o ritmo até para festivais de música de vanguarda, como Tim Festival e Abril Pro Rock. O truque deu certo, diante do dinheiro que rola por trás e de tanta gente crédula que existe por aí. E hoje até o tecnobrega usa essa manobra, se impondo até para as platéias do (ex)vanguardista Recbeat.

Pois a reportagem de capa do Segundo Caderno de O Globo - sinal dos tempos, de autoria de Carlos Albuquerque, o Calbuque do Rio Fanzine - se apóia nessa ideia de meros ritmos dançantes vendidos como "danças de vanguarda".

Coitado do twist, ritmo da virada dos anos 50 e 60 que nunca teve a pretensão de se apropriar dos louros da Contracultura. Mas o "funk carioca" e o porno-pagode - este usando pretextos "tropicalistas" - tentam se vender como "movimentos etnográficos" e até os pagodeiros baianos, recentemente, passaram a trocar as letras imbecis como "o bicho vai pegar", "a cobra vai fumar", "tapa na cara, mamãe" ou mesmo "uisminoufay, bonks bonks bom" por letras tendenciosas que supostamente evoquem o orgulho negro ou falem do duvidoso "orgulho de ser pobre". Os turistas estão de olho e o porno-pagode já é conhecido até pelo músico estadunidense Arto Lindsay.

Esse pretensiosismo todo em vender ritmos ridículos como "danças de vanguarda" mostra o quanto o pós-modernismo hoje está em crise. O ideal pós-moderno, que durante anos esteve à margem da mídia e do establishment do entretenimento, agora se serve dele numa relação de conveniência e de troca de interesses.

Funciona dessa forma. O hit-parade e o establishment lúdico-comportamental usam a intelectualidade para perpetuarem seus modismos sob o rótulo de "vanguarda", nem que seja pela via fashion (que envolve visual e comportamento), e a intelectualidade ganha mais visibilidade analisando até mesmo o fenômeno MC Créu sob uma ótica pretensamente etnográfica e uma retórica "pós-moderna". Qualquer Britney Spears e Lady Gaga, dóceis ovelhinhas brancas do hit-parade, são transformadas em "transgressoras" a partir dessa retórica muito bem construída pela intelectualidade tendenciosa.

Alguns astutos mais pretensiosos talvez tentem converter o matuto MC Créu num pretenso poeta concretista, já que Paulo César Araújo, em similar pretensiosismo, tentou converter os ídolos da música brega setentista em supostos cantores de protesto.

O próprio Carlos Albuquerque como autor da reportagem mostra o quanto os tempos mudam. Pessoas que antes lutavam pela vanguarda cultural do Brasil hoje entregaram os pontos para o establishment.

O VOO SONORO DOS BYRDS



O conjunto The Byrds é um dos mais expressivos personagens do psicodelismo norte-americano, sendo uma das mais importantes bandas a servirem de trilha sonora da Contracultura dos anos 60.

Surgido em 1964, a formação original do grupo era composta pelo fundador e único integrante de toda sua trajetória, o cantor e guitarrista Roger McGuinn (então conhecido como Jim McGuinn), os outros guitarristas-cantores David Crosby e Gene Clark, o baixista Chris Hillman e o baterista Mike Clarke. Essa formação gravou o primeiro álbum, em 1965, chamado Mr. Tambourine Man, cuja faixa-título, de autoria de Bob Dylan, foi cantada parcialmente, não se sabe por quê. Em todo caso, McGuinn desfez a dívida na carreira-solo, cantando a letra toda do amigo, em vários concertos e no concerto dos trinta anos de carreira fonográfica de Dylan, em 1992.

Depois a formação gravou Turn!Turn!Turn!, em 1966 (embora a coletânea The Byrds Play Dylan credite o álbum como do final de 1965, o disco é de 1966, 1965 foi a conclusão da mixagem do álbum). A faixa-título é inspirada no Livro dos Eclesiastes e foi outro grande hit do grupo. Mais tarde, Gene Clark saiu da banda e o grupo prosseguiu na formação restante, que gravou alguns discos, como o álbum Younger Than Yesterday. Este álbum é uma celebração ao espírito da juventude, e foi lançado em 1967, início do auge da Contracultura. Neste álbum se encontra a música "So you want to be a rock’nroll star", um “comentário” composto por McGuinn e Hillman, cantada por este último (acompanhado por McGuinn e Crosby no coro), sobre como ser um ídolo do rock. Além dela, há outras músicas brilhantes, como My back pages, de Bob Dylan.

Os Byrds eram tidos como a “resposta” californiana aos Beatles. Até aderiram a mudança de grafia, já que os Beatles são uma corruptela gráfica de beetles (besouros) e Byrds correspondia a birds (pássaros). Eles eram intérpretes constantes da música de Bob Dylan. Ao longo de sua trajetória, diversas músicas foram gravadas, e treze delas, gravadas entre 1965 e 1970, foram incluídas na coletânea The Byrds Play Dylan, organizada em 1979. Passaram por algumas gravadoras, sendo a primeira a Columbia Records, hoje da Sony Music.

The Byrds tiveram pelo menos quatro fases. A primeira, entre 1964 e 1967, do rock básico melodioso, com vocais angelicais e concepção folk, com alguns momentos de psicodelismo como em “Eight Miles High”. Depois veio a fase country de 1968, quando McGuinn ganhou a forte parceria de Gram Parsons, gravando o álbum Sweetheart at the rodeo, que contém duas músicas de Dylan: “You ain’t goin’ nowhere” e “Nothing has delivered”.

Em seguida, veio a fase ácida de 1969, quando participam da trilha do filme Easy Rider, da dupla Peter Fonda e Dennis Hopper, também daquele ano. A melancólica canção "The Ballad of Easy Rider", gravada solo por McGuinn na trilha mas também gravada pelo grupo no álbum homônimo à canção, é o destaque dessa época. E mais Bob Dylan: “Wheel’s on fire”, rock ácido com contrabaixo soul. Depois, daí em diante, os Byrds passaram a fazer folk rock, só que mais cru do que a fase inicial.

Dos vários membros dos Byrds, pelo menos três faleceram. Numa triste coincidência, Gene Clark faleceu em 1991 de problemas cardíacos, na proximidade do aniversário de 50 anos de Dylan. Antes, em 1973, Gram Parsons, então líder do grupo Flying Burrito Brothers, teve uma overdose fulminante de drogas. Já em 1996, foi a vez de Mike Clarke deixar este planeta. Todos os óbitos estão relacionados com o passado de álcool e drogas vivenciado pela maioria do pessoal do rock nos anos 60. Felizmente, os três membros originais, Roger McGuinn, Chris Hillman e David Crosby estão vivos e ativos, tendo se reunido para gravar quatro músicas para a caixa de quatro CDs comemorativa dos 25 anos da banda e cuja versão reduzida foi lançada em 1991, no Brasil inclusive, sendo vendido até por R$ 4,90.

McGuinn, recentemente, lançou suas novas músicas no site MP3.Com. O legado dos Byrds se encontra espalhado nos sons de bandas como R. E. M., Smiths (Johnny Marr se inspirou muito em McGuinn para tocar guitarra e compor), Smithereens, Tom Petty & The Heartbreakers, The Dylans, Toad The Wet Sprocket, Gim Blossoms e Ride. Este último é um exemplo típico, que utilizou até a mesma marca de guitarra de McGuinn, a Rickenbaker. Basta comparar o som das guitarras de “Paralysed”, do Ride (do primeiro álbum, Nowhere) e “Eight Miles High” dos Byrds. Outra faixa byrdiana do Ride é “Like a daydream”, da coletânea Smile.

Mas mesmo o tema original do seriado de desenho animado Scooby Doo, de 1969, tem linhas de baixo claramente influenciadas por Chris Hillman. Os produtores William Hanna e Joseph Barbera contavam com músicos de rock psicodélico fazendo trilhas dos seriados produzidos pela dupla. O seriado em filme Banana Split é sintomático disso, uma verdadeira aula de rock psicodélico e soul music dos anos 60 para a criançada.

É verdade que o som dos Byrds já não é considerado revolucionário ou ousado. Ao longo dos anos 90, mesmo o conservadorismo folk e pós-grunge de Counting Crows e Matchbox 20 (cujo vocalista andou fazendo vocal num recente sucesso do Santana, bem longe dos tempos áureos da banda do mexicano Carlos Santana) evoca traços dos Byrds, mas sem a criatividade do original.

No entanto, ouvir os próprios Byrds é muito melhor do que escutar as bandas estereotipadas de folk, ainda zonzas pela neblina de Seattle e completamente desplugadas do legado da Contracultura dos anos 60. E mil vezes melhor do que ouvir o country de butique da Zona Sul paulistana dos chamados "sertanejos universitários".

Afinal, os Byrds são reconhecidos como uma das grandes bandas de rock autêntico do mundo, por sua grandiosa força artística e melodiosa.

PARA QUÊ "SERTANEJO UNIVERSITÁRIO"? MELHOR OUVIR THE BYRDS!!



Para que ouvir o tal "sertanejo universitário" se é bem melhor ir direto à fonte, ao verdadeiro som de influência caipira do grupo californiano The Byrds, que há 45 anos lançou seu primeiro sucesso, "Mr. Tambourine Man", uma regravação bem criativa da canção de Bob Dylan?

Eles usavam guitarra elétrica, adotavam postura country, e então eram jovens, tinham a idade dos universitários. E, era evidente que ser universitário não era essa palhaçada de hoje, quando os tais "novos sertanejos" na verdade são um subproduto do ensino neoliberal das universidades particulares, que culturalmente são os verdadeiros "celeiros" desses pseudo-caipiras que usam o rótulo de "universitários" para atrair o consumo de classe média.

Nos anos 60, ser universitário era buscar conhecimentos, promover cultura, se manifestar contra a opressão humana e não compactuar com ela, como fazem os "tão modernos" jovens brasileiros de hoje em dia que, tão zelosos em passar uma imagem de "esquerda" defendendo valores e princípios tão de direita.

Entre um country estereotipado e o folk rock genuíno, prefiro este último, cujos compromissos com a arte são sinceros, espontâneos e criativos.