quarta-feira, 31 de março de 2010

CAPA DO CD "SERTANEJO UNIVERSITÁRIO" IMITA A DO LP "PHONO 73"



Agradecimentos ao internauta Lucas Rocha pela lembrança da comparação.

O que é a falta de originalidade. Se houvesse algum contexto para imitar capas de LP, tudo bem, mas o que se vê aí é pretensiosismo. A nova onda do momento, o "sertanejo universitário", já havia mostrado, anos antes, a pretensão de preciosismo ao lançar uma coletânea com capa 'chupada' do LP Phono 73, o histórico álbum de música brasileira, em que pese seu elenco nem ser sempre bom.

Afinal, há no Phono 73 a presença de Odair José, um dos ídolos da música brega - certamente, um dos gurus dos "sertanejos universitários" - num dueto com Caetano Veloso. Mas a maior parte dos cantores e grupos do elenco da Phonogram correspondia à MPB autêntica que hoje ameaça desaparecer do rádio.

No entanto, o que se nota na imitação é que varia a posição da colagem em acrílico das imagens dos cantores, que no CD breganejo é posta embaixo, enquanto que no LP de 1973 é posta acima.

"FUNK CARIOCA" NÃO CONSEGUIU AVANÇAR COM RETÓRICA "ETNOGRÁFICA"


Foi como uma porção de fezes embrulhada num livro de antropologia. O "funk carioca" (FAVELA BASS) não conseguiu convencer a opinião pública com sua retórica "etnográfica", porque era um discurso falsamente sofisticado, feito para disfarçar um estilo musicalmente chato, difícil de ouvir com atenção, e marcado pelo grotesco gratuito, pelo mau gosto impositivo e constrangedor.

O "funk carioca" teve que se contentar com o mercado que conquistou. Com o controle social que exerce sobre o povo pobre, com os estudantes de escolas públicas deixando rolar o ritmo nos seus telefones celulares. Mas a reputação dos sonhos, de "música popular do século XXI", "novo folclore brasileiro", com as comparações pretensiosas à Semana de Arte Moderna, Revolta de Canudos e outros eventos históricos, simplesmente não se realizou.

Isso porque o "funk carioca" esbarrou numa intelectualidade inteligente e crítica, que certamente não se convenceu com a falsa ideia de que o MC Créu, por exemplo, seria o novo Donga, e o Latino o novo Ernesto Nazareth. Tudo por conta das pretensas e demagógicas comparações que a rejeição do "funk" possui hoje com a que o samba teve há cem anos atrás. Até porque são épocas diferentes com perspectivas morais diferentes. Quem rejeitou o samba era moralmente rígido demais. Quem rejeita o "funk" é moralmente bem mais aberto, só não aceita a baixaria, a grosseria, a estupidez.

Por isso, o "funk carioca" agora tem que liberar seu espaço para a campanha do "sertanejo universitário", de um lado, e a do porno-pagode baiano, de outro. O "funk" tem que se contentar com o mercado que conquistou, à maneira do competidor de quiz show que, ao ganhar a quantia de um milhão, decide encerrar a competição por aí, em vez de continuar a competir e se arriscar a perder até tudo que tinha.

Além disso, a mídia golpista, já preparando sua campanha para botar um tucano no Planalto novamente, não teria mesmo que usar o grotesco funqueiro como trilha sonora do mainstream midiático, mas o comportado e "familiar" breganejo, na sua versão "universitária", com seus cantores parecendo galãs de novela ou, quando muito, atores de Malhação. A direita quer espantar os ares populistas, mais uma vez evocando a "tradição" da família e da propriedade privada expressas pelos emergentes "jovens sertanejos".

MÍDIA TENTA EVITAR DECADÊNCIA DA EROSÃO CULTURAL



A erosão cultural está aí. A televisão aberta, cada vez mais decadente, e de propósito, porque acha que é isso que o público quer. A música brega-popularesca se divide com os veteranos gravando covers e discos ao vivo em excesso, enquanto lança novos ídolos (como o "sertanejo universitário") que lançarão apenas cinco hits próprios até seguir a linha sanguessuga dos veteranos e suas regravações. A imprensa populista pondo bosta nas mentes dos leitores. As rádios FM, sofrendo ao mesmo tempo dos males de Parkinson e Alzheimer, empurra programação Aemão ou música popularesca para transformar os ouvintes em cidadãos superficiais e submissos.

E erosão cultural de que fala o jornalista Dioclécio Luz avança, enquanto os clamores contra esse fenômeno surgem e crescem, apesar das réplicas raivosas contra eles. E a grande mídia se esforça sempre em fazer essa erosão avançar, depositando milhões e milhões de reais para que seus valores e totens evitem sucumbir à decadência e ao ostracismo.

O cantor de sambrega que, no fundo, se limita a ser uma caricata fusão de Luiz Miguel com Usher, tem que fazer sucesso? Haja notas pagas sobre ele na Internet. O grupo de axé-music de vocalista barbudo está em decadência? Mais notas pagas, do tipo "grupo tal arrasta multidões em Piramboca do Norte". A mulher-fruta ameaça cair no ostracismo? Bota ela para ser deputada ou vereadora. A dupla breganeja não faz algo que preste? Lança um filme sobre a dupla. O apresentador brucutu de TV perde Ibope? Lança um concurso de funqueiros no programa dele, ou então bota ele para fazer merchandising de tônico capilar.

Enfim, são tantos artifícios que tentam manter a imbecilização cultural, o controle social, em ordem. A decadência está aí, a olhos vistos, como um penhasco que ameaça cair. Mas a mídia amarra um barbante para segurar a parte do penhasco que começa a cair. E esse barbante custa milhões.

É um mecanismo mais perverso do que se imagina, porque o controle social não se efetiva com pregações verbais dos militantes do Instituto Millenium. Nem se efetiva na fúria dos articulistas de Veja. E nem nas repressões policiais do governo José Serra, ou outro similar.

A imbecilização cultural da imprensa populista, da música popularesca, do rádio FM esquizofrênico e desmiolado, da manipulação emocional sobre as classes populares, tudo isso é o que há de mais perverso em controle social, que desmobiliza muito mais os movimentos sociais. A domesticação do povo pobre é a forma mais eficaz para as elites controlarem a sociedade, sem recorrer a massacres que transformariam a direita brasileira num ente abominável à altura dos regimes fascistas europeus.

Por isso mesmo, o controle social da mídia existe. Está em toda a "cultura" popularesca, sobretudo em eventos tipo Big Brother Brasil, que nem no auge está, mas cujo princípio de decadência foi tapeado com convidados em evidência na mídia, falsos debates, falso engajamento, enfim, tentou-se transformar tomate podre em caqui.

E os ídolos musicais popularescos, os mesmos veteranos da axé-music, do sambrega, do breganejo e outros estilos, fazem a trilha sonora do "Brasil imbecil", com seus sucessivos discos ao vivo, covers em excesso e duetos oportunistas, tudo para tapear o péssimo repertório autoral que eventualmente é despejado nas rádios a título de músicas de trabalho.

Tudo isso representa a prática da dominação social que os críticos da mídia pouco veem. Existe a gravidade da militância da mídia golpista, mas ela não se dá somente nas pregações do Instituto Millenium e seus seguidores (sobretudo enrustidos, como o Grupo Bandeirantes de Comunicação e a Rádio Metrópole de Salvador). Se dá na prática diária e constante da erosão social que elimina do povo brasileiro os grandes valores e referenciais sociais, que certamente fariam do povo uma arma contra a dominação e a domesticação pelas elites.