domingo, 14 de março de 2010

PRIMÓRDIOS DO BREGA E A DEGRADAÇÃO POPULAR


WALDICK SORIANO - PIONEIRO DOS BREGAS, ELE TINHA UMA PERSONALIDADE CONSERVADORA, DIREITISTA E MACHISTA.

Já se falou aqui que os primórdios da música brega, que não tinha este nome ainda e nem cafona se chamava, surgiram em consonância com os interesses das oligarquias regionais dominantes.

O desprezo atual de certos críticos da grande mídia quanto à problemática da mídia regional, cuja dinâmica de poder pode não se comparar com as grandes redes e os grupos nacionais, mas exerce domínio e prepotência suficientes para o controle social das populações locais, impede que compreendamos a manipulação cultural dessas elites regionais sobre o povo.

Há grande mídia na periferia, na roça, no sertão, nas regiões pantaneiras e amazônicas. Onde houver população, oligarquias dominantes e um sistema de comunicação por estas controlado, existe grande mídia regional. E a origem da música brega tem muito a ver com o poderio das mídias regionais e suas relações com o mercado midiático de São Paulo, cidade considerada a vitrine cultural do Brasil.

A origem da música brega coincidiu muito bem com o avanço das Ligas Camponesas no Brasil. As Ligas Camponesas eram o equivalente pós-Estado Novo e pré-Golpe de 1964 ao atual Movimento dos Sem-Terra.

É historicamente conhecida a história dos conflitos entre trabalhadores rurais e grandes proprietários. Conflitos sangrentos, diga-se de passagem. Com direito a lista de ativistas, testemunhas ou desafetos marcados para morrer, inclusive padres. Por isso, o poder latifundiário, diante desse quadro assustador, no entanto não iria investir tão somente na carnificina, até porque, nessa época, meados dos anos 1950, pelo menos dois grandes líderes políticos, Josef Stalin e Adolf Hitler, expressavam a lembrança então recente dos genocídios que cometeram.

Por isso as oligarquias rurais queriam, muito antes da TV Globo surgir - as Organizações Globo se limitaram à Rádio Globo e jornal O Globo - , muito antes das rádios popularescas virarem fenômeno nacional e muito antes da intelectualidade pelega vestir a camisa do brega-popularesco, criar um "padrão" de cultura popular que não represente perigo à ordem vigente.

Desta forma, juntando os interesses dominantes - não devemos nos esquecer que as oligarquias rurais controlavam a mídia de sua região, mesmo indiretamente - com a visão de atraso típica do provincianismo, surgiram os primeiros ídolos cafonas, curiosamente no interior do Brasil, em áreas de perfil sócio-político bastante conservador, o que põe por terra abaixo toda a tese dos defensores da música brega, que dão a falsa impressão de que o interior do país respirava vanguarda o tempo inteiro. Falta de noção histórica destes quanto à histórica desigualdade social e regional que, infelizmente, castiga nosso país, com cidades que até hoje ainda vivem como que no final do Segundo Império.

Note que Waldick Soriano veio de uma cidade conservadora da Bahia, Caetité. É certo que de lá também veio Anísio Teixeira, mas ele tão cedo migrou para Salvador e tornou-se um dos maiores pensadores da Educação em nosso país. E Agnaldo Timóteo, outro ícone do brega, veio da região de Caratinga, no interior mineiro.

Portanto, os primórdios da música brega, além de terem se originado em regiões bastante conservadoras, onde a dificuldade de penetração das informações atuais nestas regiões fazia com que os referenciais sejam bastante atrasados.

Desta forma, enquanto as capitais do Sudeste eram brindadas com a vanguarda da Bossa Nova, o interior ainda vivia o requentamento de velhas serestas, que acabaram influenciando uma geração de cantores que não tinha o mesmo talento nem o mesmo contexto social dos grandes seresteiros, como Orlando Silva, Vicente Celestino, Lupicínio Rodrigues e Nelson Gonçalves, que nunca foram bregas.

Os primeiros ídolos cafonas vieram do interior e foram repercutir em São Paulo. Com que dinheiro? Pedindo esmolas em rodovias? A parca renda das apresentações em puteiros e botecos ajudava? Até agora não existe uma investigação a respeito das relações entre oligarquias regionais e cantores bregas, mas o que se sabe é que eles foram ajudados pelas emissoras de rádio locais, que sofriam a influência dos poderosos das respectivas localidades. E, provavelmente, havia alguma relação entre os donos dessas rádios e os executivos da mídia paulista.

Os primeiros ídolos bregas lançaram seus primeiros discos no final dos anos 50. Um deles, Orlando Dias (pseudônimo que se confundia com o autêntico seresteiro Orlando Silva, o Cantor das Multidões), foi apadrinhado pelo poderoso empresário Abrahão Medina, pai dos irmãos Rubem e Roberto Medina (este do projeto Rock In Rio).

Mas os primeiros sucessos vieram logo em 1964, o que coincide perfeitamente com os primórdios da ditadura militar. O atraso cultural dos arremedos de boleros, serestas, country, artisticamente patéticos e tematicamente sofríveis, de um sentimentalismo ao mesmo tempo choroso, piegas e conformista, estava bem de acordo com os primórdios da "Revolução de 1964", nome pelo qual se anunciou a ditadura militar, autodenominada "governo revolucionário".

A música brega original também encontrou afinidade perfeita no projeto econômico dos ministros da Fazenda, Otávio Bulhões, e do Planejamento, Roberto Campos (o temível Bob Fields abominado pelo movimento estudantil), que atuavam no governo do general Castelo Branco.

Bulhões e Campos defendiam um desenvolvimento econômico excludente, subordinado ao Primeiro Mundo através das regras do FMI, com a industrialização brasileira se desenvolvendo a partir de material obsoleto dispensado pelas matrizes das empresas estrangeiras instaladas no Brasil.

Da mesma forma, a música brega representou o "desenvolvimento da cultura popular", de forma excludente (o povo não podia mais desenvolver uma cultura de qualidade que outrora fazia) e utilizando material estrangeiro obsoleto, que eram os boleros, guarânias, mariachis, country music, ritmos de sucesso nos anos 50 e que, fora de moda no Brasil, eram "reciclados" pelos ídolos cafonas mesmo depois do auge da Bossa Nova e da ascensão da Jovem Guarda.

A música brega, no entanto, buscou "atualizar" seu retroativismo sonoro, quando, em 1968, passado o movimento da Jovem Guarda, ídolos retardatários como Odair José, Paulo Sérgio e outros tentaram "fazer Jovem Guarda" até mesmo depois de 1972, com uma sonoridade datada e sem a força musical de Roberto Carlos, Wanderléia, Erasmo Carlos e outros.

Nesta primeira fase da música brega - cujo auge se deu em 1972, quando o nome "brega" veio finalmente à tona, por conta de uma placa quebrada da Rua Padre Manuel da Nóbrega, em Salvador, reduto de puteiros e botecos - , construiu-se toda uma ideologia e todo um cenário que as oligarquias desejaram reservar o povo, para evitar assim as revoltas dos trabalhadores rurais, mas economizando os esforços de exterminar populações, já que o extermínio de manifestantes pela reforma agrária causava péssima reputação aos latifundiários, ainda que estes mantivessem a impunidade pelos seus crimes.

A ideologia brega jogava o povo para os botecos e puteiros, para o alcoolismo (sobretudo por parte de homens idosos), para o sentimentalismo piegas, para os lamentos resignados, para a revolta "resolvida" pelo aguardente e pela cachaça, para as desilusões amorosas "resolvidas" pelo sexo profissional das prostitutas em trajes sujos e instalações decadentes e doentias. O povo era jogado ao sub-emprego, ao comércio clandestino, ao analfabetismo, tudo ao som de cantores de voz esganiçada ou fanha, fazendo falsos boleros, falso country, com letras de um sentimentalismo que, de tão patético, chegava a ser risível.

A música brega, do contrário que seus defensores atuais, foi a cultura do atraso, da degradação social, representando um retrocesso na cultura brasileira. A ideologia brega representou um instrumento de manipulação e controle social das oligarquias rurais, bem antes do Golpe de 1964, mas chegada a ditadura militar, a ideologia brega serviu para reafirmar o domínio dessas oligarquias, desta vez com o total e explícito apoio dos generais que combatiam severamente os movimentos sociais.