sábado, 13 de março de 2010

JUVENTUDE PAGA-PAU QUER VER FAROFADA DOS GUNS N'ROSES



"Quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão...". Temos que citar esse trecho da música "Máscara Negra", marchinha de Zé Kéti e Pereira Matos.

É para citar que, depois da vinda de Beyoncè Knowles ao Brasil, há tanto jovem correndo atrás de outro ícone do irrit-pareide internacional, a banda de metal-farofa Guns N'Roses, e só em São Paulo, onde hoje será a apresentação da banda do Axl Rose (não seria Chatoxl Rose?). Pior: os ingressos, de R$ 120 a R$ 400, não são lá muito baratos. Dava para eu encher a casa de comida com um dinheiro desses.

Como muita gente nasceu "ontem", muitos pensam que os Guns N'Roses são uma banda de rock clássico. Não me esqueço do estudante de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, há dez anos atrás, em estado de choque quando folheou meu zine - homônimo a este blog - e deparou com um texto em que eu dizia que o Guns não era banda de classic rock. E o cara parecia ter uns 23, 25 anos, na época. Deve ter seus 33, 35 anos hoje.

Mas como eu não nasci ontem e vou fazer 39 anos no próximo dia 21, por ter ouvido a Rádio Fluminense FM nos anos 80 e por conhecer bandas como Led Zeppelin, AC/DC, Thin Lizzy e Jimi Hendrix Experience (só para citar quatro super-bandas de rock), sem falar dos Beatles, que conheço até algumas faixas tocadas de trás pra frente (como "Efil Eht Ni Yad A"), é covardia dizer que Guns N'Roses é "rock clássico". Isso é o mesmo que chamar papagaio de minha águia.

Aliás, é totalmente ridícula essa onda "revisionista" que tenta creditar o metal farofa como se fosse "rock clássico", "rock'n'roll de verdade". Primeiro, porque musicalmente isso pouco tem a ver. Muita pose, muita pretensão, forçadamente roqueiro, nada a ver com o rock setentista original. E não estou falando de Alice Cooper (não seria Chatice Cooper?), que na verdade é o pai dos posers.

Falo das bandas citadas acima, Led Zeppelin, Thin Lizzy, AC/DC, Jimi Hendrix Experience ou JH & Band of Gypsies, e mais Deep Purple, Cream, MC-5, Beatles - sim, porque até a música "Helker Skelter" dos quatro rapazes de Liverpool põe os posudos pra correr - e muitas outras bem mais substanciais do que a bandinha de Axl.

Acho que a rapaziada anda ouvindo muito essas FMs horríveis nos últimos dez anos. Para quem acha o brega-popularesco a "nova MPB", rock'n'roll, para essa rapaziada, são essas porcarias de Bon Jovi, Guns N'Roses, Mötley Crüe, Marilyn Manson e outras palhaçadas.

CACAREJADA VIRTUAL FEZ BRILHANTE ANÁLISE SOBRE MPB



O excelente locutor Marcos Niemeyer, autor do blog Cacarejadas & Ejaculações, comentou a crise da Música Popular Brasileira em seu programa de rádio. O áudio está acessível através deste link, em que Marcos faz uma análise dura sem perder a compostura, como um verdadeiro profissional de rádio faz.

Eu escrevi um comentário, até agora inédito, complementando a análise dele. E resolvi antecipar a publicação, até porque o ponto de vista encontra consonância à análise feita pelo radialista e blogueiro. Aqui está o meu comentário:

O pior de tudo é que os chamados "ídolos populares", do nível de Alexandre Pires, Belo, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Leonardo, Daniel, Banda Calypso, Calcinha Preta, entre outros tantos (e olha que eu falo naqueles que, mesmo ruins, são tidos como "geniais" pela grande mídia), já começam a perder a disposição de compor suas próprias músicas ou encomendar inéditas de autores amigos, e já estão lançando discos ao vivo sucessivos, sempre revisitando os mesmos "grandes sucessos".

E também já começam a gravar mais covers, um atrás do outro, se nivelando até abaixo dos piores crooners, sem o escrúpulo de vampirizar, de parasitar o cancioneiro autêntico da MPB. Assim, Cláudia Leitte pode cantar, por exemplo, "Como Nossos Pais", música de Belchior consagrada por Elis Regina. Alexandre Pires pega carona em Sá Marina, sucesso na voz de Wilson Simonal. E mesmo os "emergentes" Revelação e César Menotti & Fabiano, espertos, agora lançam como "novas músicas" regravações de, respectivamente, "Sina" de Djavan e "Natural" do 14 Bis, evidentemente sem a beleza das versões originais.

Só quero retificar uma coisa. Os grandes nomes da MPB, vários deles, não gravam mais músicas inéditas porque não tem espaço na mídia. A indústria fonográfica não deixa. As gravadoras impõem ao artista regravar seus antigos sucessos, senão não há disco. E olha que Djavan, Milton Nascimento, Joyce, Chico Buarque, tem fôlego para lançar novos clássicos, se houver oportunidade eles lançam músicas que serão marcadas em nossas mentes.

Enquanto isso, nossos incompetentes ídolos populares ficam regravando músicas, porque é mais cômodo. Medíocres, eles até tinham um caráter de ineditismo no começo de suas carreiras, daí terem conseguido botar seus poucos hits, seus "Entre Tapas e Beijos", "Festa", "Você Não Vale Nada", "Cachorro, Sem Vergonha", "É o Amor", "Depois do Prazer", "Eu Te Quero Só Pra Mim", "Você Não Vale Nada". Mas, depois de passada a relativa impressão de "novidade", eles tentam justificar-se no mercado apelando para qualquer coisa, até para intelectual pelego que tenta tratar o Calcinha Preta como se fosse uma pérola perdida do pós-Tropicalismo.

Esses intelectuais endeusaram tanto a Tati Quebra-Barraco, cinco anos atrás, comparando ela (injustamente) a Elza Soares, nivelando ela a Pixinguinha (pode?) que hoje ninguém mais fala no assunto. Tati teve uns dois ou três hits, muito ruins por sinal, enriqueceu, torrou a grana com plásticas e lipos e, incapaz de gravar um novo disco, teve que se converter para uma seita evangélica, antes que o fim de sua celebridade a ameace no mais cruel ostracismo.

O brega-popularesco mostra seu desgaste e mostra também seu caráter anti-popular. Afinal, seus DVDs superproduzidos e suas sucessivas gravações de covers mostra que eles são, na verdade, a música das elites, e não a "verdadeira música popular" que tanto alardeiam. Isso porque as oligarquias financiam muito esses ídolos, tentando livrá-los do ostracismo inevitável, tentando disfarçar seu esgotamento natural, afinal são eles que enriquecem a mídia e todos os empresários direta ou indiretamente envolvidos, sem falar de latifundiários e políticos corruptos que "lavam" suas granas sujas no sustento permanente desses ídolos popularescos, que vão para o Domingão do Faustão como quem vai para a casa da titia na esquina.

O CORONELISMO MUSICAL DO BREGANEJO


VÍTOR & LÉO - EXPRESSÃO MUSICAL DOS NOVOS BARÕES DO AGRONEGÓCIO.

Dá perfeitamente para perceber por que este blog recebeu comentários reacionários e até violentos contra as críticas aqui feitas aos ídolos "sertanejos" Zezé Di Camargo & Luciano, Vítor & Léo e João Bosco & Vinícius.

A dita "música sertaneja" é o equivalente musical do coronelismo, do latifúndio, das elites do agronegócio. Em outras palavras, é a música dos grandes proprietários de terras, de grileiros, e até mesmo de empresas estrangeiras que detém parte do solo brasileiro, em grandes propriedades, sem o menor escrúpulo em ameaçar a soberania nacional.

A "música sertaneja" de hoje é apenas uma pálida diluição da música caipira de outrora, que ameaça desaparecer, infelizmente, por conta da pressão mercantilista dos diluidores, também conhecidos como breganejos, já que são mais herdeiros de Waldick Soriano (os "sertanejos universitários", de Odair José e Paulo Sérgio) do que de Cornélio Pires, antigo músico caipira do início do século XX.

A primeira geração ainda emulava as músicas caipiras, com muita canastrice, mas com quase verossimilhança. Esses nomes estão para a música caipira assim como os ídolos neo-bregas de hoje estão para os medalhões da MPB. Ou seja, pessoas recrutadas para seguir as normas da indústria fonográfica que os verdadeiros artistas tentaram seguir a contragosto.

Assim como um nome como Alexandre Pires segue, com fidelidade canina, os preceitos fonográficos que um sambista autêntico como Almir Guineto se recusaria a seguir, e que outro grande sambista, Jorge Aragão, tenta seguir parcialmente, a diluição da música caipira que seria imposta a uma dupla como Tonico e Tinoco é seguida com vontade por Chitãozinho & Xororó e outros que vierem na cola.

A diluição da música caipira se deu com a assimilação obrigatória de elementos do country e dos mariachis mexicanos, além dos boleros já pasteurizados pela geração brega de Waldick Soriano e Agnaldo Timóteo. É certo que tais elementos foram assimilados, nos anos 60, por intérpretes caipiras autênticos, mas aí foi uma livre opção, não uma regra, e era algo que não era assimilado de forma servil, era uma expressão que se somava à música caipira, do contrário que a diluição que assimilava esses ritmos estrangeiros para, praticamente, anular a expressão musical caipira.

Desta forma, os breganejos que surgiram a partir de Chitãozinho & Xororó - cuja diluição da música caipira, além de imitar pessimamente o legado das excelentes duplas norte-americanas Everly Brothers e Simon & Garfunkel, copiando em timbres neuróticos a harmonia vocal dos irmãos Everly, assimilava a caretice musical dos Bee Gees do final dos anos 60 - , como Christian & Ralf, Gian & Giovani e, um pouco mais tarde, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel etc, ja transformavam a música caipira num engodo confuso, mas no começo de suas carreiras, ainda havia um simulacro de regionalidade, bastante caricato e estereotipado, por sinal.

Essa primeira geração "sertaneja" temperava sua canastrice musical com a cínica apropriação de sucessos da música caipira por eles ameaçada, além do esforço de bajulação a músicos caipiras condescendentes, como Renato Teixeira e Almir Sater, ou nomes caipiras antigos que tiveram que apoiar os picaretas por questão de sobrevivência, como Tonico e Tinoco e Pena Branca & Xavantinho.

Chitãozinho & Xororó, que nunca tiveram um grande sucesso de lavra própria, construíram sua carreira de esperteza se apropriando de uma música de Lamartine Babo e Ary Barroso, gravada originalmente por Elisinha Coelho, em 1932, "No Rancho Fundo". A bela canção, que também foi gravada por Elizeth Cardoso, estava esquecida, e a dupla paranaense, ao se apropriar da música, tomou-a como se fosse "sua". A dupla - na verdade os irmãos José e Durval Lima - já havia se apropriado de uma antiga canção caipira, hoje esquecida, e sua apropriação à música de Lamartine e Ary foi tal que acabou batizando a (grande) fazenda dos dois irmãos da cidade paranaense de Astorga.

A esperteza acaba enganando até mesmo historiadores sérios da MPB, que pensam que Chitãozinho & Xororó são "a última dupla da fase áurea da música caipira". Não, a dupla é a primeira a diluir e distorcer a música caipira brasileira.

Na medida em que esses ídolos breganejos fazem sucesso e aumentam seu público, a diluição que eles fizeram chega ao ridículo de se converter numa urbanidade sem pé nem cabeça, onde já nem fingir-se de caipiras eles conseguem mais. Tentam todos os caminhos, macaqueiam de Zeca Baleiro a axé-music, se perdendo no caminho que nem sequer seguiram direito, mas conseguiram outrora enganar.

"SERTANEJO" EM RITMO DE MEC-USAID E ASTRAL DE CCC - E aí chegam os "sertanejos universitários" que, em tese, ouvem de tudo, até rock estrangeiro. Parecendo caubóis novos entrando numa cidade fantasma, eles tentam fazer um som mais "moderno". São uma espécie de breganejo jovem, arrumadinho, com roupas de grife, bons equipamentos e tecnologia, e até ônibus de última geração, que de "universitário" só tem mesmo o "idealismo" herdado dos antigos projetos da ditadura militar para o ensino superior, em parceria com a USAID (Agência Norte-Americana pelo Desenvolvimento Internacional) e dos estudantes reacionários ligados ao Comando de Caça aos Comunistas.

É, portanto, um conservadorismo renovado, que desperta entusiasmo nos jovens direitistas, para os quais qualquer crítica reprovativa é rebatida com fúria e irritação. Até mesmo o constrangedor nome de João Bosco & Vinícius, criticado por este blog, gerou réplicas irritadiças de defensores da dupla que parecem ter saído dos porões do Comando de Caça aos Comunistas, tamanho o reacionarismo.

Defensores do pensamento único, tal qual seus mestres latifundiários, essa "galera" ignora que o autor deste blog nunca mandou uma mensagem contra seus ídolos nos blogs e fotologs favoráveis a eles. Mas eles queriam que O Kylocyclo pensasse como eles, o que é impossível.

O reacionarismo dos defensores de Vítor & Léo - maior expoente do breganejo supostamente "universitário" - , João Bosco & Vinícius ou até mesmo de veteranos como Zezé Di Camargo & Luciano mostra o quanto o breganejo, seja o veterano, seja o emergente supostamente "universitário", representa fielmente o coronelismo na música, já que o coronelismo foi marcado historicamente pelo reacionarismo, pela prepotência, pelo autoritarismo.

Tudo para as elites dominantes manterem suas gigantescas propriedades de terras. E para seus equivalentes musicais transformarem a Música Popular Brasileira em seu latifúndio.