sexta-feira, 5 de março de 2010

MÚSICA PARALISADA BRASILEIRA


MEDIOCRIDADE CULTURAL DOS NEO-BREGAS, EM SENTIDO HORÁRIO: ALEXANDRE PIRES, CHITÃOZINHO & XORORÓ, DJ MARLBORO, CHICLETE COM BANANA, BANDA CALYPSO E IVETE SANGALO.

A Música de Cabresto Brasileira é a Música Paralisada Brasileira. Seus "maiores ídolos", vendidos como se fossem "geniais" e como se representassem "sempre o novo" na nossa música, na verdade são ídolos desgastados que agora fazem revival de si mesmos.

Eles fizeram sucesso entre 1990 e 2002, portanto já tiveram seus tempos áureos. Sempre foram medíocres, mas pelo menos tiveram outrora um quê de ineditismo, eram novos em sua mediocridade artística.

Mas hoje eles tentam se justificar na mídia, e já falamos noutras vezes a mania que eles hoje cometem: DVDs ao vivo, CDs ao vivo, covers em discos de carreira, covers em discos-tributos, duetos dos mais diversos, tudo com uma frequência e uma sucessão bem suspeitas, o que mostra a esterilidade desses ídolos que, mesmo vendendo a falsa imagem de "novos", já estão na grande mídia há muito tempo, sendo o establishment do establishment no mainstream musical brasileiro.

É estarrecedor ver que a suposta "rainha da MPB" Ivete Sangalo (lembremos que a verdadeira rainha é Marisa Monte) ultimamente viva de discos ao vivo, duetos e covers, que um "grande artista" como Alexandre Pires não lançou um único álbum de inéditas depois de três anos como contradado da EMI, e que uma "respeitável dupla sertaneja" como Chitãozinho & Xororó nunca teve um grande sucesso da sua lavra, se aproveitando tendenciosamente de canções alheias, seja o clássico "No Rancho Fundo", seja o brega "Evidências", esta de José Augusto, por sua vez verdadeiro inspirador musical de Alexandre Pires.

Enquanto eles tentam ficar mais tempo - a intenção deles talvez seja ficar 55 anos em evidência, mesmo, até não poderem mais ficar em pé - na mídia e azucrinando a cultura brasileira, os verdadeiros artistas já começam a desaparecer das rádios e da mídia.

Nomes como Djavan, Maria Bethania, João Bosco (o autêntico, o que faz dupla com Aldir Blanc) ou mesmo Milton Nascimento, pessoas que poderiam nos brindar com material inédito (no caso de Maria Bethania, de outros compositores, mas material inédito de qualquer forma), que numa sintonia ou outra se encontrava com alguma facilidade no rádio FM, hoje começam a ficar cada vez mais ausentes ou, ao menos, sem qualquer música inédita nas rádios.

Pior é que a MPB autêntica agora virou refém da Rede Globo, na medida em que novas canções dependem de aparecer nas trilhas das novelas das "sete" e "oito" (apesar desta começar às 21 horas, ou "nove da noite") para entrar no rádio. Mesmo os grandes medalhões da MPB autêntica agora têm que competir com os mega-astros da Música de Cabresto Brasileira, meros lotadores de micaretas, vaquejadas e "bailes funk" que agora ditam as rédeas da cultura brasileira, como se fosse uma espécie de PiG musical.

O que dizer então de Fátima Guedes, Diana Pequeno, Carlinhos Lyra, Guinga, que são nomes mais "difíceis"? E o que dizer então de Elizeth Cardoso, Sidney Miller, Taiguara, Sílvia Telles, Dick Farney e, agora, Johnny Alf, que além de menos manjados são falecidos, não estão mais aqui para gravar novas músicas? Esses a mídia não toca, e nem por rezas ou simpatias.

A música brasileira corre o risco de se transformar num grande fóssil, parando no tempo. Os ídolos popularescos, em si, nada produzem de relevante, até fazem músicas inéditas, mas elas são tão fracas que nem mesmo o grande público sabe os títulos dessas músicas. E essa produção autoral é pequena e inexpressiva, diante do vampirismo que Ivete Sangalo, Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano, Alexandre Pires, Grupo Revelação ou mesmo MC Leozinho fazem, que é regravar o que já foi gravado, às vezes com uma manobra sutil para disfarçar a mesmice dos covers em excesso.

Por exemplo, é como se Cláudia Leitte quisesse gravar uma música de Tim Maia e chamasse o Rogério Flausino para fazer dueto. Ou DJ Marlboro e Latino regravarem Wilson Simonal com o primeiro sampleando e o segundo "cantando". Ou mesmo através de covers de música brega, com uma canção esquecida de Carlos Alexandre gravada por Vítor & Léo em versão mais "roqueira" (?!). Ou o Chiclete Com Banana cantando música de Jorge Aragão no Centro de Convenções de Fortaleza.

Mas esses exemplos fictícios também são apoiados por exemplos já reais, como os trocentos duetos e covers gravados por Ivete Sangalo ou o disco de Chitãozinho & Xororó com a orquestra de João Carlos Martins. Tudo isso para tapear a esterilidade musical desses 'grandes nomes'.

Concluindo. Enquanto a MPB autêntica não pode mostrar suas novas músicas, a Música de Cabresto Brasileira tenta se autopromover com repertórios revisionistas seja com o melhor ou o pior de nossa música. Isso nada acrescenta ao que já foi feito na nossa MPB. Pelo contrário, fará a nossa música parar no tempo dentro de poucos anos.

JOHNNY ALF E A BOSSA NOVA TÊM LUGAR NA POSTERIDADE



Johnny Alf faleceu ontem, injustiçado. Não tem, entre as jovens gerações, o reconhecimento de um grande mestre. É muito discutível dizer quem mesmo foi o pai da Bossa Nova, mas é indiscutível que seus mestres foram inúmeros. E Johnny está, sem dúvida, nesta lista.

Mas, apesar do desprezo de que os grandes artistas sofrem no nosso país, a posteridade garantiu um lugar nobre para eles. Por outro lado, os tão badalados músicos de sambrega, que com seus sorrisos arreganhados tentam "defender" o samba apenas macaqueando o som black norte-americano - e, às vezes, nem tão black assim, pois até A-ha e Gino Vanelli são diluídos na breguice sonora dos sambregas - , mas eles, de tão medíocres, apesar de insistirem com toda a badalação entusiasmada da mídia, desaparecerão com o tempo.

Mas Johnny Alf, que participou da verdadeira mistura do samba com a música estrangeira, numa verdadeira aula prática da "antropofagia" pensada por Oswald de Andrade (ainda vivo quando Johnny gravava seus primeiros discos), de fato deu uma contribuição valiosa na música brasileira, pois, mesmo livre para gostar de música estrangeira, lembrou-se da soberania nacional quando assimilou as influências jazzísticas que se tornaram famoso.

Apesar de ser Alfredo "José", seu apelido "Johnny Alf" ("Johnny" equivale a Joãozinho) talvez seja porque, no começo da carreira, Alf tinha o mesmo jeitão robusto e jovial de um cantor de jazz muito popular então, Johnnie Ray. Johnny foi até admirado por Tom Jobim, que o apelidava de Genialf.

A Bossa Nova, apesar de ter sido massacrada por José Ramos Tinhorão - um historiador que tem até excelentes ideias, mas discordo dele na sua abordagem sobre a Bossa Nova e o Rock Brasil - , tornou-se um dos grandes movimentos de renovação musical. A música falava por si mesma, mas seus intérpretes eram marcados pela personalidade forte, que não deve ser confundida com fetiche (caso dos ídolos popularescos). Por isso a Bossa Nova conseguiu atravessar o mundo, e não foi porque era influenciada pelo jazz dos EUA.

Pelo contrário, se a BN fosse um subproduto do jazz ianque, não teria saído do território brasileiro, se limitando apenas a um envergonhado modismo isolado entre os brasileiros ou, a exemplo do "funk" e da lambada, a um engodo cuja difusão em outros países é duvidosa e patética, animando apenas alguns turistas brasileiros mais patéticos e causando chacota na maioria dos estrangeiros.

Felizmente a Bossa impôs respeito, e hoje mesmo os artistas já mortos - e Johnny Alf se juntou a eles - são respeitados e admirados pelos fãs do mundo inteiro, não por saudosismo, mas por uma aura que permanece atual e presente. É até maldade dizer que a Bossa Nova virou cult, porque até nisso o estilo se superou. E sua força artística inegável fará o estilo permanecer sempre vivo, como um verdadeiro patrimônio cultural.