segunda-feira, 1 de março de 2010

O MACHISMO QUER "GUARDAR" PARA SI AS MULHERES CLASSUDAS


RENATA VASCONCELLOS - A jornalista da Rede Globo, casada com um sisudo consultor de empresas, é o retrato de que as mulheres legais, no Brasil, são patrimônio daqueles que têm poder sócio-econômico.

O contexto mais parece de um filme de Luís Buñuel. Mulheres que se encaixavam perfeitamente no padrão estabelecido pelos machistas, estão sozinhas.

Sejam as insossas marias-coitadas que se tornam escravas do lar e da Igreja e que, cerca de 150 anos depois, trocaram as poesias românticas pela música brega-popularesca de nomes como Fábio Jr. e José Augusto ou nomes do sambrega e do breganejo, sejam as arrogantes boazudas famosas ou as não-famosas que vão aos clubes suburbanos dançar o "rebolation" ou o "pancadão", as mulheres educadas pelos valores machistas, que, infelizmente, são muitas - afinal, passamos pela ditadura militar que veiculou valores retrógrados para amplas camadas sociais, sobretudo pelas regiões interioranas brasileiras, e mesmo em tempos democráticos como os nossos, despertá-las é uma tarefa difícil - , acabam sendo abandonadas no caminho, seja porque idealizam demais os homens com quem elas querem casar, seja porque são abandonadas pelo próprio machismo que as criou, umas para a servidão doméstico-religiosa e a pieguice sentimental, outras para o recreio sexual dos antigos machistas, através da sensualidade estereotipada e grotesca.

Enquanto isso, o patriarcalismo arma mais um golpe, quando boa parte dos homens dotados de um perfil mais conservador - a maioria dos empresários, profissionais liberais, executivos ou mesmo dirigentes esportivos dotados de uma personalidade sisuda voltada para a elegância compulsória e excessiva e para o vício lúdico das festas de gala, almoços "sociais" e eventos cerimoniais - se casam com mulheres dotadas de notável inteligência, independência, beleza e uma combinação de sensualidade, charme, desenvoltura e graciosidade.

Ou seja, são mulheres modernas, cheias de vida, adoráveis e admiráveis, cujos maridos são a expressão da mesmice engravatada e sem cor (fora os tons cinzas, pretos e marrons de seus paletós), solene, de uma racionalidade já mofada e desinteressante. São as mulheres legais com seus maridos sem-graça.

O pobre mortal que ainda mora com os pais e que não vai às boates, que tem sua modesta coleção de livros xerocados copiados dos títulos emprestados da faculdade ou da biblioteca municipal, que tem sua modesta discografia de títulos de rock alternativo e MPB baixados no computador pela sacrificada conexão de Internet discada, e que reflete criticamente o mundo em que vivemos, não pode ter uma mulher bacana. Para ele, sobram justamente as mulheres produzidas pela opressão machista, que na sua alienação pouco se importam em juntar os discos de José Augusto dela com os discos da Plebe Rude dele.

É inegável que existe um amplo contingente de mulheres batalhadoras, mas boa parte delas desafia o próprio mundo machista em que se inseriram. Sabem que não é pelas canções de Alexandre Pires e Fábio Jr. que virá a libertação feminina, como também esta não chegará através da audiência do Big Brother Brasil ou das leituras de jornais e revistas popularescos. Elas passam a recusar esses papéis sociais, que se tornam patéticos, caricatos, risíveis. E também elas não se iludem com a lorota de que o "funk carioca" e o "pagodão baiano" trarão a libertação feminina só porque as miseravonas vão e vem dos clubes noturnos sem companhia masculina e passaram a recusar pretendentes, mesmo os melhores deles.

Não sejamos politicamente corretos. A moça que se torna fã de porno-pagode ou "funk" assume papéis sociais impostos pelo machismo, o comportamento arrogante e grotesco da futilidade, da pornografia barata, dos rebolados grotescos. Não vamos achar que o mau gosto do popularesco é a outra face do "bom gosto" porque não compartilhamos a hipocrisia da mídia golpista, que usa esse mau gosto justamente como instrumento de controle social das classes trabalhadoras.

Por isso, há muitos problemas envolvendo a questão da mulher no país. Mesmo a mulher que pode ter um emprego próprio mas segue um dos dois caminhos, o da subordinação sócio-cultural, ou o da pornografia grotesca. Mesmo dentro de um contexto de relativa independência financeira, ela continua submissa a papéis e condições sociais relacionadas ao ideal machista de mulher.

Para conversar, essas mulheres são superficiais. O único discernimento das que se subordinam na pieguice e nas tarefas domésticas é quanto a coisas tipo a marca da farinha de trigo que prefere usar, a marca do sabão em pó, ou a questão dos buracos nas ruas. Quando às boazudas, o único discernimento está em coisas como a marca de cerveja que elas bebem ou a butique onde elas preferem comprar seus shortinhos de cores aberrantes.

Por isso é que o mercado da vida amorosa está terrível. A maior parte das solteiras, no universo social dominado pelo popularesco, não está, de fato, pela solidão. É que o próprio mundo machista do popularesco, com a superioridade dos detentores de poder físico e financeiro, dos jovens barbudos pseudo-hippies, dos engravatados que, bons profissionais, tornam-se medíocres no lazer (mas com jeitinho suficiente para nunca passarem vergonha), abandonou as mulheres inferiorizadas. Estas, por sua vez, também passam a ter medo dos homens de seu meio, de sua comunidade, entimidadas pelo jornalismo policialesco a mostrar sempre homens violentos, desonestos, arruaceiros.

Daí que uma fã de Fábio Jr., que vê nele o modelo de marido ideal, contraditoriamente tem medo de aceitar pedido de namoro de um homem similar que ela encontra naquele evento de agronegócios ao qual ela foi para ver o Calcinha Preta. Também contraditoriamente, ela se fascina com o sósia de John Lydon (o feioso cantor dos Sex Pistols) se, no perfil do Orkut, ele afirmar que ainda mora com os pais, não bebe álcool e passa as noites de sábado comendo biscoitos com bebida láctea e vendo as comédias com Marcelo Adnet na TV.

É uma verdadeira distorção de valores que não indica a verdadeira justiça social. A mulher classuda, de ideias interessantes, ótima para se conversar, trocar carinhos etc, passa uma tarde insossa com o marido empresário que, em nome da elegância obsessiva, usa sapatos de verniz para dizer que até no lazer é um "homem sério". O homem sensato, de ideias interessantes, ótimo para se conversar, ávido para ser realmente amado por uma mulher, passa uma tarde insossa com a maria-coitada com sentimentos piegas, que chorou ao ver José Augusto num vídeo recente do You Tube, e que fala demais sobre o que viu no Big Brother Brasil na semana passada.

O machismo acaba se reciclando no Brasil, dentro dessa situação inusitada. A supremacia masculina, antes satisfeita com mulheres submissas, piegas e alienadas, agora se serve de mulheres importantes e atraentes, que representam muito mais do que beleza física. Por outro lado, condena ao celibato obrigatório ou ao suplício conjugal de nerds e outros homens diferenciados as marias-coitadas, esforçadas mas piegas e superficiais, e as boazudas, representantes máximas das mulheres-0bjetos, meros corpos inanimados e patéticos, bonecas falantes a serviço da baixaria funqueira e pagodeira.

Nesse país com valores tão bagunçados, existem exceções às regras. Mas infelizmente elas não suprem, em quantidade, as regras estabelecidas. Ser politicamente correto e achar que essas distorções são "valores novos" também não adianta.

O jeito é encarar o problema do machismo, as novas manobras da supremacia machista, em vez de aderirmos ao vício politicamente correto de ver em cada nova cicuta um novo refresco para nossas vidas. A ditadura também se valeu dessa nossa obrigação de "mudar visões". Só não falou da falácia do "preconceito".

A ideia será desalienar as mulheres-coitadas e as mulheres-frutas, e colocá-las no seu devido lugar. Ou mostrar para as outras mulheres em busca de um lugar no sol que não é o "créu", nem o Fábio Jr., nem o Alexandre Pires, nem o BBB, nem o Datena, Ratinho ou Faustão que irão libertá-las das limitações da vida. Se elas não se libertam dos valores machistas do popularesco, pelo menos elas deveriam parar de sonhar demais e aceitar mesmo os pretendentes que elas encontram nos eventos de forró-calcinha, "funk" e "pagodão", em vez do excêntrico boa-praça que encontram no Orkut. Porque, pelo menos, esses pretendentes estão dentro dos valores e referenciais que elas acreditam e apreciam.

Quanto ao outro lado do machismo, só nos resta apreciarmos criticamente a realidade apresentada, porque as mulheres classudas deram para "carregar casamento" com seus maridões dotados de poder sócio-econômico.

JOSÉ MINDLIN DOOU CERCA DE 40 MIL VOLUMES À USP



O empresário José Mindlin, falecido ontem de manhã, havia doado cerca de 40 mil títulos para a USP, que vai compor a nova biblioteca, a Biblioteca Brasiliana Guida e José Mindlin (Guida foi o nome da esposa de Mindlin, também falecida), que estará pronta em maio do próximo ano.

José Mindlin foi leitor de livros desde muito jovem, algo que se deve levar em conta num país onde o povo trabalhador quer ler livros mas não pode, não tem condições - baixa escolaridade - nem recursos.

Mas pior mesmo é a juventude rica do Brasil, que acha que vai entender o país conhecendo apenas as pessoas das boates que frequentam. Uma juventude que poderia ler livros e, por pura arrogância, não os lê e ainda sai esnobando aqueles que defendem a leitura dos livros.

Imagino como essa "galera irada" deve agir quando tiver Mal de Alzheimer logo aos 40 anos (provavelmente daqui a 10, 15 anos) por não ter exercitado a memória e por ter abusado das "guloseimas" consumidas sobretudo na praia e na "náite".

José Mindlin foi um dos remanescentes de tempos em que havia grandes homens e mulheres. Anísio Teixeira, Barbosa Lima Sobrinho, Milton Santos, Darcy Ribeiro, Josué Montello, Otto Maria Carpeaux, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Clarice Lispector, Mário de Andrade. E também tantos outros, anônimos e semi-anônimos, que eram pobres dotados de riqueza moral. Gente que procurou ajudar no progresso desse país. Progresso que, infelizmente, a "galera irada" tenta barrar, no alto de suas boates ou de suas bebedeiras ao volante.