sábado, 27 de fevereiro de 2010

EGBERTO GISMONTI HOMENAGEIA GUIMARÃES ROSA EM NOVO CD



O músico Egberto Gismonti, um dos grandes nomes da MPB autêntica, que teve músicas tocadas até na fase áurea da Fluminense FM, lança novo CD, intitulado Saudações, um álbum duplo cujo um dos discos traz a suíte "Veredas Sertões - Tributo à Miscigenação".

Egberto é um dos mais complexos músicos brasileiros, e por isso ele é realmente injustiçado. Tem muitos anos de estrada, sempre à margem da grande mídia, e faz música sem qualquer interesse comercial. Por isso, ele, com segurança, pode ser considerado um verdadeiro artista, que acrescenta conhecimento e beleza artística à nossa tão empastelada cultura.

Egberto Gismonti: taí um nome que a MPB FM, se tivesse semancol, tocaria adoidado até no horário comercial.

MAIS DE 52 TONELADAS DE PEIXES MORTOS SÃO ENCONTRADAS NO RJ



Cerca de 52,1 toneladas de peixes mortos foram encontrados na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. A tragédia ambiental ocorreu num dos lugares programados para as competições das Olimpíadas de 2016.

Apesar da tragédia ter evidentes indícios de que foi causada pela poluição, houve autoridade que afirmou que a mortalidade dos peixes se deu por causa da proliferação de uma alga.

Mas para Eduardo Paes, é muito mais importante pintar os ônibus com a mesma cor, de forma que o caro cidadão que queira se dirigir à Lagoa Rodrigo de Freitas pegue a linha 438 Vila Isabel / Leblon da Transportes Vila Isabel, pensando pegar o 434 Grajaú / Leblon da Transprotes Estrela Azul e, saltando no Jardim Botânico, tenha que caminhar para a Lagoa até quando lhe falta pouco tempo para um compromisso pessoal.

No entanto, a humanidade consciente vê mais prioridade em investir R$ 80 milhões, de onde quer que venha esta quantia, em despoluir a Lagoa, como todo o meio-ambiente carioca, em vez de acusar uma inocente espécie de alga pela morte de milhares de peixes.

MORREU WALTER ALFAIATE



Morreu de efisema pulmonar, depois de tantos dias internado, o compositor Walter Alfaiate, um dos grandes nomes do samba autêntico, que, a exemplo do mestre Cartola, não usava a música como atividade profissional. Como o sobrenome artístico sugeria, ele trabalhava como alfaiate e o samba era seu hobby, como os verdadeiros artistas.

Tanto que tardiamente começou a gravar seus discos próprios, também a exemplo de Cartola. Isso significa que seu trabalho como compositor foi reconhecido através das gravações de outros intérpretes, incluindo Paulinho da Viola, um antigo pupilo dos grandes sambistas que se tornou ele mesmo um mestre. Paulinho gravou três canções de Alfaiate.

Walter Alfaiate pertencia a ala de compositores da Portela, desde os anos 80.

ARROGÂNCIA CHICLETEIRA PROCESSA PUBLICITÁRIO BAIANO



Depois que o articulista de Veja, Eurípedes Alcântara, ganhou um processo contra o jornalista Luís Nassif, sendo uma vitória do PiG contra o jornalismo verdade do articulista e blogueiro, também a divisão musical do Partido da Imprensa Golpista resolve urrar de vez.

Pois os advogados do cantor Bell Marques, o comandante-mor do Chiclete Com Banana - maior tradução do PiG através da axé-music - , decidiram processar o publicitário Nizan Guanaes, também baiano, por causa de comentários que este fez sobre o cantor.

Nizan havia dito no Twitter que Bell "não é artista, é um crooner careca", e, entre outras coisas, ele disse que a crítica não cobre os lançamentos do Chiclete Com Banana e, criticando a indigência cultural da Bahia por causa do império da axé-music, afirmou que o Estado está como Bell Marques, "careca e fingindo ter trança". O publicitário responderá por difamação, calúnia e injúria.

A banda de Bell - que chegou a ser investigado, cerca de dez anos atrás, por sonegação fiscal - é conhecida por sua arrogância que contagia os fãs, chamados de chicleteiros. As músicas são praticamente monotemáticas, fora as letras de amor banal, o que se ouve são apenas canções sobre a própria banda e o bloco carnavalesco Camaleão. O Chicletão, como é chamado o grupo pelos seus fãs, é um dos grupos mais ricos do cenário da axé-music. Musicalmente, o grupo tem qualidade inferior ao que sugere sua aparentemente grande reputação na mídia.

BIG BROTHER BRASIL TENTA FAZER FALSO ENGAJAMENTO SOCIAL



O que é o desespero de manter uma inutilidade como o Big Brother Brasil no ar. Nos últimos dias o programa tentou fazer um falso engajamento social, através dos casos da lésbica Angélica e do brutamontes Dourado. O machismo de Dourado, aparentemente, chamou a atenção até do cantor Boy George - que fez sucesso nos anos 80 com sua banda Culture Club - , que manifestou protesto contra o bofe. Talvez a produção do BBB achasse que o caso chamasse a atenção também da rainha Elizabeth e, quiçá, do Conselho de Segurança da ONU.

Embora o homossexualismo e o machismo rendam calorosos debates, não serão eles que transformarão o Big Brother Brasil num programa fundamental para a audiência brasileira. Pelo contrário, são recursos desesperados de um programa decadente, que já passou do seu auge apesar de toda a insistência da mídia gorda, querendo se manter no ar a todo custo e tentar passar alguma motivação para a opinião pública.

Não vejo o BBB, nunca vi, e o que eu sei do programa é através dos portais sobre celebridades na Internet. O caráter supérfluo do programa é uma das coisas mais estarrecedoras da televisão brasileira, e isso não é moralismo, não é paranóia, não é preconceito, nem inveja do sucesso de um programa. Isso é uma constatação objetiva.

Compare o que era a televisão brasileira de 45 anos atrás com a de hoje. Quanta diferença. Mas não dá para comparar rigorosamente, porque boa parte do acervo das emissoras de TV daquela época se perdeu, e as pessoas não estão muito dispostas a ler livros sobre história da televisão, que pelo menos fazem relatos textuais sobre o que eram tais programas, contando até mesmo alguns casos curiosos, e que por vezes há fotos relacionadas a tais programas.

Por mais ridículas que possam parecer as delirantes novelas de Glória Magadan, a novelista cubana exilada no Brasil, pelo menos tinham alguma dramaturgia e os atores eram realmente muito bons. Pelo menos havia história, havia produção, havia direção e encenação, havia profissionalismo e expressividade.

E os "riélites"? Eles não têm roteiro, mal conseguem ter uma direção - o "diretor" é apenas um vigia que dá pitacos nos "atores" quando necessário - , sua produção é tosca, e é tudo de um amadorismo doloroso, porque é amador não no melhor, mas no pior sentido da palavra.

Assim como ficamos perplexos diante do risco de termos de aguentar popularescos como Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Ivete Sangalo e outros por pelo menos 50 ou 55 anos, todos gravando os mesmos discos de covers ou DVD's revisionistas ao vivo, também ficamos estarrecidos com o risco do Big Brother Brasil se arrastar por mais e mais anos.

O programa já deu o que tinha que dizer, que era quase nada. Agora não adianta fazer falso engajamento para criar factóide. Até porque não se sabe se Angélica e Dourado são pessoas autênticas ou se eles, na verdade, estão fazendo tipo. Tudo é ficção nesse "espetáculo da realidade". Tudo é falso, chato, e extremamente descartável. Não deixará grande marca na história de nossa TV.

A PAULEIRA DA IMPRENSA GOLPISTA


VINCE NEIL, DO MÖTLEY CRÜE, E BRET MICHAELS, DO POISON: DOIS ÍCONES DO "METAL FAROFA", ESTILO LEVADO A SÉRIO DEMAIS PELOS JOVENS BRASILEIROS.

Enquanto, no Brasil, os grupos de sambrega tentam vender a imagem de "samba de verdade", substituindo a antiga coreografia de "mexer os pezinhos" com todo mundo sentado simulando uma roda de samba, os grupos de poser metal, ou "metal farofa", tentam vender a imagem de "rock'n'roll de verdade", embarcando até no revival dos anos 80 e tentando atrair a confiança de atrizes novatas. Certa vez, a darling Megan Fox apareceu vestindo camiseta do Mötley Crüe, e, recentemente, Bret Michaels, do Poison, gravou dueto com Miley Cyrus.

No Brasil, no entanto, terreno aberto e receptivo para a queda de estrelas cadentes (ou decadentes), não bastasse a vinda dos Guns N'Roses, com ex-cantor do Skid Row abrindo, e a banda de Axl Rose tão paparicada pela juventude riquinha dos Jardins (mas que jura ser juventude proleta de Diadema) ou da Barra da Tijuca (mas que jura ser juventude proleta de Belford Roxo) depois da Beyoncè Knowles e a "alta reputação" do Bon Jovi entre os roqueiros de mentirinha (que no entanto juram ser os sábios entendedores de rock autêntico), agora é o vocalista do Mötley Crüe, Vince Neil, que fará apresentações em São Paulo.

A essas alturas, a "galera" - prestem atenção às aspas, porque não uso essa gíria - deve estar extasiada com essa onda de "metal farofa" que, para quem não chegou ainda aos 35 anos de idade, tem status de "rock clássico". Existem exceções como no caso do amigo Bruno Melo, do blog Cultura Alternativa, que, mesmo muito jovem, não engole essa lorota em torno dos farofeiros do rock.

Mas, como o mundo da mídia golpista é uma beleza, vamos ver os jovens riquinhos de todo o país (mas que juram ser pobres, pobres, pobres, de marré, marré, marré) endeusando o metal farofa, com toda a arrogância a que tem direito. E o portal Ego, espécie de PiG social das Organizações Globo, deve jogar muito ex-BBB e atores globais emergentes (que, a troco de um bom papel de novela, dançam até o "créu" e o "rebolation") para ver os farofeiros no palco. Sobretudo o Chatxl Rose e seus Tapas e Beijos (Leonardo e Zezé Di Camargo n' Luciano que o digam).

Deve estar também pipocando nas rádios o dueto de Bret Michaels com a Miley. Um detalhe: enquanto Guns N'Roses e Bon Jovi são bastante populares entre a moçada ávida por roquinho-farofa (mas que jura ser roqueira de cara e coragem), Mötley Crüe e Poison ainda tentam vender a imagem de "alternativos". Dá para acreditar?

Com a palavra, o outrora prestigiado portal de rock Whiplash (não seria melhor chamá-lo de Splish Splash, com base naquela música do Bobby Darin, o "Vince Neil" da turma de 1958 coverizada por Roberto Carlos cinco anos depois?). Aliás, quanto a Bobby Darin, a geração de "roqueirinhos" bonitinhos de 1958 teve um cantor chamado Ricky Nelson, que morreu em 1985 sem poder ver seus dois filhos montarem um grupo da linha do Bon Jovi, o grupo Nelson. Família unida...

PAGODE DA IMPRENSA GOLPISTA


GRUPO REVELAÇÃO - SAMBA "CORRETO", PORÉM SEM ALMA.

Vai se apresentar num evento comemorativo na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, o grupo de sambrega Revelação, ou Grupo Revelação, como também é conhecido. O grupo tocará com Gilberto Gil, nome da MPB autêntica condescendente com os ídolos popularescos, e cuja filha Preta Gil chega a ser pior na adesão à Música de Cabresto Brasileira.

Convém lembrar que o Grupo Revelação faz um samba tecnicamente "correto", mas que, como todo grupo de sambrega que tenta fazer "samba de verdade", soa falso, forçado e sem alma. E que, como todo ídolo popularesco que se torna veterano, logo apela para covers e antigos sucessos. Na entrevista de hoje no programa RJ TV, da Rede Globo, o grupo foi logo investir em "Sina", música de Djavan, tão bajulado pelos sambregas quanto o Clube da Esquina pelos breganejos. E o sambrega é o Pagode da Imprensa Golpista, apoiado explicitamente pelos meios de comunicação mais conservadores.

Me lembro quando o site Mondo Pop espinafrou a cantora Maria Rita Mariano quando ela gravou um disco de sambas, na ocasião em que localizei o Olavo Bruno (não seria Olavo Bruto?) espinafrando este blog, da forma mais ofensiva possível. Maria Rita não é, exatamente, uma sambista, e não poderia mesmo fazer um disco de sambista, mas uma leitura pessoal dela do samba. O título Samba Meu, portanto, não soa oportunista, levando em conta este aspecto. E, do contrário que o autor da resenha e do arrogante autor das mensagens agressivas, Maria Rita fez, sim, um samba com alma, mas realmente diferente.

O que não é o caso do Grupo Revelação e do Exaltasamba que, se não me engano, devem ter o mesmo empresário. Eles investem em clichês do samba autêntico, imitando o som que eles ouviram de sucessos do Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho, evidentemente com a orientação de algum arranjador mais experiente. Não há espontaneidade. É mais ou menos a mesma coisa que uma banda de poser metal (que, como atitude, é o "sambrega" dos EUA) tentar soar como o Led Zeppelin, por exemplo. Lá as bandas poser falam em "rock'n'roll de verdade", e aqui os sambregas levantam a bandeira do "samba de verdade".

Mas o esforço dessas bandas de sambrega soa vão. Tecnicamente, dá para enganar. Mas já se percebe que é um samba postiço, de gente que não sabe a diferença de um maxixe com o samba de gafieira. Põem flauta nas suas músicas, escrevem letras "engraçadas", como se isso fosse suficiente. Mas o resultado, embora pareça verossímil à primeira audição, numa atenção maior se torna frouxo, artificial, sem espontaneidade. Fica soando algo tendencioso, apenas para justificar a permanência de ídolos sambregas no mercado.

Esse samba "bonitinho" nada acrescenta ao samba original e nem tem a força artística dos genuínos sambistas. Compare o que Revelação, Exaltasamba ou então os momentos pedantes de outros grupos tipo Molejo e Só Pra Contrariar fazem com o que, por exemplo, os Originais do Samba e Fundo de Quintal fizeram e continuam fazendo, para ver a diferença. Os sambregas arrumadinhos apenas fazem o "dever de aula", são meros cumpridores de normas exigidas pela intelectualidade burguesa (a mesma que nos acusa de querer uma "normatização" para a música brasileira). Os sambistas de verdade, quem conhece mesmo, sabe a diferença que exercem sobre os sambregas.

Vale lembrar que não estou sendo invejoso, nem calunioso, nem desaforado e nem qualquer coisa parecida quando escrevo isso. Estou sendo objetivo, nas minhas análises. Afinal, sou jornalista e pesquisador cultural.

OS TECNOCRATAS DA OPINIÃO



Pode parecer brincadeira, mas até pouco tempo atrás a grande mídia gozava de um poder maior de influência na sociedade. Até alguns anos antes, os chamados "grandes jornalistas" eram considerados semi-deuses, verdadeiros sacerdotes da informação, dotados de preciosos segredos da humanidade, dotados da sabedoria misteriosa, e nossa missão era apenas manifestar fé e devoção a esses jornalistas, venerá-los, confiá-los e ouvi-los antes que tentemos refletir sobre o mundo a nossa volta.

Para quem tem senso crítico, como eu e vários blogueiros como Leonardo Ivo, Altamiro Borges, Bruno Melo, Marcelo Delfino e Marcelo Pereira, ou jornalistas como Luís Nassif, Paulo Henrique Amorim e Luiz Carlos Azenha, certamente essa ideia devota do "grande jornalista" é totalmente ridícula. Mas já vi, na Internet, muita gente acreditar na chamada "grande mídia" como se ela fosse uma "nova Igreja", e não falo aqui de religião, de seitas religiosas, mas a transformação do próprio "jornalismo" em religião, colocando a figura do jornalista num pedestal e acima, e não a serviço, da opinião pública.

A tecnocracia é a religião da tecnologia. É uma fábrica de "divindades" santificadas seja pelo diploma (quando são engenheiros, economistas, administradores), seja pelo poder em si (quando são jornalistas ou empresários de radiodifusão). Junta-se a isso a religião do jornalismo, que transforma os jornalistas em "divindades", em vez da natural condição de seres humanos com certa habilidade profissional de grande serventia para a sociedade.

Pois, na religião "jornalismo", o jornalista não é quem serve a sociedade. É a sociedade que tem que servir ao jornalista. Ouve-se comentários sobre Economia e não os entende, mas mesmo assim o comentarista é genial porque demonstra uma "sabedoria" que não se entende, porque o cidadão comum não entende Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg, mas este cidadão terá que venerá-los como semi-deuses, porque os comentaristas são dotados de segredos, de mistérios da humanidade.

É o mesmo processo feito pelos sacerdotes da Idade Média, fase lamentável da história da humanidade. Os sacerdotes eram dotados de segredos, eram os detentores do saber, cabia ao povo subordinar-se a eles, venerá-los ainda que não pudesse ter a mesma compreensão de mundo, e menos ainda uma compreensão de mundo mais ampla e crítica do que eles. O intelectual italiano Umberto Eco fez um romance inteiro sobre esse tema, O Nome da Rosa.

Daí que, nos anos 90, os críticos da Comunicação falavam em Idade Mídia, num literal trocadilho com Idade Média, preocupados com essa verdadeira privatização da opinião pública que se processa hoje em dia. Quando houve, no Brasil, a chamada "invasão AM" nas FMs a partir de 1998, sobretudo com clones em FM de emissoras AM já transmitidas em dada região, junto a outras FMs com programas jornalísticos e esportivos, havia toda essa pregação da "importância do jornalismo na nossa sociedade". Não que o jornalismo deixasse de ser importante ou valioso, ele o é de fato, mas o que vemos é na verdade um bando de aproveitadores que investia, via rádio FM, na overdose de informação como forma de controle social.

Aí o que se via é apenas a troca do hit-parade pelo agenda setting, que é o hit-parade da notícia. E isso num meio, o rádio FM, onde a sobrecarga informativa se torna um tanto incômoda, porque rádio FM não é imprensa escrita. O monopólio da fala, em vez de abrir as mentes dos ouvintes, os fecha cada vez mais, e cansei de ver pessoas parecendo carneirinhos sintonizadas nas chamadas "rádios AM em FM", com seus programas de jornalismo prolongado ou jornadas esportivas (que são uma espécie de "sobremesa" do showrnalismo da grande mídia).

Prefiro ver o jornalismo como se fosse uma dieta alimentícia. A informação, no sentido restrito do produto noticioso, como comida e bebida. A gente precisa dela de forma dosada. Quando excessiva, cansa. Abomino a anorexia e a bulimia informativas. O que poucos perceberam é que tanto a ausência de noticiário nas FMs quando seu excesso alienam as pessoas, tornam-se igualmente inúteis à cidadania. Daí que as mesmas FMs que, durante a ditadura militar, sonegavam transmitir notícias, nos tempos tecnocráticos de FHC passaram a despejar noticiários e debates longos, jornadas esportivas maçantes ou irritantes, porque tanto a ausência quanto o excesso do produto "informação" têm o semelhante efeito de bitolar as mentes do povão.

O jornalista, através da grande mídia, tornou-se não só o sacerdote, mas o TECNOCRATA DA OPINIÃO. A tecnocracia dá privilégio decisório aos "competentes", possuidores de habilidades técnicas presumidas, seja pelo diploma ou pelas relações de poder. O jornalista, dentro desta ideologia, é um sujeito dotado de inteligência peculiar, mas não a utiliza para servir-se à sociedade nem ajudar a esclarecer os menos esclarecidos. Sua inteligência é usada como meio de controle social. "Tenho opinião, você só será alguém se seguir o meu pensamento", diz o jornalista manipulador, não de forma explícita, porque ele não assume que controla a sociedade, como um pai autoritário que tenta conquistar a confiança da criança assustada.

Daí o deslumbramento inicial que via na grande mídia. A CBN tirava do ar, em Curitiba, a rádio de rock Estação Primeira FM? Fora uma reclamação que li numa revista de surfe, a princípio todo mundo se deslumbrava com a CBN Curitiba. Seu âncora José Wille (espécie de Heródoto Barbeiro paranaense) tornou-se um semi-deus que chegou a controlar as mentes juvenis quando aproveitado até, pasmem, em outra rádio de rock, a 96 Rock (menos criativa que a extinta EP), num programa matinal.

Era aquela época, entre 1997 e 2004, que os "grandes jornalistas" gozavam da divindade forjada, era o quarto poder que não se assumia como tal, um quarto poder que havia conquistado o poder mas fingia que estava longe de conquistá-lo. A CBN foi vista por muitos incautos como se fosse uma "ovelha negra" das Organizações Globo, e, pasmem, houve muita gente que não imaginava que a CBN era ligada à corporação dos Marinho (antes o "doutor" Roberto, hoje seus três filhos), e tratava a emissora como se ela fosse a "salvação da lavoura".

Semelhante deslumbramento foi feito, pasmem, à Rádio Metrópole de Salvador (BA), mesmo sem a estrutura jornalística da CBN. Na verdade, a Rádio Metrópole mais parece uma CBN de porre, e seu astro-rei, o proprietário e principal apresentador Mário Kertèsz, nunca teve formação jornalística nem radialista. Mas criou uma reputação e um poder sobre os baianos que assusta, tornando-se um perigo para o exercício da cidadania, representando o poder e o controle sobre a sociedade nas mãos de um incompetente que nem jornalista e radialista é, mas quer ser o "homem do rádio e da imprensa" assim mesmo.

Controlando tudo e todos, e chegando até mesmo a controlar a esquerda baiana, que depois foi traída e jogada à sarjeta, transformando num ente acéfalo a oposição baiana ao velho coronelismo do qual Kertèsz é apenas um filhote "moderno", o mesmo coronelismo comandado durante muitos anos por Antônio Carlos Magalhães. Se antes era um perigo fazer oposição política numa Bahia controlada por ACM, devido a suas ameaças de punição e perseguição, fazer oposição política na Bahia de Kertèsz também é outro perigo, pela ameaça inicial de cooptação por parte do astro-rei da Rádio Metrópole e, depois, pela furiosa traição, onde cabe espinafrar, nos microfones da rádio, pessoas como Emiliano José e Oldack Miranda, cujo antigo deslumbramento pelo pseudo-radialista criou, para os dois, uma mancha triste em suas trajetórias, pois pagaram o preço da ingenuidade e da obsessão pela visibilidade. Emiliano e Oldack deveriam aprender com os seus colegas gaúchos, que já espinafravam a "mídia boazinha" até mesmo antes dos paulistas.

Mas a principal vedete da visão "missionária" da grande imprensa foi o Grupo Bandeirantes de Comunicação. Seu discurso tratava o produto "jornalismo" como se fosse a doutrina salvadora da humanidade. Era como se, para a cúpula jornalística do Grupo Bandeirantes - principalmente na figura do chefe Fernando Mitre - , o Brasil fizesse sua "Revolução Francesa" através do "jornalismo". Isso fez do Grupo Bandeirantes um mito que garantiu até a rede Band News FM tirar definitivamente do ar a Fluminense FM, mesmo quando esta era apenas uma rádio de pop adulto.

A superioridade mítica marcou a corporação durante anos, apesar dos surtos vejistas quando o assunto é o Movimento dos Sem-Terra, que só fizeram a Bandeirantes deixar de ser flertada pela intelectualidade de esquerda, depois do mico da Caros Amigos em publicar um anúncio da Band News FM com Bóris Casoy e tudo e um colunista espinafrar o mesmo tele-radiojornalista na mesma edição.

Foi aliás com Bóris Casoy - depois revelado como um antigo gordinho que participou dos atos do Comando de Caça aos Comunistas, até mesmo no confronto da Rua Maria Antônia, em São Paulo, em 1968 - que o Grupo Bandeirantes fez derrubar a aura do "jornalismo heróico" que nem os ataques ao MST nem a presença de José Luiz Datena puderam derrubar: os comentários grosseiros de Casoy contra os lixeiros. E mostrou o lado podre da "defesa da cidadania" do Grupo Bandeirantes: a cúpula demitiu os operadores que, acidentalmente, deixaram o microfone ligado durante a transmissão da vinheta em que vasou o comentário de Casoy.

Junto a este e outros episódios - como o comentário pândego de Lúcia Hippolito, da CBN, e a desinformação de Alexandre Garcia sobre as discussões sobre direitos humanos no Brasil - , os antigos semi-deuses da grande mídia caem do pedestal, como as estátuas apodrecidas dos antigos tiranos depois de saídos do poder. A Internet, bem ou mal, virou o reduto do senso crítico que, inicialmente, incomodou pessoas influentes - mesmo "humildes internautas" que, no fundo, são meras marionetes ou vassalos da mídia - e ainda os incomoda, e o chamado "quarto poder", que não só há muito conquistou o poder como participa, com gosto, do jantar dos poderosos - o "Fórum Democracia e Liberdade de Expressão" do Instituto Millenium não nos deixa mentir - , mostra sua podridão não muito diferente da dos demais poderes da nação.

No mundo tecnocrático, o "jornalista" é um profissional acima da opinião pública, um pseudo-combatente da cidadania, para o qual o povo tem que prestar reverência e submissão. Mas, no mundo democrático, o jornalista é apenas um profissional, dotado de habilidades próprias, mas que está a serviço de uma sociedade que, em quantidade de pessoas, é muito maior que a dos jornalistas. O jornalista é parte integrante da sociedade em que vivemos, estando dentro e em função dela, e não acima dela.