segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

RÁDIO QUEIMADO


Fica minha irrestrita solidariedade ao amigo Marcelo Delfino, que compartilha comigo a produção do blog do Preserve o Rádio AM, em artigo intitulado "Órfão do Rádio".

Infelizmente o rádio está cada vez mais entregue aos interesses empresariais. A segmentação radiofônica, um projeto futurista dos anos 80, simplesmente não existe mais. Com maior ou menor nível de estragos, a tendência atinge o mundo inteiro, e a extinção do rádio AM na Holanda e na Irlanda ocorreu por pressão de grupos empresariais poderosos desses países, além dos tecnocratas do rádio.

Entregue aos interesses financeiros, seja na veiculação do hit-parade mais rasteiro, seja na overdose de informação ou mesmo no showrnalismo esportivo, político e econômico, além de programas de besteirol ou mesmo pastiches de programas de comunicador (que deixariam o mestre Haroldo de Andrade com vergonha), ou mesmo no empastelamento da segmentação (como o radialismo rock, estuprado sem dó e a sangue frio pelas rádios 89 FM e Rádio Cidade, nos anos 90), o rádio se distancia cada vez mais do ouvinte, enquanto seus executivos tratam o público como se fosse um gado a aceitar a "ração" que lhe for dada.

Se até rádios que se comprometem a tocar a autêntica Música Popular Brasileira cada vez mais se vendem ao universo rasteiro da Música de Cabresto Brasileira que já toca em outras rádios, é sinal de que muita coisa está errada, e não adianta desmentir ou "relativizar", tal qual os "ezecutivos" do rádio, que imaginam que o errado de hoje será considerado um acerto amanhã. Sem perceber que o ouvinte da MPB FM de amanhã irá abandoná-la de vez se na programação diária ou nos "Clássicos MPB" rolar Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, É O Tchan, Calcinha Preta e Gaiola das Popozudas. Risco que, infelizmente, está próximo de acontecer, transformando oa MPB FM num requentador de sucessos da Nativa FM e da Beat 98.

Mas também não existem mais reportagens na imprensa sobre rádio, ao menos com a frequência que era antes, com "gerentes artísticos" fazendo demagogia, para promover programações duvidosas ou de certa forma restritivas (como uma FM de notícias que desaloja rádios autênticas de rock ou rádios decentes de pop adulto). O ponto positivo é que o senso crítico dos radiófilos de hoje é bem superior ao de 15, 20 anos atrás, quando havia conformismo e até deslumbramento, até mesmo com rádios pseudo-roqueiras. Antigamente, havia quem justificasse qualquer vacilo de uma rádio, hoje esse vacilo dificilmente sai sem reprovação da maioria dos radiófilos.

Infelizmente, os estúdios de rádio se tornaram verdadeiras clausuras. A ganância empresarial e a insensibilidade dos diretores e gerentes é notória. Isso, em todo o Brasil, ocorre de forma bem mais dramática que no resto do mundo, onde há mais exceções dotadas de inteligência, criatividade e respeito ao público.

No Brasil, porém, impera o interesse particular, e neste país há a grande mania dos interesses minoritários eventualmente prevalecerem sobre o interesse da maioria, os interesses particulares se julgando acima do interesse público. Foi devido a isso que tivemos uma ditadura militar que deixou o país em profunda crise de valores. E, nos meios de comunicação, isso não é diferente.

Lamentavelmente, o rádio perdeu a sintonia com o ouvinte. Que responde desligando o rádio e vivendo sua vida.