sábado, 20 de fevereiro de 2010

A ESTERILIDADE DOS BREGAS-POPULARESCOS NÃO SUBSTITUIRÁ JAMAIS A MPB


CHICO BUARQUE DE HOLANDA - O cantor e compositor foi e continua sendo um dos grandes criadores da MPB. Do contrário dos ídolos brega-popularescos, que se tornaram grifes estéreis que só servem para lotar plateias.

Podem rosnar, grunhir, latir e resmungar os defensores de Alexandre Pires, Ivete Sangalo, Vítor & Léo, João Bosco & Vinícius, Zezé di Camargo & Luciano e todo o "funk carioca" que seu reacionarismo não vai prevalecer. No fim, chorarão pelos cantos porque a constatação, obtida de forma realista e isenta de qualquer tendenciosismo, não pode ser outra: o brega-popularesco é musicalmente estéril.

Não dá para colocar os maiores ídolos da Música de Cabresto Brasileira - aquela "música de sucesso" que aparece facilmente na grande mídia e em rádios tipo Nativa FM e Band FM - como se fosse a "nova geração da MPB" ou o "futuro da cultura popular brasileira" porque simplesmente não há condições para tal.

Os maiores ídolos do breganejo, do sambrega, da axé-music, do "funk" e outros só conseguem ter, no máximo, três grandes sucessos. Que, musicalmente, são muito fracos, o que mostra que teve muito jabaculê por trás, além daquela impressão de aparente novidade.

Geralmente, depois de cinco anos, esses ídolos partem para o pedantismo, banho de loja, de tecnologia etc. Cria-se um aparato de grandeza e esses ídolos se apresentam em grandes eventos como se fossem os "grandes artistas". Mas, como criadores, eles são totalmente insignificantes. E isso não é declaração de ódio, nem de qualquer desaforo. Isso se observa mesmo, friamente, tal como um médico diagnostica alguma doença depois de um exame.

As maiores duplas "sertanejas", os maiores cantores de "sertanejo romântico" ou "pagode romântico", as maiores cantoras e os maiores grupos de axé-music e os maiores nomes do "funk carioca" e do "forró-calcinha", nos últimos anos, simplesmente NADA criaram depois de seus grandes sucessos que, musicalmente, já são muito débeis, mas valiam pela "novidade". Todos eles, sem exceção, se limitaram a gravar qualquer coisa de algum desses tipos:

- MÚSICAS ROTINEIRAS DE TRABALHO - Músicas inéditas de trabalho, meros sucessos rotineiros tocados em rádio mas que nunca deixam marca alguma, e mesmo a maior parte dos fãs não consegue saber qual o título e as próprias músicas caem no esquecimento no decorrer do tempo.

- COVERS EM ÁLBUNS DE CARREIRA - Sem qualquer pretexto nem motivo relevante, muitos discos dos ídolos popularescos têm metade do repertório de covers, do brega mais rasteiro ao clássico manjado da MPB autêntica. Tudo gravado aleatoriamente, mas de forma tendenciosa, para disfarçar a impotência do ídolo popularesco em produzir um álbum inteiro de inéditas.

- TRIBUTOS DE MPB - A inclusão oportunista de ídolos popularescos em eventos tributo à MPB, junto à gravação de covers em discos de carreira, são um recurso de pedantismo que faz com que o ídolo brega-popularesco tenha uma falsa reputação de "grande nome da música brasileira". Há duplas breganejas que se autopromovem com isso, disfarçando seu fraquíssimo repertório autoral, como forma de atrair a confiança (ou credulidade?) dos cantores de MPB sem fazer muito esforço. Mal comparando, é como se um aluno medíocre da escola fizesse seus trabalhos de aula apenas copiando trechos dos livros consultados e quisesse ser considerado gênio de qualquer maneira.

- DISCOS DE DUETOS OU PARTICIPAÇÕES COM OUTROS MÚSICOS - Faz-se dueto ou participação em tudo que é evento. No entanto, tem que se relacionar com um certo tendenciosismo. Por exemplo, os ídolos da axé-music costumam se apropriar de outras tendências musicais do que os de outros estilos popularescos. Músicos de sambrega não têm esta facilidade. Mas, em todo caso, vemos grupos de sambrega bajulando sambistas veteranos, duplas breganejas gravando com orquestra e maestro tais, cantor de axé-music duetando com medalhão da MPB, ou mesmo cantor de sambrega duetando com breganejo, breganejo duetando com cantora de axé-music, cantora de axé-music duetando com cantor de sambrega. Tudo para dar a falsa impressão de camaradagem ou de reverência aos mestres.

- CDS E DVDS AO VIVO - Não perceberam que, do final dos anos 90 para cá, os ídolos popularescos lançam cada vez mais discos ao vivo, não raro um atrás do outro? E todos eles com os mesmos hits e semi-sucessos (as tais músicas de trabalho rotineiras, que só são "grandes sucessos" para fãs incondicionais, desses que aplaudem até espirro de cantora de axé-music). Um verdadeiro artista geralmente só lança um LP ao vivo quando já trabalhou algum repertório sólido em vários LPs. Mas o ídolo popularesco, com medo de enfrentar sucessivas sessões de estúdio, e desesperado em alimentar seu marketing pessoal, faz sucessivos CDs e DVDs ao vivo, que, tecnicamente, contém os impagáveis overdubs. A presença, real ou virtual, de uma plateia ao vivo (em CDs de breganejos ou grupos de sambrega, não obstante os "gritos histéricos" das fãs são em parte gravados em estúdio).

Artistas de verdade gravam covers, discos-tributos, duetos, CDs e DVDs ao vivo, gravam com outros músicos etc. Mas não o fazem de forma exageradamente constante, desesperada ou tendenciosa. Já os ídolos popularescos, desesperados diante do compromisso de estar sempre em alta na mídia, de lançar CDs só para dizer que trabalham alguma coisa, apelam para repertórios alheios porque, além de não produzirem coisa alguma relevante, querem se autopromover com o que já foi feito e de grande valor.

Vamos comparar a esterilidade artística dos ídolos popularescos com um cantor da MPB autêntica como Chico Buarque.

Só levando em conta os primeiros vinte anos de carreira fonográfica, entre 1966 e 1986, Chico Buarque acumulou centenas de clássicos. Todos mantendo a excelente qualidade melódica e poética que o consagrou. Citar quais são seus clássicos seria alongar demais o texto, e olha que, passado esse tempo, ele continua sempre fazendo excelentes canções - "Paratodos", só para citar uma delas - que seguramente irão durar a posteridade.

Compare Chico Buarque com Alexandre Pires. Juntando a experiência do grupo Só Pra Contrariar com a carreira-solo, ele tem 20 anos de estrada. Agora, qual é o maior clássico dele? Nenhum. E seus sucessos? Umas três músicas, que o grande público mal consegue decorar os títulos, na carreira do Só Pra Contrariar. Solo, a coisa é pior, porque o que existe são apenas versões de música estrangeira e músicas rotineiras de trabalho.

Ou seja, como é que um dos ditos "maiores cantores" da atualidade se sobressai sem alguma música que seja marcante? Como um cantor desses trabalha um carisma assim, do nada? Não adianta os mais fanáticos dizerem as músicas menos conhecidas, porque o que interessa é se o grande público realmente conhece essas músicas.

Também Chitãozinho & Xororó nunca teve uma música própria que marcasse. Os grandes sucessos deles eram todos covers e foram gravados entre 1987 e 1991. Depois, nada, simplesmente nada. Nem mesmo as músicas rotineiras de trabalho, de tão fracas. Zezé Di Camargo & Luciano só tiveram "É o Amor", o resto são covers ou uma coleçãozinha de musicas de trabalho, só memoráveis para quem é muito fanático pela dupla.

Até o Rock Brasil, por mais controverso que seja, tinha um repertório autoral mais consistente e marcante, e os intérpretes não ficavam enrolando a mídia. Havia força artística, e os melhores artistas tinham seu carisma natural, sem precisar de mídia nem de defensores ultra-reacionários.

Será que vamos ficar 55 anos aguentando isso? Cantores e grupos que não produzem coisa alguma e acham que vão alcançar o primeiro time da MPB gravando covers da música brasileira autêntica. Só isso lhes dá uma grande desvantagem diante dos "burgueses" da MPB autêntica porque é a música deles que é reconhecida.

Não adianta dizer que "É o Amor" foi gravada por Maria Bethania, que "virou clássico", porque isso não convence. Aquilo foi uma questão de lobby, porque a essas alturas o brega-popularesco, aliado às rádios apadrinhadas por José Sarney, Antônio Carlos Magalhães e Fernando Collor de Mello, tinha bons aliados na mídia gorda. Além disso, "É o Amor" é uma música fraca, sem pé nem cabeça, que não consegue ser bolero, nem música caipira, nem MPB, nem seresta, apesar da pretensão de querer ser tudo isso.

A verdadeira música fala por si só. Não são as plateias lotadas que falam pela música. Não são os discos vendidos, nem o cartaz na mídia. A música fala por si mesma, por ela. Não dá para enganar.

Se o grande ídolo popularesco é medíocre, também não são os reacionários defensores dele que irão salvar sua reputação. Pelo contrário, os defensores de Alexandre Pires, Zezé Di Camargo & Luciano, Ivete Sangalo e outros põem tudo a perder com sua defesa agressiva que ofende os opositores desses ídolos. Pois a fúria se converte na má imagem que os defensores desses ídolos passam para a opinião pública e que representará fracasso maior para esses ídolos do que qualquer crítica racional do repertório deles.

A Música de Cabresto Brasileira tem esse nome por causa disso. Ídolos medíocres que tentam entrar na MPB às custas de compadrismo, jabaculê e apoio da grande mídia. Apoio que nenhum Eugênio Raggi irônico, com textos cansativos e violentos, consegue desmentir.

Quem não cria música brasileira, quem não produz coisa alguma de relevante e marcante - não adianta fazer sucesso num ano se a música se apaga do ano seguinte em diante - e só fica sugando o repertório alheio, não terá seu lugar reservado à posteridade. A esterilidade artística dos ídolos brega-popularescos não substituirá os antigos medalhões da MPB autêntica que fizeram seu êxodo das grandes gravadoras. Porque a arte fala por si mesma, e a falta de arte também grita sua gravidade, sua mediocridade, seu pretensiosismo. E o grito da mediocridade não pode ser abafado pela campanha midiática que hoje cerca os ídolos popularescos.