domingo, 14 de fevereiro de 2010

AXÉ-MUSIC: O MERCADO DA ILUSÃO


Não sou contra Carnaval. Não sou contra festas. Mas dá para perceber que há algo estranho no mundo fantasioso do Carnaval baiano, da sua indústria imperialista, do seu poder maquiavélico de barrar, em Salvador, as demais expressões culturais, enquanto, por outro lado, seu império axezeiro quer conquistar terrenos e espaços que não lhe são típicos nem apropriados.

Que as pessoas gostem de axé-music, vá lá, mas seus defensores não suportam sequer as críticas mais construtivas. O fanatismo axezeiro de uns, aliado ao fato de que vários defensores de axé-music trabalham para assessorias dos próprios blocos envolvidos, é assustador e doentio e desmente todo o valor de alegria atribuído ao estilo.

Afinal, que "alegria" é essa se, na menor contrariedade, se transforma na raiva mais ranzinza?

A axé-music é o mercado da ilusão. Transformou o carnaval baiano numa máquina capitalista, que soa risível que haja fãs de axé-music que se autoproclamam "esquerdistas". Tinha até uma comunidade "chicleteiros esquerdistas" no Orkut, coisa digna de um FEBEAPÁ.

Antigamente o carnaval baiano era legal. Era alegria autêntica e até o primeiro trio elétrico surgido, a fobica, aquele carrinho montado humildemente por Adolfo Nascimento (Dodô), Osmar Macedo e Temístocles Aragão em 1950, em Salvador. Havia blocos carnavalescos espontaneamente formados, com expressão democrática, humildade, tudo. O Afoxé Filhos de Gandhi é um espetáculo no melhor sentido da palavra.

E havia sambas, frevos, afoxés, nada dessa arrogância megalomaníaca dos grupos de axé-music atuais, que se autoproclamam donos da música brasileira, a ponto de, se uma cantora de axé-music quiser gravar num tributo aos Ratos do Porão, temos que aceitar e, se algum de nós reclamar, ainda recebe réplica reacionária de um fã ou assessor da cantora e, quem sabe, um e-mail "amistoso" dotado do mais violento vírus de computador.

O grande problema é que a axé-music é prepotente. Megalomaníaca, superproduzida, milionária, ilusória, arrogante. Parafraseando Arnaldo Jabor - apesar dele andar meio direitista ultimamente, algumas ideias dele são boas - no comentário sobre os filmes de Jean Manzon, é aquela alegria tão grande que agride.

É uma "alegria" totalitária, fascista, uma ilusão obsessiva que lembra A Fantástica Fábrica de Chocolate, aquele mundo cheio de doces que escondia muitas armadilhas.

Daí que acho até um desaforo que, por exemplo, um nerd seja apresentado a esse universo de namoro fácil e garantido da axé-music. O mundo dos beijos na boca, a fábrica de chocolates axezeira. Prefiro ficar em casa, na minha paz. Isso porque as lindas gatas do universo axezeiro não parecem grandes pessoas. Além disso, eu valorizo o aspecto do caráter, e quem realmente é bom ou justo dentro de um ambiente de muita ilusão, de muita libertinagem?

Sou realista, e o mundo da axé-music é perigoso por essa ilusão obsessiva, por esse mundo fantasioso onde a alegria tirânica parece imensa e interminável, até que alguém venha questionar essa ilusão e o mundo axezeiro reage com a mais violenta fúria. Uma fúria que mostra o lado sombrio dessa "alegria interminável". Uma alegria narcótica, uma alegria alienante, dopante, uma alegria que cega. E cujo sentido verdadeiro de alegria se anula completamente.

Todo carnaval tem seu fim, dizia um Marcelo Camelo em momento de lucidez, apesar de estar condescendente com a axé-music. E, quando o carnaval imperialista da axé-music é programado para nunca mais ter fim, seu fim definitivo será muito mais cruel e dramático como cruel e dramática é essa alegria ilusória que nos entristece.