terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

SÃO PAULO TEM 42º DIA SEGUIDO DE TEMPORAL


São Paulo, 1998 - dois jovens "rebeldes", típicos ouvintes da 89 FM, frequentadores de boates da moda, autoproclamados "conscientizados" e "diferenciados", mandam mensagens pela Internet:

Jovem 1 - Pô, brou, ninguém merece, esse papo de ecologia num tá co' nada.

Jovem 2 - Podicrê, meu, na moral. Gente muito chata.

Jovem 1 - Cara, tá o lixo a um quilômetro de mim e tenho que fazer viagem pra botar uma lata de cerveja no lixo? Ninguém merece.

Jovem 2 - E aqueles malucos pedindo para salvar as baleias. Tudo bando de otário.

Jovem 1 - Pois é. Desperdício total. Que mal tem o cara queimar mato? O cara só tá arrumando terreno pra sua casa, brou.

Jovem 2 - E aqui tá poluído há anos e eu nunca fui pro hospital, véio, tá ligado? A galera toda respira fuligem e ninguém sofre nada.

Jovem 1 - Pois é, brou. Nem sei quem foi esse tal de Chico Mendes.

Jovem 2 - Nem eu, véio. Meu mestre é Axl Rose, meu.

Jovem 1 - Sóóóó...

Jovem 2 - Podicrê, véio.

2010. Nenhum dos dois jovens está vivo. O Jovem 1, usuário de drogas, faleceu de overdose em 2004. O médico constatou que a poluição também agravou o organismo da vítima, que tornou-se menos resistente aos efeitos devastadores de uma overdose.

Já o Jovem 2 morreu em 2007, quando, embriagado, dirigiu um carro em alta velocidade numa avenida no Morumbi, com quatro amigos. Todos esses amigos também morreram.

Os dois jovens não viveram para sentir o drama das tempestades que atingiram São Paulo em dias consecutivos, com trovoadas, enchentes e outros transtornos e tragédias. Tudo por causa da falta de uma consciência ecológica (vista por eles como "ecochata").

Mas, se os dois jovens estivessem vivos até algumas horas atrás, teriam morrido afogados em uma enchente pela simples imprudência deles de enfrentar sérios transtornos. Transtornos que eles nunca imaginariam acontecer, porque eles eram insensíveis.

CHICO SCIENCE


Em 1997, Chico Science se foi. Era o principal músico e agitador cultural do mangue beat de Recife. Liderava o grupo Nação Zumbi. Morreu às vésperas do Carnaval. Inveja por parte da axé-music? Talvez, a axé-music nunca teve a criatividade genuína de Chico Science, apesar de ter o poder de mídia maior do que ele.

O mangue beat chegou a estar em crise. Mas a MPB recifense continua resistindo, apesar da invasão do forró-calcinha (sob o apoio dos ruralistas nordestinos). Os garotos-mangues seguem em frente, e Chico Science pode ficar tranquilo que o grupo Nação Zumbi vai muito bem, tendo agora o amigo e parceiro Jorge Du Peixe, percussionista do CSNZ, como vocalista. Musicalmente o grupo hoje segue coeso e fiel às lições do fundador.

Todo Carnaval tem seu fim. Mas os verdadeiros carnavais continuam, vivem sempre. O carnaval de Chico Science continuará vivo. O legítimo carnaval recifense, sem firulas marqueteiras, também. E o esquecido Carnaval de Salvador, há muito substituído pela axé-music tropicarlista, renascerá das cinzas do arrogante marketing axezeiro.

Fica a lembrança de Chico Science, sua breve trajetória e sua poderosa lição, que certamente sobreviverá à morte dele e ao decorrer do tempo, do contrário de axezeiros que barram tudo que não é axé-music em Salvador, mas se apropriam de tudo que não é axé-music no resto do país e do mundo.

Valeu, Chico Science!

GUIMARÃES ROSA CHEGOU A PERDER CONCURSO LITERÁRIO


Lembrou o falecido escritor e acadêmico Josué Montello, no seu livro de memórias Diário da Manhã, que um dos primeiros livros do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), o poético Magma, de 1936, perdeu a colocação para um outro poeta, que, na época, foi bastante badalado ao vencer o concurso. No entanto, este poeta, estrela maior no seu tempo, hoje tornou-se esquecido, profundamente esquecido.

Por outro lado, Guimarães Rosa, o preterido, obteve a verdadeira vitória da posteridade, tendo recebido o justo reconhecimento como um dos maiores escritores brasileiros.

Fico imaginando a música brasileira de amanhã, quando o fôlego publicitário dos ídolos popularescos se esgotar, quando ficará cada vez mais difícil para eles continuarem enrolando a gente por 55 anos ou mais, com sua pseudo-MPB que lota rodeios, micaretas, "bailes funk", programas de auditório. Hoje eles são badalados, mas amanhã...É bom esses ídolos se prepararem para o inevitável ostracismo.

PNDH OU NÃO-PNDH - EIS A QUESTÃO


O projeto é polêmico, despertando amores e ódios. Uns associando o projeto ao esquema político governamental, e muita gente desinformada sem saber para que serve este projeto.

Bom, nós apoiamos o PNDH-3, não por acharmos a perfeição das perfeições, mas uma forma de discutirmos e esboçarmos um projeto para os direitos humanos, nem sempre respeitados no nosso cotidiano. Qualquer coisa que seja construtiva para nossa sociedade é válida.

Não acreditamos que o PNDH-3 seja um projeto para atender a vaidades políticas dos governantes e parlamentares. Várias entidades sociais, dos diferentes planos ideológicos, estão envolvidas nos debates. Com base nisso, como definir o PNDH como "governista", "tendencioso" ou "faccioso"? Não há como.

Direitistas raivosos e esquerdistas revoltados condenam o projeto. Os primeiros acusam o projeto de proteger a desordem atribuída a certos grupos de trabalhadores. Os segundos, de atender aos interesses do grande capital.

Se o PNDH, para estes dois blocos macro-ideológicos, não tem validade, então quais suas propostas para os direitos humanos? Que direitos humanos eles querem? Liberdade desregrada de nossa mídia? Fim do policiamento nas favelas? Tratar adolescentes criminosos como criancinhas inocentes? Liberar o capital estrangeiro até para as estatais brasileiras?

Fazer falar é fácil. A esquerda viciada só quer reclamar, como a direita que não quer perder seus privilégios também. Reclamar é bom, mas ter projetos ou propostas, é melhor ainda.

Afinal, o que são direitos humanos para quem nega o PNDH?

GRANDIOSIDADE DE ÍDOLOS BREGA-POPULARESCOS É FICTÍCIA


CHITÃOZINHO & XORORÓ - Falsa grandiosidade da dupla de música brega a fez apresentar até com orquestra em evento filantrópico.

A grandiloquência dos chamados medalhões do brega-popularesco, alimentada pelo constante e incessante esquema de marketing da grande mídia, dá a esses ídolos uma falsa reputação de "nobres", uma imagem falsamente grandiosa deles. Para complicar, o êxodo dos artistas da MPB autêntica faz com que os medalhões do brega-popularesco, inseridos num contexto de pedantismo que os fez gravar até em tributos a antigos mestres da MPB, se tornem a falsa MPB promovida pela indústria fonográfica. Se não tem Milton Nascimento, os "ezecutivos" das gravadoras vão com Alexandre Pires.

Pois esses ídolos, falsamente grandiosos, falsamente respeitáveis, além de serem verdadeiras nulidades artísticas, disfarçando o péssimo repertório autoral com covers e duetos relacionados à MPB autêntica (uma cover do Clube da Esquina ou da Bossa Nova aqui, um dueto com Alcione ou Renato Teixeira ali), estão bem abaixo da imagem que representam através das lentes da mídia.

A grandiosidade deles é fictícia. Eles não têm uma música marcante, quando muito apenas um grande sucesso feito às custas de muito jabaculê, e uma porção de músicas de trabalho esquecíveis que só servem para realimentar aquele primeiro e único hit. Fora todo recurso que esses ídolos, cantores ou grupos de axé-music, duplas breganejas, cantores ou grupos de sambrega e outros, fazem para manter a alta popularidade num mercado jabazeiro que nem todos enxergam existir.

Por isso é que aqui insistimos neste questionamento. Ídolos de massa, aqueles "grandes nomes da música" que hoje aparecem na TV e nas rádios, não conseguem emplacar uma música nova de sucesso, e por isso fazem tudo: apresentações em cruzeiros marítimos, gravações de covers de MPB, participações em tributos musicais diversos, reportagens em Caras, aparições constantes e em rodízio no Domingão do Faustão, duetos com quem quer que seja, factóides como falsas crises conjugais ou coisa parecida.

Mas não adianta disfarçar. A mediocridade musical deles é gritante. Eles são ricos o bastante para se manterem em alta na mídia. E tem apoio de muita gente rica, de latifundiários e donos de supermercado até executivos de redes de rádio FM e televisão. À menor ameaça de ostracismo, eles lançam uma nota paga do tipo "banda de axé-music arrasta multidões em Santa Emengarda do Passa Dentro", "dupla sertaneja comove multidões no interior de Goiás". Como um jogador que lança uma carta estratégica num jogo de baralhos.

Só que a posteridade não reserva lugar para eles. E também não será possível que eles fiquem 55 anos tentando provar para a gente que "são bons". Até porque eles já provaram que são ruins. Mesmo abraçando fãs, estendendo as mãos para a plateia, deixando o público cantar junto etc. O que vale é a arte, é a qualidade artística, e, se ela é ruim e nula, não adianta vir etnólogo, professor mineiro, divulgador de breganejo disfarçado de internauta comum ou historiador de brega falar em "preconceito", "inveja", "moralismo estético" contra nós.

O que vale é a análise objetiva que nós, que lidamos com informação, fazemos. Se a música deixa de falar por si mesma e, de tão medíocre, se submete ao marketing para sobreviver, ela perece facilmente. Pode durar anos enquanto o marketing consegue enganar, mas com o tempo isso cansa. E aí a grandiosidade fictícia dos ídolos popularescos não vai conseguir enganar, porque eles nada fizeram de relevante, tudo aquilo que eles fazem para manter o sucesso se perderá na mesmice e na inconsistência de seus trabalhos.