domingo, 24 de janeiro de 2010

POR QUE A INTELECTUALIDADE DEU PARA GOSTAR DE MÚSICA BREGA?


Por que intelectuais, jornalistas e até ativistas sociais no Brasil passaram a gostar da música brega e de todos os seus derivados, mesmo as tendências "modernas" do neo-brega (sambrega, breganejo, axé-music, forró-calcinha e "funk")?

Porque "redescobriram" a "verdadeira cultura popular"?

Não. É por puro paternalismo etnocêntrico para com o povo.

Primeiro, porque o brega-popularesco, que reúne bregas e neo-bregas, não é a autêntica cultura popular. É apenas o equivalente brasileiro ao hit-parade mais comercial e artisticamente fajuto que faz sucesso na mídia dos EUA.

Segundo, porque essa intelectualidade sempre viveu no seu autismo social, vendo o povo de longe. Essa intelectualidade e seus similares só viam o povo pelo binóculo, sentados em seus confortáveis sofás, nos seus condomínios de luxo, fazendo etnografia de butique que, como retórica, é uma das coisas mais lindas que se ouve e se lê hoje em dia, mas que, no sentido prático, não passa de um monte de mentiras misturadas com meias-verdades.

Essa intelectualidade e seus similares só ouviam MPB autêntica dentro de suas festas. Acham que a música de Tom Jobim alcançava até mesmo o pobretão ribeirinho do interior do Amazonas. Os pobres amazonenses, coitados, mal tinham condições de conhecer, mesmo vagamente, os nortistas Billy Blanco e João Donato, quanto mais o Antônio Brasileiro que nos brindou com quase quarenta anos de música.

Por isso só essa intelectualidade, seus similares e um monte de gente desinformada e bitolada em seus julgamentos (equivocados) de valor, é que a música brega é a novidade e a MPB autêntica - eles esnobam a autenticidade artística - é que se esgotou. Estão felizes quando veem Djavan, Milton Nascimento, Gal Costa e João Bosco (o verdadeiro, o da MPB, não o integrante do sertanojo universotário) desaparecendo da programação das rádios.

Hipócritas - tão hipócritas que, com alarde suspeito, dizem condenar toda hipocrisia - , eles falam em "verdadeiros valores culturais", "ruptura de preconceitos", "recepção ao novo" (?!), quando o assunto é música brega ou neo-brega.

Criam toda uma retórica linda para seduzir a opinião pública, arrancar aplausos, louvores etc. De Paulo César Araújo ao dirigente funqueiro, passando por Hermano Vianna, Bia Abramo, Milton Moura, Eugênio Raggi e outros, é a demagoga defesa da mediocridade cultural, tudo a pretexto de que "é o que o povo sabe fazer", que seduz e fascina as pessoas desprevenidas da armadilha que está por trás desse discurso.

Para essas elites, bom é ver o povo reduzido a uma massa passiva, patética, tola, que não sabe fazer arte e que apenas temos que fingir que sua arte medíocre é "superior". "É o que o povo sabe fazer". Faz-de-conta que essa mediocridade cultural é igualzinha à grandiosa canção popular de até 50 anos atrás. Tudo para sustentar uma ideia de "povo" que pode parecer generosa, solidária e imparcial, mas que na verdade não é mais do que o mais puro paternalismo etnocêntrico que as elites cansadas de tanto pensar no nosso país expressam em torno da situação da nossa canção popular.

O CARÁTER GOLPISTA DA MÚSICA BREGA


Enquanto os defensores da música brega e todos os seus derivados - não devemos nos esquecer que até a axé-music e o "funk carioca" (FAVELA BASS) são derivados da música brega - classificam esse universo como se fosse "a verdadeira rebelião popular da História do Brasil", a máscara cai quando vamos analisar a fundo o que realmente é a música brega, que durante tempos foi chamada apenas de música cafona.

A música cafona tem suas origens no interior do país. Seus artistas, evidentemente, precisavam de espaço de divulgação e de tutela para suas carreiras. Quem é que tutelava eles, pobres mendigos? Gente que não tinha dinheiro para criar um armazém e instalava serviços de auto-falantes, relativamente caros naqueles idos de 1958-1964?

Não, os primeiros ídolos bregas eram respaldados por empresários ligados ao poder econômico dessas cidades - os latifundiários - e a rádios que respaldavam esse mesmo poder dominante. Não é preciso ter a "paranóia" de uma Luciana Genro para pensar assim, porque os fatos mostram a realidade dura e crua.

A música brega, em si, é a forma com que o poder dominante trabalha para controlar socialmente o povo pobre. Isso não é teoria conspiratória. Basta fazer uma associação entre o poder político econômico, o poder midiático e os cantores e grupos envolvidos para chegar a essa conclusão.

Note o que era o "cenário" da ideologia brega, com base nas suas letras, no seu lazer, e o papel que a mesma ideologia reservava ao povo pobre:

- A prostituição permanente das mulheres;

- O alcoolismo dos trabalhadores e também dos idosos, como forma passiva de lamentação dos problemas pessoais;

- A música expressa por vozes frouxas, por músicas muito mal compostas, influenciadas sempre em modismos já passados;

- O comércio clandestino de produtos contrabandeados;

- O sub-emprego, sem qualquer garantias trabalhistas;

- Serviços de Educação e Saúde totalmente deficitários.

Esse é o cenário do povo observado na "tão saudável" ideologia brega. A mesma ideologia tão defendida, nos últimos anos, por parte da intelectualidade e até mesmo de algumas personalidades progressistas, que acabaram traindo com seus antigos papéis históricos.

É essa "cultura popular" que as elites golpistas, sob o consentimento de outras elites, até mesmo aquelas que em tese criticariam o golpismo, que deixa o povo na sua eterna miséria. É uma "cultura" que se baseia não na visão de povo vista pelo grande pesquisador Mário de Andrade, mas pelo esnobismo fascista de um Justo Veríssimo (sátira de um fascista tropical criada pelo genial Chico Anysio).

Essa "cultura" do brega, tão louvada, tão exaltada, tão endeusada! Tão vangloriada pelos intelectuais que, no seu autismo, parece que cansaram de ouvir MPB autêntica! Tão estimulada pela mídia gorda, sem que qualquer pessoa, salvo exceções, perceba.

O cinismo é tamanho que, enquanto as prostitutas cientes de seus problemas sociais querem sair desse sub-emprego para irem à escola, para depois virarem professoras, costureiras, cozinheiras, comerciantes, médicas, cabeleireiras, garis, e outros empregos mais dignos, o "sistema" se limita a transformar a prostituição num emprego permanente, com carteira assinada e tudo, tudo para garantir o recreio sexual dos demagogos "Cientistas $ociai$" há muito divorciados.

A ideologia brega funcionou como um verdadeiro complemento interiorano, rural ou suburbano, do Golpe de 1964 e do AI-5. Enfraqueceu culturalmente o povo. Criou-se uma "cultura da mediocridade" que a visão etnocêntrica de intelectuais paternalistas cinicamente classifica de "verdadeira cultura do povo".

Não é preciso identificar esse etnocentrismo enrustido da intelligentzia. Quando nós criticamos a mediocridade gritante de bregas e neo-bregas, esses intelectuais tendenciosos, com total arrogância e esnobismo, nos aconselham a desprezar a estética artística e ainda afirmam que "é isso que o povo sabe fazer".

Isso é puro sentimento de cinismo, o dos defensores da música brega. Claro, esses defensores vivem em condomínios de luxo, para eles o sertão e os subúrbios são apenas paraísos em cenário de pedreiras ou aterros sanitários. Eles ficam felizes quando o mendigo se embriaga e balbucia um bolero malfeito que ouviu no rádio. Ficam felizes quando o menino pobre rodopia seus glúteos agachado ao chão. Mas expressam um sentimento de desdém quando famílias pobres perdem seus parentes num deslizamento de terra, ou um sentimento de pavor quando pobres põem barricadas nas rodovias em protesto contra a falta de uma passarela ou sinalização de trânsito.

A ideologia brega é a ideologia do golpismo cultural. Como tínhamos que descer de Ataulfo Alves, João do Vale, Luiz Gonzaga e Cartola para cantores de falsos boleros de vozes muito fracas e letras resignadas? A intelectualidade que apoia o brega deveria lavar suas bocas com sabão, de tanta demagogia que promovem. Dizem serem solidários com o povo, mas o desprezo deles não é lá muito diferente do de Bóris Casoy.

Tirem suas máscaras de bonzinhos. Se querem que o povo se exploda, defensores do brega, parem de falar meias palavras. Assumam seu golpismo de vez, antes que alguém lhes pegue falando mal de empregadas domésticas, agricultores, analfabetos e desempregados.