segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Os limites da direita democrática


Evidentemente, quando algum governo esquerdista fica um bom tempo no poder, ele se desgasta e forças direitistas começam a reascender e ganharem os pleitos eleitorais. Nada demais. É normal até mesmo dentro do regime democrático, a alternância de forças esquerdistas e direitistas, desde que tenham vocação democrática.

Cabe no entanto as pessoas terem muita cautela quanto à posição ideológica. É certo que não se deve festejar o crescimento de forças tipo os governos bolivarianos de Hugo Chavez e Evo Morales, que consistem, na verdade, no requentamento de um projeto político apodrecido, de linha castrista-leninista, temperada com o sabor caudilhesco do despotismo sul-americano (que, no século XIX, teve como exemplo o governo de Solano Lopez no Paraguai, abatido em 1870 por uma ação bélica de tropas do Brasil, Argentina e Uruguai sob o comando da Inglaterra). Um despotismo que, do anedotário popular, ganhou a imagem satírica do general populista com a farda cheia de medalhas.

Por outro lado, deve-se haver cautela quanto a governos direitistas que se consideram "democráticos". Até porque é mais raro haver um direitista democrático do que um esquerdista democrático, embora também não seja raro haver esquerdistas corruptos ou autoritários.

Pois no pleito eleitoral de ontem, no Chile, a maioria dos chilenos escolheu o empresário Sebastian Piñera para sucessor da esquerdista Michele Bachelet, eliminando as chances de Eduardo Frei voltar ao mandato presidencial. Frei, rival de Piñera, admitiu derrota e cumprimentou o rival vitorioso. Michele Bachelet também admitiu a vitória do direitista.

Sebastian Piñera é também economista. Formado em doutorado, ele também foi professor universitário e senador. É acionista da companhia aérea LAN e possui investimentos nas áreas de mineração, imobiliária e saúde. Ele prometeu realizar projetos em prol da "economia social de mercado", com ênfase nos empregos.

DIREITISTAS DEMOCRATAS SÃO RAROS

A direita política tem sua tradição nas ideias do Iluminismo francês e na economia da Revolução Industrial. Ironicamente, sua origem remete ao status "esquerdista" que a burguesia teve na Idade Média. O desenvolvimento do comércio e da tecnologia fizeram ascender a classe burguesa, e o capitalismo iniciou sua trajetória com injustiças, como a exploração desumana dos trabalhadores, a princípio sacrificando até mesmo mulheres e crianças.

Só no decorrer do tempo vieram leis que protegessem os trabalhadores, as mulheres e crianças (que seriam dispensadas do trabalho pesado e degradante), dos aposentados etc. Vieram políticas salariais menos injustas, vieram encargos que incluíam até plano de saúde e outras garantias.

No entanto, apesar disso, a ideologia capitalista é caraterizada pela concentração de renda e de poder dos grupos privilegiados (empresários, executivos, profissionais liberais). Defende o princípio do Estado mínimo, de preferência enxuto para atender aos interesses das elites dominantes. A direita política, através da ideologia capitalista, não acha impossível a efetivação de reformas sociais em benefício das classes subalternas, mas estas reformas devem ser feitas de forma que mantenham a estrutura de privilégios.

A ideologia socialista, no entanto, é diferente disso. Requer a ruptura com estruturas dominantes do capitalismo, o controle estatal mais rígido e, em tese, a ascensão sócio-econômica do operariado. Segundo Karl Marx, o socialismo é uma etapa da revolução social que levará ao estágio máximo, que é o comunismo, ou seja, prosperidade sócio-econômica comum a todos.

Evidentemente, há projetos socialistas que naufragam na indisposição de líderes de segui-los na prática. E há projetos capitalistas que contém reformas sociais implícitas, que dentro dos limites de sua economia garantem conquistas para os trabalhadores.

Mas é muito raro isso haver. No Brasil, o direitista Carlos Lacerda adotou até alguns pontos socialistas, como substituir a estrangeira Light, exploradora do serviço de bondes no Rio de Janeiro, cujo então Estado da Guanabara foi governado pelo jornalista, pela estatal Companhia de Transportes Coletivos (CTC). Ele também realizou reformas sociais, como o deslocamento de populações faveladas para conjuntos habitacionais, tendo sido criados, entre 1964 e 1967, bairros inteiros como a Vila Kennedy e a Cidade de Deus (que recentemente convive com a Unidade de Polícia Pacificadora).

A privatização desenfreada, que ameaça até mesmo serviços essenciais, que deveriam ser apenas de controle público, como Educação e Saúde, e a concentração de poder e o luxo das elites, faz a ideologia direitista tornar-se mais lamentável que louvável. Ou seja, se o Estado obeso das ditaduras de esquerda torna-se nocivo, também não é benéfico o Estado anoréxico, sem controlar sequer o ensino e os serviços de saúde, já que o controle privado não é garantia segura de prestação de serviços com qualidade e eficiência.

Por isso, antes de comemorar qualquer vitória da direita, é bom manter os pés no chão e aceitar o governo direitista legitimamente eleito, mas não ter medo de criticá-lo quando for preciso. Felizmente o povo do Chile, depois de tantos anos sofrendo nas mãos de Pinochet, está mais realista na sua visão política, seja votando na esquerda ou na direita.

Em tempo: Sebastian Piñeda é o primeiro direitista eleito democraticamente no Chile, depois de 52 anos. Naquela época, em 1958, o direitista Jorge Alessandri venceu as eleições presidenciais, derrotando, entre outros, o esquerdista Salvador Allende.

Paulo Octavio mancha imagem dos Kubitschek


É certo que o governo de Juscelino Kubitschek consentiu com a formação de um esquema de corrupção que permitisse burlar a burocracia para não atrasarem as obras de construção de Brasília.

Mas os herdeiros de JK não poderiam imaginar que um político que se casou com a neta do ex-presidente - e filha da também falecida Márcia Kubitschek - se envolva num esquema de corrupção como o de José Roberto Arruda.

Embora esteja ausente em todos os vídeos do esquema de corrupção do governo Arruda, Octavio é citado no inquérito que investiga o chamado "mensalão do DEM".

Mas, não havendo provas de envolvimento, de alguma forma Paulo Octavio, que antes de ser vice-governador, exercia mandato de senador pelo Distrito Federal, havia consentido com o esquema e faz manchar a reputação da família de Juscelino Kubitschek, de quem Octavio parecia ser herdeiro político.

Para nós, não é surpresa alguma, mas outros devem estar desapontados com o vice-governador.