sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

COLABORADOR DO WHIPLASH DEFENDE IMBECILIZAÇÃO DA CULTURA ROCK


É o mesmo argumento que as emissoras de televisão fazem para manter programas do estilo Big Brother Brasil e A Fazenda. O colaborador do portal de rock pesado Whiplash, João Paulo Andrade, escreveu uma matéria, bem ao estilo das frequently asked questions (FAQ) que aparecem na Internet, intitulada "Por que o Whiplash! publica notas estilo 'Revista Contigo'?".

Sim, isso mesmo, um colunista de um portal de rock considerado prestigiado e abrangente defende a veiculação de notas inúteis sobre nomes do rock - sem excluir, é claro, os "farofeiros", "especialistas" no ramo das notícias fúteis / inúteis - e além disso enumerou cinco desculpas principais para isso:

1. Porque são notícias e matérias relacionadas a rock/metal;
2. Porque as notas foram enviadas por algum colaborador;
3. Porque achamos que rock/metal é antes de mais nada diversão;
4. Porque não nos levamos tão a sério, fazemos o site por prazer;
5. Porque não somos true deathbangers from hell que não podem sorrir. :-)

(NOTA MINHA: O símbolo ":-)" significa sorriso)

Que roqueiro tem que ser bem humorado, mais informal, descontraído, ensolarado, tudo bem. Mas atitudes como a de João Paulo Andrade, comparáveis ao que o radialismo rock havia feito há 20 anos, quando as emissoras adotaram linguagem pop - que, em 1995, "evoluiu" literalmente para o "padrão Jovem Pan 2", o que fazia com que eu, na época, denominasse as "rádios rock" da época de "Jovem Pan 2 com guitarras" - , são um grande equívoco.

É a mesmíssima coisa que, repito, argumentam as emissoras de TV aberta quando defendem a permanência de programas de riélite chou tipo Big Brother Brasil. Na questão "Mas se os usuários reclamam, porque o Whiplash! insiste em publicar estas notas?", João Paulo respondeu o seguinte: "Porque embora uma parte dos usuários reclamem, uma parte MUITO maior lê as notas sem reclamar e se diverte com as mesmas. Se vivemos em uma democracia, vale a vontade da maioria".

Que maioria? As "gatinhas" que só curtem Backstreet Boys e agora aderiram direto ao sambrega ou "funk carioca", mas cismaram de namorar nerds ou roqueiros sob a desculpa de que "não têm preconceitos" (pura desculpa de quem quer tirar vantagem com alguém "diferente")? Ou os fanáticos de futebol que tentam bancar os entendidos de rock, copiam textos de bandas desconhecidas de rock no Wikipedia só para dizer que são "entendidos" mas não conseguem discernir o rock pesado setentista do metal farofa?

A atual conduta do segmento rock brasileiro, vendido para o comercialismo fácil, para a mal-disfarçada busca de demanda não-roqueira, só faz descaraterizar e enfraquecer o segmento. Vide as ditas "rádios rock" dos anos 90, que desapareceram antes que se convertessem da "Jovem Pan 2 com guitarras" para o "SBT com guitarras". Antes que um clone vocal do Gugu Liberato passasse a apresentar um "Comando Metal".

Cabe aqui também fazer a crítica à programação da Kiss FM que, apesar de adotar um repertório musical bem mais cauteloso, ainda mantém em parte o estilo de grade da 89 FM. Quem é que vai se interessar por programas de entrevistas com celebridades, como se fosse importante saber o que uma Priscila Pires ou um Celso Portiolli curtem de música rock? Ou para que programas de discussão sobre futebol, se futebol nada tem a ver com a cultura rock no Brasil (mais tarde escreverei sobre os "Galvão Bueno com guitarras")? Quem quer futebol que vá ligar a televisão no Globo Esporte, pombas!

Mas infelizmente a "nação roqueira", com alegações de "democracia" - não devemos nos esquecer que foi pela "democracia" que os militares instauraram a ditadura militar em 1964 - , impõe uma "cultura rock" fora da realidade que acaba afugentando os não-roqueiros que portais de Internet, rádios, revistas etc perseguem para se manterem financeiramente.

Essa desculpa que roqueiro quer fofoca, quer locutor engraçadinho porque fala mais direto com a moçada ou quer misturar futebol e rock porque é legal não convence. É só uma minoria que pensa assim, mas essa situação de minoria querendo prevalecer sobre a maioria é coisa que, só na história recente de nosso país, já víamos com o empresariado do IPES/IBAD ("institutos" que defendiam ideais neoliberais e reivindicaram o golpe e a ditadura militares).

Pior de tudo é que essa atual "cultura rock" também se derrete toda com os ícones do metal farofa - Bon Jovi, Guns N'Roses, Poison, Mötley Crüe - que o público dessa mídia roqueira se acostuma mal e acha que essas porcarias todas também são "rock clássico". E como essa patota toda não define as coisas no raciocínio discernitivo, o que eles ouvem como "informação social" eles acreditam e defendem, até com certo radicalismo reacionário.

Nesse caminho todo da "cultura rock" atual, o popularesco acaba favorecendo, pois, por mais ridículo que sejam pagodeiros, breganejos, funqueiros e axezeiros, eles, para o nível de compreensão limitado da juventude atual ou até mesmo de muitos trintões de hoje, pelo menos parecem mais "alegres" do que o esquizofrênico astral dos "roqueiros" atuais, que oscilam entre a alegria patética e o mau humor irritadiço. Os produtores das "rádios rock" dos anos 90 acabaram derrubando essas próprias rádios, porque eram pessoas esquentadinhas por trás de FMs que exageravam na linguagem "bem humorada".

Daí que até mesmo muitos marmanjos que há 10 anos atrás diziam "morte aos pagodeiros" vão entusiasmados ao show do Alexandre Pires e do Exaltasamba. É porque a "cultura rock" de hoje não disse agora a que veio, preferindo endeusar o metal farofa enquanto embalsama, sob lágrimas de crocodilo, os cadáveres dos mestres do rock autêntico que já morreram. Mas se vemos Andreas Kisser aderindo ao Chitãozinho & Xororó, é sinal que o buraco está mais embaixo.

A propósito, faleceu há poucos dias o cantor e compositor Bobby Charles, aos 71 anos, responsável, entre outras músicas, do sucesso "See You Later Alligator", gravada pelo autor em 1955 mas popularizada em 1956 por Bill Haley & His Comets. Tempos em que o rock'n'roll podia ser ingênuo, mas não imbecil.