quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O DRAMA DAS FAVELADAS


A ESCRITORA CAROLINA MARIA DE JESUS (1914-1977), QUE HÁ 50 ANOS LANÇOU SEU LIVRO QUARTO DE DESPEJO

O showbiz quer faveladas na eterna prostituição. Quer faveladas vendendo o corpo ou bancando as "mocréias enfezadas". Quer que as moças da favela reduzam-se a estereótipos cafonas, que elas não cresçam na vida

Mas a música brega impõe as moças pobres para a eterna prostituição, defendendo demagogicamente tratamento trabalhista para evitar que as prostitutas possam ir à escola e aprendam futuramente empregos mais dignos. A música brega quer que as moças pobres fiquem no papel caricato das piegas tietes de música cafona, ou das boazudas de cama e mesa das iniciações sexuais do filho da patroa.

E o "funk" determina que as moças pobres façam o papel de boazudas abobalhadas, cujo meio de afirmação pessoal está nos glúteos. Ou então, quando as moças pobres não são calipígias, as jogam para o papel não menos caricato de "mocréias enfezadas", que "quebram barracos" ou "botam com raiva" diante de supostos problemas com os homens.

O showbiz fica feliz com tudo isso e, hipócrita, ainda afirma que é a favor das populações pobres. Acha que está apenas ajudando as moças a vencer através da "cultura", numa atitude "bondosa" que, sabemos, apenas disfarça um paternalismo etnocêntrico, que vê as populações pobres como "feras que devem ser domesticadas". Cinicamente, o showbiz que tanto "beneficia" as favelas se limita a transformar os pobres em bobos alegres, em vez de promover melhorias efetivas em suas vidas.

Há 50 anos, uma catadora de papel lançou um livro contundente, Quarto de Despejo. Seu nome era Carolina Maria de Jesus. Nasceu na zona rural mineira e se mudou para a periferia paulistana, e, vendo um monte de papel num lixo, decidiu escrever, com seu pouco conhecimento escolar, mas com seu profundo conhecimento de vida. O que para o "funk carioca" é retórica e pose, para Carolina Maria de Jesus era verdade sentida na carne, nos nervos, no suor e nas lágrimas.

O drama da pobreza não é devidamente compreendido pela esnobe intelligentzia de classe média. Para eles até um MC Créu faz "música de protesto". Pois o concorrente do Créu, Mr. Catra, até vendeu a imagem falsa de "alternativo", "militante", "sem-mídia" - isso com a Globo lhe dando "maó" apoio - , isso só falando de traseiros e mostrando popozudas. Cara-de-pau, no país do dólar na cueca e nas meias, não tem limites.

O bondoso etnocentrismo dos intelectuais pró-popularesco sentiria incomodado com o livro de Carolina e com as declarações que ela deixou registradas em velhos jornais e revistas. A literatura de Carolina tem gosto muito amargo, não se compara com um rapper escrevendo sobre violência policial ou um médico contando o drama de um presídio, embora ambos sejam bem intencionados em suas obras. É porque a obra de Carolina é um diário do que ela viveu, em vários aspectos. É algo vivido na carne, mesmo.

Carolina Maria de Jesus seria indigesta para o mundo colorido do "funk". Seu drama é o drama das faveladas que não aparecem nas Centrais da Periferia da vida. A favela não é uma arquitetura supostamente pós-moderna, é uma emergência residencial de excluídos do mercado imobiliário, com seus apartamentos muito caros. Quem constrói esses prédios é proibido de morar neles. Por isso se constroem barracos em morros ou áreas ociosas em geral, muitas delas de riscos.

Mas para o mundo colorido do "funk", as favelas tanto podem ser, para o bem, construções "pós-modernas" como, para o mal, verdadeiros campos de concentração do povo pobre. O povo quer melhorar, o "funk" não deixa. O pobre quer tocar violão, quer saber cantar, quer saber fazer poesia, quer decência, quer mais segurança, saneamento, saúde, quer melhorias. Coisa que glúteos sacolejantes não garantem.

O drama das favelas é muito mais grave do que se imagina. As enchentes na Baixada Fluminense, as casas pobres também atingidas na tragédia de Angra dos Reis, os incêndios nas favelas paulistanas, e ainda mais fora do Brasil temos o terremoto do Haiti que só fizeram aumentar o sofrimento dos pobres de lá.

E as mulheres faveladas, em particular, querem ser professoras, historiadoras, advogadas, jornalistas, cantoras de verdade. A indústria brega-popularesca não deixa. Os "etnólogos" de mesa de bar ou de corredor de emissora de TV não.

As mulheres faveladas precisam ser ouvidas elas mesmas, não pelo intermédio ou tutela de empresários de "funk"ou os demais "tubarões" do showbiz.

O CAOS EM HAITI


Quanta dor. Quantas perdas materiais e humanas. Quanta tristeza, num país que já parecia não ter esperança. Ditaduras, governos corruptos, furacões, tempestades tropicais, e agora esse violento terremoto.

Fico imaginando o nível de esnobismo que os ídolos da axé-music têm quando usam as catástrofes naturais para suas metáforas animadas. "Furacão da Bahia", "o chão vai tremer", "a casa vai cair", "sair do chão" e tantos trocadilhos maldosos, falados com tanta ênfase que lembra até aquele lema do Titanic: "Nem Deus acaba com o Titanic". A arrogância custou caro, uma tragédia ocorrida por conta de uma batida num iceberg.

Muitas pessoas parecem viver numa felicidade cega, egoísta, e, quando contrariadas, ainda se irritam por pouca coisa, só porque leu uma coisa que não lhe agradou. Perdem tempo com uma fúria sem sentido. Querem viver no seu egoísmo sossegado, sem saber que essa pessoa poderia ter se hospedado na pousada Sankay naquela tragédia de Angra dos Reis.

Seio que o Haiti é um país distante daqui, mas a indiferença a sua tragédia não pode ser possível, seja pela dimensão dela, seja pelo altruísmo que nos recomenda a solidariedade, e não o desprezo, pela tristeza alheia. A miséria é grande, e agora tornou-se pior ainda, com um sabor amargo de Brasil, já que 14 militares e a médica e fundadora da Pastoral da Criança, dona Zilda Arns, estão entre os mortos.

Não adianta, nesse momento, um locutor esportivo da Rede Globo dizer que o futebol resolve a miséria haitiana. Como também não adianta um dirigente funqueiro dizer que o "funk" resolve. A tristeza é muito grande para se consolada por simples espetáculos, sobretudo os de gosto duvidoso. Como consolar pessoas sofridas, que eram pobres e agora perderam entes queridos, com gols da "seleção amarelão" ou com traseiros sacolejantes? Impossível.

Haiti é um país arrasado. Para ser reconstruído, recuperado, vai levar tempo. O cenário sócio-político não é saudável, e podem agravar o quadro de violência, seja com o crime organizado, seja com a formação de guerrilhas. Cabe pararmos para pensar e ver o problema alheio com respeito e com alguma vontade de ajudar.

FASCISMO CHICLETEIRO FAZ PUBLICITÁRIO REVER COMENTÁRIO


A mediocridade gera defensores violentos e intolerantes. A mediocridade triunfante gera fanatismo, gente preocupada mais em quem fala mal do seu ídolo do que em gostar realmente dele. Vivendo sempre em mal-estar e baixa auto-estima, os fanáticos sempre procuram alguém que não gosta do seu ídolo para fazerem defesas radicais, xingando o discordante de ocasião. No Oriente Médio, isso gera até grupos terroristas, a destruir a vida de quem estiver por perto através de atentados.

Vemos que no brega-popularesco há ídolos com defensores violentos, cuja personalidade não difere muito, creio que em nada difere, dos violentos jovens do Comando de Caça aos Comunistas (do qual pertenceu Bóris Casoy). Zezé Di Camargo & Luciano, Ivete Sangalo, até mesmo os "sertanejos universitários" - ninguém pode falar mal de João Bosco & Vinícius que chegam os "filhotes do CCC" para o ataque - têm defensores fanáticos, violentos e fascistas.

Pois a axé-music, ritmo musical nascido no esquema populista de Antônio Carlos Magalhães, é um desses ritmos com defensores fascistas. A axé-music impede que outras tendências musicais tenham espaço em Salvador, a não ser se cooptadas para o esquemão axezeiro. Mas se a axé-music não permite a verdadeira diversidade cultural na capital baiana, por outro lado quer entrar em mercados hostis sem pedir licença, como Florianópolis, Porto Alegre, Niterói, ABC paulista etc. Tiveram que cancelar o Niterói Folia por conta de uma epidemia de doença.

A prova do caráter fascista da axé-music - que, através de metáforas, brinca com as catástrofes naturais ou com trocadilhos funestos ("sair do chão", por exemplo, significa morrer); ninguém pensou se no Haiti tivesse ocorrendo uma micareta durante o terremoto de ontem à tarde? - é a reação de fúria dos fãs da banda Chiclete Com Banana (grupo que surgiu como uma cópia de A Cor do Som, nunca saiu disso e ainda por cima suas músicas são quase todas auto-reverentes) diante do comentário de um famoso publicitário baiano, Nizan Guanaes.

Disse ele no Twitter o seguinte: “Salvador está out. A Bahia está in. Esta indústria do axé, personificada em Bell do Chiclete, só destrói a Bahia. Ele não é um artista. É um crooner careca. Tudo nele é mentira. Salvador está como Bell do Chiclete. Careca e fingindo que tem trança”.

Vieram as fúrias dos chicleteiros, aquelas que quem não gosta de axé-music conhecem bem. Fúrias cegas, irritadiças, de muito mau gosto, de muita infelicidade. A pressão dos defensores do Chiclete Com Banana - tão marqueteiro quanto Guanaes, diga-se de passagem - fez com que o publicitário voltasse atrás e dissesse o oposto do dito. Até foi constrangedor ver, depois destes comentários, Guanaes declarar que "adora axé-music", "Bell Marques é batalhador e vencedor", "A música do Chiclete é uma delícia" e outras bobagens.

Mas como se trata do mercado publicitário, dentro de todo um mercantilismo do lúdico, do espetáculo, da celebridade, isso faz muito sentido.

Mas que Salvador está suja, cheia de mendigos, com uma mídia mafiosa, com o monopólio da axé-music e do "Aemão de FM" que atende a interesses politiqueiros de antigos carlistas (uns hoje enrustidos) e "cartolas" baianos, com empresas de ônibus incompetentes, com a falta de diversidade até no pão que é feito nas padarias, isso é a mais triste verdade. E, no fundo, gosto muito da capital baiana que me acolheu durante 18 anos, até porque eu descrevo seus defeitos para defender melhorias na cidade.

No caso do Chicletão, é bom deixar claro que aqueles que nunca ouviram A Cor do Som nem Novos Baianos nem Alceu Valença não pode sair por aí perseguindo quem critica a banda de Bell Marques. O bom chicleteiro fica em casa ouvindo os discos do Chiclete, ou vai para a folia quando a banda está lá. Mas que Chiclete Com Banana é banda medíocre, isso é verdade.

NATALIE PORTMAN ARRUMOU NOVO NAMORADO


O felizardo da fascinante atriz é um coreógrafo com quem ela trabalhou para as gravações de um filme.

Enquanto isso, Sheila Mello, há poucos dias, havia recusado até mesmo dar uma bitoquinha no Fernando Scherer.

Oh, dia. Oh, céus...