segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

BREGA-POPULARESCO E PAVLOV


IVAN PETROVICH PAVLOV (1849-1936), cientista russo.

Pavlov foi um famoso cientista russo, ele teorizou e praticou os princípios do condicionamento clássico, que deu valiosas contribuições para o estudo do comportamento humano, sobretudo no que diz aos estímulos.

Segundo Pavlov, algumas respostas expressas pelo comportamento humano não são aprendidas, e sim inatas. São os reflexos incondicionados. Outras respostas, no entanto, são aprendidas através do emparelhamento de situações agradáveis ou adversas simultâneas ou consecutivas. Ou da associação de estímulos a dadas situações.

Pegando um exemplo descrito pelo antropólogo Gilberto Freyre no livro Casa Grande & Senzala - que ando lendo ultimamente - , dá para entender um pouco de suas teses. Aqui está um trecho:

"Estímulos naturais. Certos movimentos caraterísticos se verificam; vem a saliva; a água na boca. Toda uma série de reflexos não condicionados. Mas se toda vez que se der alimento ao animal se estabelecer gradualmente uma ligação entre o som de uma campainha e um reflexo alimentar, depois da coincidência repetir-se durante suficiente número de vezes, a reação alimentar se verificará em respostas ao som puro e simples. Nas exatas palavras do professor Pavlov: 'Conseguimos obter o reflexo condicionado de alimentação de ratos foi necessário repetir a coincidência do toque da campainha com a alimentação trezentas vezes para conseguir-se um reflexo satisfatório ('well-established reflex'). A segunda geração formou o mesmo reflexo após sem reflexões. A quarta, depois de dez. A quinta, depois de cinco, somente... Tendo por base esses resultados, antecipo o fato de que uma das próximas gerações dos ratos mostrará a reação alimentar ao ouvir o primeiro toque da campainha elétrica".

Em outras palavras, o hábito das gerações quando manipuladas por estímulos acaba se consolidando, o que faz com que a tese de Pavlov, embora seja em si um procedimento inocente, seja no entanto usado pelos grupos de poder para manipular as pessoas. As primeiras gerações não se acostumam com a associação de estímulos a dadas situações, mas com a repetição elas se acostumam depois de muito esforço, e este esforço é reduzido em gerações posteriores.

E o que fez a grande mídia brasileira a respeito da música brega e todos os seus derivados?

Foi justamente a aplicação, sob fins perversos, da técnica de Pavlov. Quando ainda no alvorecer dos movimentos populares de raiz, renovados dentro de uma perspectiva nacionalista, o poder latifundiário reagiu às manifestações populares empurrando música brega no rádio, as primeiras gerações estranharam. Waldick Soriano tinha que enfrentar João do Vale, Jackson do Pandeiro, Lupicínio Rodrigues e Cartola para tentar algum sucesso.

Essa manipulação, no início da década de 60, foi muito difícil de obter êxito. A música cafona só começaria a fazer algum sucesso depois de 1968, pois até então só vingava nas regiões interioranas, de povo desinformado e manipulado sob a ameaça da espingarda. Nos anos 70 veio então arremedos de "brasilidade" e o domínio do brega-popularesco cresceu e se efetivou em todo o país: do público interiorano no período 1960-1968 para o público suburbano de 1968-1989, depois para o público classe média baixa nos anos 90 e ainda nessa década atingindo o público rico de inclinação populista-etnocêntrica. E, a cada geração, maior receptividade das tendências brega-popularescas, o que dá falsa impressão de espontaneidade.

Cabe agora os bons samaritanos brasileiros usarem o método Pavlov para fazer as pessoas gostarem novamente da MPB autêntica, gostarem mesmo, não como se fosse música "estrangeira" e secundária, mas como sendo a música brasileira de verdade.

ROCK IN RIO COMPLETOU 25 ANOS


Entre os dias 11 e 20 de janeiro, o Brasil se lembrará dos 25 anos do festival que mudou o âmbito dos concertos internacionais, o Rock In Rio.

O Rock In Rio é um projeto organizado pela Artplan, um festival moderno que incluiu praça de lanches, shopping, serviço de atendimento médico e uma enorme infra-estrutura para atender milhões de pessoas. Foi um projeto dedicado ao público jovem organizado por um empresário moderadamente conservador, Roberto Medina, irmão do político Rubem (que, como repórter, havia entrevistado John Kennedy em 1962 e, em 1980, mudou-se do PMDB para o PDS) e ambos filhos de Abraão Medina, dono da loja Rei da Voz e inventor do mito proto-brega Orlando Dias (pelo amor de Deus, não confunda com o verdadeiro rei da voz, o grande Orlando Silva).

Em todo o caso, o Rock In Rio, hoje conhecido como Rock In Rio I devido às edições posteriores, tornou-se fundamental porque era o contexto da redemocratização política - apesar da eleição indireta, pelo colégio eleitoral, o candidato era civil, Tancredo Neves, que se não era aquela maravilha de político, não era um general; mas, morrendo ele, José Sarney assumiu o poder (um oportunista político, oligarca maranhense, mas ao menos também não era militar, apesar de ter apoiado a ditadura) - e de uma nova cultura jovem emergente no país.

Se o cenário político pós-ditadura a ser assumido no país não era grande coisa, de alguma forma eram novos tempos. Sim, tal qual o Império brasileiro, que manteve a estrutura do Brasil colonial, e da República Velha, que manteve a estrutura do Segundo Império, no século XIX, a redemocratização brasileira manteria a estrutura civil da ditadura militar. Mas já era grande vantagem você não ter sua casa invadida pela polícia só por dizer o que pensa.

Também o Rock In Rio não era um festival perfeito. O evento valeu menos pelo cardápio de atrações do que pelo astral que o festival, em si, carregava. As atrações não eram ruins, mas pouco tinham de contemporâneas, exceto as bandas mais populares do Rock Brasil, Paralamas do Sucesso, Blitz, Kid Abelha e Barão Vermelho, mais o cantor e guitarrista Lulu Santos, e o grupo da nova onda do metal britânico, Iron Maiden, Ozzy Osbourne e AC/DC, nomes do metal sempre a satisfazerem seus fãs com seu estilo e integridade. Além deles, havia também os B-52's, que, se não eram os mais badalados representantes da new wave do Primeiro Mundo, eram, e são, muito bons. E as Gogo's são sempre simpáticas e lindas.

De veteranos, havia o pessoal da MPB - Alceu Valença, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Baby Consuelo, Pepeu Gomes (estes três eram dos Novos Baianos) Rita Lee, Ivan Lins, Erasmo Carlos - , havia intérpretes de pop adulto como Al Jarreau, James Taylor (que depois homenageou sua experiência na música "Only a Dream in Rio") e George Benson.

Do rock setentista, os grupos ingleses Queen e Yes já eram muito populares na década anterior à do Rock In Rio.

Queen era marcado pelo carisma de Freddie Mercury na voz e, às vezes, também no piano, e pelos solos de Bryan May. O concerto do Queen foi uma compensação ao cancelamento da apresentação no Maracanazinho, em 1982. Portanto, representou para os fãs a oportunidade de fazer como os paulistas, que cantaram, em uníssono, a música "Love Of My Life", balada composta pelo vocalista.

Yes era a banda progressiva dos sonhos dos brasileiros, mas também veio a ser dos pesadelos também, quando os tempos já não eram bons para o sucesso grandioso do progressivo. Mas era a chance, embora tardia, dos jovens setentistas verem seus heróis tocando ao vivo, pouco depois de um período de esquecimento quebrado pelo sucesso de Jon Anderson, vocalista do grupo, em seu trabalho com Vangelis (ex-Aphodite's Child) e pela volta do Yes com "Owner of a Lonely Hearts".

Havia também o Whitesnake e Scorpions, que faziam bom rock pesado nos anos 70, mas declinaram para o metal-farofa na década seguinte, e a chata Nina Hagen, quase que uma ancestral da Lady Gaga.

O Rock In Rio serviu também para marcar as carreiras de três nomes que, pouco depois, já não estavam mais entre nós: Ricky Wilson, B-52's, falecido poucos meses depois do evento, em outubro daquele 1985, Cazuza, falecido em julho de 1990 e Freddie Mercury, falecido em novembro de 1991 no mesmo dia de Eric Carr, do Kiss (outra banda muito popular no Brasil).

Houve momentos constrangedores como a vaia ao veterano Erasmo Carlos, por culpa da escalação errada num dia de bandas heavy. Erasmo até adotou um visual próximo do "radical", mas seu repertório de cunho romântico - ele integrou a Jovem Guarda, gente! - irritou os fãs de Iron Maiden que estavam na platéia. Eduardo Dusek e Kid Abelha também passaram por momentos constrangedores, devido à plateia fã do AC/DC. Como os artistas vaiados tinham também segundas apresentações, eles tiveram mais sorte nesta segunda vez, sem coincidir com grupos de rock pesado.

A grande surpresa foram os Paralamas do Sucesso que, com apenas quatro anos de carreira e dois LPs, encarou pela primeira vez um grande público sem medo, demonstrando segurança e desenvoltura. Eu só vi trechos da apresentação ao vivo pela TV. Mas, no Festival de Verão de Salvador, de 2002, pude ver ao vivo a banda e Herbert Vianna, mesmo paralítico, mantinha o mesmo talento de cantor e guitarrista consagrado no Rock In Rio.

O Rock In Rio teve como benefícios favorecer o desenvolvimento do profissionalismo na organização de espetáculos musicais. Antes do Rock In Rio, não havia uma estrutura confiável e as apresentações de Kiss e Van Halen no Brasil tiveram problemas. O profissionalismo valeu não apenas para os artistas estrangeiros, mas também para os artistas nacionais.

Outra vantagem puxou, no entanto, uma desvantagem. Fortaleceu o segmento rock no Brasil, mas aí vieram os oportunistas, rádios pop convencionais viravam "rádios rock" para capitalizar com o segmento, o que acabou, na década de 90, enfraquecendo e eliminando as rádios de rock originais, outrora supercompetentes, obrigadas a competir com as similares picaretas. Também vieram jornalistas tendenciosos e picaretas, locutores "engraçadinhos", bandas medíocres, selos pseudo-independentes, o que fez o segmento rock inchar e enfraquecer logo em 1990, apesar de continuar forçando a barra no eixo RJ-SP até pouco tempo atrás, abrindo espaço para os popularescos.

Enfim, houve a abertura lúdica do Rock In Rio e a abertura política da redemocratização. Mas quem pensa que a trajetória está completa e perfeita, é bom dizer que aquilo tudo foi apenas o começo de um longo caminho.

BREGA-POPULARESCO ESTÁ DECADENTE


SÓ MUITA CAMPANHA MARQUETEIRA PARA FAZER COM QUE OS ÍDOLOS POPULARESCOS LOTEM PLATEIAS EM TODO O PAÍS, POIS ELES NÃO EXPRESSAM CRIATIVIDADE ALGUMA NAS SUAS MÚSICAS.

Breganejo, axé-music, forró-brega, sambrega, porno-pagode, "funk", brega original e o que vier de semelhante.

Tudo está decadente, e não é de hoje. Seus ídolos de sucesso, aparentemente renomados, são o símbolo da decadência. Preciso dizer os nomes? Vocês sabem.

Mas o que não se sabe é que TODOS eles estão decadentes. Da cantora de axé-music à mais famosa dupla "sertaneja". Do mais famoso DJ de "funk" ao ídolo brega dos primórdios. Todos devem indagar por que eles estão decadentes se eles lotam rodeios, micaretas, "bailes funk", programas de auditório e puxam para grandes audiências programas de rádios e TVs que os recebem.

É porque eles são tomados de muito marketing, muita campanha orquestrada pela mídia, algo que é cinicamente desmentido pelos seus defensores, sobretudo aqueles mais agressivos e reacionários.

O tempo deles já passou. Seja a onda breganeja de 1990, a onda axezeira de 1997, os modismos corsários de "funk", forró-brega, sambrega etc. Desde 2002 eles tentam "justificar" para que vieram, mas seus maiores sucessos ficaram para trás na década passada, apesar de serem relembrados à exaustão. Mas eles não emplacam um novo hit sequer e, quando muito, apenas despejam rotineiras faixas de trabalho, que só são lembradas enquanto são tocadas no rádio.

É claro que os ídolos popularescos e todos aqueles que estão em volta deles estão desesperados. Daí um Olavo Bruno ou Eugênio Raggi xingando quem falasse mal de seus ídolos, quase que como um Bóris Casoy da intelectualidade musical. Ficam em pânico, traumatizados com a campanha anti-popularesca de 1999-2002, que facilmente derrubava ídolos popularescos dos anos 90.

Mas a decadência deles não é desculpa alguma de invejosos, preconceituosos ou elitistas. Ela é uma constatação que, por incrível que pareça, é bastante séria.

INCAPACIDADE DE EMPLACAR GRANDES SUCESSOS

A maior parte do que é produzido pelos ídolos popularescos, por exemplo, não é mais do que material revisionista de suas carreiras. Discos ao vivo, muitas vezes sucessivos, com antigos sucessos. Discos de duetos, com outros artistas e repertório também revisitado. Tributos oportunistas ao cancioneiro da MPB. Covers de MPB que chegam a ocupar metade dos discos de carreira, sobretudo de duplas breganejas e grupos de sambrega.

Um dos casos mais constrangedores é da dupla paranaense Chitãozinho & Xororó, que nunca tiveram um grande sucesso de lavra própria. Seu maior sucesso é, na verdade, uma apropriação de uma esquecida música de Lamartine Babo e Ary Barroso, "No Rancho Fundo". Seu segundo sucesso é uma regravação de uma canção do brega José Augusto, "Evidências".

Discos ao vivo, coletâneas, tributos e discos de duetos os cantores e músicos autênticos fazem, mas eventualmente. Eles têm criatividade suficiente para evitar que, consecutivamente, eles se limitem a lançar num espaço de seis anos somente álbuns ao vivo, de duetos ou regravações.

Já os ídolos popularescos, numa demonstração clara que seus tempos de sucesso acabaram e ultimamente eles só "enrolam" na mídia para ver se atingem o primeiro time da MPB no mole (e, se preciso, na marra), enchem de discos ao vivo, tributos, duetos, coletâneas, ou, quando muito, músicas inéditas que, de tão fracas, se limitam a ser meras músicas de trabalho rotineiras, que somente o fanatismo classifica como "novos clássicos", coisa que nem seus fãs mais exaltados conseguem de fato concretizar.

Por isso mesmo é que a "alta reputação" desses ídolos não passa de uma ilusão. Ilusão que não pode ser desmentida por pretensos intelectuais que falam no popularesco como "verdadeira cultura do povo", numa abordagem esquizofrênica e irritadiça que, na prática, credita uma Scheila Carvalho, de classe média, como "gente da periferia" enquanto credita o sambista Cartola como um "burguês".

Os defensores do brega-popularesco podem ladrar, rosnar, grunhir, mas a realidade é que seus ídolos, embora estejam em grande cartaz na mídia, são decadentes. Não possuem força musical suficiente para mostrarem uma música de qualidade. Depois do efêmero sucesso nos anos 90, eles apenas tentam "justificar" esse sucesso, se apropriando de músicas e artistas de MPB em regravações ou duetos, ou se apoiando no marketing por vezes violento de intelectuais de segundo escalão ou de divulgadores e assessores disfarçados de internautas comuns.

Nada disso vai colocar esses ídolos no primeiro escalão da MPB. Nem com plateias lotadas. Nem com rádios e TVs no alto do Ibope. Nem com cara feia, xingações e acusações de "preconceito", "inveja" e outros desaforos contra nós. MPB é coisa séria, não é a casa da sogra.