sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O MEDO DA INTELECTUALIDADE PERDER SUA SUPREMACIA CULTURAL


GENERAL BIZARRIA MAMEDE - Exemplo do medo das elites de perderem privilégios.

Por que a intelectualidade brasileira defende tanto a mediocridade dominante na dita "cultura popular"?

Por que eles apoiam essa mediocridade que toma conta de rádios FM e da TV aberta e que se fundamenta na domesticação do povo pobre e na estereotipação da cultura brasileira, dentro de um parâmetro "pop" e inofensivo?

Sem se derem conta, nomes como Hermano Vianna, Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Bia Abramo, Rodrigo Faour, Ronaldo Lemos, Milton Moura, Roberto Albergaria, Eugênio Raggi, entre tantos outros, expressam um temor antigo, que seus discursos aparentemente generosos não conseguem disfarçar.

O temor de que eles, a elite intelectual universitária, veja seus segredos sobre a cultura popular em geral e a Música Popular Brasileira em particular sejam revelados para as classes pobres.

Para eles, deixa o povo inofensivo no seu subemprego sem carteira assinada, nas suas favelas caindo aos pedaços, na prostituição, no alcoolismo, na música medíocre, apátrida e estereotipada. Alegam que, assim, o povo não faz mal a eles, nem a mim, nem a você.

Grande engano. O povo não faz mal a nós, mas assim a intelectualidade fez mal ao povo brasileiro.

Não podem mais haver novos Ataulfo Alves nem Luís Gonzaga nem Jackson do Pandeiro. Agora todo mundo brinca de Michael Jackson com pandeiro e cavaquinho, ou brinca de caubói cantando feito Barney Rubble, vizinho dos Flintstones.

Não podem mais haver novas Elizeth Cardoso, novas Marinês, nem Elza Soares pode ter suas seguidoras ao seu lado. Agora as moças têm que brincar de Beyoncé ou bancar as grosseiras MC's que pensam que ser feminista é falar mal de homem.

A intelectualidade, no entanto, sem saber, se comporta exatamente como os então coronéis do Exército brasileiro, quando, irritados com o projeto de aumento salarial do então ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, João Goulart - o mesmo que esses oficiais, já no generalato, expulsariam do poder presidencial em 1964 - , redigiram o famigerado Manifesto dos Coronéis, em 1954.

Eles temiam que o conforto que as elites civis e militares gozavam estivesse perdido com as melhorias das condições de vida do povo, através de salários melhores.

Um de seus assinantes, coronel Jurandir de Bizarria Mamede, de longa prestação de serviço às causas golpistas, havia feito um discurso violentíssimo durante o enterro do general Canrobert Pereira da Costa, em 1955.

Bizarria Mamede protestava contra a posse de Juscelino Kubistschek - "Ele não venceu com maioria absoluta! Isso não vale!" - e, sobretudo, porque o médico mineiro tinha João Goulart (sim, aquele ministro, anos depois o presidente deposto pelo golpe) como vice.

O discurso irritou o general Henrique Teixeira Lott, que ficou alerta.

Afinal, naquele 1955, os golpistas, com o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, na condição de presidente interino (Vargas havia morrido e Café Filho, seu vice, estava em "tratamento de saúde"), queriam impedir a posse de JK e decretar um golpe que pusesse a já perigosa UDN (hoje DEM) no poder.

O general Lott, sabendo disso, teve que fazer um contragolpe, cercando os navios golpistas - sobretudo o cruzador Almirante Tamandaré - e destituindo Carlos Luz do cargo, colocando o senador catarinense Nereu Ramos no comando do Governo Federal, até a posse de Juscelino.

E a intelectualidade de hoje? Seria injusto compará-la aos coronéis que fizeram um manifesto contra o que chamam de "perda de seus privilégios"?

Não. Vários desses intelectuais tão zelosos parecem à melhoria da qualidade de vida do povo, e tão solidários parecem com a manutenção da nossa cultura, até o momento em que suas empregadas domésticas se aproximam da coleção de CDs desses intelectuais.

Aí soa o alarme. E, antes que isso aconteça, baixa um paternalismo elitista da intelectualidade, que julga que "cultura popular" é o "rebolation", o "tchan", o "créu", o "tecnobrega", o "tchibirabirom", o "piripipi" e outros.

O discurso é maravilhoso, todos vivemos a "diversidade cultural". Mas não era coisa parecida com a "democracia" que a mídia golpista tanto falava?

Francis Fukuyama toca pandeiro, sob as bênçãos do general Bizarria Mamede, para o bem de intelectuais que querem ouvir MPB nos seus quartos, enquanto o "povão" tem que curtir os mesmos sucessos medíocres das rádios FM e da TV aberta.

Depois a Rede Globo decide qual o clássico da MPB que os ídolos do brega-popularesco vão "coverizar", para dar a impressão de que todos estão em dia com a música de qualidade.

Uma falsa impressão. Até porque tudo continua na mesma. Com os empresários da suposta "cultura popular" mantendo suas fortunas extraordinárias.

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