terça-feira, 7 de dezembro de 2010

EX-PRESIDENTE DO IPHAN CRITICA DILUIÇÃO DA CULTURA POPULAR



Lendo o livro O que é Cultura Popular, de Antônio Augusto Arantes, pude identificar alguns trechos que poderiam ser usados na crítica ao brega-popularesco, que é a hegemônica e pretensa "cultura popular" que hoje se encontra na mídia e cujo declínio, depois de tanto tempo exercendo uma hegemonia absoluta, ameaçando de desaparecimento a MPB autêntica, tanto a pós-1965 quanto a de cunho popular de raiz, faz os jabazeiros de plantão praticamente trocarem o rádio FM pela intelectualidade.

Não sei como é a postura do antropólogo e ex-presidente do IPHAN quanto ao brega-popularesco, já que o poderoso lobby do brega-popularesco pode criar armadilhas até mesmo para quem aparentemente adotaria uma postura crítica. Vide Ivana Bentes que reprovou o mito da "periferia legal" mas elogiou um documentário que, no fundo, segue esse mesmo mito.

Em todo caso, reproduzimos alguns trechos que Arantes escreveu no referido livro, lançado pela Editora Brasiliense em 1981, mas até hoje disponível nas livrarias e bibliotecas:

A produção empresarial de arte "popular" (...) retira-lhe duas dimensões sociais fundamentais. Alterando data, local de apresentação e a própria organização do grupo artístico, ela transforma em produto terminal, evento isolado ou coisa, aquilo que, em seu contexto de ocorrência, é o ponto culminante de um processoque parte de um grupo social e a ele retorna, sendo indissociável da vida desse grupo. Os gestos, movimentos e palavras, em que pese todo o aperfeiçoamento técnico possível, tendem a perder o seu significado primordial. Eles deixam de ser signos de uma determinada cultura para se tornarem "representações" que "outros" se fazem dele.

Difícil não se lembrar dos "sucessos do povão" do rádio e da TV, que nunca poderiam ser considerados a "verdadeira cultura popular", mesmo por parte de uma intelectualidade boa de argumentos, a ponto de ser endeusada por seus colegas e pelos blogueiros que tratam a aplaudi-los feito focas de circo.

Aqui vão outros trechos contundentes:

Através de um esforço realizado, em geral, em nome da estética e da didática, "enxugam-se" os eventos artísticos denominados "populares", de caraterísticas consideradas inadequadas ou desnecessárias, sob o pretexto de revelar-lhes mais claramente a estrutura subjacente.
O resultado de procedimentos dessa natureza, entretanto, é o de "higienizar" esses eventos, ocultando os seus aspectos de pobreza, o seu caráter tosco e, aos olhos de muitos, grosseiro. Essas são reconstituições que o "saber" e o
"gosto" cultos das elites podem abarcar. Mas, ao mesmo tempo, elas deixam de ser algo em que o seu "outro", indomesticável, possa reconhecer-se.


Mais uma vez vemos um texto em que se torna inútil até mesmo transformar o brega-popularesco numa "cultura popular pura", como ocorre no "funk carioca", ou numa coisa pretensamente "sofisticada", como o "sertanejo", o "pagode romântico" e a axé-music, porque em todos os casos há a visão empresarial, elitista, paternalista, a respeito do que essas elites entendem como "cultura das classes populares".

Para terminar, o próprio antropólogo conclui o raciocínio com uma frase que põe em xeque as abordagens adocicadas de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Paulo César Araújo, Denise Garcia, Patrícia Pillar, Regina Casé e companhia, mostrando o lado cruel do espetáculo popularesco e, no fundo, anti-popular, dos "sucessos do povão":

Ao se produzir o espetáculo, cortam-se as raízes do que, na verdade, é festa, é expressão de vida, sonho e liberdade. Vida que recusa identificar-se com as imagens fixas que o espelho "culto" permite refletir e que grande maioria dos museus cultua.

Nessa época, podia-se falar mais em museus, embora em 1981 o brega-popularesco já exerça forte influência na grande mídia. Mas, substituindo museus por mídia, sabemos que o texto de Arantes pode, sim, ser dirigido para a contestação do brega-popularesco, a suposta "cultura popular" que domina rádios, TVs, micaretas, vaquejadas, "bailes funk" etc.

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