sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

BREGA-POPULARESCO POSSUI RIGOR ESTÉTICO... PARA PIOR


PARA A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA, ISSO É LAMA MEDICINAL.

Você já ouviu essa. A intelectualidade, para defender os "sucessos do povão", apelava, quase que num alarmismo paranóico, para nós "não avaliarmos a estética". "Esqueçam a estética, isso não existe, é o que o povo gosta e sabe fazer", suplicam críticos musicais e cientistas sociais numa arrogante paranóia que faz qualquer dondoca de classe rica parecer militante das grandes causas sociais.

Pois eu havia pensado e cheguei a uma conclusão que parece um absurdo, mas tem seu sentido lógico dos mais verdadeiros: o brega-popularesco, essa "cultura popular" que aparece no rádio FM e na TV aberta e que se baseia na domesticação do povo pobre, possui, sim, seu grande rigor estético.

Você vai perguntar: "Como rigor estético? O MC Créu tem rigor estético? A Beyoncé do Pará tem rigor estético? O Calcinha Preta, É O Tchan, o Grupo Molejo têm rigor estético? O Waldick Soriano teve rigor estético? Os cantores de axé-music, 'pagode romântico' e 'música sertaneja' têm rigor estético?".

Sim, no sentido do rigor estético como um processo calculado, um rigor no nivelamento para baixo, que corrompe o sentido de cultura popular e o submete à mesma mediocridade que constrange a sociedade, mas que todos temos que acreditar que é "coisa boa". "É o que o povo gosta, é o que o povo sabe fazer".

Um verdadeiro artista é bom desde o começo. Ele não começa fazendo papel de ridículo no começo, para depois "querer fazer as coisas direitinho". A verdadeira cultura não investe primeiro no patético ou no pitoresco para depois aumentar o nível.

Pensar assim é defender o mais cruel etnocentrismo. É associar o povo a tudo que há de pior, e querer que só melhore aos poucos, sem assustar. É o mesmo raciocínio que Ernesto Geisel, quando assumiu a presidência da República indicado pelas Forças Armadas (era a ditadura militar), teve em relação ao país. "Melhorar" aos poucos, sem assustar.

Não é por acaso que a "cultura" brega-popularesca começou a crescer, para valer, na Era Geisel, e que seu governo é considerado pela grande mídia, mesmo de forma implícita, como seus "Anos Dourados".

Os artistas populares que fizeram sucesso entre 1935 e 1960 nunca viriam com essa frescura de fazer discos medíocres primeiro e querer fazer "bons discos" depois. Mas os ídolos "populares" que vieram sobretudo em 1990 fazem.

É até constrangedor. Discos que são propositalmente medíocres, como é a cartilha dos discos bregas. Por isso não é estranho dizer que mesmo os pomposos medalhões da axé-music, do "pagode romântico" e da "música sertaneja" são cantores bregas. Dá para perceber que seus sambas, seus afoxés, suas modinhas são muito fracos, a baixa qualidade estética é proposital, daí o rigor da nivelação para baixo.

Aí, com o passar do tempo, depois de mais de cinco CDs anuais, esses intérpretes vão querer ser levados a sério. E fazem da pior forma. Provam ser maus artistas, camuflados por um espetáculo cheio de técnica, de pompa, de marketing, de visual.

O que aliás, é pior. Enquanto os verdadeiros artistas se tornam mais autorais com o passar do tempo, os ídolos brega-popularescos que fizeram muito sucesso entre 1990 e 1997 (e, em certos casos, até 2002), no entanto, se tornam cada vez menos autorais.

Querendo provar aquilo que não são, na marra, gravam sucessivos CDs e DVDs ao vivo, enchem seus repertórios de covers tendenciosas de MPB, gravam duetos com quem quer que esteja pela frente, podendo ser Chico Buarque ou um outro ídolo brega-popularesco (tipo MC Buchecha). Tudo com palmas ensaiadas, dirigidas, faniquitos orientados pela produção do DVD, refrões decorados pela plateia dirigida e amestrada.

Isso é que é rigor estético, calculado, ainda que nivelado por baixo. A "diva" da axé-music começa sua carreira gravando falsos frevos, falsos afoxés, coisas risíveis mesmo, mas passados dez anos de carreira ela pega carona até em tributos à Bossa Nova, ao Rock Brasil, ao que encontrar pela frente.

Isso é uma grande falta de respeito ao próprio artista. Já soube de vários casos de ídolos do brega-popularesco que, antes de gravarem seus primeiros discos cafonas, sonhavam em fazer MPB.

Milton Nascimento, que teve origem pobre, nunca cairia nessa tentação. Sua carreira foi brilhante desde o começo. Seu primeiro álbum, de 1967, causou um grande impacto por sua qualidade artística impecável, e o cantor, mesmo em discos menos inspirados, sempre manteve sua qualidade, seu excelente nível artístico, sua integridade.

Nunca passaria pela cabeça do brilhante cantor, músico e compositor, um dos fundadores do Clube da Esquina, esperar fazer uma coleção de discos medíocres para depois fazer um álbum "razoável" com clássicos alheios. Milton não esperou que outros lhe oferecessem clássicos da MPB para gravar: ele mesmo fez os seus clássicos da MPB. E, quando gravou covers de clássicos da MPB, já tinha centenas de músicas marcantes em sua carreira, cuja sobrevida vai muito além dos seis meses de execução de rádio. Bem mais além.

Mas, no caso do ídolo popularesco que sonhava "fazer MPB" uma vez na vida, a mediocridade é o meio mais fácil. Certa vez aparece alguém que lhes diz que fazer MPB não dá dinheiro e aí tem que fazer um som "mais tosco" para fazer sucesso. "Depois você junta dinheiro, bajula Caetano Veloso, faz dueto com qualquer figurão da MPB que ninguém reclama. Aí você põe no seu novo CD metade do repertório com covers, participa de tudo quanto é tributo, e pronto. Você lança qualquer porcaria autoral nas rádios, que não deixa marca na carreira, porque tanto faz, porque você já fez seu nome mesmo. A crítica musical, a intelectualidade toda, foi toda comprada pelo mercado (popularesco) mesmo, ninguém vai falar mal...", dirá esse alguém.

É um caminho muito fácil para o beco sem saída. O cara que queria fazer MPB mas começou a carreira fazendo brega-popularesco se enriquece, faz sucesso em todo o país, vira cartaz em tudo quanto é mídia, mas aí, num dado momento da carreira, quando quer entrar no "salão" da MPB provavelmente apadrinhado por algum cantor mais condescendente, é duramente criticado.

Mas não é só música, não. A boazuda também quer ser considerada "feminista" ou "inteligente" a partir de nada. As pessoas se imbecilizam primeiro e depois querem exibir sua imbecilidade nas faculdades, nos ambientes mais credenciados etc. E querem exportar sua mediocridade para o resto do mundo.

A DESCULPA DO "PRECONCEITO" NÃO COLA MAIS

Querer tapear a mediocrização cultural do povo brasileiro - processo arquitetado pela ditadura militar e reforçado por governos "democráticos" conservadores como os de Sarney, Collor e FHC - com uma falsa generosidade paternalista, por conta de uma intelectualidade que, cinicamente, critica o "paternalismo" e o "etnocentrismo" dos outros, é demonstração do mais puro elitismo que essa intelectualidade, tão badalada, festejada e endeusada, sente em relação às classes populares.

Chegam a dizer que o povo é "bom assim", é "melhor" naquilo que tem de pior. Em outras palavras, essa intelectualidade acomodada em condomínios de luxo, mas endeusada na Internet, acha que o povo só é "melhor" quando permanece na sua mediocridade, no seu jeito patético, na sua cultura ruim, apenas temos que adotar uma "nova visão" e achar que essa "ruindade" é apenas "um jeito diferente de cultura". Isso parece generoso à primeira vista, mas é cruel.

PRECONCEITOS DE UMA INTELECTUALIDADE "SEM PRECONCEITOS"

Falam que não gostamos da ideologia brega-popularesca por "preconceito". Grande engano. Rejeitamos essa ideologia porque a conhecemos, seja verificando a programação das TVs e rádios, seja andando pelas ruas, seja passando pelos camelôs, entrando nos supermercados e nas lojas de varejo e atacado, seja pelo som da vizinhança.

Preconceito requer desconhecimento de algo. Se algo não é compreendido e é "pré-concebido", é porque não se tem conhecimento desse algo. Mas nós temos. Rejeitamos porque sabemos muito bem do que se trata.

Pior é o preconceito da intelectualidade "sem preconceitos". Eles veem o povo como uma massa "ruim" que, dentro dessa perspectiva, "só faz coisas boas". Eles geralmente só conhecem "a fundo" a periferia através de documentários estrangeiros, da Internet, de teses acadêmicas. Fazem sua sociologia de gabinete sem sequer aproximarem suas visões da realidade concreta, ainda que por intuição.

Pelo contrário, até em pesquisas de campo eles estabelecem seus preconceitos. Que são os mesmos da velha grande mídia, por mais que a mesma visão seja servida nas páginas da mídia esquerdista.

São preconceitos docilmente não-assumidos, mas expressos. Se resume em achar "positivo" o povo ser pitoresco, grotesco, idiotizado (evidentemente, sem usar tal adjetivo), porque isso é que tem "cheiro de povo", porque o povo, por mais submisso que pareça ao "sistema", é "mais feliz".

Até mesmo a noção de "qualidade de vida" é dotada dessa visão preconceituosa. Se o povo "é pop", tudo bem. Se o povo participa do consumo do entretenimento, tudo bem. A favela, com suas construções precárias e, não obstante, arriscadas, são a "arquitetura pop pós-moderna". O povo embriagado, miserável e grosseiro é "feliz" na sua miséria, é "criador" na sua falta de referências.

São preconceitos "positivos", que fazem a classe média etnocêntrica feliz. Povo domesticado, servindo de "gado" para os interesses da mídia, tido como "detentor" de uma moderna "cultura de cabresto" que é o brega-popularesco. Com seus valores rigidamente calculados, para que o povo seja a forma viva de sua caricatura, seja, na vida real, a imagem estereotipada de si mesmo.

Isso vai contra a tradição histórica do nosso povo, que era capaz de derrubar governos com sua mobilização social. O povo pobre não era bobo, não fazia esse papel do "selvagem abobalhado" que a mídia tanto trabalha, enquanto a intelectualidade faz vista grossa.

Também a cultura popular, que se constituiu no rico patrimônio de mais de 500 anos, até mesmo anterior a 1500, nada tem a ver com essa mediocridade resignada que faz sucesso na mídia.

A cultura popular de verdade tinha liberdade estética. E liberdade estética é buscar o melhor, não se satisfazer no pior. É querer ser bom naturalmente, fazer cultura porque é sua vocação, não para se livrar de algum trabalho braçal, não para ganhar dinheiro fácil.

Por isso não dá para apostar na verdadeira cultura popular, mesmo na aparente evolução artística dos ídolos do brega-popularesco. Esses são cheios de preconceitos, até mesmo em si mesmos. Acham que vão fazer "cultura popular de verdade" vestindo paletós ou vestidos de gala e enchendo os palcos de luzes, dançarinos e orquestras. Visão puramente esquizofrênica, porque isso em si não transforma o brega de ontem na MPB de amanhã.

Da mesma forma, não dá para popozudas romperem com o machismo, de cujos valores elas representam, através do celibato. Como não dá para transformar os funqueiros bobos em "cantores de protesto", só porque seus "bailes funk" foram invadidos pela polícia.

A Música de Cabresto Brasileira, a ideologia brega-popularesca, seja o brega de ontem, seja o "popular" de hoje, são na verdade um grande caleidoscópio de preconceitos, um processo cordialmente perverso de exclusão social. A classe média é que tem que aceitar essa mediocridade cultural, essa inferiorização social como se fosse inerente às classes pobres. Temos que achar essa inferioridade "superior", para o bem de uma suposta paz social que beneficia mais os lucros do mercado do que a busca de melhorias de vida do nosso povo.

Daí que essa mediocrização é rigorosamente calculada. O rigor estético não está na MPB mais sofisticada, cuja qualidade estética é maior porque é livre, é o talento natural de seus artistas. Como também não está na cultura popular autêntica que fez história no passado, porque esta também teve alta qualidade estética, era livre na sua criatividade.

O brega-popularesco, por não ser livre, por ser meramente mercadológico, esse sim é que tem rigor estético. Um rigor nivelado para baixo, calculado, tendencioso. O artista "se evolui" depois que se enriquecer nos seus discos medíocres.

As pessoas em geral primeiro são induzidas a se comportar como idiotas para depois receberem algum benefício de ordem sócio-econômica. Depois que, como farofeiros indo à praia, se sentam nas mesas das faculdades - sem que tenham sido beneficiados por um programa educacional melhor, mas por medidas mais fáceis de acesso - para exibir sua mediocridade triunfante.

Com toda a certeza, isso nada tem a ver com a verdadeira evolução das classes populares. Só mantém as desigualdades sociais, eliminando apenas os efeitos mais incômodos para as elites.

Um comentário:

Marcos Vinicius Gomes disse...

"As pessoas em geral primeiro são induzidas a se comportar como idiotas para depois receberem algum benefício de ordem sócio-econômica. Depois que, como farofeiros indo à praia, se sentam nas mesas das faculdades - sem que tenham sido beneficiados por um programa educacional melhor, mas por medidas mais fáceis de acesso - para exibir sua mediocridade triunfante'. Hum...senti uma brisa contraditória e elitista. O melhor para todos, mas não todos em sua totalidade. Espero estar errado.