quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

BREGA-POPULARESCO NUNCA FOI CULTURA VIVA E ATUANTE



Quem defende a "cultura" brega-popularesca reclama que aquilo que consideramos a cultura popular autêntica ou à cultura de classe média de cunho popular (pós-cepecista e pós-bossanovista, como, por exemplo, Chico Buarque) é estático, datado e sem evolução.

Acreditam eles que o tal brega-popularesco colocaria a cultura popular brasileira nos eixos de modernidade e evolução da cultura pop internacional, enquanto a verdadeira cultura que defendemos está parada no tempo, é isolada e antiquada.

Há grande equívoco nesta tese.

Na verdade, é o brega-popularesco que é parado no tempo, é isolacionista e antiquado. E, quando tenta evoluir em alguma coisa, é sempre de forma restritiva e controlada. Afinal, nunca nos esqueçamos, trata-se de uma pretensa cultura popular investida e controlada pela grande mídia, direta ou indiretamente (neste caso, quando os ídolos popularescos aparentemente "não aparecem" na grande mídia, mas seguem seus princípios e valores).

Em primeiro lugar, o que eram os primórdios da "cultura" brega?

Simples, a primeira ideia que temos que considerar é que ela vem da ruptura com a natural evolução cultural das classes pobres no interior do país.

Os primeiros ídolos cafonas nada tinham das modinhas, baiões, lundus, maxixes, xaxados, maracatus das regiões interioranas, dos sertões, subúrbios, agrestes, roças, das primeiras favelas.

A música cafona, nos seus primórdios, era tão somente composta de arremedos, ao mesmo tempo forçados e caricatos, dos antigos seresteiros, quando as serestas haviam passado há um bom tempo. Não tinha contexto social espontâneo para esses sub-seresteiros aparecerem e fazerem sucesso, sobretudo porque as zonas urbanas estavam vivenciando a Bossa Nova e as zonas interioranas na redescoberta da música de raiz, numa volta espontânea ao passado para retomar a vitalidade cultural atuante e atualizante.

Os primórdios da música cafona já mostram que todas as acusações que sua intelectualidade apologista atribui à MPB está, na verdade, nessa tendência popularesca que tanto defendem.

Afinal, até como seresteiros os ídolos cafonas soam datados, isolacionistas, sem identidade, sem a menor chance de evolução artístico-cultural.

Em primeiro lugar, carecem até mesmo da brasilidade que os antigos seresteiros autênticos, como Vicente Celestino, Lupicínio Rodrigues e Nelson Gonçalves, tinham.

Os antigos seresteiros eram influenciados por chorinhos e modinhas, tinham sua poesia que, embora fosse de um sentimentalismo aparentemente exagerado, era dotado de natural ironia e a tristeza não deixava de ser dotada de um natural senso de humor.

Se as serestas deixaram de ser moda, com seus sambas-canções, boleros etc - o último seresteiro talvez fosse Altemar Dutra, que não deve ser considerado brega, porque seu contexto, no começo da carreira, era mais específico e próprio (mal comparando, Altemar Dutra fazia boleros como Violeta de Outono fazia rock psicodélico-progressivo) - , é porque seu natural esgotamento criativo impediu sua evolução artística.

Em outras palavras, as circunstâncias sociais ocorridas no Brasil da Era Kubitschek simplesmente fizeram com que a linguagem das serestas não acompanhasse a renovação sócio-cultural brasileira. Quem fazia serestas, continuou fazendo normalmente, e poucos surgiram como discípulos. Mas as serestas deixaram de ser a tendência mais influente, quando "Chega de Saudade", manifesto musical da Bossa Nova, anunciava em sua letra o fim das serestas e a chegada de uma nova linguagem poético-musical.

Por isso os primeiros ídolos cafonas, lançados a partir de 1958 sob o patrocínio de fazendeiros, donos de rádios e empresários de atacado e varejo - o primeiro deles foi o megaempresário Abraham Medina, de O Rei da Voz - , já soavam descontextualizados, acompanhados de um estranho padrão de sociedade caraterizado pela inferiorização das classes pobres.

Juntando as letras dos primeiros ídolos cafonas, de um pessimismo resignado, ao cenário social de sucesso e de consumo desses ídolos, dá para perceber claramente os aspectos de subordinação e inferiorização social: idosos condenados ao lazer alcoólico dos botequins, ao recreio sexual dos prostíbulos (aqui há também a inferiorização social da mulher), à tristeza resignada, ao protesto conformado. "Eu vivo mal, mas tenho que ser assim", era a bandeira "cultural" da ideologia brega.

E o som? Arremedos se serestas "enriquecidos" (?!) - não seriam "empobrecidos"? - com influências como a música romântica italiana, o country, as músicas orquestradas "ligeiras" (Percy Faith, Franck Pourcel, Mantovani), boleros, mariachis, mas dentro de uma perspectiva de atraso, de estagnação sócio-cultural, de sonhar, nos meados dos anos 60, com um modelo de sociedade do começo dos anos 50. Um sonho distante, impossível, seja porque é uma época passada, seja porque é inacessível diante da inferioridade social do povo submetido ao ideário brega.

Quando a música cafona se desdobrou, ao longo dos anos, em diversas tendências, como a geração de retardatários que fizeram Jovem Guarda depois do fim do movimento, como Odair José, o "sambão-jóia" de Benito di Paula e companhia (arremedo piegas do samba-rock de Jorge Ben), e a geração brega-jovem dos anos 70, como Gretchen, além de outras que vieram depois ("pagode romântico", "música sertaneja", axé-music, "funk carioca", "forró-eletrônico" e respectivos derivados), não foi pela natural tendência de evolução cultural, mas por uma calculada manobra mercadológica.

Em outras palavras, essa "natural evolução" na verdade acontecia na medida em que uma tendência de sucesso se esgotava e se planejava a entrada de outra. Não era algo realmente natural, como a intelectualidade etnocêntrica tanto alardeia. Pelo contrário, era apenas a "renovação" do espetáculo mercadológico, através do tendenciosismo.

É bom abrir um parêntesis quanto às políticas econômicas realizadas pelo governo militar e pelos governos municipais e estaduais por volta do "milagre brasileiro" até o fim da Era Geisel, que, no plano "cultural", obrigou a música brega a adotar uma brasilidade tendenciosa, para reforçar interesses turísticos ou econômicos.

A "Revolução Verde" da Era Médici influenciou a diluição da música caipira através da tal "música sertaneja" (breganejo). A indústria turística influenciou na diluição de ritmos nordestinos e nortistas - com ênfase tanto na disco music quanto em ritmos caribenhos - já nos anos 70, mas seus resultados seriam mais evidentes nos anos 80/90, com a lambada, a axé-music e o "forró-eletrônico" (forró-brega).

Vamos comparar uma tendência do brega-popularesco com outra da MPB autêntica com influência estrangeira, para explicarmos melhor esta tese. De um lado temos o breganejo, a suposta "música sertaneja" que aparece (sim, aparece) na grande mídia e que tem a festa anual de Barretos como uma de suas maiores vitrines. De outro, temos o mangue beat, cenário de Pernambuco lançado por volta de 1993.

Enquanto o breganejo, na verdade, não passa de uma variação do brega de Waldick Soriano (os "universitários" se inspiram em Odair José) que adotou uma "brasilidade" tendenciosa e calculada pelas políticas turísticas e agrícolas do regime militar, no caso a diluição da música caipira para afirmação das elites latifundiárias beneficiadas pela "Revolução Verde", o mangue beat é uma natural evolução do maracatu nordestino por uma juventude que aprecia igualmente as tradições regionais quanto a modernidade do pop internacional.

Há dois modos de assimilar influências estrangeiras:

1) Que respeita a soberania nacional e assimile a influência estrangeira dentro de um contexto social próprio. Mesmo que se faça um ritmo de origem estrangeira, é feita uma adaptação que o transforma numa linguagem nacional própria, com personalidade local.

Os elementos nacional/regional continuam fortalecidos, mesmo com a livre assimilação das culturas de fora.

Numa comparação aproximada, é quando uma pessoa de fora visita nossa casa. Somos gentis com o visitante, até lhe deixamos à vontade, mas a casa é nossa e o visitante é tão somente um visitante. Sua visita influencia decisivamente na vida de nossa casa, pois até investimentos como a arrumação da casa e o abastecimento de alimentos é sob influência do vindouro visitante. Mas as regras da casa continuam sendo as nossas, e o visitante não é morador nem dono dela.

2) Que se subordina à influência estrangeira, ainda que se expresse uma linguagem aparentemente local. É quase o mesmo processo da dublagem de filmes estrangeiros, onde a linguagem nacional não se sobrepõe ao caráter estrangeiro da obra original. O fato do comediante Orlando Drummond, por exemplo, ser dublador de vários personagens de filmes de faroeste quase nada influi na "brasilidade" dessas produções estadunidenses.

Os elementos nacional/regional são enfraquecidos, mesmo quando no discurso são "mantidos", pois nenhuma apologia "pós-moderna" pode ignorar a supremacia dos elementos estrangeiros e o caráter nocivo de seu poder dominador.

Neste caso, podemos comparar a influência estrangeira como um invasor. Ele entra na nossa casa sem permissão nem aviso prévio. Nós nos subordinamos ao que ele quer, o que ele pede, as regras de nossa casa, quando muito, só são precária e parcialmente levadas em conta. Quando muito, nós sobrevivemos como meros moradores passivos, quase inquilinos do invasor que toma a casa como sua, embora formalmente ela "continue" nossa.

Nota-se que, por mais que o mangue beat seja influenciado pelo hip hop e pelo rock pesado, há ainda a ênfase nos ritmos locais pernambucanos. Os mangue boys sabem que têm uma tradição cultural a zelar, não como um patrimônio estático, mas como um organismo vivo. Por isso têm direito e mérito em assimilar influências estrangeiras, sem perder a identidade local, nacional ou regional.

Já o breganejo, não. Nota-se, claramente, uma ênfase na imitação do padrão country dos ídolos e de seu público. O caráter subordinado ao estrangeiro é claro, as identidades regionais são defendidas no discurso (até com alarde exagerado demais para ser confiável), mas, na prática, são desmanteladas cruelmente.

Isso ocorre de tal forma que até mesmo as regravações de canções caipiras tradicionais ou de músicas como as do movimento mineiro Clube da Esquina - pelos temas ecológicos e fraternais de suas músicas - pelos breganejos é um processo tendencioso, só para "reforçar", na aparência, as identidades nacional-regional desmanteladas.

REGIONALIDADES DESTRUÍDAS

O "forró-eletrônico" (ou forró-brega), também é outro exemplo de tendência brega-popularesca marcada pelo aniquilamento das identidades regionais.

Competindo duplamente no mercado, como um breganejo mais dançante ou como uma axé-music mais rural, o forró-brega, cujos primórdios vêm da lambada e ritmos similares do Norte e Nordeste (geralmente fora da Bahia), desde meados dos anos 70, se carateriza na subordinação quase total da influência estrangeira, apenas mal traduzida por uma visão provinciana e acanhadamente regional.

O forró-brega cria um espetáculo, nos palcos, que se assemelha ao dos antigos cabarés do faroeste norte-americano. Superproduzido demais para ser considerada "cultura popular regional". E muitos intérpretes concentram seu repertório nas "versões" de sucessos estrangeiros, numa clara intenção de romper com qualquer regionalidade.

Além disso, o forró-brega quase nada tem a ver com os ritmos de raiz nordestinas, que nem para permitir uma evolução artística são considerados. Seus intérpretes usam roupas que, pelos cabelos compridos lisos dos rapazes, que imitam corsários estrangeiros, e pelas indumentárias espalhafatosas das moças, que remetem ao cruzamento entre os cassinos texanos do século XIX e as atuais boates de Miami, afirmam a supremacia estrangeira sobre o elemento nacional, dominado e enfraquecido.

O forró-brega é um engodo que mistura disco music, ritmos caribenhos, o brega da linha Odair José e o hit-parade norte-americano em geral. Para piorar as coisas, quando adota o acordeon, sua sonoridade é mais influenciada pela música gaúcha.

A MÚSICA SEM VIDA

Que vida tem o brega-popularesco? Nenhuma! Não é a cultura viva do povo, porque nem sequer essa "cultura" é socialmente transmitida, mas imposta pelo poder de rádios e emissoras de TV ligadas a grupos dominantes.

Ultimamente a intelectualidade tenta ignorar essa realidade tão óbvia, consequente das políticas de entretenimento feitas desde a reação das elites reacionárias ligadas ao latifúndio, passando pela ditadura militar e pelas manobras dos governos de José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, todos de cunho conservador.

Mas dá para perceber que essa "cultura popular" que domina nas rádios e TVs não é a legítima expressão do povo pobre, não possui vida nem luz própria, mas tão somente fetiches, sucessos comerciais, é tão somente a "cultura de massa" tão discutida pelos teóricos da Comunicação.

Não é uma cultura popular de fato, mas apenas uma "cultura" popularizada. Na verdade, é expressão do empresariado que investe nesses ídolos popularescos. Essa "cultura" não produz conhecimento, nem valores sociais edificantes para as classes populares, apenas cria um espetáculo de sucesso e estrelato que, aos olhos de seus investidores, precisa ser renovado, reciclado e permanente de toda forma, afinal são eles que lucram por trás dos "ídolos populares" que aparecem na mídia.

Como pode atribuir produção de conhecimento, por exemplo, a ídolos de "pagode romântico" que tentam "fazer samba direitinho", mas sempre restrito aos clichês lançados pelos poucos sambistas autênticos liberados para rádios? É triste ver que certos grupos, que começaram fazendo música brega travestida de samba, façam "sambas corretos" que imitam o som de Zeca Pagodinho e Jorge Aragão, mas cujos músicos não têm profundo conhecimento do próprio estilo que dizem tocar, apenas conhecendo aquilo que a grande mídia apresenta para eles.

Por isso, a "cultura" brega-popularesca não tem vida. Não cresce naturalmente, não produz conhecimento, não se evolui, não desenvolve identidades locais, não faz o homem ter consciência de sua posição na sociedade, não estabelece diálogo natural entre as gerações.

É o brega-popularesco que vive parado no tempo, só se transformando conforme as circunstâncias de mercado. É o brega-popularesco que vive isolado do mundo, porque seu "mundo" é apenas aquele da grande mídia, do hit-parade norte-americano, do estrelato, do neoliberalismo, do entretenimento das classes populares subordinado às regras e valores do capitalismo neoliberal.

É o brega-popularesco que traz uma visão "idealizada" do povo pelas elites, que promove a domesticação das classes populares, comprometendo os avanços sociais. O brega-popularesco não quer qualidade de vida, mas apenas um atendimento, controlado pelas elites e parcialmente exercido, às expectativas populares.

A cada dia, a intelectualidade que defende o brega-popularesco está sendo contestada e nada pode fazer para prevalecer seus argumentos discutíveis.

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