quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"POTRANCA" DADA NÃO SE OLHA OS DENTES



O recente reacionarismo de setores até agora privilegiados da nossa sociedade é algo que se torna notório em vários episódios. Gente falando em afogar nordestinos, gangues violentando homossexuais, a mídia golpista criminalizando os movimentos sociais, entre tantas outras coisas.

O alarme faz com que estes setores partam para calúnias, ameaças, esnobismos, agressões diversas, numa espécie de bullying "ecumênico", partindo de "valentões" de diversos extratos de nossa sociedade.

Desde que os progressos sociais estabelecem limites para as elites, elas reagem da forma mais cínica e violenta que as circunstâncias permitirem. Rodas de samba já foram consideradas crimes pela sociedade da República Velha. Reivindicar melhores salários e melhores condições de trabalho - a chamada "questão social" - também era considerado "caso de polícia".

Há 57 anos, a promessa de aumento de 100% do salário mínimo pelo então ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, João Goulart - o mesmo que, presidente da República, era expulso do poder por um golpe militar - , fez os então coronéis lançarem um manifesto de repúdio, porque o aumento salarial dos trabalhadores faria as elites "declinarem" no seu confortável padrão de vida.

Daria um excelente livro só para analisar as reações das elites brasileiras em relação a progressos sociais ou ao questionamento de certos absurdos do status quo. Um histórico do reacionarismo brasileiro, para as pessoas conhecerem as campanhas reaças que aconteceram e ainda acontecem no nosso país.

O que me chamou a atenção é que, por três vezes, eu fui atacado por fazer textos contra as chamadas "boazudas", aquelas que vivem apenas para mostrar o corpo na mídia. São aquelas mesmas que só vão para noitadas, praias e ensaios de escolas de samba, para mostrar suas "formas generosas", "pagar calcinha", "mostrar demais seu corpo", "mostrar o seio por 'acidente'", "exagerar no decote" ou coisa parecida.

E, o que é pior, eu fui atacado por mulheres. Sim, existem mulheres que defendem o machismo, ideologia nefasta que se alimenta tanto pela brutalidade dos machos quanto pela vulgaridade das mulheres-objetos. Uma delas, conhecida como "marcia" (mas que poderia muito bem ser chamada de marchista), me dirigiu ameaças só porque sugeri para Solange Gomes se casar com um empresário.

Outros absurdos já li a respeito dessas calipígias, como a ideia, falsíssima, de que elas são "feministas" porque falam mal dos homens e, aparentemente, se viram sozinhas na "carreira". Isso, no entanto, é avacalhar com o verdadeiro feminismo, que nunca se baseou no ódio barato aos homens, mas sim na busca das verdadeiras conquistas sociais e da superação de todo tipo de situação inferiorizada da mulher. Coisa que as popozudas, baseadas na imagem de mulher-objeto, não se interessam em fazer.

Puxa vida, não dá mais para entender o nosso país. As popozudas cometem gafes - como dizer que odeiam ler livros e posar de "freiras" ou "enfermeiras" - , e eu é que sou culpado por isso? Ou será que eu teria que ficar calado diante de tanto absurdo? O reacionarismo de "marcia", a Machista, foi de um nível estarrecedor. Ela me perguntava se eu era mesmo homem e dizia que eu seria processado pelo que escrevi sobre Solange Gomes. Só que o que escrevi nada tinha de mais, eu apenas critiquei o espetáculo machista do portal Ego, as atitudes de certas popozudas, apenas falei a verdade.

Se alguém se sentiu ferrado com isso, foi "marcia", que certamente não é esse seu verdadeiro nome. Mas certos reacionários mostram o nome, outros se escondem. Para cada dez reacionários que expressam sua fúria, seis usam pseudônimo. Ela expôs seu machismo num comentário grotesco, ameaçador, como se quisesse me intimidar com sua fúria.

De outro lado, há mulheres não-vulgares que se casam com empresários e profissionais liberais. Há até um mal-entendido quando falo que eles são sisudos, porque fulano disse que o empresário X é "simpático" e o economista Y é "alegre", ou porque no casamento da jornalista A com o consultor financeiro B o casal dançou ao som de "Tonight's The Night" de Rod Stewart.

Mas quando digo que fulano é sisudo não é porque ele não sorri. A sisudez está no apego às formalidades, até mesmo quando elas não são exigidas. Nota-se uma diferença entre um empresário, executivo ou profissional liberal de 40, 50 anos e um universitário de 22 anos no que se diz ao lazer. O tão "bem-sucedido" profissional liberal, executivo ou empresário, tão aclamado símbolo de "sucesso" e "bom gosto", nunca se sente à vontade na hora do lazer.

Há exceções à regra, mas isso é outro caso. O que vemos é que a maioria desses homens pouco se preocupa em parecer mais joviais e informais no lazer, porque tudo que eles expressam é o sucesso financeiro, o poder sócio-econômico, o acúmulo de privilégios materiais. O lazer é apenas uma mera vitrine de sua vaidade, e um mero palco para seus gestos, procedimentos e vestimentas forçados, num ritual social burocrático.

Ou seja, não posso criticar o machismo, seja de um lado, seja de outro. Tenho que respeitar o machismo de hoje, porque ele é mais "respeitoso" e apenas busca o seu "sucesso". Dizem que isso não me ameaça, não me prejudica, mas prejudica muito.

Para se ter uma ideia, se eu quiser ter a mulher que eu tanto quero, tenho que recorrer ao SEBRAE para montar uma empresa. Agora, se eu quiser ter uma mulher fácil para conquistar, terei que ir a uma vaquejada, micareta ou "baile funk", mas essas mulheres, em personalidade, nada se afinam comigo. Digo isso na melhor das hipóteses, porque eu sei que há até funqueiras traiçoeiras, que assediam um homem pacato porque é mais "tolinho", faz a funqueira mais "mandona", é ótimo para ela fazer de gato e sapato.

Mas meu prazer, minha vontade, nada disso importa. Tenho que "perder o preconceito" em tudo, menos ao meu próprio prazer, ao meu direito de escolha. "Potranca" dada não se olha os dentes, diz a machistada autoritária e cínica.

É até engraçado que esse pessoal vale em liberdade de valores, porque eles só defendem a libertinagem associada aos valores que eles acreditam. Mas esse discurso hipócrita, "humanista" na retórica mas fascista nos princípios, mostra o quanto esse pessoal "sem preconceitos" tem de reacionário e de altamente preconceituoso.

É o reacionarismo que, nos últimos oito anos, tentou defender os valores retrógrados que faziam uma pequena elite ter vantagens, privilégios e direitos, em detrimento de uma maioria. Um reacionarismo aberto, que se utiliza da máquina midiática demotucana para atacar as forças progressistas. Ou um reacionarismo sutil, que se infiltra nos movimentos e instituições progressistas para tentar minar de dentro os avanços sociais.

Esse reacionarismo tem que ser repudiado de todas as formas, por mais que certos reaças façam uma falsa defesa das causas sociais progressistas, com discurso "humanista" e pretextos de "justiça social".

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