segunda-feira, 22 de novembro de 2010

PARA A FOLHA DE SÃO PAULO, ODAIR JOSÉ É "ARTISTA CULT"



Acabei de escrever, para o blog Mingau de Aço, um texto em que a Editora Record, que publicou o panfletário livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo - que vai virar documentário, sob o nome de Eu Vou Tirar Você Deste Lugar - , se indignou com a premiação dada a um livro escrito por Chico Buarque, pelo Prêmio Jabuti de Literatura.

A Record (que, pela sua iniciativa, fez PC Araújo se transformar em "deus" mesmo com o jeitão canastrão-charlatão de tal escritor), chegou a se aliar a Reinaldo Azevedo - o retrogradíssimo colonista da caquética revista Veja - para pedir a Chico Buarque de Hollanda, uma das brilhantes figuras intelectuais da atualidade, a devolver o prêmio. A Record acusa Chico de ter ganho o prêmio por "favorecimento" e "motivos políticos de diversas naturezas".

Consultando a Folha On Line - tenho que estar a par do PiG, tive que jantar pão com bebida láctea vendo o tecnobrega no Domingão do Faustão (mas aí é porque meus pais assistem ao programa) - , vi que Odair José pretende gravar novo disco.

Nada contra artistas de qualquer nível lançarem novos discos. É direito de qualquer um. Mas o problema é que o Brasil é o único que tenta promover os antigos ídolos da música comercial como se fossem "rebeldes injustiçados", numa campanha cafajeste de evitar que seus discos durmam em lojas de sebos de discos. O problema é a promoção de discos de certos artistas como se tais lançamentos fossem a "salvação da humanidade planetária".

Imagine se Chubby Checker, cantor do tolo mas ainda divertido twist, fosse promovido como "ícone da Contracultura"? Lá nos EUA, ele é tratado como um cantor comercial comum, que faz revival de sua carreira, mas se ele fosse brasileiro só faltaria dizer que ele enfrentou sozinho os tanques que se dirigiram ao comando do 2º Exército, no Rio de Janeiro, no dia do golpe de 1964.

Mas, num país onde os medíocres Ice MC e Double You, se fossem brasileiros, seriam ícones "bolivarianos" por conta da "esquerda festiva" (laboratório dos "neocons" de amanhã) que não desconfia da presença do demotucano Pedro Alexandre Sanches, o sempre discípulo de Otávio Frias Filho, na Caros Amigos e Revista Fórum, é certo que os futuros seguidores do Marcelo Madureira também ficam animadinhos quando alguém fala que a música brega "agora é cult".

Só mesmo a Folha de São Paulo e alguns deslumbrados. Mas a retórica é tão habilidosa que a campanha consegue animar uma boa plateia. Paulo César Araújo nem é lá grande escritor - vai um José Ramos Tinhorão, mesmo com seus ataques à Bossa Nova, e dá um banho - , mostra um semblante pouco confiável e sinistro, mas o cara vira um "deus" aplaudido pelas "focas de circo" que dominam o establishment intelectualóide brasileiro. Tudo porque tentou transformar Waldick Soriano em "cantor de protesto".

Só mesmo a Folha de São Paulo, ela mesma, "paladina da liberdade de imprensa e da democracia", mas que ofereceu seus próprios carros para os torturadores da ditadura militar transportarem presos políticos, para dizer que os ídolos cafonas "lutaram contra a ditadura militar".

Mas ninguém desconfia. Quando o assunto é entretenimento, a Folha de São Paulo parece uma santinha. Mas até no entretenimento ela transmite seus valores retrógrados, com uma sutileza que pouca gente percebe. Até porque os hoje dissidentes já saíram da Folha faz muito tempo.

Só para sentir a gravidade da "cultura" brega, que foi apoiada, sim, pela ditadura militar, as empregadas domésticas, há 50 anos, ouviam música de qualidade: Jorge Veiga, Noite Ilustrada, Dalva de Oliveira, Dóris Monteiro, Robertinho Silva, Agostinho dos Santos, Jackson do Pandeiro. Ouviam até Miles Davis, Louis Armstrong, Nat King Cole.

Mas hoje tudo isso está trancafiado nos armários das madames e dos doutores, temerosos de que o povo, recuperando sua cultura, realize uma revolta popular sem precedentes.

A burguesia, neste sentido, está tranquila. Afinal Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e companhia se esforçam para tentar evitar que o povo pobre faça cultura popular de qualidade. Sob as bênçãos da Folha de São Paulo, queiram ou não queiram certos "caros amigos".

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