quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O "UFANISMO" DA FAVELA



Em nome do "politicamente correto", a grande mídia faz, desde um bom tempo, uma propaganda ufanista relacionada ao povo das favelas.

Trata-se de um "orgulho de ser pobre" que, à primeira vista, parece ser dotado de boas intenções, mas não é mais do que expressão de um lado da ingenuidade de algumas pessoas de origem pobre, incluindo ativistas sociais, e, de outro, do cinismo das elites e mesmo de intelectuais etnocêntricos, com seu paternalismo "dócil" com as classes pobres.

Afinal, a necessidade de valorizar o povo pobre e fazer ouvir sua voz é conduzida de maneira equivocada, além de mostrar contradições que em nada contribuem para resolver de fato a pobreza no nosso país.

Tudo isso porque esse ufanismo nada mais faz do que estimular a vaidade por nada. "Vivo na favela, logo tudo é bom", é o que diz essa campanha. Em vez de estimular o povo a agir por melhorias concretas, cria-se um conformismo - afinal, "ser pobre é legal" - que pode resultar até em arrogância (o favelado sentirá que não pode ser criticado porque "ele é pobre"), além de esconder as injustiças e mesmo os desastres e riscos que existem nas precárias moradias dos morros.

"CLASSE MÉDIA" DA FAVELA - Uma dessas contradições é que o "ufanismo da favela" é que os verdadeiros beneficiados dessa campanha não é todo o povo favelado, mas apenas uma parte "emancipada" dela, uma espécie de "classe média" dos favelados, que tem antena parabólica, algum conforto, participação relativamente ativa no processo de consumo e cujos jovens podem pagar um clube de subúrbio para irem a um evento popularesco. O que inclui também passagens de ônibus - às vezes, mais de um entre a casa e o clube noturno - , dinheiro para lanche e sobressalente.

Ou seja, esse ufanismo, que no fundo investe tão somente no mito da "periferia legal", só remete mesmo a uma parte do povo favelado que possui água encanada, energia elétrica - alguns ainda através de "gatos" - , possuem antena parabólica e assiste à TV paga (através da "gatonet"). Ou seja, uma parte da favela que goza de alguma visibilidade.

É claro que isso tem seu aspecto positivo, porque parte do povo pobre conquista alguns benefícios, mesmo de maneira "torta" (seria bom, por exemplo, se tivesse energia elétrica legalizada e acesso ao serviço legal de TV paga). De certa forma, é uma multidão capaz de comprar uma cesta um tanto mais que básica, podendo fazer até churrasco nos fins de semana e feriados.

Mas isso ainda é pouco, e o maior problema é que a mídia grande e os intelectuais etnocêntricos superestimam esse progresso social como se fosse a perfeição alcançada. No entanto, isso é insuficiente, vide o outro lado da favela, o outro lado que continua pobre, continua excluído mesmo da visão ufanista da "favela legal" e ainda está sujeito a tragédias ligadas à violência ou a desastres naturais que ameaçam suas casas mal construídas e mal situadas em áreas de risco.

Em primeiro lugar, também não se pode confundir consumo com qualidade de vida. Uma coisa é a prosperidade econômica, a participação no mercado de consumo, coisa que até a ditadura militar prometia para a população. Outra coisa é a qualidade de vida, que inclui a garantia de direitos humanos, que envolve elementos que vão muito além da capacidade de comprar mais coisas.

A sociedade é bastante complexa e é muito simplório e até hipócrita falar em participação na sociedade de consumo como se fosse a conquista da qualidade de vida. O poder aquisitivo é apenas um aspecto menor da qualidade de vida, isso é óbvio.

Há muita coisa a resolver nas favelas. Aliás, a própria favela é um problema, não pelo povo em si, mas pelas condições precárias em que o povo favelado vive, mesmo a parte relativamente próspera desse povo.

A desfavelização, por isso, não é uma forma de discriminar os favelados, muito pelo contrário. Através da desfavelização, pela construção de casas populares, procura-se resolver o problema das moradias precárias que os pobres são obrigados a construir, diante da exclusão imobiliária, já que os apartamentos são muito caros para as classes trabalhadoras poderem comprar, ainda que através do aluguel.

A doação de prédios e apartamentos vazios para pessoas com nível delicado de pobreza - sobretudo quando são famílias numerosas - também é uma boa alternativa de moradia, que pode trazer qualidade de vida para as classes populares. Mas isso vai contra interesses de empreiteiros, de grupos políticos conservadores e mesmo de setores preconceituosos da classe média, que acham que doar um apartamento para o povo pobre significa trazer a desordem para os condomínios.

Culturalmente, então, o "ufanismo" da favela comete o erro de associar ao povo pobre a pseudo-cultura do brega-popularesco, que, pelo seu caráter apátrida, estereotipado, esquizofrênico e conformista. É evidente que essa "cultura popular" dos lotadores de plateias fica muito a dever diante de um patrimônio cultural rico que as classes pobres produziram no passado.

Como comparar, por exemplo, os grandes sambistas de nossa História com certos astros do sambrega que mal conseguem fazer uma tradução brasileira da soul music norte-americana, misturando Usher com Luiz Miguel em baladas melosas e cafonas? Além do mais, muitos desses ídolos de sambrega são muito mais ricos do que muito suposto burguês da MPB intelectualizada, e tocam até em Barretos sob as bênçãos dos latifundiários.

Há muito o que discutir nesse "orgulho de ser pobre", porque ele em nada resolve na resolução das desigualdades sociais. Apenas diminui as desigualdades, mas com o preço de atrair uma parcela do povo pobre para o apoio conformista à grande mídia e a uma intelectualidade paternalista.

É preciso ver o povo da favela de maneira objetiva e não sentimental. É imprescindível deixar o povo da favela falar, dar espaço para o povo pobre, não para reafirmar a pobreza como "algo legal", nem para classificar as casas rudimentares dos morros como "arquitetura pós-moderna".

É preciso fazer a favela falar de seus problemas, de suas limitações, de seu sofrimento. E fazê-la se livrar da escravidão brega-popularesca, estimulando o desenvolvimento de sua real identidade.

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