segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O DESGASTE DO BREGA-POPULARESCO


BANDA CALYPSO E CASSETA & PLANETA - O brega-popularesco se relaciona com a grande mídia, ela é seu DNA.

A longa era do brega-popularesco, a pretensa "cultura popular" da grande mídia, vive hoje seu momento de impasse, devido ao natural desgaste de seus ídolos e estilos.

O brega-popularesco teve um longo período de sucesso hegemônico, de pelo menos 25 anos, se contarmos apenas a influência das rádios FM dominadas por oligarquias regionais e por emissoras de TV aberta de cunho populista, como o SBT.

Essa longa hegemonia chegou ao ponto de ofuscar a Música Popular Brasileira, fazendo com que até mesmo o cantor Belchior usasse um factóide que nos pegou desprevenidos.

Afinal, o autor de "Como Nossos Pais", sucesso na voz de Elis Regina, havia aparentemente desaparecido da mídia, de forma misteriosa, quando depois foi descoberto de que a notícia não era mais do que um protesto do cantor contra o desprezo que recebia da mídia, que se ocupa em divuglar a música cafona e seus derivados.

O natural desgaste de toda uma linhagem da música cafona, que começou com arremedos de boleros e serestas fora do contexto e, depois se desdobrou em caricaturas de Jovem Guarda e samba rock (o "sambão-jóia") e, em seguida, no aparecimento de tendências como o breganejo, a axé-music, o sambrega e o "funk carioca", além de seus derivados, é algo que não pode passar despercebido.

Não é por acaso que essa linhagem musical que se alimentou da politicagem conservadora e do jabaculê das emissoras de rádio e TV, nos últimos anos, teve que recorrer ao socorro de intelectuais simpatizantes, como cientistas sociais e críticos musicais, para uma desesperada legitimação de seus ídolos e tendências.

Mas o desespero ocorre de tal forma que essa defesa, antes feita dentro dos espaços da grande mídia, tentou recorrer também à mídia de esquerda, na medida em que a grande mídia, alinhada a uma ideologia direitista, começava a ser desacreditada pela opinião pública.

Tudo é feito para salvar a ideologia brega-popularesca da decadência, apesar dela mostrar seus efeitos. Uma cantora de axé-music foi violentamente vaiada quando uma de suas apresentações iniciou-se depois de muito atraso. Cantores de sambrega e breganejo têm que alimentar suas carreiras com factóides nas colunas sociais.

Enquanto a intelectualidade tenta recorrer à mais manjada desculpa do "preconceito", mesmo diante do sucesso estrondoso de vários desses ídolos, o desgaste no entanto se evidencia mais e mais. Afinal o "preconceito" era apenas a alegação de que esses ídolos, com todo o sucesso de plateias lotadas, CDs vendidos e grande audiência na mídia, não eram levados a sério pelos especialistas e apreciadores de MPB autêntica.

Mas esse "preconceito" não fazia sentido para aqueles que não gostam de brega-popularesco por justamente ouvirem seus ídolos através da vizinhança, dos camelôs, dos supermercados e grandes lojas de atacado e varejo, da zapeada pela TV e pelo rádio, da Internet, etc.

Portanto, não podem ser preconceituosos aqueles que não gostam de tal coisa porque a provaram, porque a conhecem. Ninguém tem preconceito porque não gosta de algo sabendo por que não gosta. E aqueles que gostam sem saber do que se trata? Seriam eles desprovidos de preconceito? Evidentemente, não.

O PORQUÊ DO DESGASTE

Um dos pontos comuns do discurso apologista em relação à Música de Cabresto Brasileira - a modelidade musical da "cultura" brega-popularesca - , feito por jornalistas, cientistas sociais e celebridades, é que boa parte deles aconselha para que esqueçamos as questões estéticas em torno de suas músicas, que constituem os chamados "sucessos do povão" há 46 anos em evidência nas emissoras de rádio brasileiras ligadas a grupos dominantes.

Isso é uma incoerência, que mascara certamente a invalidade da Música de Cabresto Brasileira, porque a estética é um dos elementos primordiais da linguagem artística, da comunicação expressiva.

Além disso, desprezar a estética e aceitar uma "cultura qualquer nota", só porque ela faz sucesso, esconde outras preocupações, como o fim do faturamento do mercado popularesco, que movimenta vários milhões de reais por ano, além do verdadeiro preconceito com as classes populares, apenas em tese representada por essa "cultura".

Esse preconceito se deve pelo julgamento ao mesmo tempo esnobe e paternalista dos defensores do brega-popularesco: eles dizem que "é isso que o povo gosta", "é isso o que a maioria do povo sabe fazer". Preconceitos que vem da própria intelectualidade, como Eduardo Sander (Blog do Patolino) e Malu Fontes (professora da UFBA).

O desgaste do brega-popularesco se dá pelo fato dos chamados "grandes artistas", sobretudo os de axé-music, breganejo e sambrega (só para dizer as tendências mais "sofisticadas"), dificilmente se sustentarem no sucesso, depois dos seus primeiros anos de popularidade.

Contrariando a tendência dos verdadeiros artistas, que se tornam cada vez mais autorais ou consistentes com o evoluir da carreira, os ídolos da música brega-popularesca, passados cinco anos de sucesso, passam a alimentar suas carreiras com uma discografia predominantemente de discos ao vivo ou de duetos, além de um repertório em boa parte de covers, quase transformando os cantores, tidos como "grandes criadores", em meros crooners.

A coisa é tão grave nesse processo de "música paralizada brasileira" que cantores com 20 anos de carreira se comportam como se ainda fossem semi-amadores ou meros aprendizes de música brasileira. E como eles podem sustentar o estigma de "criadores" se eles se concentram nos covers oportunistas de canções da MPB autêntica?

"SERTANEJO UNIVERSITÁRIO" PODE SER A ÚLTIMA CARTADA

Na Música de Cabresto Brasileira, a última cartada envolve a mesma música "sertaneja" que puxou a hegemonia do brega-popularesco no imaginário popular, há 20 anos.

A suposta "música sertaneja", na verdade diluição da música caipira em clichês do gênero, acrescidos de elementos do country e dos boleros e mais próximo da música brega de Waldick Soriano e Odair José, é o estilo brega-popularesco (ou "neo-brega", como são as tendências "populares" vindas após Sullivan & Massadas) que recebe maior investimento financeiro, por ser patrocinado pelas grandes oligarquias que dominam o latifúndio e o empresariado associado dos Estados do interior do país, sobretudo de São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Paraná.

O breganejo que se tornou sucesso nos anos 80 e 90 simbolizou a expressão dos interesses da geração latifundiária incentivada pela ditadura militar na chamada "Revolução Verde", que era a aplicação dos princípios do "milagre brasileiro" para a agricultura. Mas, nos últimos anos, surgiu uma outra geração, reflexo da demanda dos novos barões do agronegócio - incentivado pelo governo Fernando Henrique Cardoso - , cuja trilha sonora é o chamado "sertanejo universitário".

Considerada última cartada da Música de Cabresto Brasileira, ante o sério desgaste movido por todas as suas tendências ("todas" não é exagero algum, pois não existe "menos medíocre"), a música "sertaneja universitária" adota um discurso semelhante ao dos jovens políticos do partido DEMOCRATAS (DEM), quando lançaram este novo nome do então Partido da Frente Liberal.

Da mesma forma que os "democratas" do DEM falavam em "cidadania", "modernidade", "transparência" e "moralidade", os músicos do "sertanejo universitário" falam em "cultura", "evolução artística", "sofisticação", "simplicidade" e outros pretextos. Os "democratas" juram não serem de direita nem neoliberais. Os "sertanejos universitários" juram não fazerem música por dinheiro. Mas, tanto no caso como em outro, a prática desmente o discurso.

A onda de "sertanejo universitário", aliás, gera uma quantidade enorme de duplas que já se fala na saturação do estilo no próximo ano. Por mais que duas ou três duplas continuem prevalecendo no mercado, todo o processo de pompa e pretensiosismo, que apenas recicla a cafonice musical dentro dos padrões atuais do comercialismo norte-americano, o estilo pode se tornar o canto de cisne da onda brega-popularesca.

Um sinal disso está no pedido de socorro desesperado que os "novos sertanejos" fazem à intelectualidade, que já inventa mentiras como dizer que o estilo não tem espaço na grande mídia. A lorota se dá através da interpretação equivocada de um projeto dos organizadores da Festa do Peão Boiadeiro de Barretos (SP), de lançar novas duplas pela Internet.

O próprio evento de Barretos é, em si, respaldado pela grande mídia, a lógica é a mesma da "Garagem do Faustão" do programa Domingão do Faustão da Rede Globo. Além disso, o evento de Barretos é patrocinado diretamente pelos latifundiários paulistas, associados à UDR e ao DEM, firmes aliados da grande mídia.

GRANDE MÍDIA ESTÁ NO DNA DO BREGA-POPULARESCO

Aliás, um dos grandes equívocos da defesa da Música de Cabresto Brasileira, e que vai render uma péssima reputação à intelectualidade que estabelece este discurso - afinal, que são os "queridinhos" Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e Hermano Vianna diante dos tigres intelectuais da Europa e dos EUA, com maior nível de desconfiômetro aos mecanismos da mass culture? - , é dizer que os ídolos do brega-popularesco "não estão na grande mídia".

Não vamos aqui detalhar todas as desculpas usadas por essa intelectualidade apologista brasileira, já que outros textos já mostram várias delas. Mas é um grande contrasenso dizer que tais ídolos "não estão na grande mídia" só pelos pretextos de que alguns são contratados por selos fonográficos pequenos (erroneamente chamados de "independentes", porque sua filosofia continua dependendo dos valores mercantis das grandes gravadoras), ou porque outros não aparecem na Rede Globo.

Ou então aparecem verdadeiras lorotas, grande asneirol do tipo "fulano faz sucesso na Globo, mas também aparece na Record, logo ele está fora da grande mídia". Nem precisamos comentar tamanho absurdo, que, pasmem, arranca aplausos de "focas de circo" quando ditos por certos intelectuais em palestras.

É um grande contrasenso porque a grande mídia está no DNA do brega-popularesco. É isso o que os propagandistas do tecnobrega, um dos últimos hypes da Música de Cabresto Brasileira, não conseguem entender.

De que adianta, por exemplo, um grupo de forró-calcinha não aparecer na Rede Globo, gravar por um selo regional, se sua formação é justamente através da Xuxa, do Domingão do Faustão, do hit-parade brega das rádios "populares"? A grande mídia está no DNA, está no sangue, está no estado de espírito desses intérpretes que pouco se preocupam em romper com o "sistema".

Além do mais, o "funk carioca" e o tecnobrega tanto venderam uma falsa imagem de "discriminados pela mídia" que ganharam as graças da mídia golpista, que deu todo o espaço a esses estilos, de forma explícita e entusiasmada demais para que alguém negue o apoio da grande mídia a esses nomes.

O brega-popularesco, aliás, não pode viver fora da grande mídia, porque foi esta que o fez crescer e aparecer. Romper com a grande mídia seria um suicídio porque a Música de Cabresto Brasileira, não sendo cultura de verdade - afinal, apesar de lotar plateias com rapidez e facilidade, não possuem os quesitos da verdadeira cultura, como produção de conhecimento e transmissão social de valores humanos - , simplesmente morre sem o apoio grão-midiático, além de prejudicar a reputação de mídias alternativas que os acolherem em dado momento, já que os brega-popularescos, sendo ídolos comerciais, nunca poderiam ser considerados como vanguarda cultural. Até porque eles são retaguarda.

O brega-popularesco, além disso, não pode recusar, nesse momento de crise, que em sua trajetória sempre se beneficiou das forças do poder político, econômico e midiático, sem as quais o ostracismo era o futuro certo.

Na sua mediocridade, a Música de Cabresto Brasileira provou não ser mais do que um ente sem vida própria que, em algum momento, precisou parasitar a MPB e a intelectualidade para sobreviver. Só que esse pretensiosismo só acabará acelerando ainda mais o desgaste, principalmente em tempos de evolução social que vivemos e que pede uma cultura de verdade e de boa qualidade.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Nós não temos preconceito, Alexandre. Não se pode ter preconceito de algo que se conhece. Como nós conhecemos a contragosto a Música de Cabresto Brasileira (empurrada a nós pela grande mídia), nós temos um CONCEITO sobre a Música de Cabresto Brasileira. E nosso conceito é o pior possível.