segunda-feira, 1 de novembro de 2010

MPB AUTÊNTICA ESTEVE NA MAIORIA NO LADO PROGRESSISTA



O que é bastante curioso na base de apoio de Lula e Dilma Rousseff é o apoio da maioria da MPB autêntica na candidatura vitoriosa da petista, em detrimento do apoio de Caetano Veloso - que não foi seguido pela mãe, dona Canô Veloso - a José Serra.

Um dos destaques da base de apoio é o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, visto pela intelectualidade pró-brega como "conservador" e "antiquado", mas está do lado da base progressista.

Isso, como dissemos, põe em situação complicada a intelectualidade que, defendendo a música brega-popularesca, vestiu a capa "progressista", mas demonstrando não estar à vontade nessa postura, apenas viajando na garoupa, visando vantagens pessoais.

O que dizer de uma intelectualidade que apoiou o livro de Paulo César Araújo, Eu Não Sou Cachorro Não, um festival de teses conspiratórias fajutas, mas persuasivas, enquanto o autor criava um maniqueísmo que colocava o ultraconservador Waldick Soriano no lado "progressista" e o progressista Chico Buarque no lado "reacionário", chegando, o próprio Araújo, a inventar que Chico era um cantor defendido pelos militares, só porque a filha de um general era fã dele.

Simples. Essa intelectualidade, composta por um Pedro Alexandre Sanches formado na Folha de São Paulo, por um grosseiro Eugênio Arantes Raggi que a ninguém convenceu com sua postura forçadamente petista, cada vez mais cai em profunda contradição, porque defende como "a verdadeira cultura popular" os mesmos "sucessos do povão" alimentados e fortalecidos pela mesma mídia retrógrada que dizem combater.

Ou seja, não dá para vestir a camisa de um time e jogar pelo adversário. A patota que transformou o canastrão Paulo César Araújo em "deus" por causa de seu livro sobre a música brega, teve que engolir ver Chico Buarque e outros cantores de MPB autêntica apoiando a chapa petista, enquanto o pioneiro defensor dos popularescos, Caetano Veloso, estava do lado mais conservador.

Vão tentar dizer que isso nada tem a ver. Mas tem, sim. Afinal, a música brega-popularesca que defendem aposta na domesticação do povo pobre e na descaraterização da música brasileira, sob o pretexto da "modernidade pop" que nada mais é do que a aplicação de conceitos neoliberais na abordagem da cultura brasileira.

Eles apostam numa "cultura" que não combina com os rumos que o Brasil está vivendo hoje. E, o que é pior, cada vez mais Sanches, Raggi, Rodrigo Faour, Hermano Vianna, Bia Abramo e outros se mostram claramente mais preconceituosos do que aqueles supostos "preconceituosos" que eles tanto citavam em seus textos.

Afinal, o brega-popularesco, apostando na domesticação do povo pobre, está indo contra o processo natural de emancipação social das classes populares. E, tentando converter a cultura brasileira num engodo apátrida, estereotipado, medíocre e tendencioso, tenta barrar, no âmbito cultural, as conquistas sociais desse mesmo povo.

Afinal, cultura é produção de conhecimento, de valores sociais, transmitida do povo para o povo. A "cultura" brega-popularesca não produz conhecimento, produz valores duvidosos, é tendenciosa e transmitida da mídia para o povo, que consome o que as rádios tocarem.

Só como comparação, note-se o caráter anti-social dessa intelectualidade quando defende que o povo nordestino não faça mais baiões autênticos, mas tão somente o chamado "forró eletrônico", um engodo que junta country, disco music, ritmos caribenhos, acordeon gaúcho.

Ou seja, é uma intelectualidade que deveria ter vergonha de si própria, porque no âmbito cultural eles negam justamente a construção de um país progressista, quando preferem que as tradições culturais sejam substituídas por uma "cultura pop" regionalmente traduzida, como se fosse uma dublagem de musicais enlatados de Hollywood.

É certo que a música não fica parada no tempo, mas ela segue uma linha evolutiva. Evolução é respeitar as tradições, porque é seguir um caminho a partir de um ponto de partida. Se não se reconhece esse ponto de partida, então esse caminho não existe, criou-se outro que nada tem a ver.

Por isso, trocar o baião autêntico, por ser supostamente "velho", por uma releitura nordestina da disco music com o country, que é o forró-brega, ou o samba autêntico pelo engodo que pasteuriza o soul dos EUA mal disfarçado com instrumentos de samba, é algo que vai contra o natural processo progressista. Se deixarmos, a intelectualidade etnocêntrica vende a dita "música sertaneja" (o breganejo) como algo "oposto" dos seus mais óbvios patrocinadores, os latifundiários e os novos barões do agronegócio.

Sem Caetano Veloso para lhe dar guarida, a intelectualidade que defende o brega-popularesco está confusa. Contestada, não tem como replicar, prefere desprezar os contestadores, confiante na sua visibilidade na mídia, no seu status quo acadêmico.

Mas isso não impede com que, nos bastidores da exposição de seus pontos de vista, a presença de Pedro Alexandre Sanches na imprensa esquerdista comece a causar mal-estar, porque ninguém pode explicar o que é que está fazendo um crítico vindo da Folha de São Paulo nas páginas de Caros Amigos e da revista Fórum. Ou porque um Eugênio Raggi, que escreve como se Diogo Mainardi fosse um crítico musical, finge atacar a mídia golpista e a política demotucana.

Aliás, a precença de Chico Buarque na chapa progressista, e o fato de um Luís Nassif, bajulado pelo tendencioso professor Raggi, entender da mesma MPB autêntica que o professor de Belo Horizonte acusa ser subproduto do Estado Novo, complicam mais ainda a situação da intelectualidade que defende a música brega-popularesca, que já não pode mais acionar a palavra "preconceito", mais gasta do que pilha vencida, para justificar seus mais discutíveis pontos de vista.

O Brasil se evolui, e por isso defender que a cultura brasileira se limite tão somente aos sucessos que rolam nos programas do Fausto Silva, Raul Gil e congêneres é condenar as classes populares à subordinação cultural das rádios e da TV aberta, todas controladas por grupos oligárquicos nacionais ou regionais.

No ano que vem, teremos o projeto MPB nas Escolas que, embora aparentemente não negue o brega-popularesco, apresentará o outro lado, a MPB autêntica nas suas diferentes épocas, o que fará o aluno sentir a diferença quando perceber que a música brasileira de qualidade é muito mais vibrante, instigante e diversificada do que a mesmice cafona que rola nas rádios e marca ponto todo domingo no Domingão do Faustão.

Um comentário:

Edilson Trekking disse...

Estava ouvindo Chico Buarque (Chico 50 anos :O político de 1997) e comentando com o meu irmão a respeito da personalidade desse artista que além de ser um excelente músico é um senhor intelectual que tem uma postura ideológica e política firme diferente da dupla "Caê i Baleiro" que enveredaram para o lado dos bregas.Estava pensando em escrever alguma coisa sobre Chico no meu blog, até acessar o Kylocyclo e me deparar com esse excelente post. Conheço muita gente do povo que gosta de Chico Buarque Holanda. Se os pró-bregas o acham "antiquado" a mediocridade do brega-popularesco é medieval.