domingo, 7 de novembro de 2010

COMÉRCIO PIRATA ENFRAQUECEU MPB, FAVORECENDO O BREGA-POPULARESCO


CHORANDO O LEITE DERRAMADO - Indústria fonográfica promove destruição de CDs e DVDs piratas, depois que o mercado clandestino se fortaleceu.

Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, eventualmente vários ídolos da música brasileira, na maioria deles do brega-popularesco, apareciam em Brasília para reclamar ao então presidente um combate mais enérgico contra o comércio pirata de CDs.

No entanto, tal atitude, para os ídolos popularescos, significa o mesmo que cuspir no prato em que comeu.

Quem tem que reclamar contra o comércio clandestino de CDs são tão somente os ídolos da MPB autêntica e do Rock Brasil, que receberam um duro golpe tanto pela indústria fonográfica quanto pelo comércio clandestino de CDs.

Afinal, a própria ideologia de defesa da "cultura" brega-popularesca, através de artigos como os de Pedro Alexandre Sanches e Ronaldo Lemos e abordagens como a de Hermano Vianna e Denise Garcia mostram uma "cultura de periferia" que se alimenta justamente pelo comércio clandestino.

A música brega-popularesca, aliás, se alimenta desse comércio clandestino, o que os apologistas dessa pretensa cultura confundem como "indústria independente", numa comparação indevida ao underground do rock paulista que é o que essa intelectualidade conhece mais.

Os discos piratas, mais baratos, desviaram a atenção do grande público à MPB autêntica. Nota-se que, até meados dos anos 90, mesmo as rádios mais popularescas ainda tocavam alguns medalhões da MPB autêntica, como Milton Nascimento, Caetano Veloso, 14-Bis, Elis Regina, Maria Bethania. Entre cada quatro sucessos popularescos, se inseria um de MPB autêntica, o que era muito pouco, mas ainda assim era alguma coisa.

Hoje isso não existe mais. Quando muito, os sucessos da MPB só aparecem regravados pelos medalhões do brega-popularesco. Seja "Nervos de aço", de Lupicínio Rodrigues, "Tocando em frente", de Renato Teixeira, "Disparada" de Geraldo Vandré e outros. Quase não há MPB de verdade nas rádios. Não fosse a camisa-de-força das trilhas sonoras de novela...

Os ídolos brega-popularescos reclamaram de barriga cheia. Até as não-cantoras Sheila Mello e Scheila Carvalho apareceram para "representar" os músicos brasileiros, nessa campanha. Pode? Mas eles teriam que agradecer à pirataria porque foi ela que fez crescer o império da mediocridade cultural dominante no Brasil, a ponto de querer invadir os espaços remanescentes da MPB autêntica ou mesmo da cultura popular de esquerda.

Afinal, pode um cara como Pedro Alexandre Sanches ficar defendendo, em seus artigos na Fórum e Caros Amigos, protegidos da Rede Globo como Alexandre Pires, Fábio Jr., Calcinha Preta e Parangolé, ou até mesmo o tecnobrega? Se quer defendê-los, que volte para a Folha de São Paulo e faça todos os elogios que quiser a eles!

Os discos de MPB autêntica, nos anos 90, tornaram-se caros. Culpa da imposição da indústria fonográfica, que, desde o final dos anos 70 e sobretudo ao longo dos anos 80, obrigou a MPB a ficar pomposa, viver de luxo, gravar em Los Angeles com numerosas orquestras, fazer apresentações em hotéis cinco estrelas etc.

Com um pretensiosismo desses, comparável ao do rock progressivo na Inglaterra, a MPB autêntica ficou cara e isso repassou-se para os CDs, que só eram acessíveis, quando muito, a uma classe média alta com dinheiro sobrando no final do mês.

O que restou, afinal? Restaram os risíveis discos de música brega e derivados, com suas capas ruins, que despertaram a curiosidade de uma juventude urbana que não recebeu os cuidados dos pais na infância, mas foram tutelados por babás analfabetas e mais infantis que seus tutelados.

Resultado: os discos bregas passaram a ser vistos como "mais divertidos", a MPB pomposa deixou de despertar interesse numa classe sub-instruída - que, apesar do alto poder aquisitivo, preferia adotar os referenciais popularescos só para dizer que "gostam de pobre" - e daí para o pessoal comprar CDs baratos de todo jeito, seja nas lojas populares, seja no comércio clandestino, é um pulo.

Os próprios discos de gravadoras pequenas - que, pela sua filosofia de trabalho, nada têm a ver com gravadoras independentes - são vendidos inicialmente nesse comércio clandestino (a parte "podre" de um comércio informal que também conta com muita gente honesta e prestativa).

Com isso, os CDs acabam vendendo que nem água, seja da parte do mecânico de borracharia que adora aquele grupo de porno-pagode, seja do capataz de fazendeiro que adora a tal "dupla sertaneja", seja da patricinha burguesa metida a "engajada" que quer obter um CD de "funk carioca" porque é a "moda da temporada".

O porno-pagode e o arrocha baianos, o tecnobrega paraense ou mesmo certos ídolos pouco conhecidos da dita "música sertaneja" - mas que nem por isso estão distantes da grande mídia, que os influencia no aspecto ideológico - , começaram a fazer sucesso no comércio pirata, que também anabolizou o sucesso dos ídolos popularescos em geral, mesmo os "sofisticados" ídolos da "música sertaneja", do "pagode romântico" e da axé-music, que brincam de "emepebê" nas páginas de Caras e no palco do Domingão do Faustão.

Foi isso que fez a MPB autêntica vender menos discos - que, no entanto, encareciam cada vez mais seus preços - , provocando o êxodo de quase todos os seus artistas, para selos como Trama e Biscoito Fino, que, embora não consigam devolver a MPB autêntica para o mainstream, pelo menos oferece a liberdade artística que as grandes gravadoras não dão.

Com isso, o comércio pirata provocou um grande estrago na cultura brasileira. Não o "estrago" que as campanhas anti-pirataria veiculadas pela grande mídia falam. É um estrago maior, que é fazer crescer, no comércio clandestino, a mediocridade cultural brasileira, com o aumento de vendas dos CDs de brega-popularesco.

O que pode não significar mais grana para esses artistas, mas faz sua fama crescer de forma assustadora. A ponto de ameaçar a já enfraquecida MPB, que precisa proteger da cafonice avassaladora os seus poucos espaços de expressão e divulgação.

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