sexta-feira, 26 de novembro de 2010

BUZZCOCKS E ADOLESCENTS TOCARAM NO BRASIL




Quem gosta do genuíno punk rock se empolgou quando estava no Clash Club, casa noturna de São Paulo, para assistir a dois grupos veteranos do punk rock, a californinana The Adolescents e a banda de Manchester, The Buzzcocks.

Os Adolescents estavam lançando seu mais novo disco, The Fastest Kid Alive, lançado neste ano, enquanto os Buzzcocks preferiram se concentrar nos três primeiros álbuns, Another Music in a Different Kitchen (1978), Love Bites (1978) e Singles Going Steady (1979).

Enquanto os Adolescents são da geração surgida no início dos anos 80, na vertente conhecida como hardcore (nem sempre compreendida pela rapaziada de perfil médio no Brasil), os Buzzcocks correspondem à primeira geração punk, surgida na famosa cidade industrial inglesa, em 1976, na mesma época em que este que lhes escreve, com cinco anos de idade, ficava em casa com os brinquedinhos e ia para a escola na Venda da Cruz, em Niterói.

Os dois grupos não adotavam uma postura rigorosamente politizada. Digo rigorosamente, porque no fundo eles também tinham uma visão crítica da sociedade, apenas era diferente, mas não menos substancial, do que a militância de Jello Biafra dos Dead Kennedys (que inspirou Zack de La Rocha, do Rage Against The Machine, um grupo de hip hop com rock pesado, mas com filosofia plenamente hardcore).

Só que, infelizmente, no Brasil toda uma mídia manobrista (no pior sentido) fundiu a cuca da rapaziada daqui e hardcore aqui é entendido mais como um crossover entre programa humorístico e roquinho acelerado.

Aqui vale até uma bronca. Todo mundo fala mal do Restart, diz que Restart é isso, Restart é aquilo, mas tudo isso começou com os "emos de macho", os proto-emos musculosos, tatuados, com caras de mau e jeito cínico, tipo Raimundos, Baba Cósmica e até barbaridades como Virgulóides e Ostheobaldo e, mais recentemente, o Hardneja Sertacore, para não dizer do CPM 22.

Esse pessoal todo agora diz que é "rardicór mermo", mas sua mentalidade alienada abriu caminho para grupos como Restart, que apenas levam às últimas consequências o que aqueles que faziam "emocore de macho" defendiam e acreditavam. Mas, como diz o ditado popular, "toma que o filho é seu", o Restart é apenas um filhote mais infantil do que os protoemos dos anos 90.

Fico com os Buzzcocks, os Adolescents e outros veteranos do punk rock. Eles acreditavam num som mais empolgante, no tempo em que o progressivo se perdia num academicismo e pompa extremados. Também gosto de rock progressivo, mas reconheço que é um saco ter que bancar o músico erudito em ensaios intermináveis, que de tão cansativos fazem eliminar a emoção, em detrimento do aperfeiçoamento técnico.

O punk rock autêntico em nenhum momento defendeu a mediocridade cultural. Seu som simplista de três acordes básicos era apenas a reação contra o eruditismo exagerado, mas a criatividade sempre esteve em primeiro lugar. A metodologia era meio Glauber Rocha, que disse que cinema era ter uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. O punk rock era mais ou menos isso.

O Brasil ainda tem que aprender muito. Até tivemos cenários punk vibrantes, genuínos e tão instigantes quanto o dos EUA e Reino Unido. Mas o problema é a sociedade de nível médio que, além de pensar que hardcore é uma tradução de A Praça É Nossa com guitarra, baixo e bateria, ainda pensa que os brega-popularescos que aparecem no Domingão do Faustão e até na revista Veja "são como os punks" porque são supostamente rejeitados pela intelectualidade especializada.

Rejeitados, os brega-popularescos, pela intelectualidade? Fala sério! O que tem de intelectual defendendo funqueiros, breganejos, axézeiros etc não está no Twitter. E que comparação possível pode ser dada aos "sucessos do povão" ao punk rock, se os "artistas" do brega-popularesco são submissos com o "sistema" e aparecem felizes nos ambientes da mídia golpista?

O Brasil não pode se comportar como o inferno astral do senso crítico. Até o punk rock nos dá a lição da consciência crítica. Cabe aprendermos.

Um comentário:

AlanNoPolitician disse...

Concordo,no Brasil até mesmo o entendimento do que é hardcore é banalizado e descartavel,país da preguiça,clamam hardneja sertacore como hardcore e esquecem de Adolescents,DOA,Bad Religion,Dead Kennedys,TSOL,Circle Jerks e tantas outras que lá estiveram no movimento hardcore original.