segunda-feira, 18 de outubro de 2010

TENHO QUE ABANDONAR O ADJETIVO "NERD"


NERDS ORIGINAIS E PSEUDO-NERDS - Num país onde muitos tiram onda de algo diferente, como o Brasil, os nerds falsificados do filme "Se Beber Não Case" desbancaram os nerds da linha original de "Vingança dos Nerds".

Meu irmão Marcelo deu o recado. Temos que abandonar a definição de nerds, tamanha é a deturpação que seu conceito tomou no Brasil, país em que muita gente adora tirar onde de algo diferente ou moderno. Essa pretensão obsessiva e paranóica é tanta que tem muita gente dita "de esquerda" que possui valores radicalmente neoliberais, desses de fazer qualquer figurão das cúpulas do PSDB/DEM ficar com o queixo caído.

Daí que todo mundo é "alternativo", "vanguardista", "socialista", "bolivariano", "excêntrico", "inconvencional", "revolucionário", etcetera, mas, na prática, é o oposto disso tudo. Já cansei de ver muito playboyzinho metido a esquerdista com uma personalidade mais próxima da juventude golpista do Comando de Caça aos Comunistas. Gente com camiseta de Che Guevara com uma plataforma de pensamento mais próxima de uma tradução teen de Roberto Campos.

Pois a mais recente das tristes novidades é que não se pode mais ser nerd no Brasil.

Primeiro, porque nerd, na vida amorosa, é castigado pelo assédio de barangas de todo tipo, das boazudas e miseravonas (estereótipo suburbano que equivale às "primas-pobres" das mulheres-frutas) ou então as recatadas marias-coitadas. Moças que não se afinam com os nerds autênticos de jeito algum, e, no caso das mais boazudas, só assediam eles porque eles parecem mais tolos e recatados.

Vale lembrar que muitas dessas popozudas ou similares são ex-namoradas de brutamontes, daí o assédio, além de inoportuno e desagradável - elas não fazem o tipo que os nerds autênticos desejam ter - , é muito perigoso. De repente, um nerd é assediado por uma dessas barangas e, no dia seguinte, é cercado por uma gangue de milicianos, um grupo de "torcidas organizadas" ou um bando de taxistas piratas, todos furiosos, e ele não sabe por quê.

Mas agora ser nerd virou moda e vieram os urubus de poleiro embarcando na causa avançada da moda. Sai aquele nerd autêntico e original do filme Vingança dos Nerds, e entram os biriteiros barbudos e fanáticos por esportes e popozudas do filme Se Beber, Não Case.

Aí fica difícil. Eu não posso sequer ser um nerd, no Brasil. Sou um excluído social, de classe média baixa, mas até para buscar uma identidade, nem isso posso obter. Quer dizer, eu, por enquanto, sou um joão-ninguém, um patinho feio. Até que passe a ser moda bancar os "joões-ninguém" e "patinhos feios". Aí eu teria de me contentar a ser um nada.

Pois o nerd estereotipado de hoje, difundido em larga escala pela grande mídia - sempre ela, né? - , tem costumes muito estranhos para o nerd que acostumamos a ver através das interpretações solidárias de Robert Carradine, Anthony Edwards (sim, o bigodudo aviador de Top Gun foi um nerd) e Curtis Armstrong (que, assim como o Anthony em Top Gun, contracenou com Tom Cruise em Negócio Arriscado).

Esses caras estão na ativa até hoje, tendo Anthony, já calvo, feito E. R., Robert Carradine fazendo o pai da Lizzy McGuire (e Hilary Duff, ingrata, foi casar com um alfabeta, como eram conhecidos os playboys de Vingança dos Nerds) e Curtis Armstrong fazendo papel de produtor em Ray (cinebiografia sobre Ray Charles) e participando em Legally Blondes.

O nerd estereotipado acabou com nossa alegria. O modismo dos viciados em computador - eu não uso muito computador por vício, mas pela missão de transmitir conhecimento para os internautas - , dos fanáticos por ficção científica (pessoalmente, ficção científica não é meu forte), dos fanáticos por futebol (esporte que não curto) e de boazudas em geral (tipo de mulher que detesto, pela vulgaridade e vazio intelectual). Além disso, não bebo álcool. Os caras de Vingança dos Nerds até bebiam uma cerveja, mas isso não era a "religião" deles.

Os "nerds" que aparecem aos montes hoje no Brasil nunca foram vítimas de bullying, mas veem não só filmes de ficção científica, mas também filmes de porradaria (típicos de homens valentões), gostam de mulheres mais pelo corpo do que pela mente (embora sejam capazes de gostar de uma Leandra Leal, não dispensam uma Nicole Bahls), enchem a cara de cerveja, assistem a partidas de futebol, e são menos intelectualizados do que parecem ser.

Agora tenho que seguir o exemplo de meu irmão e abandonar o termo nerd. Por enquanto só posso dizer que sou um homem jovial de 39 anos, jornalista e blogueiro. Sou alguém na vida, mas não posso ter uma definição exata de que perfil sou, de que "tribo" (termo enjoado, este) pertenço ou de que grupo social eu me alinho mais. Isso enquanto os oportunistas de plantão querem ser "tudo de bom" mesmo sendo tudo de ruim.

3 comentários:

Nona disse...

Falando sobre nerds, eu tinha certeza que voce nao era o "arquertipo" da estereotipia de um "nerd" Porque? Basta ler teu blog pouquissimas vezes para saber disso. Companheiro, penso que voce nao precisa e nem mesmo deve se explicar, e dizer quem e voce; pois quem tiver algum tipo de interesse por voce, encontrara uma forma de ver quem voce e.
Eu fui modelo quando era bem mais jovem e muito gente me tratava como se eu vivesse tirando a roupa; Coisa que nunca fiz. Todas as fotos de moda que eu fiz eu estava vestida. Hoje muita gente me chama de descolada, natureba e outras coisitas apenas porque sou vegetariana e nao pinto os cabelos que estao comecando a ficar grisalho afinal estou com 45 anos. Seja voce mesmo!! independente do que te rotulem.
Teu blog esta muito bom.

Marcos Vinicius Gomes disse...

Olha eu acho que esse e´um fenômeno que veio para ficar. Eu sempre fiquei no meio termo - não bebo, gosto de futebol, os relacionamentos que prestaram não foram muitos, confesso que gosto de um faroeste, sou formado em Letras. O nerd autêntico sobreviveu ileso quando a sociedade era essencialmente 'industrial'.Hoje não. Veja Alvares de Azevedo - quer alguém mais nerd, apesar de não parecer? (ninguém inicialmente associa a 'nerdice' com poesia, literatura, música) Só que naquele tempo ser nerd tinha outro significado. Machadão idem. A mulherada suspira por Bandeira, Drummond mas duvido que eles tivessem muitos relacionamentos. O Woody Allen deve dar graças a Deus que nasceu nos EUA, se fosse aqui estava lascado (ele namorou Diane Keaton). Daí veio o 'nerd hi-tech' com Bill Gates no comando (o último autêntico, veja que mesmo com toda a bala na agulha só casou com quarenta, quebrando o senso comum que o dinheiro deixa o nerd atraente). Os nerds 'descolados' são um reflexo da 'sociedade pós-moderna' e são impulsionados em grande parte pela mídia. Estamos na era 'Los Hermanos' (apesar de gostar da banda), onde tudo destoa: bebem, usam drogas, são sucesso de público, são descolados – (sem bem que o Camelo só conseguiu namorar a outra pseudo-nerd Mallu Magalhães). São sucesso assim como os 'indies' estrangeiros como The Strokes, Camera Obscura, Belle & Sebastian. Hoje não está bem estabelecido quem é quem. Veja o Ronaldo – até hoje ninguém me tira da idéia que ele é um nerd disfarçado bem esforçado, apesar de gostar de baladas, ter fama de 'pegador'; inclusive namorou uma 'nerd' , a Milene Domingues. Mas repetindo, esse é um fenômeno que veio para ficar – eu até arrisco dizer que se Elis Regina estivesse viva, estaria feliz, pois (podem me chamar de louco) desconfio que ela tinha um viés 'nerd'.

Thaís Machado disse...

"Na minha época" nerd = cdf.
Não tinha nada a ver com tecnologia, nem com seriados, tampouco com esportes e afins.
Nerd era uma pessoas com sociabilidade duvidável e deveras inteligente.
Hoje, nerd tem estilo, gírias próprias, comunidades virtuais, etc. Ou seja, é um indivíduo cada vez mais social e menos inteligente.
Daqui uma década nerds seremos todos =p
Não defendo "tribo" nenhuma, mas a busca por "pertencimento" é natural a todos e, partir do momento em que somos todos parecidos, não pertencemos a lugar algum