quinta-feira, 28 de outubro de 2010

SER DE ESQUERDA NÃO É COMO TORCER POR UM TIME


Há muito puxa-saquismo em torno da esquerda, e muita gente pensando que pode ser esquerdista porque isso é bonito ou isso é igual a torcer por um time de futebol.

Por isso vemos verdadeiras aberrações, nos últimos oito anos, de pessoas que acreditam em valores direitistas mas que adotam uma postura aparentemente de esquerda.

Além disso, já prevenimos que a grande frente ampla que se acercou de Lula desde a campanha eleitoral de 2002 e que hoje envolve a campanha de sua candidata à sucessão, Dilma Rousseff, não é de toda composta por forças naturalmente progressistas.

É só rememorarmos a História e todos os seus emaranhados para identificarmos o quanto, ao longo do tempo, houve tanta gente tendenciosa na frente ampla de centro-esquerda. gente que originalmente nada tinha a ver com a causa esquerdista mas que hoje apoia Dilma, escreve para Caros Amigos, finge odiar a mídia golpista em comentários forçadamente contra a Rede Globo e seus símbolos, e por aí vai.

Nem falamos só de Fernando Collor, José Sarney e Paulo Maluf, políticos corruptos que, em 1964 (Collor era adolescente, mas a posição política de seus pais lhe diz muito), eram radicalmente contra João Goulart (que tinha um projeto político parecido com o de Lula e Dilma) e defenderam abertamente a ditadura militar.

Falamos também de Jaime Lerner e Mário Kertèsz, que até eram udenistas-arenistas na juventude, mas não foram marcados por isso. Falamos também de Pedro Alexandre Sanches, cria da Folha de São Paulo. Falamos de Eugênio Arantes Raggi, "polêmico" professor mineiro de textos claramente reacionários. Falamos de Wagner Montes, do mesmo background popularesco do pró-tucano Roberto Jefferson, o programa O Povo Na TV, do SBT.

Há muita gente estranha na festa petista, tal como naquelas comédias juvenis dos EUA em que um pacato adolescente faz uma festa, convida os amigos e de repente chega tanta gente que até os mais estranhos entram na casa e abrem a geladeira. Certamente a festa provoca estragos e quem vai arcar com o prejuízo é o tal adolescente.

A preocupação com essa frente ampla, com os possíveis traidores, não é minha. Outro blogueiro progressista, Raphael Garcia, do blog do Tsavkko, se preocupou com a presença do PMDB na chapa política petista. Isso porque é tanta gente que diz apoiar a causa do reformismo petista que não são poucos os oportunistas que pegam carona na causa em busca de vantagens pessoais.

O grande problema é que, passado o fim da festa, ou seja, na próxima semana, que serão as votações do segundo turno, haverá a contabilização do movimento, podendo haver futuros traidores. Gente que havia escrito nos fóruns de Internet que Dilma é legal e até a chamava de "pitéu", de repente, vira o jogo e demonstra apoio entusiasmado a José Serra.

O grande risco é esse. A frente ampla perdeu o PV, que em parte passou a apoiar o tucanato político. E tem pessoas encrencadas do PMDB, PTB ou mesmo direitistas acampados no PDT e PSB. Nem todo mundo é solidário como se diz, nem todos se identificam naturalmente com a causa. Alguns traidores virão, e o maior temor é que eles podem provocar estragos.

Mas isso não se dá somente no caso do PT. E o "fenômeno" Marcelo Freixo, estranhamente tão queridinho da Rede Globo de Televisão que o faz parecer mais um convidado do RJ-TV? Será que ele é tão socialista assim como seus colegas Heloísa Helena e Plínio de Arruda Sampaio? Ou será que Freixo não passa de um neoliberal de apelo populista querendo tirar vantagens pessoais numa legenda marxista?

Ser de esquerda significa ter princípios socialistas. Que se opõem, de todas as formas, aos princípios do neoliberalismo. Por exemplo, defender o socialismo no âmbito político e econômico mas ser neoliberal no âmbito cultural, é uma incoerência.

Na busologia, na cultura popular ou na mídia, quem quer que adote uma postura neoliberal mas se diga "simpático à causa esquerdista" estará mentindo. Também não adianta dizer que "isso nada tem a ver", porque o claro pretensiosismo se desmascara na hora H.

Enquanto é moda ser "de esquerda", tudo parece maravilhoso. Por conta da suposta adesão à esquerda, o Brasil é um país mais socialista que Cuba, Equador, Bolívia e Venezuela juntos. Mas, na verdade, não é assim.

A adesão à esquerda, muitas vezes, não se dá pela natural identificação com a causa, mas com a ideia, típica do "jeitinho brasileiro", de muita gente antiquada se passar por "moderna", visando sobretudo obter vantagens pessoais.

Por isso, vamos esperar janeiro de 2011 para percebermos quem realmente está do lado da esquerda, porque os possíveis traidores virão. Muita gente vai pegar os louros da festa esquerdista e voltará para a direita para dela não saírem. Não sou eu que digo, são as lições da História que nos advertem.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Eu também posso falar dessa turma que está na esquerda defendendo os valores da direita. Tomei coragem e discuti seriamente no Twitter com o deputado Marcelo Freixo a sua adesão à causa dos barões do fânqui. Respeito muito mais os artistas de esquerda da MPB que sempre estiveram ao lado dos candidatos petistas. Embora não concorde com tudo no petismo.

E ser defensor dos Direitos Humanos não é característica exclusiva da esquerda. DO é uma causa neutra. Qualquer um pode aderir. Senão a direita não poderia denunciar a violação dos DO em países com governos comunistas, como China, Cuba e Coreia do Norte.