terça-feira, 5 de outubro de 2010

SE CASSANDRA DE TRÓIA FOSSE BLOGUEIRA



Imaginemos que a bela filha do rei Príamo, de Tróia, a jovem Cassandra, seja uma dedicada blogueira.

Misturando assuntos sociais, políticos e culturais, a dedicada blogueira Cassandra, apesar de sua beleza atraente, não parece empolgar muito os internautas.

Uns acham ela "cabeça" demais para os tempos tuiteiros de hoje.

Outros acham ela "chata" demais, por conta de seu senso crítico afiado.

Certa vez, Cassandra de Tróia escreveu um texto dando conta da alarmante chegada de um gigantesco cavalo de madeira que se chegava a Tróia.

O cavalo, criado pelo guerreiro Ulisses, continha soldados de Esparta destinados a dominar o povo troiano, escravizando-o e destruindo a cidade.

Ninguém se deu conta.

No Twitter, o blogueiro Formiga (o nome foi inspirado numa fábula de Esopo), ironizou o alerta de Cassandra, dizendo que o belíssimo cavalo "nada tinha 'haver' (sic)".

Formiga, além disso, esnobou Cassandra dizendo que "a maioria dos troianos adora esse cavalo e só uma 'alexandremagnização' para conter a força do cavalo e seus ocupantes".

Além disso, o famoso jornalista Petrus Alexandros Sanches escrevia artigos num periódico troiano e seu blog tinha muitos links em outros blogs considerados progressistas.

Petrus havia escrito sobre seu desejo de ver o conjunto espartano Pangarolé, do sucesso "Invasation", ter seu valor reconhecido pela Música Popular Troiana. Assim como ele demonstrava muita admiração pela cantora Gabriela Amarantiakis, estrela espartana que Petrus queria que fosse o ícone maior da cultura troiana.

Cassandra, coitada, não atraía muitos seguidores no seu blog. Escrevia textos sensatos, reproduzia textos que ela lia e achava muito importantes, fazia comentários interessantes até sobre coisas simples do cotidiano.

Mas ela não era lida. Não era ouvida. Alguns a viam como uma "patricinha" metida, dentro do sentido que se dava ao perfil das "patricinhas" na Antiguidade.

Pior ainda quando ela falava da invasão de Tróia através do imponente cavalo.

O desordeiro Olavus Brunus, conhecido como "Olavo, o Bruto", ferrenho defensor das duplas aristonejas e das lutas de gladiadores e hoje desaparecido da rede virtual por ter arrumado encrenca num fórum sobre gladiadores, havia chamado Cassandra de "louca desarvorada", e havia dito que o blog dela estava perdido, condenado ao pior dos fracassos.

O acadêmico Eugenius Augustus Regius, famoso reacionário ateniense, aliado enrustido dos imperadores mas bajulador tendencioso dos escravos e mulheres excluídos da democracia grega, escreveu um texto cansativo esculhambando Cassandra e chamando ela de paranóica e delirante.

O Cavalo de Tróia então chega à cidade, e de lá saem a MC Tatiana Derruba-Colunas, a dupla aristoneja Júlio César & Augusto, o DJ de Creta bass, o DJ Parthenon e o grupo Atenatchan e suas calipígias de glúteos em dimensões olímpicas.

Depois, o próprio Pangarolé, de Leonardus Santanopoulos, foi cantar seu "Invasation" com o pegajoso refrão "Invasation-tion, invasation-tion, invasation é bom-bom-bom, invasation é bom-bom-bom".

Para terminar, o grupo Tomilho com Uva, ícone da kaire music, se apresentou seguido depois da diva do estilo, Minerva Papaniotis, que havia alugado um grande espaço em Cairo, no Egito, para seu DVD ao vivo em produção faraônica. E veio também Gabriela Amarantiakis, a queridíssima de Petrus Alexandros.

Petrus, por sua vez, exaltava a "verdadeira festa" do Cavalo de Tróia, transmitida pelos maiores veículos de mídia da aristocracia grega. Mas a mídia helênica, como essa mídia é conhecida, foi ignorada por Petrus, que preferiu acreditar que o evento foi ignorado pelos patrícios midiáticos do Velho Mundo.

Enquanto isso, soldados espartanos dominam a população em festa, rendendo vários cidadãos nos bastidores, transformando-os em escravos. Algumas troianas foram estupradas pelos soldados de Esparta.

No dia seguinte, os blogueiros troianos, que correram para Chipre produzir seus diários digitais, lamentaram o ocorrido na sua cidade.

Cassandra continuou esquecida. Mas sua mensagem teve que ser reconhecida, depois.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Gostei tanto dessa história que você deveria escrever, no seu blog, um texto comparando o É o Tchan com a abertura da caixa de Pandora.