quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PEDANTISMO BREGA-POPULARESCO: A AJUDINHA DOS ARRANJADORES



Ninguém nasce sabendo, é verdade. Até para aprender alguma coisa, comete-se erros, até poder acertar.

Mas, na mediocridade musical brasileira, o que vemos é gente errando durante cinco, seis, dez anos, transformando seus erros musicais em milhões de cópias vendidas, e ainda chegam aos vinte anos de carreira fonográfica como se ainda estivessem no começo do aprendizado.

Não vamos fingir que a música brega-popularesca de hoje é genial. O pessoal tem o direito de curtir o cantor sambrega ou a dupla breganeja que quiser, mas não tem moral de dar definições irreais para eles nem ficar espinafrando quem não concorda com o som deles.

Há uma diferença muito grande, um abismo que separa a MPB que se fazia nos anos 40, 50, 60 e 70 e esse brega-popularesco que hoje domina rádios e TVs. Simplesmente não podemos fazer de conta que este é continuidade daquele, que tudo está bem, porque não está.

O pedantismo brega-popularesco apenas tenta lapidar os ídolos neo-bregas com tecnologia de ponta, marketing arrojado, vestuário sofisticado, e, musicalmente, tenta-se um paliativo para disfarçar o máximo possível a mediocridade e a falta de criatividade.

Com o êxodo dos medalhões da MPB das grandes gravadoras, a geração de ídolos neo-bregas dos anos 90 foi brincar de "MPB" ocupando exatamente o papel da "MPB pasteurizada" que seus verdadeiros artistas não estavam mais interessados em desempenhar.

Os ídolos brega-popularescos, por serem mais maleáveis, não dotarem de uma visão crítica da nossa realidade, por serem obedientes para fazerem o papel que a indústria determinar para eles, foram rapidamente adotados pelas grandes gravadoras para seu simulacro de música brasileira.

Aí entra o arranjador de plantão. A música daquela dupla breganeja de repente é "bem bonita", com acordes poéticos de violão, seção de cordas e tudo, apesar das vozes esganiçadas da dupla? É por causa do arranjador de plantão, que faz o seu trabalho porque é contratado, cumpre ordens de executivos para transformar aquela dupla breganeja em "sofisticada".

E o cantor sambrega? Ele fazia um som meio Waldick Soriano, meio Odair José, com algum ritmo de samba, e hoje quer bancar o "sofisticado", apesar de sua voz fanha? Entra o arranjador de plantão. Esperto, o cantor sambrega até tenta inserir ele mesmo como co-autor dos arranjos, mas na verdade o cantor sambrega apenas pediu que o arranjador faça algo sofisticado e depois mostre o resultado.

Se creditarmos o cantor sambrega como co-arranjador, só porque pediu isso e aquilo para o arranjador de fato, vamos ter que acreditar também que todo freguês de restaurante cozinhou o cardápio que lhe é servido. Ou seja, é só eu pedir para um garçom um bife bem passado com cebola e alho e viro logo um chef de cozinha, parceiro do cozinheiro propriamente dito.

O grande problema é esse. Ninguém pensou antes se sua breguice era de risco ou não. É sempre assim com os medíocres. Primeiro eles fazem a sua porcaria, da forma mais patética possível, e, cinco ou dez álbuns depois, quer se infiltrar em qualquer tributo ou especial sobre MPB, pegando carona em tudo que é cover, e se achar o "gênio".

Música brasileira é produção de conhecimento. Mas infelizmente ninguém valoriza a função social do artista. Só valoriza os lotadores de plateias. Quem lotar plateias em menos de uma hora é "genial". Quem levar rádios FM e programas de TV aberta ao topo do Ibope, é "genial". Quem vender CDs antes deles chegarem às lojas é "genial".

Não há mais responsabilidade social. Nem ética, nem estética, nem artística, nem cultural. O cantor faz uma porcaria num dia, no outro faz uma cinebiografia sobre ele mesmo. O cantor fala besteira, no dia seguinte está na plateia vip do Teatro Municipal de São Paulo. O cantor faz músicas ruins, sub-Waldicks em ritmo de moda de viola ou de samba de gafieira, cinco anos depois está no Viola Minha Viola e no Samba Social Clube usurpando covers.

E é uma pena que ainda tem gente arrogante que não gosta que falemos mal desses cantores. Só que esses arrogantes estabelecem seu preço, porque eles acabam criando confusão até para os outros fãs desses mesmos ídolos.

E são esses talifãs que estragam todo o verniz de sofisticação que os ídolos brega-popularescos tentam manter. E que não passa de pura farsa, porque por trás desse "alto astral" e dessa "compostura elevada" dos cantores neo-bregas, há membros de seus fãs-clubes violentos, intolerantes e arrogantes. Vão se dar mal.

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